quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Eu sei qual é o meu número de nexus

“Nossas vidas são governadas por números de muito mais maneiras do que você pode imaginar. Assim como o número π governa o círculo, o número de Euler governa o crescimento e o decaimento, o zero governa o nada. Os números têm poder. 80 é, em geral, a idade em que a maioria das pessoas morre. Os números estão por toda parte, especialmente para quem tem olhos para enxergá-los. E você vai manter isso em mente ao começar o curso de nossa disciplina de Álgebra”, disse o professor Toan enquanto nossa aula chegava ao fim. Eu fiquei ali mexendo os polegares e, de vez em quando, olhava o celular para ver se o tempo já tinha acabado.

“Ei. Trey e Wallace disseram que vamos sair pra comer comida vietnamita hoje à noite. Tem um lugar novo que acabou de abrir, eles têm bun cha. Você vai?”

David parecia tão concentrado na aula que precisei tocar no braço dele. Ele levantou o olhar e, por um instante, achei que estava irritado. Mas acabou assentindo e voltou a atenção para a explicação. A reação dele não me surpreendeu. David sempre foi um dos melhores alunos do nosso departamento.

No momento em que o professor terminou, saí correndo da sala de aula para o ar fresco do lado de fora, voltei pro meu quarto no alojamento e dormi como uma pedra até as seis da tarde. Acordei meio zonzo por causa do cochilo, me arrumei e saí para o encontro com os amigos.

Naquela noite conversamos sobre tudo quanto é assunto. Às vezes, o destino simplesmente te entrega uma dessas ocasiões tão alegres, tão empolgantes, tão livres de estresse que você não consegue evitar pensar se não é a calmaria antes da tempestade proverbial. De vez em quando, David parecia nos olhar fixamente por um tempo longo. Eu tinha a impressão de que ele queria compartilhar algo.

“E aí, como estão as aulas de vocês?”, perguntou Trey quando estávamos na metade da comida.

“O de sempre. Estou torcendo pra passar em Álgebra Avançada com distinção”, respondi.

“Você tá de sacanagem. Talvez eu acredite se fosse o David falando isso. E você, David, o que tá fazendo além de estudar?”, perguntou Wallace.

“Estou ajudando o professor Toan com um conceito novo e revolucionário”, disse David, com a voz baixa e hesitante.

“Legal! Quer explicar pra nós, plebeus, o que é isso? Dizem que, se você consegue explicar um conceito pra uma criança de seis anos, então você realmente entende o conceito”, provocou Wallace.

“É o conceito de números de nexus. Vocês sabem como a vida segue as regras de certos números? Estamos pesquisando números que reaparecem constantemente na vida das pessoas e como eles se correlacionam com a vida ou com a morte.”

“Não tô acompanhando”, admiti.

“Imagina o seguinte. Você lê no jornal que 13 pessoas morreram num acidente bizarro. A notícia te deixa triste, mas você ainda está distante daquilo. Você sai na rua e um carro quase te atropela. Os dois primeiros números da placa daquele carro são 13. Você começa a perceber padrões. Vai a uma conferência e, no momento em que entra na sala, o total de pessoas ali passa a ser 13. Isso se repete e se repete até que, um dia, às 13:00 — ou 1 da tarde, pra alguns de vocês —, você entra numa viela e é assassinado por um assaltante. Esse assaltante tinha acabado de sair da prisão depois de 13 anos. De certa forma, o número 13 começa a governar sua vida e, no final, sua morte.”

“Que porra é essa? Tá dizendo que números podem matar agora?”, perguntou Trey.

“Não matar. Mais exatamente, eles são um arauto da sua morte. Eles te avisam do seu fim iminente”, respondeu David.

Um silêncio pesado caiu sobre nós como uma cortina grossa. O que David tinha acabado de dizer era absurdo, mas ao mesmo tempo plausível. Encontramos e vemos números todos os dias; quem garante que um deles não pode nos alertar sobre a nossa morte iminente? Fiquei ali pensando nos números que tinha encontrado naquele dia e logo desisti.

“Acho que álgebra demais realmente pode te matar”, disse Wallace. A piada aliviou o clima e vi as sobrancelhas de Trey relaxarem. Então, uma pergunta me ocorreu.

“Como você sabe se um número é um número de nexus?”, perguntei.

“Você não sabe. Não até eles começarem a se repetir. Procure padrões na sua vida; sempre vai haver alguns números que aparecem repetidamente num padrão. O seu nexus está entre eles. A maioria das pessoas passa a vida inteira sem nunca descobrir qual é o seu.”

“Pois é, e eu bem que poderia ter passado esta noite sem saber dessa porra toda. Não tô comprando essa história, cara. Você tá dizendo que números podem matar. Foda-se, vamos mudar de assunto”, disse Wallace.

A noite terminou num tom meio baixo. Tentamos falar de outros assuntos, mas o que David disse ficou martelando na cabeça de todo mundo. No caminho de volta pro alojamento, prestei atenção em todo tipo de número diferente. Havia mais 3 pessoas esperando o ônibus junto comigo e com David. No ônibus, no total, 8 pessoas, contando o motorista. O ônibus parou por volta das 10:30. O número da frente começava com 15 e terminava com 26. Números por toda parte, e minha frustração crescia porque não tinha como saber qual deles seria eventualmente o meu número de nexus. Ao meu lado, David parecia perdido em pensamentos. Não trocamos uma palavra até chegarmos ao alojamento e cada um ir pro seu quarto. Tomei banho, troquei de roupa, joguei videogame e contei quantas vezes morri pro chefe. Cheguei a 5 mortes antes de desligar o computador e ir dormir.

Com o passar dos dias, a lembrança do que David disse foi se apagando. O conceito de número de nexus foi sendo corroído aos poucos pelo ritmo frenético da vida universitária e, duas semanas depois, eu já tinha quase esquecido.

Naquele dia eu estava na sala de aula esperando o professor Toan para a disciplina de Álgebra Avançada. Ele já estava 30 minutos atrasado e, naquele ponto, eu até esperava que ele ligasse dizendo que estava doente e que a aula seria cancelada. Entediado, comecei a folhear o livro-texto. Tínhamos terminado o capítulo 14. Eu já estava pegando a mochila para levantar quando ele entrou correndo na sala, com papéis voando da mochila. Alguns alunos tiveram que ajudar a recolher as folhas e os materiais que caíram. Ele chegou à mesa, tirou um monte de anotações e gaguejou um pedido de desculpas antes de começar a aula.

Não consegui me concentrar em nenhum momento. O professor Toan saía do assunto o tempo todo. Depois de meia hora batendo a cabeça na parede tentando ensinar, ele simplesmente mandou a gente ler o capítulo seguinte, escrever um relatório curto e deixar na mesa dele. Ouvi gemidos audíveis da turma, mas fizemos o que foi pedido. Procurei David com o olhar para ver se ele sabia o que estava acontecendo com o professor, mas não o encontrei. Quando a aula terminou, fui até a mesa e vi o professor Toan de perto. O rosto estava pálido, tinha olheiras fundas, o cabelo desgrenhado e percebi o que parecia ser um número escrito na mão dele com algo cortante. Com medo de deixar a situação constrangedora se ficasse muito tempo, entreguei o relatório e saí da sala.

Fui até o quarto de David no alojamento e bati na porta. Por um momento ninguém respondeu e eu já ia embora. Então ouvi o clique lento da tranca sendo aberta e a porta se entreabriu. Fui imediatamente atingido pelo cheiro de comida velha e roupa suja. David estava na porta — ou melhor, escondido atrás dela.

“Você queria alguma coisa?”, perguntou com voz assustada.

“David? Que porra aconteceu com você? Por que você não foi pra aula hoje, cara?”

“Ah, eu t-tenho trabalho pra fazer”, disse ele com dificuldade. Percebi a mentira no mesmo instante.

“Você tá bem, David? Alguém tá atrás de você?”

Ao ouvir isso, ele fechou a porta. Pensei que tinha acabado a conversa. Então a porta abriu de vez e o cheiro de mais comida velha e roupa suja me invadiu.

“Entra”, disse ele. Entrei no quarto e vi caixas e mais caixas de pizza, sacos e mais sacos de pão velho. As roupas sujas dele empilhadas num canto do quarto, fedendo a suor e catinga.

“Caralho, David. O que aconteceu?”

“Tô me escondendo deles.”

“Escondendo de quem?” Na minha cabeça, pensei que ele devia ter pegado dinheiro emprestado com algum agiota.

“Dos números.”

“Quê? Você tá louco?”

“O professor Toan e eu desenvolvemos um algoritmo pra descobrir o número de nexus de cada pessoa. Só precisa do nome e da idade da pessoa. O nexus dele era 30 e o meu era 4.”

O absurdo do que ele disse me atingiu e, de repente, entendi por que David estava se escondendo. Olhei as caixas: tinha pelo menos 6 de cada. Nenhum item no quarto somava quatro.

“Tenho evitado sair nas quartas e quintas. Tenho pedido delivery. Até cancelei minha aula da tarde que termina às quatro. Tô procurando uma lavanderia nova porque a mais próxima tem 40 máquinas de lavar. Isso é 4 vezes 10. Não posso arriscar.”

“David, escuta aqui. Você não pode continuar vivendo assim. Você precisa de ajuda, cara. Deixa eu te levar pra falar com um psiquiatra, talvez ele consiga ajudar.”

“Não. Só preciso esperar até depois do dia 4 deste mês passar, aí eu fico bem.”

“E o dia 4 do mês que vem, cara? E do outro depois? Vamos lá, David, deixa eu te ajudar.”

“Quantas frases você já falou pra mim?”

“Hum, não sei. Talvez 7 ou 8? Incluindo essa.”

“Rápido, fala mais uma coisa.”

“Hum… psiquiatra.”

“Ótimo, obrigado, agora foram 9, desde que não seja múltiplo de 4. Vai embora, eu vou ficar bem.”

Levantei e saí do quarto. Antes de ir, olhei pra David. Parecia que ele ainda queria dizer algo. De repente, uma pergunta me veio, tão natural quanto as estações.

“David, você colocou meu nome e minha idade no algoritmo?”

Ele me olhou por um tempo, os olhos arregalados e cheios de medo culpado. Ficou em silêncio por alguns segundos e eu saí do quarto.

“Só… só evita o número 15”, disse David antes de fechar a porta do quarto dele.

Naquela noite cheguei em casa com os nervos à flor da pele. Olhava ao redor procurando o número 15 e, para meu horror, ele estava em todo lugar. Comecei a evitar qualquer rua com 15 no nome. Evitava grupos com 15 pessoas, mas meu coração dava um pulo toda vez que o relógio marcava quinze. Contava cada décimo quinto passo e parava pra olhar em volta. Cheguei em casa, liguei o computador pra assistir alguma coisa e tirar o número da cabeça. Estava com vontade de ver anjo contra demônio e coloquei Supernatural até pegar no sono.

Acordei às 8 naquele dia. Tinha três chamadas perdidas e uma mensagem da minha ex.

“Por favor atende. Desculpa eu ter te traído, foi uma decisão idiota enquanto eu tava bêbada. Não vai acontecer de novo.”

Ignorei e segui com minha vida. Com o passar dos dias, minha obsessão pelo número 15 foi diminuindo aos poucos. Tudo voltou ao normal… até uma semana depois.

Eu estava indo pra sala de aula quando vi um conhecido passando na direção oposta.

“Ei, cara, você vai pular a aula do professor Toan hoje?”, perguntei.

“Não, mano. A aula foi cancelada. O professor Toan sumiu.”

“Como assim sumiu?” Senti o sangue sumir das pernas e dos braços.

“Ele morreu, cara. Acidente de carro. Passou em tudo quanto é notícia ontem.”

Meu coração deu um salto e abri o celular imediatamente, entrei num site de notícias.

“Professor universitário morto por motorista bêbado.

Às 16:30, o Sr. Toan, professor de Matemática da universidade de…” Li o título e a primeira frase e meus olhos simplesmente vagaram. As palavras de David voltaram à minha mente, cristalinas:

“O nexus dele era 30 e o meu era 4.”

“Às 16:30…” A ficha caiu e jogou minha consciência no vazio da compreensão. Liguei para David. Ele não atendeu. Corri até o quarto dele enquanto continuava ligando. Bati e bati até meus nós dos dedos ficarem roxos, mas ninguém respondeu. Depois de uns quinze minutos, um cara do quarto ao lado saiu.

“Tá procurando o David? Ele foi numa lavanderia nova que abriu. Pediu pra te avisar se você viesse aqui. Tá o endereço. Estranho, ele não voltou desde ontem.”

Fiquei aliviado porque o endereço não tinha o número 4. Comecei a andar e, quando cheguei, havia fitas policiais isolando uma parte da rua. Entrei na lavanderia e mostrei a foto do David pro gerente.

“Desculpa, o senhor viu esse homem entrar na lavanderia?”

“Deixa eu ver. Poxa, você é amigo dele? Sinto muito, rapaz. Ele caiu no bueiro e bateu a cabeça. A ambulância levou o corpo ontem, ainda dá pra ver as fitas em volta da tampa daquele bueiro.”

Meu coração afundou no estômago e suor brotou nas pontas dos dedos. Saí correndo da lavanderia e olhei o bueiro isolado. Já tinha sido coberto com uma placa de metal. Um policial ainda estava lá, anotando alguma coisa. Me aproximei e perguntei, dizendo que era amigo do David. Ele me contou algo que fez meu cabelo arrepiar: David estava carregando muita roupa e não prestou atenção no bueiro. Caiu e morreu na hora. As câmeras mostraram que era exatamente 16:30 quando ele morreu.

Voltei pra casa arrasado e apavorado. Contei a notícia pro Trey e pro Wallace, tomei banho e me joguei na cama. Os acontecimentos do dia foram demais e eu apaguei sem perceber.

Quando acordei, eram 3:14. Meu celular estava tocando e, no momento em que atendi, parou. Era minha ex. Ela tinha feito 14 chamadas perdidas. De repente, senti o peso do que David tinha me dito. Ela só precisava fazer mais uma chamada perdida antes de…

Corri pro celular e liguei de volta. Ela não atendeu. Parecia que tinha saído. Fiquei sentado esperando, os olhos grudados no telefone, aguardando a ligação dela. Até mandei mensagem pedindo pra ela me ligar de volta. Minha mente vagou devagar, meus olhos foram fechando e, quando percebi, já era manhã.

Me xinguei por ter dormido e olhei o celular. Tinha mais uma chamada perdida e uma mensagem da minha ex.

“Seu babaca. Nunca mais vou ligar.”

O medo correu pelas minhas veias e meus pés gelaram. Liguei de volta e ela não respondeu. Mandei mensagens dizendo que sentia muito e, depois de alguns minutos, percebi que ela tinha me bloqueado. Fiquei sozinho no quarto, os olhos pulando nas sombras toda vez que o relógio marcava 15.

Isso foi há duas semanas. Desde então, tenho vivido exatamente como o David vivia: pedindo delivery e me assustando com tudo do lado de fora do quarto. Tirei o relógio de pulso e o despertador, e não olho pro computador há dias. Não sei o que vai acontecer, mas sei de uma coisa só: eu sei qual é o meu número de nexus e vou fazer qualquer coisa pra evitá-lo.

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