Eu estava fazendo uma trilha na minha mata favorita, cheia de árvores caducifólias e coníferas, criando uma paleta de cores que agradava tanto minha mente quanto minha alma. Admirava as folhas outonais quando um movimento chamou minha atenção para a trilha à minha frente. Olhei e vi dois cachorros de rua me encarando, a uns cem metros de distância. Um era branco, o outro marrom, mas não dava pra identificar a raça daquela distância. Me aproximei devagar, com jeitinho, tentando despertar neles aquele lado domesticado... mas os dois saíram trotando pela trilha e sumiram do outro lado de uma elevação. Acelerei o passo e fui atrás deles. Um vento fresco soprava em meu rosto e agitava meu cabelo. Raios de sol atravessavam os galhos quase nus e batiam direto nos meus olhos. O sol já se punha. “Talvez eu deva ligar pro controle de animais”, pensei na hora. Se eu tivesse feito isso, com certeza não estaria escrevendo isto agora.
Passei por cima da elevação e vi os dois cachorros de novo — mais perto dessa vez, lá embaixo na trilha. Vislumbrei-os por um instante antes que desaparecessem do caminho, entrando no mato. Apesar de só ter visto as costas deles fugindo, foi tempo suficiente pra reconhecer a raça... e pra ver sangue grudado no pelo deles. Eram dois buldogues grandes. Mesmo assim, achei que conseguiria levá-los de volta pro meu carro sem muito esforço. Dei uma olhada nos raios oblíquos do sol que iluminavam o chão da floresta e decidi arriscar. “Conheço essas matas”, pensei comigo mesmo. Só que eu não conhecia aquelas matas — nem o que havia nelas — tão bem quanto imaginava.
Seguindo os cachorros, percebi que não seriam difíceis de rastrear: sangue pingava deles, manchava galhos baixos e caía sobre a camada de folhas secas. Tinha que me apressar. Era sangue demais pra andar devagar. Segui a trilha por alguns minutos até encontrar o cachorro mais escuro. Graças a Deus, ele tinha se deitado num emaranhado de arbustos e ofegava pesadamente. Me aproximei com calma, fazendo sons suaves pra acalmá-lo. Daquele ângulo, vi logo que o sangue não era dele — mas cobria todo o corpo dele. Peguei minha garrafa d’água, e, como ele me deixou chegar mais perto, pinguei um pouco na focinha dele. Ele lambeu com avidez. Derramei um pouco mais, e ele bebeu no ar, lambendo cada gota. Dei a ele metade do que ainda restava na garrafa, depois me agachei e afaguei sua cabeça. Seus olhos cansados e tristes disseram mais do que qualquer conversa que já tive com uma pessoa de verdade. Disseram que ele estava exausto, desgastado. Disseram que estava farto de correr... e grato por esse descanso. Mas também disseram que estava preocupado — preocupado com o amigo lá fora — e queria que eu fosse procurá-lo. Rasguei um pedaço do punho da minha camisa vermelha e amarrei nas ramas logo acima dele. Não esperava que ele fugisse.
Continuei seguindo o rastro de sangue sob a luz que se apagava. Caminhei por muito tempo — tempo demais, se o cachorro que perdia aquela quantidade absurda de sangue ainda estivesse vivo. Quase desisti. Pensei em cortar minhas perdas e ficar satisfeito por ter achado ao menos um dos cachorros... quando um som estranho chamou minha atenção. Liguei a lanterna do celular e forcei a vista na escuridão. Fiquei ouvindo, esperando ouvir aquele chamado de novo... mas não veio nada. Um silêncio absoluto preenchia os espaços entre as árvores que iam escurecendo. Troncos outrora acolhedores tinham virado colunas sustentando um teto negro que me engolia — e engolia toda a floresta junto comigo. Foi então que ouvi o outro cachorro ganir.
Comecei a me mover na direção do som, e o ganido foi ficando mais alto, mais urgente. Quanto mais perto eu chegava, pior soava — como se a garganta dele estivesse cheia de líquido. Quase pisei no coitado, porque ele tinha se escondido tão bem. Afastei os galhos espinhosos ao redor dele e me ajoelhei. Ele nem sequer reagiu à minha presença. Mal podia acreditar que ainda estivesse vivo. Suas costas eram tiras de carne, filets rasgados pendurados na espinha, expondo os ossos ao ar gelado. Dava pra ver os músculos das costas dele tremendo. Sangue — e outros cortes menores — cobriam todo o corpo. Embaixo dele, as folhas onde repousava estavam encharcadas, formando uma poça vermelha. Toquei-o com delicadeza, e ele continuou sem reação. Coloquei minhas duas mãos nas partes da carne com menos feridas e empurrei, virando-o de lado. Foi aí que vi uma abertura cavernosa na barriga dele. Arfei, reconhecendo os pontos rompidos de uma cirurgia anterior. “Como você veio parar aqui?”
Ouvi aquele chamado estranho de novo — agora mais perto. Tentei levantar o pobre animal do chão, mas ele estava escorregadio demais... e aquele barulho continuava se aproximando, cada vez mais, e eu mal conseguia enxergar! Tentei de tudo pra agarrar aquela criatura inocente e levá-la embora, pelo menos pra dar um enterro decente. Soltei meu fraco aperto, e seus membros caíram de volta no chão frio. O guincho agora era ensurdecedor — não devia estar a mais de seis metros de distância. Me levantei, ergui a lanterna e tentei vislumbrar o que diabos poderia estar fazendo aquele som.
Na borda do feixe de luz, havia a sugestão de uma forma. Forcei a vista, tentando percebê-la, definir qualquer contorno significativo... mas não consegui. E não era por causa da escuridão. Era porque aquela coisa não tinha traços discerníveis. À medida que se aproximava, tudo o que eu via era uma forma longa e tubular, segmentada como uma lagarta gigante e grotesca, peluda, com pelos finos e afiados cobrindo as costas e a barriga. Avançava em minha direção, com olhos negros enormes refletindo minha própria luz de volta pra mim. Guinchou de novo — um som tão alto que me deixou tonto — e revelou dentes absurdamente longos e afiados, como milhares de palitos de madeira saindo de suas gengivas verdes e nojentas. Me preparei quando a criatura ergueu a metade dianteira no ar, pronta pra saltar...
Mas, naquele exato momento, nós dois ouvimos um latido fraco, patético.
Ela me esqueceu na hora e se moveu muito mais rápido do que eu esperava. Correu entre as árvores e os arbustos com uma agilidade assustadora, deslocando aquele corpo bulboso com tanta velocidade que parecia vibrar. Saí correndo atrás dela, desviando de galhos baixos, pulando moitas e emaranhados, arrebentando através de espinheiros. Nesse instante, a luz da lua cheia irrompeu pelas nuvens, banhando a floresta com um brilho pálido e frio. Dava pra ver a besta correndo ao meu lado. Seus movimentos ridículos quase pareciam cômicos naquela penumbra. O cachorro latiu de novo, desviando o rumo do monstro — e o meu também. Agora ela vinha mais perto de mim enquanto corríamos. Estávamos quase lado a lado, ambos correndo em direção ao mesmo objetivo: chegar primeiro ao cachorro.
Tentei pensar no que fazer — qualquer coisa que impedisse aquela coisa de machucar e matar outro animal inocente. Olhei à frente e agradeci às estrelas ao ver minha solução: um galho grosso de carvalho tinha caído de uma altura imensa e se enterrado pela metade no chão, deixando a outra ponta — lascada e afiada — inclinada precariamente na nossa direção. Bem antes do galho, me joguei contra aquele verme gigante no meio do movimento, batendo meu ombro com força naquela carne mole. Desviei sua trajetória, e o próprio impulso dela a lançou direto contra aquela lança de madeira. A carne da besta cedeu como papel higiênico molhado. Um líquido viscoso — rosa, verde e roxo — jorrou da ferida e da boca dela, junto com vísceras. Ela uivou de dor, tão alto que quase me arrependi de ter causado aquilo. Mas aproveitei a chance.
Continuei correndo em direção ao outro buldogue. Iluminei os arredores com a lanterna e encontrei o pedaço de pano vermelho que eu tinha deixado — e, embaixo dele, o docinho de cachorro. Seus olhos diziam que ficaram felizes em me ver. Sorri com compaixão e, com o máximo de delicadeza possível, levantei-o nos braços.
Barulhos úmidos e quentes interromperam nossa fuga. Sob a tênue luz da lua, aquele verme gigante voltou, espalhando seu sangue multicolorido e suas entranhas por todo o chão abaixo dele. As feridas eram fatais, mas ele insistia, resistindo à morte até o último suspiro. Endireitei os ombros na direção dele, e ele parou. Por um instante fugaz, ficamos nos encarando. Me perguntei o que diabos era aquilo, de onde tinha vindo e por que raios queria machucar cachorros. Ergueu sua forma grotesca no ar e inspirou fundo pra soltar seu último grito. Berrou um guincho ensurdecedor que reverberou entre as árvores, fazendo os troncos tremerem, soltando as últimas folhas e fazendo meus ossos vibrarem dentro do meu corpo machucado. Fiquei firme e reuni todo o ar e força que consegui. Gritei de volta, berrei com toda a potência dos meus pulmões, permitindo-me mergulhar no primordial. Gritei pra aquela coisa com toda a raiva e desespero que meus ancestrais me legaram. Quando meu fôlego acabou e minha visão turvou, meu grito cessou. A criatura imensa recuou lentamente, arrastando sua carne fedorenta de volta para as trevas. Não fiquei pra ver ela ir embora.
Agora estou na sala de espera do hospital veterinário, enquanto cuidam do cachorro. Acabei de contar a eles que um animal selvagem nos atacou durante a caminhada — e isso pareceu satisfazer a curiosidade deles. Disseram que ele vai ficar bem; não levou tantos ferimentos quanto o amigo. Mal posso esperar pra brincar com ele e levá-lo pra passear... lá no quarteirão.


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