sábado, 7 de fevereiro de 2026

Existem monstros no Meio-Oeste que eu não consigo explicar; hoje preciso falar sobre os trens

Os trilhos cortam as cidades e fazendas, atravessando planícies onduladas e campos secos de trigo postos à venda anos atrás. Eles passam bem pertinho das casas e, um quilômetro depois, seguem direto pelo nada absoluto das antigas terras agrícolas — tão planas que só os celeiros em ruínas conseguem projetar sombras sobre os campos de capim. Os trilhos parecem surgir do nada e desaparecer no mesmo vazio.

Mas essa imagem perde todo o encanto quando você está dirigindo. De repente, as luzes se acendem, e um trem que você juraria não ter visto na visão periférica começa a avançar com aquela lentidão agonizante bem na sua frente. Quando ele finalmente some e você cruza os trilhos, não consegue enxergá-lo em lugar nenhum ao longo do caminho por onde deveria estar. Às vezes, você se pergunta se existe alguma curva na estrada que nunca notou… ou se simplesmente imaginou aquele trem.

Sempre tive essa ideia esquisita sobre os trens: eles vinham e iam embora, mas nunca pareciam presos a nenhuma direção específica. De qualquer forma, ninguém dá muita bola pra essas coisas quando elas estão sempre por perto. É como qualquer outra bizarrice da cidade da sua infância — algo que você nunca questiona até alguém de fora apontar e perguntar: “Ei, isso aqui é normal?”

Enfim, o motivo pelo qual estou escrevendo isto é servir de preâmbulo à história que me arrancou daquela falsa sensação de normalidade que perdi depois do incidente. Nem sei direito por que estou escrevendo isso, mas quero terminar antes de começar a duvidar demais.

Cinco anos atrás, na noite de Halloween, eu e meus amigos decidimos — numa espécie de homenagem ao último ano da nossa infância — sair fantasiados numa derradeira investida por doces grátis. Tô me empolgando demais… O ponto é que, naquela noite, batemos nas portas das casas mais antigas, tocando campainhas e pedindo doces. Sorrimos diante daquela leve decepção nos rostos das pessoas ao verem nossas silhuetas adultas na soleira da porta — uma decepção que, mesmo assim, ainda nos desejava um “Feliz Halloween” e nos entregava guloseimas só pra evitar o constrangimento geral.

Depois de impor nossa pressão social fantasiada, resolvemos aproveitar nossa idade — já tínhamos 17 anos — pra vagar por alguma parte abandonada da cidade, longe dos caminhos seguros das crianças e dos pais. Saímos das ruas residenciais e entramos nas áreas descampadas, sem grama, além dos quintais sem cercas, onde festas clandestinas aqueciam o frio em volta de fogueiras. Atravessamos um pequeno bosque de árvores preservado só pra não desvalorizar ainda mais os terrenos da região, até chegar a um campo de grama verde com aquelas barras metálicas intrusivas sobre cascalho áspero e pedras, a menos de seis metros da linha de árvores. Era como um rio de metal e pedra forçando a natureza ao redor a se afastar e se curvar. Talvez aquela paisagem não fosse tão melancólica naquele dia quanto é agora.

— Então, o que a gente faz agora? — perguntou Maxine, que tinha nos guiado o caminho inteiro. A máscara branca cobrindo metade do rosto dela estava escorregando; ela era a Fantasma de O Fantasma da Ópera.

— Fotos? — sugeriu Lucas, vestido como um mago de barba branca, enrolado num roupão rosa que provavelmente era dele mesmo, e não da mãe.

— Sei lá — respondeu Andrea, com um vestido vermelho e dentes falsos afiados, feitos de cera. Ela tinha explicado que era Carmilla.

— O que mais vocês querem fazer? — perguntei eu.

— Tô boa pra qualquer coisa — garantiu Maxi.

— Pois é, mesma coisa aqui — disse Andrea.

— Tipo… o quê, exatamente? — insisti.


— Ehhh... — murmuramos todos, cada um à sua maneira.

Essa conversa idiota era praticamente o prelúdio da maioria das nossas pequenas aventuras pela cidade — geralmente terminando com um de nós recebendo uma mensagem de “cadê você?” de mãe ou pai, e todos decidindo voltar pra casa. No caminho de volta, fingíamos que a preocupação dos nossos pais era a coisa mais irritante do mundo, escondendo aquele leve nervosismo de que talvez realmente os tivéssemos deixado chateados. Éramos uns idiotas, francamente — barulhentos, arrogantes, achando que o mundo inteiro observava, fascinado, as vidas suburbanas de quatro adolescentes. Talvez soubéssemos, no fundo, que éramos iguais a qualquer outro grupo de moleques crescendo numa cidade do meio do nada, sonhando que dominaríamos o mundo assim que conseguíssemos fugir dali. Talvez isso seja só parte de crescer. Queria ter certeza. Queria saber o que teria sido de nós se todos tivéssemos sobrevivido.

Enquanto enrolávamos ali, decidimos sentar e abrir nossos saques de doces. Lucas tentou trocar pacotinhos de amêndoas salgadas por Skittles, achando que conseguiria enganar alguém com isso. Por pena, Andrea jogou um toffee na cabeça dele.

— Ai! — ele respondeu com cara de tédio. — Por que eu nunca ganho nada bom?

— Porque você parece uma garça-cor-de-rosa.

— E é ilegal alimentar garças-cor-de-rosa.

— Espécie ameaçada de extinção.

Jogamos mais alguns doces de morango na bolsa dele — era o sabor favorito.

Ficamos sentados por um tempo, até ouvirmos um gemido fraco vindo da esquerda dos trilhos, além de uma pequena curva onde não dava pra ver o que se aproximava. O grito soava como uma mistura de ar passando por tubos metálicos estreitos e o ruído verdadeiro, vil, de algo vivo. Exatamente quando pontas de luz começaram a atravessar as folhas, na escuridão que se aprofundava, um cervo entrou no nosso campo de visão. Corria pelos trilhos, a cabeça girando em todas as direções enquanto as patas continuavam levando seu corpo em linha reta. Parecia preso entre as duas linhas de metal; o pescoço, em certo momento, torcido para trás a ponto de quase encostar na curva das costas — como um gancho de açougueiro. Depois, a cabeça virou bruscamente para o lado, a boca escancarada, torta e frouxa. E ele continuou correndo.

Olhei para Maxi enquanto Andrea recuava atrás de nós. Lucas se abaixou, procurando algo pesado — uma pedra ou um galho —, mas sem tirar os olhos daquela pobre criatura. Enquanto a besta errática seguia pelos trilhos, ficamos paralisados, vendo o cervo disparar na nossa direção. Ele passou bem pelo centro do nosso campo de visão, o pescoço dobrado em 90 graus para nos encarar de frente. Ficou imóvel por um instante — e foi então que ouvi o apito novamente.

As luzes de uma máquina se aproximando distorceram nossas sombras. Um trem surgiu na via metálica, com velocidade moderada, porém implacável. Alcançou o cervo. Pegou suas patas traseiras, jogando-o de costas; as patas dianteiras se agitaram por meio segundo antes de se dobrarem contra o corpo, esfacelando-se em pedaços de carne que voaram pelo ar como gotas quentes do animal imolado. O trem pareceu parar.

Ouvi Maxi gritar quando os respingos nos alcançaram — senti a viscosidade esfriar na pele, nos pregando ao chão no choque do que acabara de acontecer. Depois de limpar o rosto, olhei à frente… mas o trem tinha desaparecido. Já havia passado pelo próximo trecho de árvores, mais rápido do que deveria, sem deixar traço algum de luz ou som. Não fazia sentido — um instante antes, parecia quase parado.

Na ausência do trem, recuperamos os sentidos e olhamos uns para os outros. Em silêncio, viramos e saímos correndo. Claro, animais às vezes são atropelados por trens… mas por que aquele cervo agira daquele jeito? Talvez fosse só o comportamento raivoso de um bicho apavorado. De qualquer forma, estava escuro e aterrorizante, então continuamos correndo. Atravessamos um trecho curto de grama, entramos no matagal de árvores, ouvindo nossas respirações ofegantes e os passos pesados. Ouvi a sacola de doces balançando na mão de Maxi — ela nem estava em condições de perceber que ainda a carregava.

Perto do fim da mata, os troncos se fecharam ao nosso redor, nos espremendo. Senti a mão de Lucas alcançar a minha — por medo ou necessidade, tentando se agarrar. Senti a viscosidade que imaginei ser sangue do animal, que ele devia ter esfregado freneticamente. Mas, um segundo depois, com meu aperto fraco, senti sua mão se soltar. Não ouvi ele cair, mas lembro agora da ausência daquela quarta batida de passos nos últimos minutos da nossa fuga. Na hora, talvez nem tenha notado que ele tinha sumido. E mesmo agora não tenho certeza do que o fez agir daquela forma logo depois. Ainda assim, me pergunto: naqueles segundos de silêncio, enquanto ele jazia no chão vendo nossa retirada precipitada, se eu tivesse voltado para segurar a mão do meu amigo… será que ele não teria sofrido aquela crueldade injusta que o levou como consequência do meu abandono?

Quando saímos do outro lado da floresta, corremos pelo capim descuidado e sentimos o cheiro da primeira fumaça de fogueiras apagadas. Olhamos uns para os outros, desesperados.

— Cadê o Lucas? — a voz de Andrea saiu rouca, tensa.

— Ele… acho que caiu — respondi, olhando de volta para as árvores ao longe.

— Será que ele levantou? Dava pra ver ele, mesmo que estivesse bem atrás! — Maxi entrou em pânico com seu próprio raciocínio.

Olhei para as duas, pesando nossas opções. A lembrança da mão dele não saía da minha cabeça. De algum modo, eu sabia que algo tinha acontecido. Contra meu próprio julgamento, mandei que esperassem enquanto eu voltaria só alguns passos para procurá-lo. Eu sabia que ele não estaria lá. Sabia que, assim que confirmasse que ele não tinha saído da mata, eu não voltaria. Era uma convicção estranha, fixa: algo tinha mudado. Havia ocorrido uma alteração na própria atmosfera da Terra — algo que eu não podia apagar, mas precisava testemunhar. Assim, respirei fundo e corri de volta.

Corri para dentro das árvores, entre os troncos escuros de tilia e olmo, e vi novamente os fios brilhantes de luz surgindo pela direita. Ouvi o apito fraco outra vez — mas agora era puramente mecânico: o lamento de uma máquina velha e desgastada que ainda não ia quebrar, que terminaria seu trabalho naquele dia.

Quando me aproximei do outro lado da mata, vi Lucas parado na beira do bosque, dois passos além do ponto onde as raízes visíveis terminavam. À sombra dos feixes de luz de um trem que eu sabia estar se aproximando — mas, por algum motivo, ainda não conseguia ver —, vi sua cabeça virar na minha direção. Ao me ver, ele desviou o olhar. Senti um impulso enorme de ir até ele, não para impedir o que estava prestes a acontecer, mas para ir junto. Mas, no exato momento em que dei um passo à frente, a sombra densa da linha de árvores pareceu pesar sobre mim, ordenando que eu ficasse onde estava. Não era uma força que me impedia fisicamente, mas uma sensação de pavor absoluto diante da ideia de cruzar aquele limite.

Vi Lucas tentar correr — mas era lento, penoso. Uma das pernas dele torcia e girava sem controle; os ombros sacudiam para lá e para cá; o outro pé estava dobrado tão para baixo que o fazia parecer vários centímetros mais baixo do que era, curvado de um jeito antinatural, como se tentasse cravar-se no chão para parar o próprio movimento.

Foi então que percebi, ao fundo do que afligia meu amigo, que um trem estava vindo pelos trilhos.

Gritei por ele enquanto seu pé arrastava no cascalho. Dei um passo para fora da grama, longe da segurança das árvores. Gritei seu nome de novo — um chamado penetrante na atmosfera de tragédia inevitável, um grito de abandono total que eu esperava, desesperadamente, que fizesse alguma diferença. Então, ele olhou para trás. Havia alguma lucidez em sua postura, seu corpo encolhido de dor.

Vi quando ele tentou tirar um pé dos trilhos para escapar — mas o trem agarrou a outra perna, mutilando seu pé e sua canela. Todo o corpo dele se torceu enquanto era arrastado para debaixo da máquina. Foi jogado de bruços, com a perna intacta se contorcendo em espasmos incoerentes pelo trauma infligido ao seu corpo. Estava estirado ali, se debatendo de forma grotesca e desordenada — uma cena horrível, vil, como derradeiro adeus. O trem passou por cima dele, apagando inequivocamente todos os traços do meu amigo deste mundo.

Só restaram as entranhas esmagadas, ossos e sangue — indistinguíveis de qualquer humano ou animal — e a sacola de doces cheia de amêndoas salgadas e toffees de morango, para que nunca esquecêssemos dele.

Já se passaram alguns anos desde aquele incidente. Seria um belo final dizer que seguimos em frente com estoicismo inabalável, mostrando a resiliência vibrante da juventude… mas não foi isso que aconteceu. Nossas vidas pararam quando ele morreu. Andrea nunca mais falou conosco — afinal, tinha sido ideia dela sair no Halloween. Maxi nos contou, depois do funeral, que não aguentava mais os olhares interrogativos das pessoas pela cidade, cochichando que tínhamos feito algo com ele ou cutucando sobre o motivo do “suicídio”. Ninguém acreditou no que contamos.

Quanto a mim, fingi que continuei o mesmo. Esperava esquecer ou distorcer na memória o que tinha visto. Torcia para me autoenganar de propósito: se eu nunca mudasse, nunca envelhecesse, talvez nunca notasse que Lucas não estava ali, envelhecendo comigo.

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