Preciso escrever isso porque não sei mais pra quem contar. Minha esposa acha que estou pirando. Talvez eu esteja mesmo. Mas eu sei o que vi, e preciso que alguém — qualquer um — me diga que não estou louco.
Minha filha Betsy tem seis anos. Ela está naquela fase em que desenha tudo. O cachorro, a professora, nossa casa — qualquer coisa. A geladeira virou um mural de giz de cera. Eu adoro. Cada bonequinho de palito com cabelo de espaguete desgrenhado me faz sorrir. É o que pais fazem. A gente cola os desenhos e diz que está lindo, e a gente fala sério.
Há três semanas, Betsy me entregou um desenho da nossa casa. Estava bom, pra uma criança de seis anos. Acertou a cor — aquele azul desbotado do revestimento de vinil que a gente vive dizendo que vai trocar. Desenhou a porta da frente vermelha, as duas janelas grandes no térreo, as duas no andar de cima e a pequena saída de ar redonda do sótão perto do topo.
Só que ela também desenhou uma janela no andar de cima que não existe.
No começo nem liguei. Ela tem seis anos. Crianças inventam coisas. Colocam chaminé em casa térrea e dão cinco pernas pro cachorro. Colei na geladeira com um imã de joaninha e esqueci.
Dois dias depois ela desenhou a casa de novo. Mesma janela. Mesmo lugar — entre o nosso quarto e o banheiro, na parede que dá pro lado leste. Na vida real, aquela parede é só drywall do nosso lado e revestimento do lado de fora. Sem janela. Nunca teve. Conferi as fotos do anúncio original de quando compramos a casa em 2019. Sem janela.
Perguntei pra ela.
“Betsy, o que é essa janela aqui?”
Ela nem levantou os olhos do colorir.
“É a janela onde o homem fica olhando.”
Eu queria dizer que meu sangue gelou ou sei lá que frase de história de terror. Não gelou. Fiquei irritado. Pensei que alguma amiga da escola tinha enchido a cabeça dela com história de fantasma de novo, ou que ela viu alguma coisa naquele maldito iPad quando a gente não estava olhando. Criança fala coisa macabra o tempo todo. Tenho um amigo cujo filho de quatro anos disse: “você era mais legal na sua outra vida”. Criança é assim.
“Que homem, meu amor?”
“O homem que mora no meio.”
Perguntei o que era “o meio”. Ela deu de ombros daquele jeito que criança dá quando cansou do assunto. Voltou a colocar bolinhas roxas no dinossauro. Deixei pra lá.
Não devia ter deixado.
Um pouco de contexto sobre a casa. É uma colonial de 1987 num condomínio nos arredores de Raleigh. Quatro quartos, dois banheiros e meio, 223 metros quadrados. Quando mudamos, os antigos donos já tinham reformado a cozinha e os dois banheiros. O resto era original — inclusive, supostamente, o layout.
A parede que a Betsy insiste em desenhar a janela fica entre o nosso quarto de casal e o banheiro do corredor. Do nosso lado tem uma cômoda encostada. Do lado do banheiro tem o armário de roupas de cama. Em cinco anos aqui nunca dei bola pra isso.
Depois do segundo desenho, subi e parei no corredor. Olhei pra parede. Tem uns três metros e meio, mais ou menos, da porta do banheiro até onde encontra a parede externa. O armário de linho ocupa uns noventa centímetros. A cômoda do quarto cobre mais ou menos um metro e vinte do lado de dentro.
Sobram uns um metro e meio de parede sem nada encostado dos dois lados.
Bati nela. Não sei por quê. Acho que esperava me sentir ridículo e seguir em frente.
O som era diferente.
As paredes internas são drywall padrão sobre montantes. Você bate e vem aquele eco oco que todo mundo conhece. Esse trecho — o trecho sem nada dos dois lados — não fez eco. Foi mais grave. Mais surdo. Como se tivesse mais ar atrás do que deveria.
Falei pra mim mesmo que era provavelmente diferença de isolamento. Talvez tivesse uma tubulação passando ali. Talvez os montantes estivessem mais espaçados naquela parte. Casa antiga é esquisita. A nossa nem é tão antiga assim, mas tanto faz. Engoli a explicação e segui.
Depois saí pra fora.
Não sei o que me deu. Alguma parte teimosa do cérebro, talvez. Saí pela porta da frente, desci a entrada de carros e virei pra olhar o lado leste da casa. Contei as janelas.
Térreo: janela da cozinha, janela da sala de jantar. Certo.
Andar de cima: janela do quarto principal, janela do banheiro, janela do quarto de hóspedes. Certo.
E uns um metro e meio de revestimento liso entre a janela do quarto e a do banheiro. Só vinil. Sem janela. Sem remendo. Sem contorno de nada que já tenha sido janela.
Mas fiquei olhando e juro por Deus: o espaçamento estava errado.
Vou explicar. Numa casa como a nossa, as janelas são distribuídas de forma equilibrada. Elas se alinham com os cômodos e os vãos entre elas são proporcionais. Só que o vão entre a janela do quarto e a do banheiro era maior do que deveria. Não muito. Talvez uns sessenta centímetros. Mas uma vez que vi, não consegui deixar de ver.
Sessenta centímetros não é muita coisa numa parede. Mas sessenta centímetros dá pra caber alguma coisa entre elas.
Naquela noite não preguei o olho. Fiquei deitado olhando pro teto enquanto minha esposa Chiara respirava devagar e ritmado do meu lado. Ficava fazendo conta na cabeça. O quarto principal tem quatro metros e vinte de largura. O banheiro tem dois metros e quarenta. O corredor tem um metro e dez. Total: sete metros e setenta de espaço interno.
Levantei, desci, abri o notebook e puxei os registros do condado. A planta da casa mostrava o segundo andar com nove metros e quarenta e cinco no eixo leste-oeste.
Fiz a conta quatro vezes. Sempre dava o mesmo resultado.
Tinham cinco metros e meio sobrando naquela parede.
Não dois. Não um duto. Cinco metros e meio.
Às duas da manhã subi de novo com uma trena. Medi parede a parede do quarto: quatro metros e vinte e cinco. Corredor: um metro e doze. Banheiro: dois metros e quarenta. Quarto de hóspedes do outro lado. A espessura das paredes internas dava mais uns vinte e cinco centímetros no total.
Estava sobrando um metro e sessenta e três. Tinha um espaço dentro da parede com um metro e sessenta e três de largura e eu não fazia ideia do que tinha lá dentro.
Encostei a orelha no drywall do corredor, bem no trecho que soava errado. Prendi a respiração. A casa estava morta de silêncio — aquele silêncio das três da manhã em que até a geladeira parece barulhenta.
Não ouvi nada. Acho que foi isso que me apavorou mais. Porque eu estava escutando à espera de alguma coisa, e o silêncio que voltou era o tipo errado. Você sabe como dá pra sentir a diferença entre um cômodo vazio e um cômodo onde alguém está ficando muito, muito quieto?
Era o segundo tipo.
Na manhã seguinte contei pra Chiara. Ela me deu aquele olhar — o mesmo que usa quando estou na terceira xícara de café e viajando por causa de alguma coisa que li na internet à uma da manhã.
“Léon, é casa antiga. Deve ter um shaft de encanamento ou de ar-condicionado ou sei lá. Você vai abrir a parede da nossa casa porque a Betsy desenhou uma janela?”
Ela não estava totalmente errada. Shafts existem. Chaminés de ventilação existem. Mas um metro e sessenta de largura? Todo shaft que já vi em casa residencial tem no máximo quarenta a cinquenta centímetros. Não precisa de um metro e sessenta pra passar uns canos de PVC e cobre.
Chamei meu amigo Elwin, que trabalha com reformas. Ele veio na quinta com um detector de montantes e uma câmera de inspeção — aquelas boroscópios que a gente enfia num buraco.
Começamos pelo corredor. O detector pegava montantes em intervalos normais de quarenta centímetros na maior parte da parede. Aí chegava naquele trecho e enlouquecia. As leituras ficavam incoerentes — tinha montante, depois vazio, depois alguma coisa, depois montante de novo.
Elwin fez um furo pequeno no drywall, uns um metro e vinte do chão. Um quarto de polegada. Nada estrutural. Enfiou a câmera.
Olhou pra tela uns cinco segundos e recuou.
“O quê?” perguntei.
Ele me olhou com uma expressão que eu nunca tinha visto na cara dele. Elwin é grandão, corpo de jogador de futebol americano, e faz construção há vinte anos. Já rastejou por sótãos infestados de rato e entrou em vão de fundação que fedia a carniça. Nada abala o cara.
Ele me entregou a câmera sem falar nada.
A tela mostrava um espaço estreito — uns um metro e sessenta de largura, exatamente como eu tinha calculado. Ia do chão ao teto, com estrutura bruta dos dois lados. O LED da câmera iluminava um contrapiso de madeira compensada crua. Sem isolamento. Sem cano. Sem duto. Nada mecânico.
Era só um cômodo. Um cômodo alto e estreito selado dentro da parede. Sem porta. Sem janela. Sem ponto de acesso visível daquele ângulo.
Mas não foi por isso que o Elwin ficou com aquela cara.
Do outro lado do espaço, encostada no que seria a parede externa, tinha uma cadeira. Uma cadeira de madeira comum, tipo cadeira de cozinha. Estava virada pra parede interna — virada pro nosso quarto.
E no contrapiso ao redor da cadeira, arrumados num padrão que eu não consegui entender de cara, havia dezenas de pequenos objetos escuros. A resolução da câmera não era boa, mas dava pra ver as formas. Pareciam saquinhos. Pequenos embrulhos de tecido amarrados com barbante.
“Isso é—” comecei.
“A gente precisa chamar alguém,” ele disse. “Não eu. Alguém. Desculpa, cara. Eu não entro aí.”
Não entendi a reação dele até eu inclinar a câmera pra cima, pro teto daquele espaço.
Riscados na madeira crua do contrapiso superior — o lado de baixo do piso do sótão — havia marcas de contagem. Centenas delas. Agrupadas em risquinhos de cinco, cobrindo quase toda a superfície visível.
E abaixo das marcas, em letras que tinham sido gravadas devagar, com cuidado, com algo afiado:
EU CONSIGO OUVI-LOS DORMINDO
Chamei a polícia. Claro que chamei. Vieram dois policiais, depois um detetive, depois mais gente. Abriram a parede do lado do corredor — cortaram um retângulo grande no drywall. O cheiro veio primeiro. Não era podridão. Não era decomposição. Era ar parado. Ar que não se mexia há muito tempo, mas também levemente doce, de um jeito que embrulhava o estômago.
O espaço era exatamente o que a câmera mostrou. Um metro e sessenta e três de largura. Corria toda a profundidade da casa, uns sete metros e trinta da frente pra trás. Do chão ao teto. Estruturado com montantes e vigas de verdade. Não era um vão esquecido. Alguém tinha construído aquilo de propósito. Estava na obra original.
A cadeira era uma cadeira de cozinha comum, daquelas que se compra em brechó por vinte reais. Estava posicionada de frente pra parede que divide com o nosso quarto. Do outro lado daquela parede fica exatamente o lugar onde a cabeceira da nossa cama encosta.
Os saquinhos no chão eram bolsinhas de tecido costuradas à mão, de algodão velho. A polícia recolheu vinte e seis. Não quiseram me dizer o que tinha dentro.
Descobri depois por um amigo do xerife. Cabelo. Cada bolsinha tinha uma mecha pequena de cabelo, amarrada com linha marrom. Comprimentos diferentes. Cores diferentes.
A casa teve quatro donos desde que foi construída em 1987. Quatro famílias. Várias pessoas em cada família. Pessoas que dormiram do outro lado daquela parede, sem nunca saber.
As marcas de contagem no teto somavam mais de três mil.
O detetive perguntou se eu já tinha notado algo estranho na casa. Eu disse que não. Aí parei. Porque não era verdade.
Sempre me perguntei por que a porta do nosso quarto não ficava aberta. Tinha que colocar alguma coisa embaixo ou ela ia se fechando sozinha, devagar, como se a casa estivesse soltando o ar. Sempre achamos que o piso estava um pouco torto. Casa antiga. Acomodação.
Agora percebi que o piso não estava torto. A parede estava. Um metro e sessenta e três de espaço escondido faz isso. A distribuição de peso do segundo andar era assimétrica de um jeito que ninguém nunca notou, e isso puxava a porta do quarto devagar, toda vez, nos selando lá dentro.
A polícia encontrou mais uma coisa que eu não contei pra Chiara. Na parede que dava pro nosso quarto, na altura do peito, alguém tinha feito um buraco. Não era grande. Talvez o diâmetro de um lápis. Ia reto através da estrutura, através do drywall, e saía atrás da nossa cômoda.
Afastei a cômoda. O buraco estava lá. Limpo, redondo, inclinado levemente pra baixo.
Na direção da nossa cama.
Alguém tinha tapado do nosso lado em algum momento com um circulozinho de tinta da mesma cor. Você nunca veria a não ser que soubesse onde procurar. Faz cinco anos que durmo a dois metros daquele buraco.
A polícia está investigando. Puxaram as licenças originais de construção e estão tentando achar o empreiteiro que construiu a casa em 87. O primeiro dono morreu em 2004. Os segundo e terceiro foram contatados. Ninguém sabia do espaço.
Mas tem uma coisa que não me deixa dormir. A coisa que fica voltando na minha cabeça.
As marcas de contagem. Mais de três mil. Se for uma marca por noite — e o agrupamento metódico em grupos de cinco sugere exatamente isso — são mais de oito anos de noites.
A casa foi construída em 1987. Os primeiros donos moraram de 87 a 96. Nove anos.
Os segundos: 96 a 2008. Doze anos.
Terceiros: 2008 a 2019. Onze anos.
Nós: 2019 até agora. Cinco anos.
Três mil marcas não cabem na linha do tempo de nenhum dono só. Mas cabem somando vários.
O que significa que ou alguém se trancou naquele espaço por oito anos seguidos — sem comida, sem água, sem porta — ou alguém tem entrado e saído sem que nenhum de nós jamais soubesse.
Eu procurei. Procurei em todo lugar. Não tem alçapão. Não tem porta escondida. Não tem painel. O espaço está selado. Estruturado, drywall e selado de todos os lados. A única abertura era o buraco de lápis atrás da cômoda.
Mas a cadeira não estava empoeirada. Fico pensando nisso. Os saquinhos no chão estavam arrumados com cuidado. As marcas estavam nítidas, não apagadas.
E quando abriram a parede, o ar que saiu era parado, sim. Antigo, sim.
Mas estava quente.
Estamos na casa dos sogros. A Betsy parece bem. Não desenhou mais a casa desde que saímos. Perguntei mais uma vez sobre o homem que olha da janela.
“Ele não está mais lá, papai.”
“Como você sabe?”
Ela me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo.
“Porque ele saiu quando a gente saiu.”
Não sei onde vamos morar. Não sei se algum dia vou me sentir seguro numa casa de novo. Mas fico pensando nas outras famílias — as que dormiram naquele quarto por anos, com a cabeça encostada naquela parede, enquanto alguém sentava numa cadeira do outro lado e escutava.
Três mil noites. Alguém contou cada uma delas.
E penso em todas as casas do condomínio. Mesmo construtor. Mesmo ano. Mesmo projeto.
São quarenta e seis casas na nossa rua.
Fico imaginando quantas delas têm uma janela que não existe.


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