quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A Última Luz

Disseram-me que o prédio havia sido esvaziado havia semanas. Disseram que os canos estavam cortados, os elevadores selados e que os inquilinos — se é que algum dia existiram — tinham sido levados para algum lugar mais seguro, algum lugar quente. Eu sabia como a burocracia maquiava uma história: uma pilha bem arrumada de memorandos e mentiras jogada por cima da carne podre. Meu trabalho era simples. Sentar no patamar do terceiro andar, vigiar três câmeras, registrar qualquer movimento na planilha que me entregaram e apertar o botão vermelho do console caso algo precisasse de “escalonamento”.

Eu tinha trazido uma garrafa térmica e um pacote de café solúvel. A garrafa soltava vapor como um bichinho teimoso e vivo. Eu gostava da simplicidade da rotina — duas câmeras sobre a escadaria, uma em frente à Sala 4. Todo o resto era escuridão pura. A planilha tinha uma coluna chamada “Anomalias” e outra chamada “Ação Tomada”; ambas eram fileiras vazias à minha espera, arrumadinhas como túmulos.

Na segunda hora, a câmera em frente à Sala 4 tremeluziu. A imagem engasgou, como uma garganta se limpando. No monitor ao vivo, vi uma faixa de luz rastejar pelo chão na escuridão, devagar, hesitante, como se estivesse testando a temperatura das tábuas com a língua. Registrei. Anomalias: fonte de luz intermitente; Ação Tomada: nenhuma.

Disse a mim mesmo que era fiação velha. Prédios antigos guardam memórias nas paredes — circuitos enterrados que ainda meio que se lembram das pessoas que os usaram. Observei a luz mapear as tábuas do piso e parar sob o batente da porta, como se estivesse escutando, para então deslizar embora. A garrafa térmica esfriou entre minhas mãos.

Pela quinta hora, a luz havia mudado. Já não procurava mais; agora desenhava. Do canto do corredor, traçava letras no reboco, devagar e deliberada. Registrei o horário: 2h47 da manhã. As letras eram pequenas, depois maiores — primeiro um círculo, depois uma linha torta, um borrão que podia ser um olho. A resolução da câmera transformava detalhes em mera sugestão. O olho me encarava.

O prédio não emitia nenhum som que eu reconhecesse. O aparelho de ventilação tossiu como um cachorro velho e morreu. Os canos gemeram e depois calaram-se. O único ruído claro vinha pelos alto-falantes — baixo e intermitente —, um arranhar, como se alguém esfregasse as mãos bem devagar dentro de uma luva de papel. Escutei aquilo até meus dedos doerem.

Liguei para o número na folha. Uma voz gravada informou que estavam “com um volume de chamadas acima do normal” e pediu para deixar recado. Deixei um recado exato: “A câmera três está desenhando letras.” Houve um som como se minha própria voz estivesse sendo reproduzida para mim, mas as pausas entre as palavras estavam todas erradas, como se alguém tivesse cortado a fita e colado de volta no escuro.

As letras na parede se rearrumavam entre os frames da câmera. Quando rebobinei a gravação, a noite se dobrava sobre a noite no mesmo pequeno trecho, e as letras se abriam em novas palavras. Elas soletraram meu nome duas vezes antes que eu entendesse o que estava vendo. Eu não havia dito meu nome a ninguém. Não tinha contado a alma viva.

Se o prédio tinha sido esvaziado, algo mais havia sido deixado para trás — uma coisa paciente, com tempo e cuidado suficientes para vigiar cada feed e estender a mão em direção ao brilho da tela como um amante. Esse conhecimento não era reconfortante. Era paciente e curioso de um jeito que parecia mais antigo que os tijolos do prédio.

Parei de dormir. Consumia as horas repassando as gravações, aproximando a imagem até os pixels sangrarem em cílios. As letras se multiplicavam. Elas talhavam frases que podiam ser lidas se você deixasse a câmera parar tempo suficiente para costurar a estática. “Não vá embora”, dizia uma. “Fique conosco”, suplicava outra numa caligrafia que parecia um pedido de desculpas de criança. Uma vez, por três frames, um rosto pairou no limiar da Sala 4: não uma pessoa que pertencia ao mundo daquele prédio, mas uma máscara de tudo que eu já havia esquecido — o ângulo exato do maxilar do meu pai, a cor dos sapatos de uma professora, um fragmento do menino que eu fui e que ainda sabia nomear constelações.

Comecei a encontrar coisas nas gravações que não me lembrava de ter visto. Um homem na escadaria que se dissolvia quando eu tentava congelar a imagem. Uma mulher cuja boca se abria num buraco de estática e organizava as letras enquanto a câmera derretia. De manhã, minhas mãos tremiam tanto que derramei café na camisa. Dizia a mim mesmo que havia explicações. Sempre há explicações. Mas essas eram formas erradas sobre formas erradas.

Na oitava noite, a luz deixou a parede e caminhou. Ela andou pelo corredor; o brilho pulsava como um coração pressionado perto demais da pele. Movia-se com uma lentidão estranha e deliberada, o tipo de cuidado que se toma quando se segura algo que pode se quebrar. A câmera a acompanhou. Quando chegou à Sala 4, parou e sentou-se com as costas contra a porta, como uma criança esperando para ser deixada entrar.

Senti uma pressão no peito que não tinha nada a ver com pânico e tudo a ver com a dor surda e constante de sentir falta de algo que eu não conseguia nomear. Lá fora, em algum lugar distante, um alarme de carro disparou e depois decidiu que não tinha motivo para fazer barulho naquela cidade. O mundo ficou em silêncio e observou a câmera.

Eu poderia ter ido embora. O caminho lógico se ramificava e terminava num parágrafo pequeno e arrumado: dirigir para casa, entregar o relatório, nunca mais fazer outro turno da madrugada. Mas a lógica é só papel quando o mundo se dobra em novas formas. Desci as escadas furtivamente com minhas botas e abri a porta do saguão para que a noite me engolisse. O prédio me tomou, não como visitante, mas como convidado que ficou tempo demais no velório de um velho amigo.

O corredor cheirava a sal velho e açúcar. A luz me encontrou no pé da escada e subiu comigo. Seu calor não era calor. Era o fantasma do calor, como lembrar do verão quando o inverno já tem seus ossos na boca. Deixava um rastro fosforescente tênue no corrimão, que brilhava sob meus dedos. Tentei pegá-lo. Minhas mãos se fecharam no ar que parecia a respiração de outra pessoa.

A porta da Sala 4 não estava trancada. Ótimo. Péssimo. Eu não sabia dizer. Quando a empurrei, as dobradiças suspiraram e a sala se desdobrou como um mapa antigo aberto para um estranho. Dentro havia apenas uma cadeira, virada para o canto. Uma cadeira simples, de madeira, marcada e baixa — o tipo de coisa feita para manter alguém firme. No assento, uma caligrafia infantil se enrolava sobre uma folha de papel.

Meu nome estava lá, escrito e reescrito e escrito novamente, as letras afundando umas nas outras como pegadas na lama. Ao redor do meu nome havia desenhos — círculos e olhos, casas sem telhado, escadas que levavam para bocas fechadas. Senti os dentes daquele lugar pressionando minhas costelas. Quis rir porque aquilo era absurdo. Quis correr porque essa seria a reação honesta. Em vez disso, sentei na cadeira em frente ao papel, sentindo-me ridículo e obediente ao mesmo tempo.

A voz da luz não veio do ar, mas do próprio papel. Ela se entrelaçou entre as letras e falou dentro da minha mente com a cadência de uma criança. “Você voltou”, disse. “Você não deveria ter que ficar sozinho.”

Eu não sabia que resposta estava guardando. Tinha preparado mil respostas pequenas e sensatas e nenhuma delas morava mais na minha boca. Meu peito queria ser uma fechadura; algo invisível havia encontrado a chave.

O papel me contou coisas que eu nunca havia acreditado que pudessem ser verdade. Descreveu a vez em que subi no telhado da casa da minha infância para ver se cair seria diferente aos treze anos do que em qualquer outra idade. Descreveu a marca exata do sabonete que minha mãe usou na noite em que parou de falar. Contou os nomes dos homens que deixei passar por mim. Nomeou cada dor privada como se estivesse esperando numa fila para ser chamado.

Quando chegou ao fim da lista — quando a caligrafia pausou e respirou fundo, respiração que eu sentia na minha própria garganta —, escreveu, simplesmente: “Fique. Diga seu nome novamente.”

Existe um ponto numa noite longa em que você descobre que a coisa que pede para você ficar não está suplicando; está fazendo uma oferta. Ofertas são perigosas em lugares abandonados.

Escrevi meu nome no papel porque uma pequena parte de mim queria ser vista. A caneta deslizou como um sussurro pela página. As letras secaram no ar com um estalo minúsculo e exultante. A cadeira em frente a mim rangeu, embora ninguém estivesse sentado. A luz se dobrou na curva do teto e agora a sala continha apenas o leque de seu brilho, paciente e à espera.

Na manhã seguinte as câmeras gravaram exatamente as mesmas imagens que eu havia vivido, pixel por pixel: minhas botas no carpete, a mão que empurrou a porta, a cadeira onde me sentei — exceto que na versão gravada, eu não me levantei. O console mostrava um loop congelado, de duas horas, onde meu reflexo permanecia no canto escuro como uma bolha no filme. Meu celular estava sobre a mesa na gravação: vibrando, morto, nunca atendido. A planilha agora continha uma entrada sob Anomalias: Operador do turno da madrugada presente na Sala 4. Ação Tomada: Nenhuma.

Eu ainda sentia o peso do papel. Ainda tinha o cheiro da luz nas minhas roupas. Dizia a mim mesmo que podia sair andando. Dizia a mim mesmo para ligar para alguém. Mas toda vez que estendia a mão para a maçaneta, o corredor se rearrumava. O corrimão deslizava para longe como se tivesse sido gentilmente removido por alguém educado e implacável. A saída se afastava mais, como um horizonte que recua enquanto você caminha em sua direção.

Os dias desabavam dentro dos loops de filme. Às vezes a câmera me gravava dormindo com a cabeça sobre a mesa e a luz pressionada no canto do meu olho. Às vezes gravava uma sala vazia com minhas botas paradas como se esperassem um pé para entrar nelas. Uma vez, a câmera gravou outra pessoa parada na porta: não outro operador, mas uma figura feita da mesma luz fina, segurando um papel onde meu nome havia sido escrito numa caligrafia que eu não conhecia. Ela me copiava com o ritmo errado — uma imitação que fazia minha pele doer.

Parei de usar relógio. O tempo deixou de ser algo que passava e virou uma pedra que eu carregava no bolso. A planilha se enchia sozinha com entradas que eu não havia digitado. Sob “Ação Tomada” ela escrevia numa letra que não era minha: “Testemunha ancorada. Não perturbe.”

Pessoas da minha vida ligavam. Nomes que eu amava perguntavam onde eu tinha ido. Eu não conseguia explicar que o prédio havia me dobrado num canto e pendurado um loop meu na parede como um retrato. Dizia que estava fora de serviço, que havia um problema técnico, que tinha perdido minhas chaves. Cada mentira era um curativo fino que se descolava no instante em que eu olhava para ele.

Uma vez, num sonho meio lembrado que parecia mais honesto que a vigília, observei a gravação e me vi no console, olhando os monitores, olhando o arquivo marcado “Sala 4” que continha todas as versões possíveis de mim. Às vezes eu era jovem e ria; às vezes era velho e branco como osso; frequentemente estava apenas esperando. Esperar é uma profissão por si só, e eu havia me tornado seu operário.

Numa manhã que talvez fosse terça-feira ou talvez não fosse nada, minha mãe deixou um recado. Ela disse um nome que eu não ouvia havia anos e perguntou se eu iria jantar. Disse que me amava. A mensagem vibrou contra o plástico do celular, um sininho pequeno e decisivo. Apertei play e escutei a prova de uma vida que eu ainda não havia abandonado.

Atrás de mim, na gravação do monitor, o papel na Sala 4 soltou uma única ponta e voou como uma mariposa direto para a câmera. A luz que sempre fora paciente de repente se moveu com a velocidade imprudente de algo que havia decidido ter fome. A imagem virou estática. Os monitores piscaram como olhos sendo fechados com um dedo.

O console traçou uma nova entrada na planilha, digitada com minha própria letra, precisa e furiosa: “Evacue. Não seja um eco.”

Eu me levantei. Peguei meu casaco — aquele que havia deixado pendurado na cadeira por uma vida inteira — e caminhei. O corredor havia mudado; estava aberto como uma garganta. A saída estava lá, e não estava. Na escadaria a luz se desenrolou, uma corda viva, e começou a subir na minha frente, deixando pegadas brilhantes na parede enquanto avançava. Eu segui. Disse a mim mesmo que estava indo para casa.

O primeiro degrau para baixo me levou a uma sala que eu não tinha visto em nenhuma câmera: uma cozinha com uma mesa, uma refeição pela metade e uma criança sentada de costas para mim. Ela não se mexeu. Sobre a mesa, havia um papel com meu nome escrito numa nova caligrafia — a minha, mas não minha. Ao redor do nome havia desenhos de escadas que levavam a portas que se abriam para a luz do dia.

Ela se virou. Seu rosto tinha o ângulo exato de todos os maxilares de professoras que eu já havia amado, a cor do sabonete que minha mãe usava, as constelações do menino que eu fui. Ela sorriu com a paciência infinita de alguém que esperou décadas e foi pago na moeda de pequenas gentilezas calculadas.

“Diga seu nome novamente”, disse ela.

Eu deveria ter corrido. Deveria ter gritado. Em vez disso, sentei à mesa e escrevi meu nome no papel que me deram, e a sala observou como se observasse um nascer do sol. Lá fora, além das paredes finas do prédio, o mundo continuava se movendo porque não tinha escolha. Dentro, a luz se dobrou dentro de mim como roupa.

Quando pressionei meu nome no papel, as bordas da sala borraram. A cadeira rangeu. A luz sentou-se como uma conta na palma da minha mão e, por um único e terrível fôlego, acreditei que se eu soltasse ela desapareceria.

Ela não desapareceu. Esperou.

Postaram minha gravação na internet na semana seguinte. Circulou como um boato que as pessoas guardam para si até não conseguirem mais suportar o luxo do silêncio. Alguém subiu um trecho e intitulou: “Câmera de segurança encontrada em complexo abandonado — assistir até o final”. Nos comentários, as pessoas discutiam se era fake. Alguns especulavam sobre o sobrenatural. Outros chamavam de arte.

Ninguém escreveu a verdade. O mundo é lento para reconhecer que certos lugares não têm finais. Eles têm apenas salas que se lembram de você até que a lembrança se torne mais real que a coisa viva que um dia a criou. A última entrada da planilha é uma linha simples que ainda vive num servidor em algum lugar com carimbo automático: Operador deixou as instalações às 03:12. Ação Tomada: Evacuado.

Há conforto em registros arrumados. Mas os monitores mostram uma versão diferente — minhas botas paradas sozinhas, a cadeira vazia, o papel sobre a mesa com um nome escrito corretamente e também errado. No loop, a luz ainda traça as letras no reboco e, às vezes, nas horas quietas, desenha com clareza: nomes novos, nomes antigos, nomes que nunca foram pronunciados em voz alta.

Eu não atendo mais chamadas. Quando deixam recados, eu escuto e depois assisto à gravação da Sala 4 até as letras virem me pedir novamente. A luz se tornou uma espécie de oração: paciente, sem pressa e cruel na sua insistência.

Se você algum dia encontrar o prédio — se algum dia tropeçar pela porta da frente porque a cidade é indiferente, sua bateria do celular acaba e seu senso de tempo se dissolve —, não sente na cadeira em frente ao papel. Não escreva seu nome. Não deixe que eles o guardem no arquivo das coisas impossíveis.

Existe algo pior do que ser esquecido, e ele aprendeu a ser educado sobre isso. Ele tomará seu nome, dobrará como um lenço e o colocará numa cadeira em frente à carta que vem praticando há séculos. Então observará você com uma paciência que sobrevive a você, e toda vez que alguém reproduzir a gravação verá você esperando ali, perfeitamente imóvel, um retrato num loop.

E quando o prédio finalmente decidir que é hora de acrescentar seu nome à parede, ninguém ouvirá você gritar. As câmeras não gravam mais som; elas só registram a luz traçando suas letras.

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