Eu sei que isso soa muito, muito ruim. E é. Mas posso explicar.
Lonny e eu éramos amigos havia muito tempo. Estudamos juntos no ensino fundamental e no ensino médio, e pouco depois entramos na mesma faculdade. Ele sempre foi obcecado por coisas sinistras, falando sem parar sobre o filme mais recente, o livro ou qualquer coisa macabra que descobrisse.
Eu não era muito fã de terror, mas o entretinha. Quase sempre. Nunca cedi quando ele queria tentar aqueles rituais idiotas que os garotos espalham por aí como lendas. A Maria Sangrenta. Os Três Reis. O Esconde-Esconde de Um Homem Só. Ele queria fazer todos e queria desesperadamente que fossem reais.
Ontem, finalmente, eu cedi.
Nós dois morávamos com mais três caras numa casa alugada simples. Os outros três tinham saído mais cedo naquele dia para uma viagem por causa de uma competição, nos deixando sozinhos, Lonny e eu. Ele havia terminado um relacionamento recentemente e eu vinha tentando fazer de tudo para animá-lo e distraí-lo.
Pensei que ele fosse querer aproveitar a casa vazia com uma reunião grande, assistindo filmes ou algo do tipo. Mas não. Com ele nunca é simples. Ele queria tentar algo diferente.
— Chama-se o Jogo do Estilhaçamento — disse ele, os olhos brilhando de excitação.
— E o que fazemos? — perguntei, achando que não seria nada tão insano.
— Então. Você coloca um espelho longo deitado no chão. Forma um círculo de velas acesas ao redor dele, com espaço suficiente para nós dois ficarmos em pé. Obviamente, todas as luzes da casa têm que estar apagadas. Depois, cada um de nós fica em uma extremidade oposta do espelho, perto o bastante para olhar direto para baixo e ver nosso próprio reflexo. — A empolgação dele era palpável.
— E algo deve aparecer?
— É aqui que fica interessante. Uma pessoa deixa cair uma pedra no centro do espelho, fazendo-o estilhaçar. A pessoa cujo reflexo for destruído fica possuída por um espírito. — Um sorriso largo se abriu no rosto dele.
Engoli em seco.
— Possuída? Por que diabos alguém ia querer ser possuído? Ou eu, aliás?
— Cara, é só um jogo divertido. Vamos lá, vamos tentar! — Ele se levantou, pronto para começar os preparativos.
— Tá bom, tá bom. Eu faço. Só dessa vez. — Só para agradá-lo. Ele estava sofrendo.
— Beleza, vou pegar as coisas. Não podemos começar antes da meia-noite — disse ele, ansioso.
Com isso, ele saiu de casa para comprar velas na loja. Disse que podíamos usar o espelho do quarto dele mesmo. Eu só precisava arrumar a pedra.
Encontrei a pedra no quintal da frente. Era lisa e fria na minha mão, seu peso me dando uma sensação de realidade que eu tinha ignorado até então. Imaginei soltando-a sobre o vidro, as rachaduras em forma de teia se espalhando sobre meu rosto. Estremeci e voltei para dentro para esperar o Lonny.
Pelo que eu via, o Lonny estava ansioso demais para quebrar o próprio espelho. Mas era assim que ele sempre agia com essas coisas. E, pensando bem, nada ia acontecer mesmo.
Ele havia arrumado todas as velas num círculo largo ao redor do espelho na sala de estar bem antes da meia-noite. Quando a hora chegou, acendeu cada uma com cuidado e me mandou apagar todas as luzes.
Clique!
A sala, junto com o resto da casa, mergulhou numa escuridão densa que dominou todos os meus sentidos. Tudo que eu conseguia ver era o brilho alaranjado tremulante das velas refletido no espelho e o sorriso maligno do Lonny.
— Pronto? — sussurrou ele através dos lábios retorcidos.
— Só faz logo — respondi.
Lonny ergueu a pedra acima do centro do espelho, na altura do ombro.
Ele a soltou de repente. Meu coração deu um salto quando o impacto ecoou num estilhaço ensurdecedor.
As fraturas caóticas no espelho dispararam para fora a partir da cratera formada pela pedra no centro do vidro. Os dedos espinhosos rastejaram brevemente em direção aos nossos rostos antes de pararem bruscamente.
Silêncio. Os rostos de nós dois permaneciam perfeitamente visíveis no reflexo.
Shrrk!
As rachaduras explodiram subitamente para fora sobre o reflexo do Lonny, refratando apenas a luz das velas em ângulos estranhos e interseções distorcidas.
Seu rosto não era mais visível.
A temperatura da sala despencou e minha cabeça se ergueu lentamente para encontrar o olhar dele. O brilho alaranjado em seus olhos lançava um reflexo sinistro que cravou agulhas geladas nas minhas costas.
— Lonny? Você não está possuído, né? — Dei uma meia-risada nervosa, balançando o peso do corpo de um pé para o outro.
— ...e você? — As palavras de Lonny saíram num sussurro serpentino.
Dei um passinho para trás.
— Não, cara…
Ele contornou lentamente o lado do espelho e veio em minha direção. Comecei a ficar tenso. Seus braços se recolheram.
— Boo! — gritou ele, jogando os braços para cima na minha direção. Cambaleei para trás em choque, meus pés derrubando algumas velas.
— Não faz isso, porra! Jesus, cara — falei, enquanto o cheiro de fumaça das velas apagadas invadia minhas narinas. Sentei no sofá.
— Você é um medroso pra caralho, mano. Foi só uma brincadeira. — Lonny se jogou no sofá ao meu lado.
Ficamos ali na penumbra, esperando algo acontecer por alguns minutos. Como nada rolou, ligamos a TV e jogamos videogame por uma hora.
Depois de um tempo, Lonny largou o controle de repente.
— Ai, merda! — gemeu ele, levando as mãos ao rosto.
— O que foi? — perguntei, virando para ele.
Um vermelho intenso jorrava por entre seus dedos, fechados com força sobre o nariz.
— Vou pegar uns guardanapos! — Corri até a cozinha e voltei correndo.
Quando cheguei, o sangue já tinha coberto toda a mão dele, escorrendo pela boca e pingando na camisa e no colo. Entreguei os guardanapos e ele lutava para conter a hemorragia. Fui atrás enquanto ele corria para o banheiro para jogar o sangue na pia.
— Isso nunca acontece comigo, cara — disse ele, com dificuldade para falar através do sangue que jorrava e do nariz entupido.
A pia branca rapidamente se encheu e ficou de um vermelho escuro enquanto os guardanapos e o papel higiênico encharcados falhavam em conter a torrente.
Saí do banheiro.
Depois de uns quinze minutos, Lonny voltou.
— Meu Deus, preciso sentar. Estou tonto. — Ele desabou no sofá, segurando um pano no rosto.
— Finalmente. Preciso mijar. — Levantei e fui andando para o banheiro.
— Desculpa pela bagunça aí dentro — disse ele, com um tom envergonhado.
Entrei no banheiro. Bagunça era pouco. Tinha sangue para todo lado. Na pia, no balcão. Uma poça já seca havia se formado no chão. O lugar inteiro fedia a ferro. A água da privada estava tingida de um vermelho doentio.
Quando olhei mais de perto, consegui distinguir um objeto no fundo da privada. Algo escuro, sua silhueta borrada pelos grumos de sangue.
Eu sei que é nojento, mas foi o que eu fiz. A curiosidade falou mais alto. Enfiei a mão na água morna e meus dedos se fecharam ao redor do objeto duro e fino. Puxei para fora.
Era um pequeno crucifixo de madeira, manchado de sangue. Do tipo que freiras usam. Deixei cair no chão, a cabeça rodando. Que porra era aquela? Tinha saído do nariz dele? Isso não fazia o menor sentido.
Virei-me e olhei para o espelho.
Uma sombra escura dançou subitamente sobre meu rosto. Cambaleei para trás. Meu estômago revirou. Eu precisava sair dali.
Saí tropeçando do banheiro, deixando um rastro de sangue a cada passo.
— Lonny, você está bem? Que merda era aquela na privada? — chamei por ele.
Ao entrar na sala, não vi ninguém. Lonny não estava no sofá, nem em lugar nenhum. Chamei mais algumas vezes sem resposta. Logo encontrei algumas gotas de sangue que formavam um rastro saindo do sofá e saindo da sala em direção ao corredor.
Passando pela cozinha, notei facilmente que a maior faca da cozinha tinha sumido do suporte. Engoli em seco e continuei até a escada.
Segui as gotas timidamente. Cada degrau que subia deixava minhas pernas mais trêmulas. Minha respiração ficou presa na garganta quando cheguei ao topo. Alguma coisa ali estava errada. Estava frio demais. Entrei no corredor e vi que as gotas vermelhas terminavam em frente a uma porta fechada de um dos quartos.
Bati na porta.
— Lonny? Você tá bem? — Minha voz saiu trêmula.
Nenhuma resposta. Minha mão nervosa alcançou a maçaneta. Tentei não entrar em pânico. Devia ser só um mal-entendido. Abri a porta.
Um vislumbre de algo pálido se escondendo atrás da estrutura da cama. Vi por uma fração de segundo, mas foi o suficiente para questionar minha sanidade.
— Lonny… para de me zoar. Por favor. — Não sei nem se as palavras saíram audíveis da minha boca.
Dei passos deliberados e nervosos até o lado da cama. Espiei com cuidado, o suficiente para revelar o que estava escondido.
Uma imitação branco-papel, fantasmagórica, do Lonny emergiu das sombras atrás da cama. Sangue continuava escorrendo do nariz — não, da boca também — e seus olhos vidrados e escuros se arregalaram ao me fixar como alvo.
A Coisa-Lonny arfou e saltou sobre mim, seus membros finos cortando o ar com algo antes que eu pudesse reagir. Uma dor quente irradiou do meu ombro enquanto eu cambaleava para trás, vendo a criatura disparar porta afora.
Apertando o ombro que sangrava, corri até a porta, vendo de relance a nuca dela desaparecendo escada abaixo. Fui atrás.
No pé da escada, um rastro fresco de sangue seguia o mesmo caminho do antigo. Refiz meus passos pela cozinha e pelo corredor, parando na entrada da sala.
A pele doentia da Coisa-Lonny era iluminada fracamente pelo brilho tremulante das velas, agachada no canto perto da TV. Seus olhos estavam cravados em mim.
— Só… calma. Foi só um jogo. Sua cabeça deve estar pregando peças em você. — Contra meu bom senso, fui me aproximando lentamente.
Ela estremeceu quando meus sapatos esmagaram os cacos soltos do espelho. Eu tinha percorrido quase metade da sala.
A criatura se lançou contra mim. A faca de cozinha refletiu a luz alaranjada direto nos meus olhos enquanto ela fechava a distância em uma fração de segundo.
Nós dois caíram no chão ao lado do espelho, os cacos cravando nas minhas costas. Arquejei e segurei seu pulso frágil quando a faca mergulhou em direção ao meu peito, parando a poucos centímetros. Em pânico, estendi a mão para o espelho e senti o peso familiar da pedra.
Arremessei-a contra a têmpora do monstro, ouvindo um estalo devastador. Ela rolou para fora de mim e caiu sobre o círculo de velas, apagando várias delas. Eu a prendi no chão.
Desci a pedra novamente com toda a força, abrindo uma depressão visível no crânio. Cada golpe seguinte apagava mais velas e tornava o ambiente mais frio.
Senti o corpo ficar mole quando dei o golpe final. A pedra cravada na testa foi a última coisa que vi antes da última vela se apagar.
Caí de lado, ofegando pesadamente. Após alguns momentos na escuridão total, minhas mãos escorregadias encontraram o chão e me levantei. Tateei em busca do interruptor.
Clique!
A luz invadiu minha visão, me cegando por alguns segundos. Quando meus olhos se ajustaram, testemunhei de verdade a cena catastrófica à minha frente.
Aproximei-me do corpo do Lonny. Bem diferente do espectro que eu tinha visto momentos antes, ele estava completamente normal. Sua pele tinha um tom mais escuro e os membros tinham espessura real.
Sua cabeça estava destruída. Totalmente afundada. Só conseguia distinguir uma massa disforme de fragmentos de osso, dentes, sangue, carne e massa encefálica. A pedra estava cravada bem no centro.
Minha cabeça girava tão violentamente que desabei no chão diante dele.
Virei o rosto, incapaz de encarar aquela visão terrível. Meus olhos recaíram sobre o espelho.
Meu reflexo estava fragmentado em pedaços confusos. Olhei ao longo do espelho e vi que ele estava completamente estilhaçado dos dois lados.
Desde então, tenho ficado trancado no meu quarto pensando no que fazer. Acho que matei meu amigo num surto de pavor cego. A polícia vai me levar embora. Eu sei que vai.
Deixo esta mensagem aqui para que vocês possam analisá-la. Julguem minha culpa. Por favor. Juro que não foi de propósito. Não foi.


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