A memória de infância do monstro nos bosques se tornou o projeto da minha própria destruição.
O sol era uma brasa moribunda por trás da silhueta recortada dos pinheiros quando o vi pela primeira vez. Eu tinha dez anos, apertava contra o peito meu cavaleiro de madeira — aquele que meu pai tinha entalhado em carvalho — e estava completamente perdido no Bosque Blackwood. O ar estava denso com o cheiro de agulhas de pinheiro úmidas e algo mais, algo metálico e cortante que arranhava o fundo da minha garganta.
Entrei em uma pequena clareira onde uma fogueira lutava para não apagar, sufocada por madeira verde e folhas molhadas. Sentado ao lado dela estava um homem. Pelo menos, acho que era um homem. Ele estava coberto por um casaco feito do que pareciam várias peles diferentes, costuradas com arame enferrujado. Seu cabelo era uma juba emaranhada, acinzentada, que chegava aos ombros, cheia de gravetos e lama seca.
“Você está bem longe das luzes da varanda, Leo”, o homem disse com voz rouca. Sua voz parecia duas pedras se esfregando no fundo de um poço profundo.
Eu congelei. Não corri, porque, apesar da sujeira e do fedor de cobre velho, os olhos dele estavam cheios de uma tristeza tão profunda que fazia meu próprio medo parecer pequeno. Naquela noite ele me contou coisas — sobre uma fome que começa no coração, sobre como a mata nunca mais te solta depois que ela te reconhece. Ele plantou em mim uma determinação estranha e sombria. Prometi a mim mesmo que nunca seria como ele. Eu seria um herói. Seria a luz que empurrava a sombra para trás.
Aquele encontro foi a faísca que definiu minha vida. Passei os vinte anos seguintes tentando fugir daquela memória, só para descobrir que cada passo que eu dava me levava de volta exatamente para a clareira que eu queria evitar.
A transformação começou no meu trigésimo aniversário. Começou como uma coceira fantasma embaixo das costelas, uma sensação de algo frio e enrolado se desenrolando dentro do meu peito.
No início, pensei que fosse o estresse do meu trabalho como advogado ambiental, tentando proteger exatamente as florestas que assombravam meus sonhos. Mas depois começaram os “apagões”. Eu acordava no meu apartamento com terra debaixo das unhas e gosto de terra crua na boca. Comecei a perceber uma mudança na luz; o sol parecia brilhante demais, artificial demais. Só as sombras profundas e sufocantes do Bosque Blackwood pareciam verdadeiras.
Voltei para a mata em busca de respostas. Dizia a mim mesmo que era por “encerramento”, para provar que o monstro da minha infância era só um homem. Mas a lenda de Blackwood é mais antiga que a cidade. Os moradores falam do “Vaso” — um papel que a floresta exige. A mata não é só árvores e solo; é uma consciência viva e faminta que precisa de uma testemunha para sua podridão. Ela escolhe uma alma, esvazia-a e a enche com o “Enxerto”.
O Enxerto é um processo lento e agonizante. Eu assistia, paralisado de horror, enquanto meu corpo me traía. Não era só crescimento de pelos ou dentes afiados. Era uma mudança de arquitetura. Minha pele começou a ganhar textura de couro molhado, escurecendo para um roxo de hematoma. Minhas juntas não apenas se dobravam; elas se rearranjavam com o som de madeira se partindo.
Lembro do dia em que meus olhos “humanos” falharam. O mundo virou um tapete de calor e vibração. Eu conseguia ouvir o batimento cardíaco de um cervo a três quilômetros de distância, e o som fazia meu estômago se contrair com uma gravidade localizada e excruciante. Era a Fome. Não era desejo por comida; era desejo de consumir a essência da vida para preencher o vazio onde minha identidade costumava estar.
Quanto mais eu lutava, mais a floresta me castigava. Se eu tentava caminhar em direção à estrada, as árvores se inclinavam fisicamente, seus galhos tecendo uma parede de espinhos. O tempo virou algo fluido e traiçoeiro. Eu podia ficar sentado perto de um toco por minutos, só para descobrir depois que as estações tinham mudado e o musgo já tinha crescido por cima das minhas botas.
Perdi meu nome. Perdi meu rosto. Tornei-me uma coleção de cicatrizes e instintos. Passei anos — décadas, talvez — costurando um casaco com as coisas que eu tinha matado, uma tentativa grotesca de me sentir “vestido” outra vez. Usei arame enferrujado que encontrei em um acampamento madeireiro abandonado, o metal mordendo meus dedos até sangrarem preto.
Tornei-me o mito sobre o qual me avisaram. Eu era a sombra que os caçadores viam e se recusavam a relatar. Eu era o “cheiro de cobre” no ar. Eu tinha me tornado o Vaso, o guardião da podridão, esperando pela única coisa que poderia me livrar do meu dever.
Minha mente agora é um mosaico fraturado de quem eu fui e do que eu sou. Ainda lembro do cheiro do perfume da minha mãe, mas ele é ofuscado pelo cheiro do trilheiro que peguei na primavera passada. Lembro do cavaleiro de madeira que enterrei, mas já não lembro por que isso importava. Sou uma tragédia coberta de peles e arame.
A Fome está gritando esta noite. Está mais alta que o vento. Estou agachado perto da minha fogueira moribunda, meus dedos — agora garras retorcidas e enegrecidas — cutucando sem rumo as brasas. A fogueira é a única coisa que impede a parte “Besta” de mim de devorar completamente a parte “Leo”.
Um graveto estala.
O som é como um tiro. Minhas orelhas se mexem, um movimento inteiramente involuntário e predatório. Consigo ouvir o baque frenético e ritmado de um coração pequeno. É um coração jovem, ainda não tocado pela podridão.
Sinto o cheiro do detergente de roupa na camisa dele. Sinto o cheiro de carvalho do brinquedo que ele está apertando.
Um menino entra na clareira. Ele tem dez anos. Olha para mim com olhos que são espelhos do meu passado. Ele vê um monstro. Vê uma besta de sujeira e cobre. Não me reconhece. Como poderia? Eu sou um pesadelo, uma versão distorcida de um futuro que ele ainda não viveu.
A tristeza me atinge como uma onda gigantesca. Quero gritar para ele correr. Quero dizer que cada escolha que ele fizer para ser “melhor” só vai levá-lo de volta para esta clareira. Quero dizer que sou o pai dele, o irmão dele e o assassino dele.
Mas meu maxilar está desarticulado. Minha garganta é um túnel de tecido cicatricial e Fome antiga. A floresta se inclina para dentro, seus galhos sussurrando o roteiro que sou obrigado a seguir. O ciclo está se fechando. Eu sou o fim da história dele, e ele é o começo da minha.
Olho para o menino, meus olhos amarelados vertendo um líquido que talvez tenha sido lágrima há um século. Abro a boca, e a voz que sai não é a minha — é a voz da mata, a voz do monstro que um dia me inspirou a ser herói.
Digo as palavras que iniciaram o meu próprio fim.
“Você está bem longe das luzes da varanda, Leo.”


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