Eu tinha acabado de me formar na faculdade, mas mesmo depois de incontáveis entrevistas, não conseguia arrumar um emprego decente. Meu pai me aconselhou a estudar para concursos públicos, então, junto com os estudos, comecei a dar aulas particulares para crianças pra pagar minhas próprias contas. Mas o dinheiro mal dava pra sobreviver. Em casa as coisas estavam apertadas financeiramente, e como filho único, o peso da responsabilidade parecia me esmagar todo dia. Eu passava as manhãs fuçando os classificados dos jornais, procurando desesperado qualquer vaga de meio período.
Um dia, enquanto lia o jornal como sempre, encontrei algo. O trabalho parecia ridiculamente fácil e o pagamento era bom demais: era só alimentar um cachorro. Liguei na hora. O homem me chamou pra ir até a casa dele. Fui imediatamente.
Entre prédios enormes e modernos, escondido, havia um prédio pequeno e decadente. A cor da fachada tinha desaparecido há muito tempo, as janelas estavam cobertas por uma crosta grossa de poeira, e o portão parecia não ter sido aberto em décadas. Bati. A porta rangeu devagar, com um som arranhado e úmido. Um rapaz mais ou menos da minha idade apareceu e fez sinal pra eu entrar.
Assim que pisei lá dentro, um cheiro podre me acertou em cheio — parecia que cem ratos tinham morrido e sido enterrados juntos debaixo do assoalho.
Então vi o cachorro. Ele latia com fúria, mas estranhamente… latia para o próprio dono.
“Ele tá latindo pra você”, eu disse, com um sorriso nervoso.
O homem nem olhou pra mim.
“A comida dele sempre fica nessa geladeira”, falou seco. “Você vem toda noite às dez em ponto, dá a comida e vai embora.”
Foi quando percebi duas figuras sentadas no sofá.
De costas pra mim.
“São seus pais?”, perguntei.
“Shhh! Fica quieto!” ele sibilou. A respiração dele ficou pesada, irregular de repente.
“Esteja aqui às dez. Alimenta o cachorro e sai antes das dez e dez. Não fala com eles. Nunca.”
“Tá bom, entendi”, respondi, tentando parecer calmo, embora minha pele já estivesse arrepiada.
Comecei no dia seguinte. Exatamente como ele mandou: entrava sem bater, pegava a comida na geladeira, dava pro cachorro e saía. Toda vez que a porta abria, o cachorro se debatia loucamente tentando fugir pra rua, mas eu não podia deixar — o homem tinha proibido terminantemente. Isso durou um mês e meio. O pagamento aparecia religiosamente em cima da geladeira toda semana.
Mas naquela noite tudo mudou.
Coloquei a comida no chão, mas o cachorro nem olhou.
“Que foi, parceiro?”, sussurrei.
Senti pena dele. Pensei: cinco minutos de passeio não vão fazer mal. Peguei a guia na mesa, prendi no pescoço dele. Os pais continuavam imóveis no sofá, como sempre.
“Só vou levar seu cachorro pra dar uma volta rapidinha de cinco minutos, não se preocupem!” gritei.
Como sempre, nenhuma reação. Nem um músculo.
Lá fora o cachorro ficou louco de felicidade. Mas nem dois minutos depois meu celular tocou.
“Por que você tirou ele de casa?” a voz dele sibilou no ouvido.
“Ele sempre quis sair, achei que uma voltinha rápida…”
“POR QUÊ?!” ele gritou.
Assustado, falei que ia voltar imediatamente e desliguei.
O cachorro começou a resistir, latindo pra mim, se debatendo contra a guia enquanto eu o arrastava de volta. Quando entramos, já eram 22:13.
Fui soltar a guia… e gritei.
Não tinha cachorro.
Aos meus pés estava apenas o esqueleto podre, mumificado, de um animal morto há muito tempo.
Meu coração quase parou.
“Como assim? Ele tava bem agora há pouco!”
Olhei pro sofá.
Os pais tinham sumido.
De repente todas as luzes da casa se apagaram… menos a que estava exatamente em cima de mim.
Corri pra porta. Enquanto corria, as luzes atrás de mim iam morrendo uma a uma, e as da frente acendiam sozinhas. Quando finalmente cheguei à saída, as luzes se estabilizaram… e lá estavam eles.
Os pais. Parados bem na minha frente.
Não estavam vivos. Eram cadáveres animados.
Desabei de pavor e rastejei em direção às janelas… mas as janelas tinham desaparecido.
Eu estava preso.
Encolhi-me no chão, cobrindo a cabeça com as mãos.
“Por favor… não me machuquem!”
“Ele tem a mesma idade do nosso filho”, a voz rouca do velho arranhou o ar.
“Olha como é bonito”, a velha acrescentou. “Se nosso menino ainda estivesse aqui, seria exatamente assim.”
Levantei devagar os olhos. Agora pareciam… pessoas normais.
“Mas… mas foi o filho de vocês que me contratou!” gaguejei.
O velho me olhou com uma tristeza profunda.
“Nosso filho nos deixou… e a casa está vazia desde então.”
“Você ainda mora com seus pais?”, a mulher perguntou, com uma curiosidade doentia na voz trêmula.
“Sim”, respondi, tremendo. “Sou filho único… tenho que cuidar deles.”
Os olhos dos dois se encheram de lágrimas ao mesmo tempo.
“Que menino responsável”, sussurrou o velho.
“Gosto muito dele”, a mulher acrescentou, com um sorriso torto se formando no rosto.
E então, juntos, falaram:
“Queremos esse.”
“O quê?”, engasguei.
Bem na minha frente, a pele deles começou a apodrecer de novo, descascando, voltando a ser carne cinzenta e afundada de cadáver.
As luzes se apagaram de uma vez.
No breu absoluto, ouvi uma ordem fria e arranhada:
“Tranca ele no porão.”
Fui agarrado e arrastado pelo chão. Lutei, mas a força era de ferro. Me jogaram escada abaixo. Caí rolando na escuridão. Ouvi o baque pesado da porta sendo trancada por fora.
Quando tentei me levantar, percebi que não tinha caído no chão frio.
Tinha caído em cima de alguém. Um homem.
Uma luz fraca acendeu do lado de fora. Meus olhos se ajustaram… e eu engasguei de horror puro.
O porão estava cheio de corpos.
Todos rapazes da minha idade.
O homem em que eu tinha caído… era exatamente o que me contratou.
Rastejei pra trás, colando as costas na porta trancada, tremendo inteiro. Peguei o celular — sem sinal.
Lá dentro parecia que o mundo tinha sido desligado. O tempo se esticava — cada minuto parecia uma hora de agonia. O fedor de decomposição sufocava.
Passaram horas...
Quando o dia finalmente clareou, a porta rangeu e abriu.
Aquele cachorro esquelético e podre entrou.
Fiquei paralisado.
“Comam todos… menos esse menino!” ordenaram do corredor.
A criatura começou a rasgar rostos e carne dos cadáveres. Eu assistia, sem conseguir desviar o olhar, enquanto ela devorava um por um. Ao cair da noite, até o sangue tinha sido lambido do chão. Antes de sair, o cachorro parou e me encarou. Desviei os olhos. Ele sumiu de volta pra casa.
Depois entraram o velho e a velha.
Me arrastaram até a sala e me amarraram com força no sofá.
“Por favor… me soltem!” solucei.
A mulher ergueu uma corda de enforcar.
“Quanto tempo leva pra ele morrer com isso?”
“Cinco minutos”, respondeu o velho. “Tem que ser no horário exato… pra ele não ficar pra trás. Nunca vamos nos separar nem por um segundo.”
Eram 21:55.
As luzes se apagaram.
No escuro total senti a corda áspera apertando minha garganta.
Não consegui nem gritar.
Chutei o ar, lutei por um fiapo de oxigênio, a pressão esmagando minha traqueia. Meu mundo se resumiu ao som desesperado do meu próprio coração… até que, enfim, não havia mais nada.
Quando meus olhos se abriram de novo,
eu só sabia que aquelas eram minhas mães e meu pai, e que eu morava aqui com eles.


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