quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O Oceano Para de se Mover à Noite

Uma ideia errada que ouço com frequência sobre os guardiões de faróis é que não usamos a internet, que não temos acesso a ela. Mas temos, sim. Às vezes, pelo menos. Não é comum, mas com a tecnologia avançando cada vez mais, é possível. No entanto, demorei um bocado para postar isso aqui, tanto porque estou velho agora quanto porque o Wi-Fi aqui é uma porcaria, fica caindo metade do tempo.

Sou o único guardião de um farol na costa leste, lá perto do Maine. Fico sozinho na maior parte do tempo, visitantes são raros, mas acontece, ou então recebo uma chamada de algum navio. Durmo a maior parte do dia e vigio à noite. Adotei o crochê como passatempo, é reconfortante sentar sob aquela luz intensa, cercado pelo breu mais absoluto, e fazer algo simples e repetitivo. Laçada, gancho, laçada, gancho, uma e outra vez, um gesto que traz uma paz profunda.

Certa vez, num raro dia de folga — ou melhor, num dia em que eu estava descansado o suficiente para me aventurar na cidadezinha a poucos quilômetros do farol —, um homem se aproximou de mim. Ele me conhecia, mas eu não o conhecia. Perguntou como era cuidar de um monstro daqueles, e eu disse a verdade. Contei que no começo era estranho, até aterrorizante, ficar tão isolado e no escuro o tempo todo. Mas com o tempo, você se acostuma, o oposto vira o esquisito: a luz do dia começa a machucar os olhos, e o contato humano, aquele mesmo que você ansiava desesperadamente antes, se torna alheio e bizarro, e uma sensação de que você não precisa mais dele começa a invadir você, a infiltrar-se nos ossos. Mas se você cair nas armadilhas do farol, enlouquece.

O motivo de eu escrever para vocês agora é que, há algumas noites, me lembrei dessa conversa. Quando, enquanto eu crocheteava, laçada, gancho, laçada, gancho, ouvi, por cima do ruído da maquinaria girando a luz colossal, um canto. Cresci entre marinheiros, meu pai era um, então ouvi histórias de sereias antes, mas isso era diferente delas. Nas lendas que conheço, o canto das sereias era belo e encantador, algo que te arrastava para elas. Mas isso... isso era desafinado, agudo e pavoroso, como uma lâmina sendo afiada numa pedra de amolar, um som aceitável em si, mas terrível saindo de uma garganta humana. Ouvi-lo me paralisou, imobilizando meu corpo, o gancho de crochê erguido, tremendo, desfazendo a laçada ao redor dele e deixando o fio cair.

Levantei-me para olhar lá fora, esperando avistar talvez uma mulher bêbada uivando, mas apesar do som ser tão alto e presente, não havia nada do lado de fora das janelas. Nada exceto o mar, liso e imóvel. Apenas uma lona estendida sobre um abismo.

Na noite seguinte, resolvi descer até o oceano. Uma porta no andar térreo do farol dava para a praia, e eu avancei, tropeçando na areia úmida, escorregadia e movediça. O fedor de peixe podre invadiu minhas narinas, e, no breu, era o único sentido real que me restava. Eu estava praticamente cego até acender a lanterna; eram só uns passos do prédio até onde eu estava quando a liguei, mas aqueles poucos passos pareceram mais longos e árduos do que deviam. Um homem cego, surdo pelo estrondo das ondas quebrando na costa, e admito, bêbado, cambaleando para o negrume, na esperança de vislumbrar a cantora.

Quando acendi a luz e um sol branco artificial iluminou a praia, vi tudo de uma vez. Absorvi aquilo e caí de joelhos, vomitando. Peixes mortos, por toda parte, carpas e bacalhaus apodrecendo e o que mais tivesse sido arrastado das profundezas, me cercavam. Meus pés, marcados nas carcaças, deixavam um rastro vermelho e rosado de volta à porta do farol. Sobre um dos joelhos, jazia um olhinho pequeno, lançado para cima pela minha queda abrupta.

O cheiro era muito pior, muito mais invasivo, uma vez que eu estava sentado nele. Picando e atacando, queimando o interior do meu nariz junto com o vômito queimando a garganta. Eu queimava vivo por dentro. Tossi os últimos resquícios do estômago sobre a pilha sobreposta de peixes mortos, alguns ainda batendo o rabo numa busca idiota e desesperada por água, na tentativa de encontrar o caminho de volta para ela. Era um manto que cobria toda a praia, nem um grão de areia visível entre o farol e o oceano. Endireitei-me, ainda de joelhos, fraco e bêbado demais para ficar de pé, e olhei ao redor.

Girei a lanterna de um lado para o outro, imitando e me tornando o edifício que protejo, procurando qualquer coisa que tornasse aquela saída valer a pena. À medida que a luz era lançada para cá e para lá, as ondas cruzadas começaram a se fundir, a se mesclar nos meus olhos e fazer o oceano parar. A rotação do meu corpo sobre os corpos de tantas criaturas era o único som que eu ouvia. Um silêncio tão denso e palpável. Avistei algo sobre uma rocha enquanto ia para a esquerda e direita e esquerda e direita de novo, e firmei a lanterna, apontando para a pedra saliente que devia ter algo em cima, e não vi nada.

Levantei-me trêmulo e devagar, e iluminei a água mais uma vez. Os truques que meus olhos pregavam, fazendo o oceano estagnar, a essa altura já deviam ter passado, mas o oceano ainda não se mexia. Nenhuma onda se erguia da superfície, nenhum distúrbio no espelho d'água causado pelo vento, só uma ondulação, perto da rocha que eu notara.

E então o silêncio foi preenchido por um guincho, metálico e horrendo, alto e dissonante, e eu corri para dentro.

O fedor de peixe, de tantos peixes mortos na minha praia, não saiu do meu nariz enquanto eu batia a porta atrás de mim e cobria os ouvidos doloridos com travesseiros. Mas quando acordei, só sentia o cheiro de água salgada e do farol em si. O aroma da morte sumira do ar, o único ruído era o zumbido mecânico da minha casa, as ondas batiam na costa com sua força habitual, e nem um único peixe jazia espalhado na praia. Mas minhas roupas ainda estavam manchadas de sangue de peixe.

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