Eu nunca vi meu vizinho, mas ele sabe exatamente quando estou sozinho.
Tenho dezoito anos e moro numa fazenda, a poucos minutos da cidade. Era a fazenda dos meus avós, mas depois que eles se foram, nos mudamos pra cá há pouco mais de um ano. Ao lado da nossa propriedade fica uma casa relativamente pequena, escondida atrás de uma cortina de árvores, como uma casinha saída de um conto de fadas sombrio.
A casa nem sempre esteve vazia. Pertencia aos avós de um garoto que eu conhecia do ensino fundamental, mas eles já tinham morrido havia muito tempo.
Depois disso, a casa ficou abandonada por anos. Até que, um dia, foi comprada por pessoas que eu não conheço.
Quando era pequeno, eu brincava por lá o tempo todo, toda vez que visitava meus avós — o que era praticamente toda semana. Eu sabia que não era permitido, mas os donos quase nunca estavam presentes; apareciam apenas aos domingos para fazer umas tarefas ao redor da casa. Eu me esgueirava por um buraco na cerca e perambulava pela propriedade inteira.
Eles tinham um açude bem grande e um daqueles pequenos moinhos de vento de fazenda que faziam a gente se sentir dentro de um velho filme de faroeste. Um dia, enquanto brincava, a curiosidade me venceu e me aproximei da casa. Tentei espiar pelas janelas, mas todas as cortinas estavam fechadas. Pelos poucos vislumbres que consegui, vi que o interior era uma bagunça de móveis velhos e esquecidos.
Justo quando eu tentava ver melhor, percebi um movimento lá dentro. “Merda, tem alguém em casa”, pensei. Corri em direção à cerca de tela. Teria que escalar, porque a abertura ficava do outro lado da propriedade. Vi uma luz se acender no andar de cima e uma silhueta andando de um lado para o outro. O pavor de ser descoberto me consumiu, então escalei a cerca às pressas. Estava tão desesperado que não tomei cuidado — e minha calça de moletom ficou presa.
Naquele instante, eu soube que seria pego.
Foi quando puxei a perna com força. Consegui me soltar, mas a calça rasgou. Tenho quase certeza de que eles não me viram… mas nunca mais voltei.
Depois daquele dia, nunca mais me aventurei por lá. Nem mesmo ousava olhar na direção daquela casa novamente. Pelo menos até o ano passado, quando nos mudamos pra cá. Nossa fazenda é enorme, temos vários campos — um bem em frente a essa casa, e outro logo atrás dela.
Por isso, temos acesso à mesma estradinha que leva até a entrada da propriedade deles. E, como o curioso que sou, eu sempre levava o cachorro para passear por aquele campo e por aquela estrada, só para observar aquele lugar estranho mais uma vez.
Na verdade, não era a casa em si que parecia errada; ela continuava quase idêntica a quando eu era criança. Na verdade, estava até em melhor estado, embora a cerca de tela velha ainda parecesse incapaz de impedir até um coelhinho. Eram aquelas pessoas que eram estranhas…
Compraram uma casa pitoresca no interior… e simplesmente nunca apareciam.
Eu não conhecia essas pessoas, mas meus pais me disseram que moravam relativamente perto, o que fazia sentido. Como poderiam aparecer todo domingo por algumas horas se morassem longe? Fazia sentido, eu acho. Mas a ideia de comprarem uma casa de veraneio tão perto da residência principal soava ainda mais bizarra.
Passei o Réveillon em casa. Meus pais estavam viajando, meu irmão foi comemorar com a namorada, e eu fiquei sozinho.
Sei que parece triste, mas eu simplesmente não tinha planejado nada. Além disso, alguém precisava cuidar dos cachorros — aqueles coitadinhos morrem de medo de fogos de artifício.
Da janela da sala, eu conseguia ver direto para aquela casa. As luzes estavam acesas e havia um carro na entrada, então imaginei que estivessem comemorando ali.
No entanto, esse foi o único sinal de vida que tive. Quando o relógio marcou meia-noite, saí para ver os fogos que explodiam na cidade.
Meus outros vizinhos também saíram, e eu desejei a eles um feliz Ano Novo.
Eles até me convidaram para tomar uma taça de champanhe. Enquanto ia com eles, olhei novamente para a casa. As luzes continuavam acesas, mas ninguém estava do lado de fora.
“Quem fica trancado dentro de casa na virada do ano?”, pensei.
Foi nesse momento que percebi: não tinha visto nenhum sinal de vida naquela casa a noite inteira. As mesmas luzes permaneciam acesas, e eu não vi sequer uma sombra se movendo atrás das cortinas. Havia apenas… nada.
Afastei aquela sensação estranha e entrei com os vizinhos. Conversamos por pouco mais de uma hora, e acabei esquecendo o que havia notado aquela noite.
Então decidi ir dormir. Meus pais voltariam em breve. Caminhei de volta para casa, e aquela sensação perturbadora voltou ao meu estômago quando olhei para a casa mais uma vez: nada havia mudado. A luz da sala continuava acesa. Só isso…
Não contei nada aos meus pais quando eles chegaram. O que eu diria? “Os vizinhos não me desejaram feliz Ano Novo”?
Fui para a cama carregando aquela sensação estranha.
Esse foi o primeiro incidente. Olhando agora, era tão inocente comparado a tudo que viria depois.
O próximo aconteceu na semana passada.
Eu estava passeando com o cachorro depois do jantar, por volta das sete da noite. Já estava escuro. Caminhei pelos campos como sempre.
Dessa vez, porém, decidi mudar um pouco o trajeto e passei pelo campo mais distante, pelos fundos daquela casa.
Foi então que achei ter visto algo no campo, parado ali. Apontei a lanterna e lá estava ele… um homem. Apenas… parado.
Tenho quase certeza de que era meu vizinho. Afinal, eles são donos da casa há quase dez anos, mas eu nunca o tinha visto antes, muito menos conversado com ele. Claro, já havia captado vislumbres, mas nunca uma boa olhada. Mas quem mais poderia ser, parado no nosso campo?
Meu cachorro surtou completamente com aquela figura desconhecida, parada de forma ameaçadora na escuridão. Não posso culpá-la.
Gritei para ele: “Que diabos você está fazendo aqui!” Ele disparou antes mesmo que eu terminasse a frase. Quis ir atrás, mas ele estava do outro lado do campo. Além disso, já vi filmes de terror suficientes para saber que não se corre atrás de uma figura estranha à noite.
Encurtei o passeio e corri para casa. Minhas pernas pareciam feitas de gelatina — a cada passo, parecia que iam ceder e que aquele homem voltaria.
Meu cachorro não teve o mesmo problema. Ela correu como se sua vida dependesse disso.
Ela praticamente me arrastou até a segurança da nossa casa.
Quando alcancei a porta da frente, eu tremia inteiro. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas não sei se era de frio ou do que eu havia visto.
Minha mãe correu até mim e, ao ver minha expressão, perguntou o que havia acontecido. Contei tudo aos meus pais, e eles também ficaram abalados. Minha mãe gaguejou: “Talvez tenha sido algum ladrão querendo invadir o barracão para roubar equipamentos… Outra fazenda foi arrombada há poucas semanas, tenho certeza de que foi isso que você viu.” Parecia que ela tentava convencer a si mesma mais do que a mim.
“Não quero mais você indo para aquele campo à noite. Quem sabe o que poderia ter acontecido?”, completou.
Não sei como consegui dormir aquela noite, mas eventualmente consegui.
Na manhã seguinte, voltei ao campo. “Talvez tenha sido só minha imaginação. Estava escuro, afinal. Às vezes a gente vê coisas que não existem”, disse a mim mesmo, embora no fundo soubesse que era real.
O que encontrei só confirmou meus piores temores. Depois de procurar um pouco, achei pegadas de botas enlameadas.
Segui-as por algum tempo e vi que levavam direto de volta para aquela casa…
Foi então que me lembrei do susto que ele levou — como se não esperasse me encontrar ali de jeito nenhum.
Não achei que os vizinhos estivessem em casa; não havia carro na entrada, afinal.
Foi nesse momento que as peças começaram a se encaixar.
Eu vinha fazendo aquele mesmo caminho todos os dias, há meses.
Todas as noites.
No mesmo horário.
A única diferença naquela noite foi ter cortado caminho pelo campo.
Foi quando percebi algo ainda pior.
Ele não tinha se assustado.
Ele tinha se surpreendido por eu ter mudado a rota.
Naquele instante, lembrei daquele episódio da minha infância.
Não me recordo de ter visto nenhum carro naquele dia.
Eu teria notado. Eu sempre notava!
Se tivesse um carro lá, eu nunca teria me aproximado.
Naquele dia, decidi mudar todas as minhas rotinas.
Não passeio mais com o cachorro no mesmo horário.
Não vou mais à academia nos horários de sempre; na verdade, quase nem vou mais.
Não saio de casa mais do que o necessário.
Quando passeio com o cachorro, evito completamente o campo. Agora ando apenas pela estrada asfaltada. Vou de poste em poste. O tom quente da luz deles me dá a sensação de ter chegado a um lugar seguro, um ponto de controle.
Mas ele também se adaptou…
Quando passei pela estrada há poucos dias, vi uma luz na casa dele se acender exatamente quando eu passava. Como se ele nem estivesse mais tentando esconder.
Aquilo não foi um descuido.
Foi um aviso…
Fiquei paranoico. Qualquer estalo de galho me faz girar o corpo. Toda folha que se move é uma ameaça. Fico encarando o mato até os olhos arderem, procurando movimento como naqueles programas paranormais antigos — só que isso não é entretenimento.
Nem preciso ver nada. Eu sinto a presença dele.
Sinto seu olhar…
Meu irmão é diferente. Ele estuda em uma cidade longe, então só vem para casa nos fins de semana. Ele não é cauteloso e deliberado como eu; é descuidado e desastrado.
Sempre que sai e volta tarde da noite, esquece de fechar o portão. Às vezes até deixa a porta dos fundos destrancada.
Na semana passada aconteceu uma vez, mas eu fiquei acordado esperando meu irmão chegar e tranquei a porta eu mesmo. Dei uma bronca nele, mas sei que nada vai mudar.
Ontem à noite, ouvi a maçaneta da porta dos fundos girar.
Devagar.
Deliberadamente.
Eu durmo bem em cima da porta dos fundos. Sei diferenciar o vento de alguém testando a fechadura.
Não me mexi. Nem respirei.
Quando verifiquei hoje de manhã, tudo parecia normal a princípio. Mas então notei lama bem em frente à nossa porta… e havia algo pior:
Em cima da mesa da varanda, encontrei um pequeno pedaço de tecido, desbotado e esfiapado, da cor de um céu cinzento e frio de inverno.
Não via aquele tecido há uma década. Não desde que deixei um pedaço de mim pendurado naquela cerca de tela.
Ele sabe que meu irmão esquece.
Ele sabe quem dorme onde.
Ele sabe quando estou sozinho.
Ele não está esperando meu irmão esquecer.
Está esperando que eu…
Está esperando aquela única noite em que eu adormecer antes de meu irmão voltar para casa.
Hoje à noite ele vai sair novamente.
E eu já estou tão cansado…


0 comentários:
Postar um comentário