Não espero que isto jamais saia do meu laptop e chegue à internet. Instalei o Starlink no outono passado por sugestão da minha irmã, pra gente poder conversar de vez em quando. Desde que nossos pais morreram, ela é minha única ligação com o mundo lá fora — e talvez minha única esperança de conseguir sair desta cabana. Então, enquanto escrevo isto pra ela, acho que não vai piorar minha situação postar aqui. Por isso, aos que estiverem lendo: se sentirem vontade de ajudar… só tomem cuidado pra não se matarem.
Se você nunca viu colinas salpicadas de neve, marcadas por árvores carregadas de folhas caídas há muito tempo, então nunca saberá o quão brilhante tudo é. Cegueira da neve era — e ainda é — um problema nos dias frios e ventosos por aqui. O sol rebate na brancura implacável do mundo e fere seus olhos. O ar, há muito tempo despojado de qualquer umidade, queima a parte de trás da garganta. Muita gente tosse — e, se você mora onde eu moro, sabe que não deveria. Só irrita ainda mais a garganta.
O sol se põe cedo à noite, como se quisesse mostrar que a neve não só ilumina o dia, mas também acende a noite. Os raios da lua projetam sombras tão nítidas quanto as do dia. Cervos dançam entre as árvores, perseguindo uns aos outros. Os contornos definidos de tudo contra a neve, à noite, fazem do inverno minha estação favorita. Não há zonas cinzentas quando o mundo vira preto e branco.
Nossa casa fica perto da beirada de um terreno de setenta e dois acres, ao longo da cordilheira dos Apalaches. Você poderia ser enganado se eu dissesse que ficava em outro lugar — e seria perdoado por acreditar. Estamos tão perto do Canadá quanto dá pra estar sem cruzar a fronteira. Conto tudo isso pra que você entenda melhor as decisões que tomei enquanto relato isto. Se você não sabe o que é o frio — ou o que ele é capaz de fazer — então nem finja que sabe.
A moeda principal, como sempre, é o tempo.
Quanto tempo você consegue continuar se movendo?
Quanto tempo consegue ficar lá fora antes que seu cérebro comece a desacelerar?
Antes de perder a destreza e nem sequer conseguir acender seu isqueiro?
Essas são decisões dadas como certas em outros lugares. Aqui fora, são as únicas que importam.
Três semanas atrás, comecei a ver luzes acima das árvores. No início, ficavam baixas, mas até o fim da noite já alcançavam o topo da copa, saltando de galho em galho. Poucas pessoas moram por aqui. Existe, no entanto, uma trilha para motoneves que circunda a base da minha propriedade, passando por pequenas cabanas construídas como abrigo.
Fiquei observando as luzes com meu golden retriever, Cooper, enquanto o fogão a lenha crepitava atrás de mim. Primeiro uma, depois duas — às vezes até cinco — movendo-se pelas copas das árvores.
— O que acha que são? — perguntei a ele.
Ele me lançou aquele olhar que significava que eu estava pedindo demais.
Precisava ir à cidade buscar combustível. Pensei que valeria a pena transformar a viagem em algo de dois dias. Poderia puxar um trenó com minhas raquetes de neve e cortar caminho entre as árvores. Não levaria a motoneve — queria ver aquelas luzes. Poderia sair à noite, passar no motel e arrastar meus suprimentos de volta pela manhã.
Saí assim que o sol começou seu ritual noturno de alongar sombras através das árvores. Moro numa colina — não uma montanha, mas alta o bastante pra enxergar de uma ponta à outra da propriedade. Avancei com entusiasmo, Cooper andando à minha frente, parando de vez em quando pra inspecionar árvores por razões conhecidas só por ele.
Na beirada da propriedade, ele parou.
Ficou encarando a trilha.
Não há dúvida de que ele consegue ouvir motoneves a quilômetros de distância antes de mim. Mas, quando virei à esquerda em direção à cidade, ele começou a rosnar de um jeito que nunca tinha feito antes: baixo, com uma ameaça frenética que me fez girar nos calcanhares, certo de que só podia vir de um animal bem maior. Seus pelos se eriçaram, ele recuou, olhando para cima. Eu também olhei, piscando lágrimas dos olhos enquanto tentava distinguir formas contra o sol ainda se pondo. Grupos de folhas pendiam nos galhos, alguns balançando com o vento — ninhos de esquilos, galhos que simplesmente nunca perceberam que a estação mudara. Puxei sua coleira, e ele voltou ao normal, claramente assustado só pelo movimento… mas, a cada poucos passos, olhava para trás.
Eu também olhava.
Ainda não havia luzes. O sol mal começara a descer.
Cada passo parecia pesado.
Como quando você é criança e faz algo que sabe que não devia.
Pensei em voltar ali mesmo. Não por medo, mas porque a conta já não fechava mais. A trilha parecia estranha. As árvores mais próximas, como se estivessem se fechando ao meu redor. Disse a mim mesmo que era a luz — como a neve a distorce, a estica, mente sobre o espaço. Moro aqui há tempo suficiente pra saber que não se pode confiar nos olhos no inverno. Mesmo assim, segui andando. Parar parecia pior do que estar errado.
Motoneves estavam paradas, inativas, na entrada da trilha. Nada incomum — as pessoas costumam estacioná-las ali e caminhar até o riacho, ainda aberto, pra pescar trutas. Só que havia mais do que o normal, e isso, por si só, não explicava como estavam estacionadas. Algumas estavam meio em cima da trilha. Outras tinham sido simplesmente abandonadas onde pararam. As chaves ainda pendiam nas ignições.
O vento empurrou minhas costas. Seus dedos finos subiram pela minha espinha e se instalaram na base do pescoço.
Virei-me pra olhar — nada. A trilha estava vazia e silenciosa. Outra rajada de vento fez meus olhos lacrimejarem, e virei de novo em direção à cidade.
A cidade deveria estar quente. Pequena. Aconchegante. Uma rua principal com padaria, loja de ferragens, lavanderia e motel.
Não estava.
Carros abandonados, meio enterrados, como se o próprio inverno os tivesse reclamado. Montes de neve cobriam as ruas, anunciando que as máquinas de limpeza não passavam ali havia pelo menos uma semana.
Agarrei Cooper pela coleira e o virei.
— Vamos lá, Coop. Temos trabalho a fazer.
O posto de gasolina estava pior. Onde deveria haver um aglomerado de motoneves e gente abastecendo, só restavam os esqueletos das bombas. Queimadas.
Senti o pânico subir — mas forcei-o pra baixo. Ainda precisávamos de combustível. O motel teria geradores de emergência. Tanques reserva. Talvez até uma motoneve de manutenção. Com sorte, alguém pra explicar que porra tinha acontecido ali.
As portas do motel estavam entupidas de neve, mas abriram com facilidade.
Dentro, parecia um acampamento. Barracas. Fogueiras improvisadas. Ninguém.
O ar estava parado e, em alguns pontos, quente — como se corpos tivessem ficado amontoados por muito tempo. Sacos de dormir estavam abertos e abandonados. Uma luvinha de criança repousava no balcão, endurecida pela neve antiga. Alguém empilhara sapatos com capricho perto da porta, como se pretendesse voltar.
Acima do balcão, rabiscadas a carvão ou sangue, quatro palavras:
"ELES ESTÃO NAS ÁRVORES"
O que quer que tivesse acontecido ali não fora repentino. Tinha sido esperado.
— Vamos, Coop — disse, apertando sua coleira. — Vamos voltar.
Tinha um telefone via satélite em casa. Poderia pedir ajuda. Não sabia quem. Não sabia o que diria. Só sabia que precisava sair dali.
O sol já estava baixo quando alcançamos novamente a beirada da floresta. O vento batia no meu rosto, e puxei o cachecol sobre o nariz. Não tinha andado nem um quilômetro quando as árvores começaram a se mover.
Não sei há quanto tempo vinham se mexendo antes que eu notasse.
Um tronco fino, pálido, sem galhos, ergueu-se da neve e desceu de novo — em silêncio — dez pés mais perto da trilha.
Olhei para cima.
Não era uma árvore.
Era um dos quatro membros de uma coisa pálida e esguia. Seus apêndices, semelhantes aos de uma aranha, terminavam no que só posso descrever como um homem deformado. Olhos pretos e minúsculos vasculhavam a copa.
Ainda não tinha me notado.
Agachei-me atrás das motoneves, movendo-me devagar, sem tirar os olhos dele. Estava observando a trilha à frente — esperando.
Alguns cervos entraram em campo de visão.
Uma perna surgiu da neve e perfurou um deles. Não dobrou. Levantou o animal até as árvores, prendendo-o nos galhos até que ficasse imóvel. O membro se soltou, com cuidado, deliberadamente.
A criatura se alimentava.
Foi aí que entendi.
Enquanto a última luz do dia perdia o domínio sobre o mundo, percebi que aquilo que eu havia confundido com folhas, ninhos de esquilos e resquícios de tempos mais quentes não era nada disso.
Eram pedaços de roupas de inverno. Fragmentos de pessoas. Pendurados nas copas como frutos maduros, esperando para serem colhidos.
Enquanto se alimentava, seu abdômen começou a brilhar — tão intenso quanto uma estrela.
Outra forma surgiu das árvores.
Depois outra.
Não respirei. Meus dedos afundaram na coleira de Cooper por cima das luvas, implorando que ele não fizesse barulho. Saímos juntos, lentos e cautelosos, pisando onde a neve parecia mais macia. Parei de olhar pra eles e passei a olhar só pro chão.
As pernas deles podiam cobrir, num único passo, o que levaria dez dos meus. Ao contornar o grupo, senti uma queimação nos pulmões, implorando por ar.
Sem pensar, inspirei o mais silenciosamente possível — longa e profundamente — deixando o ar gelado queimar minha garganta até os pulmões.
Tossi.
O som explodiu antes que eu pudesse contê-lo.
Eles congelaram.
Nada se moveu. Nem as árvores. Nem a neve. Até o vento pareceu recuar, como se não quisesse ser notado. A primeira criatura fixou os olhos em mim. Pequenos olhos pretos, como joias de inseto, brilhavam em seu rosto branco agora manchado de sangue. A luz das outras criaturas foi diminuindo. Uma por uma, viraram-se para mim e apagaram suas luzes. A floresta mergulhou na escuridão.
Corri.
Não olhei para trás. Tomei cuidado pra Cooper ficar à minha frente. Subi a colina até meus pulmões arderem e minhas pernas falharem. Arrombei a porta e desabei dentro da cabana.
Peguei meu telefone via satélite na terceira gaveta da escrivaninha e apertei o botão de ligar. O alívio que senti ao atravessar a soleira da porta foi palpável. A sensação de desespero ao ver o aparelho piscar o sinal de bateria descarregada foi igual.
Não tenho combustível pra ligar o gerador. Tenho duas estéreos de lenha sobrando pra aquecer a casa e comida pra uma semana.
A única coisa que ainda tem energia é este laptop e o painel solar que conectei ao Starlink. Tema que, em breve, ele também será coberto de neve — e perderei minha última ligação com o mundo.
Enquanto escrevo isto, sei muito bem que pode ser a última coisa que restará de mim. As árvores ao redor da casa já começaram a se mover. Mais cedo ou mais tarde, terei de sair.
Então digo de novo, como aviso a quem ousar bancar o herói e tentar vir me resgatar:
Se você nunca viu colinas salpicadas de neve, marcadas por árvores carregadas de folhas caídas há muito tempo, então nunca saberá o quão brilhante tudo é. Cegueira da neve era — e ainda é — um problema real. Ela dificulta enxergar essas coisas durante o dia.
O ar, há muito tempo desprovido de qualquer umidade, queima a parte de trás da garganta. Muita gente tosse — e, se você mora onde eu moro, sabe que não deveria.
Elas podem ouvir você.


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