Para deixar claro: tudo o que vem a seguir é uma recriação de um manuscrito, manuscrito de um médico escocês sem nome, cujas lembranças de um acontecimento me dão vontade de vomitar. Não sei se devo denunciar isso a alguém. Não sei de que ano é. Não está machucando ninguém, mas também não é algo que conforta ler.
— Isso pode surpreender muita gente, mas eu realmente sei da existência de um grupo isolado de cidadãos ingleses lá nos contrafortes distantes da Escócia, com um conjunto de valores familiares bastante… peculiar. Descobri a existência deles numa caminhada em busca de cardos para um chá medicinal herbal. Fui imediatamente atraído pelo barulho de panelas sendo batidas em algum lugar dentro de um campo de capim alto demais para parecer típico da Escócia. Intrigado, aproximei-me e escalei uma cerca branca de piquetes, só para dar de cara com um homem enorme martelando uma carrinho de mão enferrujado com o que era, sem dúvida, uma panela de ensopado. Fiz minha presença conhecida atrás dele, pigarreei e esperei que me notasse. Ele se levantou e girou o corpo. O que vi foi um homem de idade paternal, com suspensórios quase rasgados, uma camisa branca profundamente manchada, muito grande, barba cheia e cabelo grisalho todo emaranhado.
“Águias.”
Ele grunhiu para mim. Nossos olhares se cruzaram por alguns segundos antes que eu conseguisse responder.
“Como é?”
“Estão nos vigiando, sim senhor. Mas ainda bem que mal têm cérebro. Barulho alto assusta eles pra caralho, saem voando e nos deixam em paz.”
Parei por um instante curto, cauteloso, olhando para o céu — nada além de nuvens brancas começando a escurecer com a chuva que se aproximava. Ouvi um ruído à minha esquerda e meus olhos pousaram numa casa de pedra tosca e grande, com telhado de palha irregular. Uma mulher da mesma idade saiu pela porta da frente e atravessou o gramado seco até o homem.
“Puta que pariu, seu idiota filho da puta, não tem nada no céu!”
Uma mulher de meia-idade, mais ou menos da idade dele, empurrou-o e arrancou a panela de metal da mão dele.
“Vai se foder, Lennie! Essas são minhas panelas boas de cozinha! Faz três semanas que eu cozinho com as velhas!”
Para ser honesto, eu quase fiquei paralisado de medo. Mas a mulher — que logo descobri ser a esposa dele — notou minha presença ali parado ao lado dele no campo.
“As crianças brigaram o dia inteiro e você aí fora com minhas panelas boas tentando brigar com um bando de pássaros.”
A voz dela era estridente, e o grito feio saindo de um rosto igualmente feio me deixou ainda mais tenso.
“Enfia essa bunda pra dentro pra jantar, você e seu amigo aí.”
Meu coração pareceu parar quando ela me mencionou parado ali ao lado dele. Mas ela virou as costas para a casa, resmungando algo baixinho enquanto batia a porta com força.
“Gostaria de se juntar a nós pra uma refeição, senhor?”
Embora eu estivesse com fome — e mesmo que voltasse naquele exato momento ainda levaria horas até chegar às últimas casinhas de Edimburgo —, eu, vindo de Cardiff, já tinha ouvido muitos rumores fantasiosos sobre a sanidade mental dos moradores das colinas escocesas. Mas, até aquele momento, eu já tinha estado na Escócia várias vezes e nunca encontrado ninguém vivendo em tamanha desordem como aquela família.
O interior da casa quase me deu ânsia de vômito. Serviram a comida em pratos brancos amarelados por bactérias e resquícios de cola de quando já tinham sido quebrados antes. Era uma mistura de verduras cruas murchas, purê de batata insosso e pernas de bode cozidas sem tempero nenhum. Senti pena dos bodes: mais dois estavam em cima de um sofá de couro estofado com palha demais, transbordando. Bodes vivos dentro de casa, sem nenhum tipo de contenção, apenas vagando.
Sentada à minha frente estava a família propriamente dita. O sobrenome “Chapman” era comum e, ironicamente, parecia ser a única coisa normal sobre eles.
Três filhas. A mais nova, eu chutaria uns 6 anos, era chamada de “cavalo” pela própria família — e logo entendi o motivo.
A do meio, Eloise, talvez 13 anos, não sustentava contato visual comigo. Enquanto a família comia, ela tremia e fitava o prato. Não era tremor de medo. Era doença. Como médico, eu reconhecia o aspecto da enfermidade melhor do que ninguém. Não me surpreenderia se a família adoecesse com frequência por causa do estado deplorável da propriedade.
A mais velha, Aimee, era uma menina grande, talvez 16 anos. O cabelo ainda emaranhado, o cheiro igual ao do resto da família.
“Será que devo propor um brinde antes de começarmos? Quem sabe uma oração?”
Falei tentando iniciar alguma conversa, afinal, eles tinham me convidado para o jantar.
O homem que entrara comigo bateu a mão na mesa, bem em cima de um besouro que rastejava. Fechou a mão com força em volta dele.
“Não tem nada pra rezar. Aqui só tem a gente.”
Falou numa voz grave e irritada, levou a mão à boca e enfiou o besouro dentro.
“Lá vem ele de novo. Passa metade do dia falando com pássaros. Por que algum homem são deveria dar ouvidos a você, Kian?”
O grito agudo e perfurante da esposa quebrou o silêncio da mesa.
“Cala a boca, Madeleine.”
Mais uma vez quase congelei de medo. Mas nenhuma das três meninas deu bola para a briga. Eloise continuou tremendo, olhando para as próprias pernas magras embaixo da mesa. Eu não a culpava por não querer comer. Nem eu queria. A caçula, porém, enfiava a gororoba cozida na boca como um porco, acumulando mais gordura num corpo que, tão jovem, já era anormalmente obeso. Mal cabia na cadeira que a sustentava.
O jantar seguiu assim, comigo sutilmente mudando de assunto para o quanto eu gostava da casa grande deles nos contrafortes.
Depois do jantar — que eu não toquei —, Madeleine gritou para Kian me acompanhar até a borda do gramado. Assim que saímos pela frente, Kian recomeçou.
“Aquela velha bruxa que se comporte direito.”
Resmungou.
“Já peguei ela na nossa cama com homem pelo menos cinco vezes. É uma vadia traidora, é isso que ela é.”
Foi só nesse momento que notei outra coisa estranha no homem. Sua coluna estava curvada para trás de forma anormal, tão evidente que dava para perceber mesmo por cima da camisa.
“Você tem uma anormalidade bem pronunciada na coluna, Kian.”
Ele deu de ombros.
“No mundo da medicina a gente chama isso de escoliose.”
“A gente não precisa das suas agulhas malditas na nossa coluna, se é isso que você tá querendo.”
A voz dele voltou a ficar ríspida e curta, mas eu preferia falar da saúde dele do que ouvi-lo falar tão mal da esposa.
“Na verdade não é agulha. Se quiser, posso preparar uns remédios naturais e arrumar uma cinta para você ou para suas filhas corrigirem isso.”
“É assim que eles nos controlam. Amarram a gente em máquinas e sugam nossa humanidade.”
“Bem, de qualquer forma, desejo tudo de bom, Kian. Vou voltar a esses contrafortes daqui a uns meses atrás de mais ervas. Quem sabe nos encontramos de novo.”
Apertei a mão dele antes de iniciar minha caminhada de várias horas de volta aos arredores de Edimburgo.
O tempo passou desde meu último encontro com a profundamente excêntrica família Chapman. Eu me pegava pensando neles com frequência. Confesso, com culpa, que eles me divertiam. Uma família escocesa tão esquisita daria uma ótima peça cômica lá no sul, em Londres.
Minha profissão me levava de volta à Escócia com frequência por causa das ervas medicinais que só existiam ali. No caminho de volta de uma dessas viagens longas, notei o céu ficando laranja com o entardecer. A única marca de civilização nos meus olhos era a casa grande dos Chapman. Atravessei o campo seco da frente. O carrinho de mão de Kian ainda estava exatamente onde eu tinha visto um mês antes, mas ninguém do lado de fora. Bati educadamente na porta, segurando minha cesta de cardos na mão direita. Para minha surpresa, quem abriu não foi ninguém da família Chapman, e sim uma jovem de pele mais escura. Ela falou comigo numa língua que eu não entendia direito — espanhol ou talvez alguma língua nativa sul-americana que eu desconhecia.
“Vem.”
Foi a primeira palavra que entendi. Ela pegou a cesta da minha mão e me levou até a sala, onde vi Madeleine enfiando palha de volta no sofá de couro.
“Kian, desce aí e acomoda nosso novo convidado!”
Mais uma vez, o grito rouco dela cortou meus ouvidos. Kian desceu as escadas e me recebeu de forma mais calorosa que a esposa.
Explicou que a jovem que abriu a porta, Beatriz, era uma imigrante do Brasil que morava num vilarejo a alguns quilômetros a leste. Tinham se conhecido numa escola uns meses antes. Ofereceu-me uma cerveja de um cooler do lado de fora e sentamos na varanda. Conversamos até o sol tocar o horizonte. Mas logo ouvimos gritos dentro da casa — duas das filhas, talvez junto com a mãe eternamente furiosa, brigando por alguma coisa. Kian entrou, pediu que eu esperasse lá fora com minha bebida até ele acalmar tudo.
Lá no campo, bem ao longe, vi a filha do meio, Eloise, com Beatriz, a amiga da escola primária. Estavam muito próximas uma da outra. Obviamente, achavam que ninguém as via. O que aconteceu em seguida eu não descrevo: quando percebi a natureza da relação entre as duas jovens, baixei os olhos para a garrafa na minha mão. Nunca fui muito de rezar, mas admito que relações do mesmo sexo me parecem profundamente antinaturais.
De repente, uma das janelas circulares de vidro acima de mim estilhaçou. Demorei alguns segundos para reagir. Alguém tinha arremessado uma faca grande de açougueiro, que agora estava cravada numa das tábuas do deque externo. Não acredito que a faca era para mim. Ouvi Kian e Madeleine brigando mais claro do que nunca. Não era mais só verbal: era físico. Pelo som, era feio — gritos, tapas, bem na frente das crianças. Comecei a ficar muito preocupado com o ambiente em que aquelas crianças e pais viviam. Acho que vou procurar alguém para falar sobre essa casa em breve.
O padre Frederick Ward é um homem respeitável que conheço desde que me entendo por gente. Contei a ele sobre a casa dos Chapman, como os pais se batem e gritam na frente dos filhos, como a casa inteira está em ruínas. E também sobre o que vi entre Eloise e a outra jovem.
Claro que, como padre e como amigo de anos, ele se dispôs imediatamente a visitar os Chapman.
Meu próximo retorno à propriedade veio com uma urgência diferente. Eu precisava ter certeza absoluta de que as crianças não estavam sendo machucadas. Atrasar nem que fosse poucos dias poderia mudar tudo.
Frederick ficou horrorizado com o estado do interior, como eu já esperava. Beatriz abriu a porta para nós. Perguntamos a Kian se ele se importava de sentar enquanto conversávamos. Frederick colocou sua Bíblia sobre a mesa da sala de jantar.
“Você me toma por homem de oração?”
“Seja ou não, esta casa não está em condições de criar crianças.”
Kian gritou para Madeleine vir à cozinha.
“Seu filho da puta, vocês não podem levar nossas crianças! Não têm direito! Kian, não deixa eles!”
Foi tudo o que lembro. A coisa escalou rápido. Levei várias cadeiradas na cabeça. Não sei o que aconteceu com Frederick até eu recuperar os sentidos.
Minhas mãos e pés estavam amarrados na sala. A filha mais velha e Eloise, a do meio, estavam agachadas sobre mim.
“Ele acordou.”
Disse a mais velha.
“Aquele que tentou nos tirar daqui.”
Eloise falou com um ceceio grosso, como se a língua fosse grande demais para a boca. Usava óculos grossos e quebrados que eu não tinha notado antes.
Minha cabeça latejava de dor intensa. Madeleine entrou e gritou comigo outra vez.
A caçula estava deitada do outro lado da sala; só notei quando ela se sentou e vomitou no chão.
Madeleine virou-se de mim e colocou a mão na testa da filha.
“A febre ainda está alta.”
O trauma na cabeça me fez apagar por mais umas cinco horas e meia, eu acho. Quando voltei a mim, conseguia pensar com mais clareza. A cabeça ainda doía, mas eu não estava mais delirando. Fui acordado por Eloise vomitando no chão do outro lado. Ela se deitou ao lado da irmã mais nova, agora quase sem vida.
Gritei para elas. Vendo Frederick ainda desacordado ao meu lado, implorei para Eloise me desamarrar. Ela tremia no chão do outro lado da sala, consciente, mas por um fio. Sabia que me ouvia. Insisti até ela reagir.
Ela gritou palavras doentias e magras demais para entender. Estava claramente agitada. Entrou na cozinha correndo e voltou empunhando uma lâmina. Tentei recuar, mas nem conseguia me levantar. Ela estendeu o próprio pulso na minha frente e cortou o braço. O sangue jorrou enquanto eu gritava para ela parar. Com as mãos ensanguentadas, esfregou o próprio sangue no meu rosto. Gritava uma enxurrada feia e agonizante de palavras. Virou-se e vomitou de novo no chão. As pernas fracas tentaram levá-la de volta para perto da irmã quase morta, mas depois de meio passo a cabeça dela bateu no chão. Um olho morto aberto, olhando para mim.
Forcei o pé para puxar a lâmina até mim. Só o suficiente para pegá-la e cortar as amarras dos pés, depois as das mãos. Tentei ser rápido para que Madeleine ou Kian não me encontrassem. Soltei Frederick e passei um dos braços dele pelo meu ombro. Arrastando-nos até a porta da frente. Tanto Kian quanto Madeleine estavam imóveis no cômodo ao lado daquele onde eu tinha sido amarrado. Saímos pela porta e desabamos na grama molhada e doce.
Não lembro de muitos detalhes do dia em que fomos sequestrados. Bloqueei grande parte daquilo da mente. Mas assim que Frederick recuperou a consciência, ele me disse algo que vive na minha cabeça para sempre.
“Deus não está naquela casa. Deus não está com nenhum deles. São todos rejeitados amaldiçoados pela mão Dele.”


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