quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Acabei de assistir a um vídeo na antiga filmadora do meu pai. Nunca deveria ter retornado para a casa da minha infância, trazendo junto minha esposa e meu filho

Minha esposa, Melissa, e meu filho, Sean, estão arrumando as malas enquanto eu escrevo isso. Eles acham que eu estou ficando louco, e eu vou deixar que continuem a acreditar nisso, porque de maneira alguma eu vou deixar que eles assistam a esse vídeo. Claro, não sei se isso vai protegê-los do que eu acabei de ver no vídeo... e além dele.

Meu pai se matou no dia do meu sétimo aniversário, por isso existem vazios na minha memória; na verdade, ela só voltou a funcionar corretamente depois que eu saí daquela casa. Disseram-me que isso é normal. Disseram-me que a tempestade ensurdecedora que ruge incessantemente dentro da minha cabeça é apenas um mecanismo de defesa contra o trauma. Disseram-me que as lembranças não desapareceram de verdade - elas estão apenas trancadas pela minha própria mente.

Acho que a fita acabou de arrombar essa fechadura.

Minha mãe morreu no ano passado e me deixou a casa da família. Sean estava animado para morar na antiga casa da avó, talvez para segurar o último pedaço dela que ainda restava. Eu concordei. Porque eu não sabia das coisas que estavam naquela fita.

Ou porque eu havia esquecido.

Estamos aqui há apenas algumas semanas. Hoje eu estava no sótão, ainda separando as coisas antigas da minha mãe em pilhas de "vender" e "guardar", quando encontrei a velha filmadora da família. Eu a liguei e fiquei abismado ao vê-la funcionar, depois de quase trinta anos parada.

O vídeo começava em 1995, no meu sexto aniversário. Onze amigos estavam reunidos em volta da mesa da cozinha, babando por um bolo com "Feliz Aniversário, Philip" escrito em glacê. Minha mãe estava filmando enquanto meu pai cortava o bolo e...

Acho que a câmera estava quebrada, afinal.

Foi o primeiro pensamento que tive, porque, espiando por trás do meu pai, repetindo cada movimento dele enquanto ele cortava o bolo, havia um segundo pai.

Parecia que ele estava diante de um espelho infinito, com um reflexo dele se projetando para a esquerda e para trás. Imaginei que poderia haver um terceiro pai, um quarto, e assim por diante... mas eram apenas dois: um atrás do outro. O efeito de duplicação tinha que ser um defeito; afinal, a câmera passou décadas dentro de uma caixa de papelão, cobrindo-se de poeira enquanto as partes internas enferrujavam.

Mas quando foquei no rosto do clone, percebi que não era uma cópia exata. Os membros do clone se moviam em sincronia com os do meu pai, mas o rosto daquele fantoche era completamente diferente. Estava amassado, e não de um jeito humano - parecia papel amassado; as dobras da carne eram pesadas demais, antinaturais, francamente impossíveis. Todos os traços faciais estavam soterrados, exceto os lábios, que tremiam de raiva. O segundo pai estava distorcido, nada parecido consigo mesmo, mas havia definição e clareza demais naquele rosto para ser apenas um erro de gravação.

Meus próprios membros ficaram pesados, como se estivessem ganhando dobras próprias, e o medo me prendeu ao carpete do corredor. Fiquei paralisado ali, incapaz de fazer qualquer coisa além de continuar assistindo.

A gravação pulou para dezembro. Eu estava sentado ao pé da árvore de Natal, de macacãozinho vermelho com desenhos de renas, abrindo presentes com meu irmão mais novo. Meu coração saltou para a garganta quando algo se mexeu entre os pinheiros, mas o eu de seis anos estava alheio; estava muito encantado com os presentes para notar uma manga vermelha com renas - idêntica à dele - estendendo-se em sua direção entre os galhos. Aquilo queria se prender a mim, exatamente como a cópia do meu pai havia se prendido a ele.

"O que é iss—" ouvi minha mãe começar a dizer por trás da câmera.

Quando a gravação avançou, meu coração não desceu; estava batendo na minha língua e dentro dos meus ouvidos. Era 1996. Eu estava sentado em uma mesa de piquenique no parque com meus pais, a câmera apoiada em algo na mesa, filmando nós três. Eu me lembrava disso. Por que eu me lembrava exatamente disso, se eu não me lembrava de mais nada da minha infância?

Meu pai estava estranho. Só havia um dele dessa vez, mas ele estava tão pálido. Parecia doente. O pequeno Philip estava ocupado demais comendo o sanduíche para notar, mas minha mãe parecia nervosa. Ela sabia que havia algo errado com ele.

Ela tentou disfarçar, é claro, sorrindo sem convicção para nós dois. "É o sétimo aniversário do Philip." Meu Deus. "Diga algo engraçado para a câmera, papai."

Ele olhou diretamente para a lente, quase como se estivesse vendo o eu de hoje, trinta anos no futuro. Mas ele não disse nada. O sorriso da minha mãe vacilou; ela se recostou no banco e olhou atrás do meu pai, como se procurasse algo; aquilo que costumava se esconder atrás dele, talvez. Aquele segundo rosto.

"Você está bem?", ela perguntou baixinho. "Você disse que ia melhorar se saíssemos de casa. Você disse que ia voltar a ser... você mesmo."

Meu pai agiu tão rápido que quase deixei a câmera cair de susto. Ele enrolou as mãos no pescoço da minha mãe e eu gritei - tanto no presente quanto no passado.

De trás de uma árvore próxima, disparou um braço de manga curta, idêntico ao que o pequeno Philip usava. Era a coisa da árvore de Natal. A mão clonada passou o indicador pelo ar e conduziu o meu eu mais novo a enxugar os olhos e ficar quieto. Ele obedeceu, tornando-se tão frio e vazio quanto o papai que estava estrangulando a mamãe. Mas momentos antes de a vida deixar completamente o corpo dela, meu pai parou, como se uma nova vontade o tivesse hipnotizado.

Eu sei por que me lembro disso.

Ele se levantou. Minha mãe estendeu os braços quase sem força e puxou o eu criança para si. Então meu pai remexeu na cesta de piquenique e pegou uma faca de cozinha que provavelmente trouxera para cortar o bolo. Ele não a usou na torta. Nem na mamãe. Nem no pequeno Philip.

Ele levou a lâmina ao próprio pescoço.

Eu deixei a câmera cair. Um peso desabou sobre meus ombros, braços, costas e pernas - mas não era um peso que você pode sacudir. Mesmo me levantando, sentia algo me puxando de volta para baixo. Algo que estava à espreita logo atrás do meu ombro desde que trouxe Melissa e Sean para a casa da minha infância. Algo que eu havia esquecido daqueles dias enevoados da infância, antes de ir embora.

Antes de ir embora.

Percebi tarde demais que minha família não estava segura ali. Virei-me para o espelho pendurado na parede atrás de mim e olhei, como meu pai havia olhado, para o começo do infinito; logo atrás do meu ombro direito, ali estava uma cópia de mim com o rosto amassado. Eu não me lembrava de aquilo nunca ter grudado tão pesado em mim antes... mas, claro, eu não me lembrava de quase nada da minha juventude.

Abri a boca para gritar, mas a mão da coisa cobriu meus lábios e senti uma dor escaldante quando o Segundo Philip pressionou sua pele de argila contra a minha, tentando se fundir a mim.

Eu puxei aquela mão e gritei, tropeçando pelo corredor de cima justo quando Sean apareceu no pé da escada. Num instante, o clone de mim desapareceu. Mas eu vi o que vi nos olhos do meu menino de dez anos: puro terror. Ele deve ter vislumbrado, talvez por menos de um segundo, algo atrás do meu ombro.

"Pai... O que foi..."

"Arrumem as coisas", interrompi, com a metade inferior do rosto ainda queimando do aperto daquela coisa. "AGORA."

E aqui estamos. Estou parado na porta da frente, um pé já do lado de fora, apressando minha família. Mal consigo respirar. Precisamos sair.

Minha esposa não para de perguntar sobre as queimaduras de segundo grau em volta da minha boca, mas não há como explicar. Meu menino só fica me olhando com aqueles olhos assombrados. Só preciso tirá-los daqui. Espero que aquela coisa se solte de mim assim que estivermos longe o suficiente, como aconteceu quando eu era menino e fui embora; minha cabeça vai clarear e isso vai acabar.

Eu não vou acabar como meu pai.

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