segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Algo estranho está acontecendo na casa da minha falecida avó esta noite

Nunca imaginei que voltaria à casa da vovó. Não depois que ela morreu, não depois que os pesadelos começaram. Mas aqui estou eu, remexendo móveis empoeirados e fotografias desbotadas, tentando dar sentido à vida que ela deixou para trás. O ar cheira a naftalina e carpete velho, aquele tipo de cheiro que gruda nos pulmões e se recusa a sair.

Enquanto atravesso a sala, uma lembrança me atinge, afiada e indesejada. Tenho seis anos outra vez, pequeno e apavorado, a voz cortante da minha avó ecoando enquanto ela me empurra para dentro do armário. Ela dizia que era para o meu bem, que eu precisava aprender paciência, ou maneiras, ou sei lá o quê. Mas eu sabia que não era verdade.

Dentro daquele armário, eu ficava com a boneca. Aquela que ela mantinha encostada no canto. Tamanho natural, rosto de porcelana, olhos grandes demais, reais demais. Eu jurava que ela se mexia quando eu piscava — uma mão deslizando um pouco, a cabeça inclinando-se apenas o suficiente para me flagrar olhando. Dizia a mim mesmo que era só imaginação. Mas meu eu de seis anos sabia.

Dou uma risada nervosa para mim mesmo e sigo pelo corredor estreito em direção ao antigo quarto de hóspedes. O armário ainda está lá. A porta parece a mesma, arranhada na parte de baixo, a maçaneta de latão manchada pelo tempo. Meu coração acelera.

Estendo a mão para a maçaneta.

Lá dentro está escuro. A silhueta é inconfundível. A boneca. Meu estômago despenca. Ela está parada ali, exatamente como eu lembrava, me encarando com aquele sorriso impossível, paciente.

Dou um passo à frente. Minha mão roça o batente. A porta do armário se fecha atrás de mim com um estalo.

Tento abri-la. Ela não se mexe.

A escuridão aperta, mais densa que o ar lá fora. Minha respiração sai em golfadas curtas e rasgadas. Então eu escuto: um rangido leve, como se a boneca estivesse se mexendo, virando a cabeça.

Estou preso. E de repente percebo que nunca saí daquele armário.

Minhas unhas raspam na madeira velha enquanto puxo a maçaneta com força. Por um segundo nauseante tenho certeza de que ela não vai abrir, de que vou morrer aqui dentro com a coisa que temo desde criança. Então, com um gemido rouco, a porta finalmente cede e eu tropeço para trás, caindo no quarto.

A boneca despenca para a frente. Seus membros de porcelana batem nas tábuas do assoalho com um estalo seco.

Ela não está mais sorrindo.

O rosto antes paciente agora está contorcido, a mandíbula entreaberta revelando dentes esculpidos de leve, os olhos pintados estreitados numa expressão que só consigo descrever como fúria. Os lábios, rachados pelo tempo, parecem prestes a se rasgar e soltar um grito.

Não fico para descobrir. Corro.

Já estou na metade do corredor quando percebo que estou indo em direção à cozinha. O cheiro de especiarias velhas e café requentado me atinge — um aroma tão impregnado nas paredes que parece eterno. Meu coração martela tão forte que parece que a casa consegue ouvir.

E então eu vejo.

Sobre o balcão, entre uma pilha de jornais amarelados e uma torradeira desligada, está um brinquedo que não vejo há trinta anos. Um boneco Pillsbury Doughboy de plástico grosso e oco. Suas mãozinhas congeladas num aceno ridículo, o chapeuzinho de chef ridiculamente torto na cabeça.

Minhas pernas fraquejam. De repente tenho sete anos outra vez.

Eu consigo ouvir, mesmo agora: o leve toc-toc-toc de pezinhos de plástico correndo pelo linóleo à noite. A risadinha. Aquele “hu-hu-hu” agudo ecoando da cozinha escura enquanto todos dormiam. Eu contava para a vovó. Ficava ali tremendo, apontando para ele enquanto o boneco ria e dava voltas em torno das pernas dela.

Ela me dava tapa por mentir.

Não porque fosse cruel, mas porque ela não conseguia ver. Para ela, o Doughboy estava sempre exatamente onde ela o deixava, mudo e inofensivo sobre o balcão. Ela achava que eu inventava monstros onde não havia nenhum.

Mas eu me lembro do olhar no rosto dela às vezes, logo antes de bater. Confuso. Quase assustado. Como se soubesse que algo estava errado, só não soubesse o quê.

Um som me arranca da lembrança. Um baque do lado de fora. Pesado. Como se algo tivesse batido na parede logo abaixo da janela da cozinha.

Viro-me rápido, puxo a cortina. Nada. Apenas o quintal morto e os restos esqueléticos dos roseirais dela.

Quando me viro de volta, a cabeça do Doughboy sumiu.

Está ali ao lado do corpo do brinquedo, separada limpa, como se alguém tivesse arrancado como se abre uma garrafa.

E o corpinho oco continua de pé, perfeitamente ereto.

Preciso sair da cozinha. Sair da casa. Mas algo dentro de mim diz para não correr. Talvez orgulho. Talvez costume. Talvez a voz da vovó, aquela que ainda ouço no sono às vezes, dizendo que medo só alimenta certas coisas.

Volto à sala forçando os pés, tentando ignorar o barulho do meu próprio coração. O cheiro de poeira e naftalina gruda em tudo. Pego uma caixa de papelão perto do sofá e começo a jogar os bibelôs dela lá dentro só para manter as mãos ocupadas. Xícaras de porcelana. Um globo de neve rachado. Uma dúzia de bonequinhos que ela mantinha numa prateleira que eu nunca podia tocar.

Coisas normais. Coisas seguras. Me agarro ao movimento como se fosse um ritual.

Enquanto embrulho cada peça em jornal amarelado, outra lembrança sobe. Vovó sentada na poltrona de madrugada, fumando um cigarro atrás do outro com as luzes apagadas, só o brilho da TV iluminando. O cheiro de café sempre por perto, escuro e amargo, mesmo em horas que ninguém deveria estar acordado.

Ela me contava coisas naquela época. Metade canções de ninar, metade avisos.

“Eu sei como amarrar meu espírito a um objeto”, ela disse uma vez, a voz baixa e rouca. “Quando eu partir, posso ficar neste plano. Vigiar você. Proteger você das coisas feias que rastejam quando ninguém está olhando.”

Achei que ela só estava me assustando, ou tentando parecer importante. Ela até me mostrou uma vez. Encostou a mão num dos bibelôs — um gato de porcelana, um dedal de prata — e sussurrou algo baixinho. Palavras que faziam o ar ficar apertado e errado.

Ela dizia que os objetos eram seus olhos. Suas mãos.

Agora, embalando esses mesmos bibelôs, percebo algo. Eles estão quentes. Não quentes da casa. Quentes como pele.

Deixo um cair na caixa e ele tilinta contra os outros. Juro que escuto algo se mexer na sala ao lado. Como uma cadeira sendo arrastada devagar pelo chão. Algo andando de um lado para o outro.

Vovó sempre dizia que o mundo estava cheio de coisas que gostavam de crianças porque eram fáceis de enganar. Dizia que armários eram portas e brinquedos eram convites.

Dizia que nunca me deixaria sozinho.

Dizia que estaria aqui quando o mundo ficasse feio.

E de repente tudo se encaixa. Talvez ela não estivesse mentindo. Talvez estivesse mantendo certas coisas ocupadas.

Fico paralisado quando escuto: o gorgolejar suave de uma cafeteira borbulhando na cozinha. O cheiro me atinge primeiro, denso e escuro, quase preto, serpenteando pelo ar parado como se nunca tivesse ido embora.

Caminho na direção do som, cada músculo gritando para não ir, e empurro a porta da cozinha.

A visão quase para meu coração.

A boneca está sentada numa das cadeiras da cozinha, o rosto ainda retorcido de raiva, mandíbula travada, olhos queimando como brasas. O Pillsbury Doughboy está na mesa, sem cabeça, o corpinho oco rígido, vibrando de leve, como se quisesse se mexer mas soubesse que não deve.

E lá está ela.

Minha avó está de pé junto ao balcão, cigarro queimando entre os dedos, servindo café em duas canecas como se fosse uma noite qualquer. Ela parece sólida, familiar, real. Só a sombra entrega.

No começo ela imita os movimentos dela. Depois não imita mais. Estica demais, dobra no ângulo errado, enrola-se nas rodapés como algo vivo, algo que vigia as portas em vez de mim.

“Para de mijar nas calças, John”, ela diz, voz baixa e quase divertida. “Vem tomar um café.”

A boneca solta um som fino, um gemido furioso. O Doughboy treme uma vez e fica imóvel.

Vovó nem olha para eles. Mas a sombra se alarga, bloqueando o corredor, os armários, todas as aberturas escuras da casa.

O cheiro de café é inebriante. Quente. Familiar. Seguro de um jeito que nada mais aqui é. Meu coração ainda dispara, mas contra toda razão, contra todo medo, algo em mim dá um passo à frente.

Os olhos dela encontram os meus. São os mesmos olhos que eu lembro, afiados, cansados e carinhosos de um jeito que sempre doía. Mas agora há algo mais ali. Algo paciente. Algo que está de guarda há muito, muito tempo.

Percebo então que os brinquedos nunca foram dela.

Eram isca.

E ela nunca foi embora porque não podia se dar ao luxo.

Ela dá uma tragada longa no cigarro e solta a fumaça devagar, como um aviso.

“Você está muito velho agora”, ela diz baixinho. “Eles estão começando a te notar de novo.”

Ela desliza uma caneca pela mesa na minha direção.

“Senta. Bebe. Eu venho segurando eles o máximo que consigo.”

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