terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Briana

Já faz dezesseis horas e quinze minutos que estou morta quando minha mãe finalmente liga para a polícia.

Ela jura que eu não sou o tipo de filha que foge de casa e que sempre atendo o telefone quando ela liga, como a boa menina que eu sou — o que é verdade. Agora que Briana se foi, eu sei o quanto minha mãe fica ansiosa só de pensar em perder outra filha, então sempre deixo o som ligado e carrego um powerbank na mochila.

Briana, no entanto, era completamente diferente de mim — uma garota selvagem, uma pirralha, uma festeira. Sempre cheirando a bebida barata e perfume mais barato ainda, o cabelo emaranhado e grudento, brigando com os pais por causa de horário de voltar pra casa, notas, essas coisas. E, claro, nunca atendia o maldito telefone. Às vezes eu me perguntava se ela sequer tinha um celular, mas sempre que eu mandava mensagem, ela respondia em minutos. Talvez fosse uma filha péssima, mas eu não poderia ter pedido uma irmã melhor.

Levou quase três dias para minha mãe perceber que Briana não aparecia há um tempo, mas, para ser justa, Briana sumia assim com frequência antes — dormindo na casa de amigos, de estranhos, às vezes na rua mesmo, desmaiada num banco ou encolhida debaixo de uma árvore num parque. Minha mãe dizia que Briana sempre foi a difícil. Desde pequenas ela fugia e se escondia em algum canto da casa, ou na casa dos vizinhos, ou simplesmente começava a ter chiliques do nada — gritando, chorando, atirando tudo o que estivesse ao alcance. Num ano trocamos dezessete pratos e doze copos.

Quando Briana fez dezesseis anos, minha mãe a arrastou para um psiquiatra depois que os surtos ficaram frequentes demais. Colocaram ela em algum remédio. Nunca soube exatamente qual, mas não sei se ajudou do jeito que deveria. Ela só ficou mais apagada, mais fraca. Chorava ainda, claro, mas tinha bem menos gritaria. E não saía tanto quanto antes. Claro, os amigos ainda a levavam para festas de vez em quando, mas ela reclamava que as boates davam enxaqueca e ficava em casa a maior parte das noites. Não era mais a Briana que eu conhecia. Por isso não fazia sentido ela ter fugido de repente — nos últimos meses mal conseguia ir do quarto até a cozinha e voltar. E mesmo assim, quando a polícia disse que ela devia ter fugido, todo mundo acreditou. Afinal, ela era a difícil.

Tentei convencer minha mãe que Briana não fugiria assim, que ela não estava saindo tanto ultimamente e que, no fim do dia, sempre respondia minhas ligações e mensagens, mas meu pai me pegou no corredor depois de uma das minhas tentativas e me disse para não torturar a mãe com minhas teorias da conspiração. Disse que Briana tinha ido embora e que a gente precisava seguir em frente, assim como ela fez. Nunca tinha visto meu pai chorar antes, mas quando ele disse que ela tinha ido embora a voz falhou um pouco e vi os olhos dele brilharem. Ele me abraçou também e eu enterrei o rosto no ombro dele enquanto ele acariciava meu cabelo. Nunca mais falei sobre Briana com meus pais desde então.

Mas eu não parei de procurá-la. Sabia que Briana não nos abandonaria, não me abandonaria. Ela era bagunçada, sim, mas sempre havia um espaço para mim na cama dela e na vida dela. Lia pra mim “Jogos Vorazes” que ela tinha roubado da biblioteca da escola, trançava meu cabelo mesmo com o dela sempre desgrenhado e sujo, me ensinou a passar glitter no canto dos olhos e a desenhar coelhos iguais à nossa amada Mimi e ela nunca, jamais, fugiria sem pelo menos se despedir.

Falei com os amigos dela na escola, com os professores, com as meninas com quem ela saía pra balada. Revirei o quarto dela atrás de pistas, respostas, qualquer coisa que me aproximasse dela, mas ela tinha sumido, apagada como se nunca tivesse existido.

Quase desisti na noite em que finalmente encontrei o diário dela. Esconderijo esperto — bem à vista, nem parecia diário, porque, bem, não era. Em vez de usar um caderno, Briana escrevia nas páginas do nosso livro favorito. Debaixo de cada linha de “Jogos Vorazes” ela adicionava as dela — letrinhas minúsculas a lápis que pareciam anotações à primeira vista. Só que não eram. Ela me contou tudo e, por mais que eu não quisesse acreditar, eu sabia que ela não estava mentindo. As coisas de repente fizeram sentido. O jeito reservado dela, os surtos, a fuga constante. Era tudo por causa dele.

Eu o encontrei onde ele costumava estar, só não sabia que Briana estava tão frequentemente lá com ele. Quantas das “dormidas na casa de amigas” eram na verdade ali — numa casinha minúscula, acorrentada com cadeado de bicicleta até ele permitir que ela saísse. Todas as vezes que os pais brigavam com ela por chegar tarde, sumir, quebrar o horário — ela estava lá, obedecendo às ordens dele, sendo a boa menina que eu era considerada só porque me protegia de me tornar má.

Então sim, ela era a criança difícil e eu era a fácil.

Irônico como nós duas acabamos no mesmo lugar, deitadas juntas do jeito que fazíamos quando eu era pequena e tinha medo de dormir na minha própria cama.

Já faz dezesseis horas e quinze minutos que estou morta quando minha mãe finalmente liga para a polícia. Depois que desliga, ela tenta meu telefone de novo. Ele vibra no bolso de trás da calça do meu pai enquanto ele caminha até o barracão para enterrá-lo ao nosso lado.

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