Eu ficava olhando a fumaça preta subindo, dançando como um vazio sem forma... bem parecido com o vazio sem forma que eu tinha visto lá dentro daquele lugar.
A escuridão... Isso tudo começou mais ou menos quatro semanas atrás. O Dan me falou: “Lonny, a gente precisa de mais emoção nas nossas vidas.” Eu ri e comecei a pensar se ele não tinha razão — e caralho, ele tinha mesmo. O Dan trabalha no hospital da cidade e eu trabalho de casa num suporte técnico.
A gente tinha caído naquela rotina chata que quase todo casal de longo tempo acaba caindo, ficando confortável demais e sem graça pra porra.
Eu e o Dan somos viciados assumidos em histórias de fantasma e filme de terror, então naturalmente nossos interesses vão pras coisas mórbidas e pros lugares assombrados que esse mundo tem pra oferecer. Eu comecei a pesquisar lugares curiosamente sombrios pra fazer um bate-volta, porque nossos dias de folga são poucos e bem espaçados.
Infelizmente, as únicas opções eram uma biblioteca creepy duas cidades pra lá e um centro recreativo no condado vizinho onde uns moleques tinham sido atacados no começo dos anos 90.
Eu adoraria ter ido pra cabana do massacre de Wood Creek, mas isso ficava lá pro norte do estado, longe pra caralho. Achei que não tinha mais jeito até tropeçar num lugar bem no nosso quintal: um nightclub abandonado chamado The Royal Club.
Eu nunca tinha ouvido falar, mas fiquei imediatamente fisgado enquanto fuçava a história do lugar. Começou como um acampamento de lenhadores nos anos 1850, onde um dos caras pirou uma noite e cravou um machado na cara de outro só porque ele trapaceou no carteado. Eles enforcaram o doido na hora.
Avança uns 60 anos e vira um speakeasy nos anos 20. Nada demais, só uns overdoses acidentais de heroína e morfina, nada muito violento.
Nos anos 30 virou ponto de parada pra criminosos e contrabandistas exibirem suas mercadorias sujas e fecharem negócios. Aparentemente rolou uns desaparecimentos de gangue.
Aí por volta de 1960 mudou de dono por uma mixaria e foi reformado num point bombado chamado Royal Club, que bombou até 1967. Numa noite quente de verão estourou um incêndio depois que alguém jogou um cigarro aceso num vaso sem ver que estava cheio de plantas de plástico.
O fogo se espalhou rapidinho, incendiando as decorações secas que pegaram como palha, e sem sistema de sprinklers moderno o interior virou cinza. Quando acabou, trinta pessoas tinham assado que nem peru de Ação de Graças. Mais uma vez o clube mudou de dono, e em 1981 outro cara reformou tudo e deixou funcionando de novo.
Tudo parecia tranquilo até 1996, quando a tragédia bateu de novo: um ex-funcionário pegou uma espingarda calibre 12 e surtou, metralhou o lugar, matou doze pessoas e depois se matou. Depois disso o lugar foi fechado pra sempre e abandonado completamente assim que a polícia terminou de recolher as provas e tirar os corpos.
O estranho pra caralho é que mal se falava de qualquer uma dessas coisas. A maioria dos artigos era curtinha, sem nada na mídia nacional. Alguém tinha grana pesada ou chantagem nas pessoas certas pra manter tudo abafado. De qualquer jeito, eu estava completamente vidrado nisso. Liguei pra minha irmã mais velha, que é millennial raiz, e perguntei se ela tinha ouvido falar do clube.
Depois que eu terminei de falar sem parar no telefone, ela ficou quieta um segundo: “Lonny, só você mesmo pra pensar na coisa mais mórbida possível e sair correndo atrás.” Eu respondi: “Me processa, eu gosto dessa merda. Então, você lembra desse lugar ou não?”
Ela ficou mais um tempinho em silêncio e falou: “A gente era novo demais pra entrar quando estava aberto, mas depois de toda aquela merda a gente ficava bem longe. Tinha uma vibe tão sinistra não importava o que acontecia. Só me promete que vai tomar cuidado quando for, tá? Por mim?” Eu suspirei: “Claro, mana, valeu pela info! Vou levar o Dan comigo, então a gente deve ficar de boa. Te amo, mana!”
Na noite seguinte, comendo comida chinesa, contei tudo pro Dan e joguei minha ideia. “Parece divertido, mas eu só quero olhar, nada de invasão que nem aqueles urbex do YouTube.” Eu sorri enquanto enchia a colher de arroz frito com porco: “Claro que sem invasão, mas eu quero tirar umas fotos boas por lá.”
Eu tinha guardado dinheiro o ano inteiro pra comprar uma câmera top de linha, mas ainda não tinha usado direito. Achei que não tinha hora melhor que esse final de semana que a gente planejou. Escolhemos o sábado seguinte porque o Dan finalmente tinha folga, embora aquela frase da minha irmã tivesse me deixado um pouco inquieto.
Mesmo assim, o dia chegou e a gente saiu no fim da manhã, câmera na mão, prontos pra uma aventura de verdade. Eram só uns vinte minutos de carro até o Royal Club, na saída da cidade, mas a gente estava bem relaxado.
Paramos pra pegar um almoço cedo pra encher o tanque e eu ainda tirei umas fotos saindo da cidade. Peguei mais umas da paisagem rural enquanto a gente se aproximava do lugar.
A gente pegou um caminhozinho de terra esburacado saindo da estrada principal, mas não demorou até aparecer o estacionamento antigo do clube, o asfalto todo rachado e esburacado de tanto abandono. “Tá pronto pra isso?”, perguntou o Dan. “Tô, só me dá um segundinho...” Precisei trocar o cartão SD por um vazio.
Quando desci do carro, dei uma boa olhada no Royal Club: um prédio baixo, cinza desbotado, com uns detalhes art déco, mas fora isso bem sem graça.
As janelas estavam cobertas de compensado, mas algumas tinham caído, deixando ver o vidro quebrado. Dava pra ver a placa de neon escrito “ROYAL”, só que o Y e o A tinham despencado, os pedaços jogados no chão bem na frente das portas principais.
Eu comecei a fotografar com calma, pegando ângulos diferentes, luzes diferentes, tentando capturar a alma daquele lugar.
Enquanto eu chegava mais perto, um vento forte subiu e me deu um calafrio que desceu até a espinha. Ele soprou as portas da frente abrindo, com as fitas de isolamento da polícia rasgadas balançando na brisa. “Ei Dan, olha isso.” O Dan se virou: “Foi você que abriu essas, Lon?”
Eu olhei pra ele: “Não, o vento veio e elas se abriram sozinhas.” A gente se aproximou pra espiar lá dentro: só um vórtice negro onde a luz morria.
Eu e o Dan trocamos um olhar. “A gente deve...?” “Você disse que...” O Dan deu mais um passo: “Eu sei, mas tá tentador demais pra não entrar, né?” Eu assenti e a gente entrou. Assim que cruzamos a porta, uma sensação ruim apertou meu estômago.
Quando os olhos acostumaram com a escuridão, a gente viu o lugar direito: um monte de cadeiras empilhadas em cima das mesas, algumas caídas no chão.
Tinha uma pista de dança enorme com luzes penduradas em cima, um bar vazio à direita e duas portas marcadas MEN e WOMEN — obviamente os banheiros. O ar estava meio mofado, com um leve cheiro de pólvora e álcool velho.
O lugar tinha a cara e a vibe dos anos 90 com certeza, tipo uma cápsula do tempo sinistra congelada em 1996. “Lonny, esse lugar é... puta merda, esse lugar é louco.”
Eu comecei a tirar fotos: “Eu sei, eu sei, e tem uma energia pesada pra caralho, bem... opressiva.” O Dan foi até uma porta à esquerda da pista marcada STAFF ONLY e espiou: “Parece a cozinha aqui.”
Eu me aproximei da pista de dança gasta, curioso pra ver como estava depois de trinta anos de abandono. Surpreendentemente não parecia estragada, até parecia... polida.
Tirei umas fotos enquanto o Dan foi pro bar, pegou um livrinho de fósforos antigo: “Olha só isso.” Eu baixei a câmera e pisei por cima de um pedaço de carpete com uma mancha enorme — provavelmente sangue.
“Bem, é um livrinho de fósforos, Dan. O que tem de especial?” Ele virou nas mãos: “Tá quase novinho. Depois de trinta anos você esperaria que tudo aqui estivesse bem mais... acabado, né?”
Eu peguei da mão dele e olhei de perto. O nome ROYAL CLUB em letras brilhantes parecia recém-saído da caixa. “Você pensaria que pelo menos teria poeira...” O Dan passou o dedo no balcão e levantou: “Aqui também não tem...” Achei estranho pra caralho não ter nem poeira, mas coisas mais estranhas já aconteceram.
Olhei ao redor do salão inteiro e não conseguia parar de sentir que tudo ali parecia... montado, sabe? Como se estivesse esperando alguém chegar pra usar o espaço pra dançar e se divertir como era pra ser, mas tinha algo errado, tipo cenário de peça de teatro, tudo certinho demais.
Meu arrepio não passava nem com o Dan ali. Normalmente eu vivo pra esse tipo de coisa, mas meus alarmes internos estavam tocando baixinho no fundo da cabeça. Distraidamente guardei o livrinho de fósforos no bolso e tirei mais umas fotos.
O Dan andava pela sala absorvendo tudo e eu juro que ouvi uns sons fracos de música, talvez até risada. “Dan, você tá ouvindo isso?”
Ele se virou pra mim, já parado no meio da pista. Olhou ao redor confuso e me deu um olhar estranho. “Acho que sim... pode ser o vento? Tipo aquele de antes?”
Eu olhei ao redor nervoso, a inquietação já batendo forte: “Quero tirar mais umas fotos e vazar daqui.” O Dan, sentindo meu desconforto, tentou aliviar o clima fazendo uma pose idiota de He-Man: “Aqui uma foto de gostosão premiada pra você, amor!”
Eu ri e respondi seco: “Tão gostoso, mal posso esperar pra comer essa delícia mais tarde.” O Dan riu, se endireitou e veio andando na minha direção quando parou de repente no meio da pista, o olhar mudando totalmente.
“Antes de ir embora, você dança um pouquinho comigo, Lonny?” Eu fiquei olhando pro Dan, pronto pra dizer não, vamos cair fora... mas algo bem lá no fundo de mim foi puxado de repente pra pista, de um jeito demoníaco.
Meus pés me levaram pra frente sozinhos, não por minha vontade, mas por algo maior, algo sobrenatural e irresistivelmente sedutor. Quando minhas mãos se entrelaçaram com as dele, as luzes de cima acenderam sozinhas, banhando a gente num brilho estranho e suave.
Eu ouvia a música de antes, só que bem mais alta agora — uma mistura louca de melodias e letras diferentes se sobrepondo, mas ainda assim estranhamente agradável.
A gente começou devagar, mas logo entrou num ritmo que batia certinho com aquela música esquisita. Olhar nos olhos do Dan e ele nos meus nesse transe estranho era eufórico pra caralho, parecia um cobertor quentinho nos envolvendo enquanto dançávamos.
Pelo canto do olho eu via outras pessoas dançando também, todos compartilhando a pista sem nunca se esbarrar.
Eu e o Dan continuamos assim por não sei quanto tempo até a música virar um caos total e os movimentos ficarem frenéticos. Foi quando ouvi um toque agudo e estridente. Era meu celular, graças a Deus — aquilo nos arrancou do transe na hora. Tudo parou de repente.
As luzes ainda nos banhavam naquele brilho sinistro enquanto eu via direito nossos parceiros de dança ao redor.
Pessoas de todos os tipos, roupas de quase cem anos de moda diferentes, uma parada macabra de rostos fantasmagóricos e ferimentos horríveis.
Eu soltei um grito quando vi uma flapper com seringa pendurada no braço dançando com um lenhador que tinha um machado cravado na cabeça. Um cara de jeans folgados dos anos 90 com um terço da cabeça faltando dançava com uma mina de botas go-go cujo lado direito inteiro do corpo estava carbonizado.
Tinha um monte de cadáveres furados de bala e queimados ao nosso redor, sentados nas mesas e no bar. Um homem de terno risca-de-giz com a garganta cortada me deu um sorriso que sabia demais. Meu estômago despencou e um calafrio gelado subiu pela minha coluna enquanto eu falava o mais calmo que consegui: “Dan, vamos dar o fora daqui agora, porra.”
A gente saiu da pista correndo pras portas da frente, mas elas bateram com tudo e algumas mesas voaram na nossa frente, bloqueando o caminho. A gente se virou e viu a multidão inteira nos encarando, olhos mortos nos chamando pra entrar na festa do inferno.
Foi aí que eu vi de relance aquela coisa preta sem forma no canto — um vazio do mal mais profundo e escuro, e estava “olhando” pra gente. “Dan... que porra é essa?” O Dan olhou na mesma direção: “Caralho...”
A gente ficou paralisado. Meu corpo inteiro gelou, pele arrepiando sem controle. A coisa sombra se retorceu e se moldou até virar um rosto demoníaco que nos deu um sorriso que eu nunca mais vou esquecer.
Meu instinto de luta ou fuga ligou no talo. Olhei desesperado pra qualquer saída daquele buraco do inferno. Agarrei o Dan e corri pras portas da cozinha enquanto garrafas vazias e cadeiras voavam passando por nós, quebrando tudo.
A gente irrompeu pela porta e tentou barricar na hora, mesmo sabendo que aquelas coisas entrariam se quisessem.
O Dan viu a porta dos fundos antes de mim e me puxou pra lá. Estava bloqueada por um armário pesado: “Empurra, Lonny!” “Tô tentando!” O barulho lá fora virou um caos de risadas, gritos, música berrando — puro som do inferno solto.
Eu me virei e vi as portas da cozinha chacoalhando, luz vazando pelas frestas e tentáculos pretos se enfiando por baixo.
Olhei pra tudo desesperado, procurando qualquer coisa. Vi uma janela acima da pia suja, corri, subi, mas a porra da janela estava emperrada. O Dan veio correndo com um extintor velho.
“Sai da frente!” Com um smash perfeito ele estourou o vidro e limpou o caminho. Estendeu a mão: “Vem!” Não sei de onde veio o pensamento — se era meu ou não —, mas só conseguia pensar: QUEIMA, QUEIMA TUDO!
“Lonny, que porra você tá fazendo?!” Eu corri pro armário, procurando qualquer coisa inflamável. Achei uma garrafa de licor de alta prova. Peguei uma toalha nojenta, fui pro fogão industrial, abri todas as válvulas de gás (ainda estava ligado, graças a Deus).
Corri pro Dan, subi na pia enquanto o cheiro forte de gás tomava a cozinha. O Dan pulou primeiro e me puxou pra baixo. Eu escorreguei e caí de costas. Ele me levantou na hora e eu peguei o livrinho de fósforos do bolso.
Transformei a toalha velha e a garrafa num molotov improvisado. Acendi aquela filha da puta e, com um grito desesperado final, joguei aquela bola de fogo de volta pela janela aberta, torcendo pra acabar com aquele lugar horrível de uma vez por todas.
Ouvi o vidro quebrar e um “whoosh” quando o álcool pegou fogo. Tudo pareceu ficar em câmera lenta enquanto o Dan me agarrou e a gente correu pra caralho antes da explosão inevitável nos derrubar. Ainda bem que estávamos longe o suficiente pra não virar picadinho.
A gente ouviu um grito sobrenatural de raiva que me fez olhar pra trás. Atrás da gente as chamas subiram enlouquecidas, uma luz forte subindo pro céu. Juro que vi pessoas... subindo direto pro céu.
Eu quase desmaiei, mas segurei firme. A gente tinha que voltar pro carro, ligar pras autoridades e combinar nossa história.
A gente cambaleou de volta pro carro, sem fôlego e mentalmente destruídos. “Que porra a gente conta pros policiais? Que a gente cometeu incêndio criminoso porque viu fantasma?”
O Dan pegou o celular e começou a discar: “Eu conheço um cara na delegacia do xerife. Vou falar que a gente estava fazendo trilha, tirando fotos da natureza, viu fumaça e tentou ajudar. Tomara que engulam...”
Eu abri a porta do carro e troquei o cartão SD de novo — pelo menos as fotos que tirei antes podiam ajudar na história.
E agora a gente voltou pro começo: sentado no mesmo estacionamento, vendo o resto desse lugar maligno ser consumido pelo fogo. Só chegamos em casa de noite. Os policiais engoliram nossa história furada de “passeio na natureza”. Pensando bem, um passeio na natureza teria sido bem melhor.
Eu não consegui dormir direito nos dias seguintes, nem o Dan. A gente ainda estava assombrado pra caralho por aquele lugar. Estávamos tentando voltar à normalidade, então enquanto eu fazia roupa suja achei o cartão SD que tinha enfiado no bolso.
Com o coração na mão, coloquei no laptop e comecei a ver as fotos do Royal Club.
As fotos pareciam normais até eu olhar melhor. Todas as fotos tiradas lá dentro tinham uma mancha escura. Todas, porra. Em algum canto do quadro, sempre ali, escondida à vista de todos.
Isso me fez pensar que aquela coisa estava esperando a gente o tempo todo, esperando pra levar a gente e nos manter lá como todos aqueles pobres coitados.
Depois que apagaram o fogo e começaram a investigar, concluíram que foi um “vazamento acidental” de gás que iniciou o incêndio. O que realmente me aterroriza é que, enquanto tiravam os escombros, levantaram o chão da pista de dança e acharam pilhas de ossos embaixo.
Eram ossos ligados a desaparecimentos da região nos últimos 30 anos. Então essa coisa deve ter ficado protegida dentro do clube abandonado, sugando almas por sabe-se lá qual motivo.
Acho que perdi isso na minha pesquisa. Ultimamente tenho tido uma sensação horrível de que seja lá o que morava lá agora está solto por nossa causa.
Está livre pra vagar por onde quiser e se instalar num lugar novo. Então se você tiver vontade de explorar um prédio abandonado ou uma casa velha, toma cuidado.
Se seus amigos te chamarem pro clube pra curtir, redobre a atenção. Você nunca sabe quando vão te chamar pra entrar na dança...


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