Eu não era pra estar lá sozinho.
É isso que eu tenho que falar em voz alta pras pessoas depois, porque senão elas começam a preencher as lacunas sozinhas. Transformam a coisa toda numa historinha bonitinha de "garoto se encontra na natureza". Ou decidem que eu tava pedindo pra acontecer. Ou riem e falam que foi um momento à la Bruxa de Blair, como se isso ajudasse de alguma forma.
Eu tenho dezessete anos. Tenho carteira de motorista, um emprego num mercado onde passo metade do turno empilhando latas de feijão e fingindo que não ouço homens adultos brigando por raspadinha, e eu já faço trilha nessas montanhas com meu tio desde o ensino fundamental.
E mesmo assim eu não era pra estar lá sozinho.
Minha mãe tava num plantão de doze horas no hospital. Meu padrasto tava num daqueles dias de "vou ficar na garagem", o que significava que ele ia botar um podcast no último volume e ficaria puto se alguém falasse com ele. Meu tio Wayne tava fora do estado a trabalho. A única pessoa que teria me falado "não, não seja idiota" não tava por perto.
Então eu fiz o que venho fazendo o verão inteiro: empilhei minhas desculpas bonitinhas e tentei fazer elas parecerem fatos.
Eu disse pra mim mesmo que não era mata fechada de verdade. Era uma trilha que eu já tinha feito antes. Disse que ia chegar e montar acampamento antes de escurecer. Disse que spray de urso era tipo cheat code. Disse que minha faca dobrável me tornava alguém que dava conta do recado.
Eu até escrevi um bilhete no balcão da cozinha com canetão Sharpie no verso de um cupom de pizza, igual criança fugindo de casa em filme.
"Vou acampar. Volto amanhã. Te amo."
Como se "te amo" fosse um escudo à prova de tudo.
O estacionamento da trilha tava meio cheio. SUVs empoeiradas, uns Subarus cobertos de adesivos no vidro traseiro, e uma minivan com uma família descarregando como se fossem se mudar pra lá. Eu estacionei lá no canto mais longe, como se meu carro fosse uma vergonha — e era mesmo. Tinha um cara apertando os cadarços da bota na caçamba de uma picape. Ele acenou com a cabeça pra mim. Eu acenei de volta. Aquela coisinha mínima me fez sentir mais seguro do que deveria.
Uma barrinha de sinal piscava no topo do meu celular, como se estivesse me fazendo um favor. Coloquei no modo avião mesmo assim. Bateria era uma das poucas coisas que eu podia controlar. Mais ou menos.
Minha mochila tava mais pesada do que eu tinha fingido que seria. Barraca baratinha de domo, saco de dormir velho, fogareiro, lanterna de cabeça e lanterna reserva, carne seca e miojo, o cobertor de emergência prateado que o Wayne insistia que eu levasse. Tinha um filtro de água que rangia e um rolo de fita adesiva. Só isso.
Tranquei o carro duas vezes. Mania. Ansiedade. Sei lá.
O primeiro quilômetro foi moleza. Trilha larga, bem batida pelo uso. Uns degraus naturais de raiz aqui e ali. Pedras chatas como calçada natural. Passei por um casal com bastões de trekking e chapéus iguais de sol. Passei por uma família com duas crianças brigando por causa do mix de castanhas. Sons normais. Folhas tremendo numa brisa leve. Um pica-pau martelando em algum lugar como quem bate numa porta oca.
Depois de um tempo a trilha se dividiu. O loop principal continuava reto, e o atalho que eu queria pegava e subia mais forte. A placa tava desbotada pelo sol e meio torta. Embaixo dela, pregada no poste, tinha uma plaquinha enferrujada que dizia TRILHA MANUTENÇÃO EQUIPE — 1987. O Wayne tinha apontado isso da primeira vez e falado: "Essa plaquinha é mais velha que você, garoto", como se fosse piada.
Eu entrei no atalho e o mundo mudou de um jeito que não dá pra explicar sem soar dramático pra caralho.
Não foi tipo a luz apagou ou a temperatura caiu dez graus. Foi menor. Tipo quando você entra num quarto onde as pessoas tavam conversando e todo mundo cala a boca de repente.
A trilha ficou mais estreita. Samambaias lotavam as bordas e roçavam nas minhas canelas. Eu ainda ouvia vozes distantes atrás de mim por um tempo, depois elas sumiram também, e as montanhas tomaram conta.
Um pouco depois da bifurcação, tem uma pedra enorme bem do lado esquerdo da trilha, como se alguém tivesse rolado ela pra lá de propósito. É do tamanho de um carro pequeno, e tem uma veia de quartzo branco cortando ela como uma cicatriz. O Wayne usava ela como marco. "Depois que passar pela Pedra de Quartzo, é só você e a crista."
Eu passei pela Pedra de Quartzo, e foi exatamente assim que pareceu.
A subida não era horrível, mas era constante. Daquelas que te fazem perceber sua respiração e o suor esfriando nas costas. Na metade do caminho, vi a primeira coisa que apertou meu estômago.
Uma trilha de cervo cruzava o caminho, plantas dobradas numa linha estreita, terra mais escura onde cascos tinham revirado.
Só que não era só cervo.
Tinha pegadas que não faziam sentido — umas manchas meio humanas, como se alguém tivesse pressionado a lateral de um tênis na terra e arrastado. Duas delas. Muito juntas.
Eu agachei, olhei fixo, pus meu pé do lado.
Não eram minhas.
Eu disse pra mim mesmo que eram velhas, amolecidas pela chuva, talvez alguém escorregou. História boa o suficiente pro meu cérebro agarrar.
Mesmo assim, levantei mais devagar do que precisava e escutei mais forte do que tava escutando. Não por ursos. Não por cobras. Por passos.
Nada óbvio.
Só os barulhinhos normais que deviam ser reconfortantes. Naquele dia eles pareciam camuflagem.
No meio da tarde, comecei a sentir que tavam me observando.
Não de um jeito poético. De um jeito físico. Como se o espaço atrás de mim tivesse peso.
Tentei tornar engraçado pra mim mesmo.
Beleza, Evan. Parabéns. Você inventou ansiedade.
Eu até falei em voz alta. Ouvir minha própria voz ajudou — até que não ajudou mais.
Numa curva fechada, ouvi um som baixo e molhado, tipo alguém limpando a garganta de boca fechada.
Veio de morro abaixo à minha direita. Perto o suficiente pra eu travar.
Fiquei lá com a mão meio levantada pra afastar um galho e escutei tão forte que minhas orelhas doeram.
Nada.
Sem movimento depois. Sem bicho correndo. Só ausência.
Continuei porque parar parecia pior.
Um tempo depois a trilha cortou um grupo de cicutas. Tudo ficou mais escuro embaixo delas, a luz virou esverdeada e chapada. Minha lanterna de cabeça balançava no peito a cada passo.
A sensação de ser observado piorou, e eu vi algo que não encaixava.
Na altura do ombro num tronco de árvore, uns seis metros fora da trilha, a casca tinha sido raspada numa área larga. Fresca, madeira clara exposta. Seiva brilhando.
Não eram marcas de urso. Não eram sulcos verticais. Era uma mancha de lado, como se algo tivesse se encostado e esfregado.
"Provavelmente nada", murmurei.
Eu não acreditei em mim mesmo. Não totalmente.
O acampamento do Wayne ficava perto de um riacho onde o atalho desce um pouco e você ouve a água antes de ver. Tem uma marca velha de blaze numa árvore também — dois retângulos amarelos desbotados, um em cima do outro. O Wayne tinha dito: "Se vir o amarelo duplo, tá quase lá."
Quando vi o amarelo duplo, o alívio me acertou como uma onda.
O acampamento tava lá, mais ou menos. Um pedaço de chão mais plano que o resto. Algumas pedras arrumadas como se alguém tivesse começado um círculo de fogueira em algum momento. O riacho era uma fitinha clara correndo sobre pedras, fazendo aquele barulho constante de sussurro que devia ser calmante.
Larguei a mochila e fiz a checagem do perímetro como o Wayne me ensinou — olhar pra galhos mortos em cima, cocô, sinais de que alguém já tava lá.
Sem sinal óbvio de animal. Sem pegadas.
Mas na borda mais distante da clareira, as samambaias tavam dobradas numa linha, como se algo tivesse passado por ali recentemente. Um corredor estreito entrando nas árvores.
Fiquei encarando tempo suficiente pra me sentir idiota, depois montei a barraca rápido mesmo assim.
Rotina. Rotina faz você sentir que tá no controle.
Filtrei água — o filtro rangeu quando apertei, igual sempre. Fervi miojo. Comi direto da panela. Pendurei o saco de comida o melhor que consegui, não perfeito, mas alto o suficiente pra me deixar mais tranquilo. A corda queimou minhas mãos.
O anoitecer chegou e a mata virou outro lugar. Não assombrado. Só menos legível.
Escovei os dentes lá embaixo no riacho. Pasta de menta, água com areia, cuspi nas pedras.
Quando levantei, vi algo na margem oposta.
Uma pilha de pedras.
Não um marco arrumadinho. Mais como se alguém tivesse jogado pedras claras num montinho. Não tavam lá antes. Eu teria notado. Minha lanterna pegou nelas e fez parecerem claras demais.
Cheguei mais perto, e na pedra de cima tinha uma mancha. Escura. Parecia molhada. Marrom-preta.
Não toquei.
Varri a luz pela linha das árvores do outro lado e não vi nada, mas a nuca ficou dura mesmo assim.
Voltei pra barraca rápido. Não correndo. Mas rápido.
Dentro, fechei o zíper da tela e sentei no isolante com os tênis ainda nos pés, lanterna de cabeça na testa, spray de urso do lado da coxa como objeto de conforto.
Escutei.
Riacho. Insetos. Um chamado fraco de coruja.
Depois, mais fundo nas árvores, ouvi aquele som de garganta de novo.
Baixo. Molhado. Perto.
Eu disse pra mim mesmo que cervos fazem sons estranhos. Raposas gritam como gente. A natureza é creepy. Era meu cérebro ficando dramático porque eu tava sozinho.
Só que não parecia animal.
Parecia uma pessoa fingindo ser um.
Chequei o celular. 21:03.
Uma barrinha de sinal piscando.
Tentei mandar mensagem pra minha mãe mesmo assim.
"E aí. Acampamento montado. Tudo certo."
Não enviou. O ícone girando ficou lá parado.
Desliguei o celular, liguei de novo, porque ver a tela me fazia sentir menos sozinho. Desliguei a lanterna de cabeça porque não queria a barraca brilhando como lanterna.
No escuro, a barraca encolheu. A tela virou um vazio preto. O mundo lá fora existia só como som.
Aí algo quebrou um galho perto da borda da clareira.
Não graveto. Galho. Estalo seco.
Eu travei tão forte que meus ombros doeram.
Algo roçou a lateral da barraca.
Não empurrão. Arrasto, tipo dedos testando o tecido.
O nylon sussurrou. A parede afundou uns centímetros pra dentro, depois soltou.
Levantei o spray de urso. Meu polegar achou o travador.
Bem do lado de fora, algo expirou.
Não respiração normal de animal.
Uma expiração longa, controlada, tipo alguém suspirando pelo nariz.
Ar quente bateu na parede da barraca. Senti através do tecido.
Sussurrei: "Vai embora."
Silêncio.
Depois movimento se afastando — sem passos pesados, mais um arrastar sussurrante pelas folhas.
Em direção ao riacho.
Um tilintar pequeno veio depois. Depois outro.
Pedra na pedra. Deliberado. Com pausas.
Tlim… tlim… pausa… tlim.
O riacho mudou de tom como se algo tivesse entrado com cuidado. Sem splash. Controlado.
Aí ouvi minha corda de comida mexer lá em cima.
Um rangido fraco, tipo peso testando.
A corda guinchou, e o mosquetão ticou.
Um puxão leve. Outro.
Depois a corda ficou frouxa.
Um estalo menor lá em cima, seguido de um baque pesado nas folhas.
Meu saco de comida caiu no chão.
Plástico amassou. Pacotes de carne seca mexeram. Algo metálico rolou.
Aí aquele som molhado de garganta de novo — agora mais satisfeito.
Mexeu nas minhas coisas devagar, como se fosse dono. Cuidadoso. Paciente. Não frenético como urso. Não barulhento como guaxinim.
Depois parou.
Meu celular vibrou.
A tela acendeu.
Número desconhecido.
Não atendi. Não rejeitei. Fiquei olhando tocar até parar.
Lá fora, em algum lugar nas árvores, meu toque tocou — só que não era meu celular. Era uma imitação fina, errada, tipo alguém cantarolando pelos dentes. Desafinado.
O cantarolar flutuou e sumiu como se estivesse se movendo.
Meu celular vibrou de novo.
Mesmo número desconhecido.
Aí, bem do lado de fora da barraca, algo disse meu nome.
"Evan."
Baixo. Tipo alguém chamando de outro lado do quarto.
Minha garganta travou.
"Evan", disse de novo, mais perto.
Depois: "E aí, garoto."
Frase do Wayne.
Parecia o Wayne em voicemail. Meio abafado. Como se a voz tivesse que passar por algo.
E aí riu.
Tentou rir como o Wayne, mas saiu grave demais e molhado demais, tipo tosse e risada emboladas.
Passos começaram.
Passos de verdade. Pesados. Bípedes. Lentos.
Cruzaram a clareira com pausas entre os passos, como se estivesse escutando entre os movimentos.
Parou bem do lado de fora da minha barraca.
Um cheiro azedo, úmido, vazou pelo tecido — cachorro molhado e cogumelo velho e podridão de folha.
A parede da barraca afundou de novo, mais alto dessa vez, como se algo tivesse pressionado a palma contra ela.
"Evan", disse, a centímetros do meu rosto através do nylon.
Expirou, lento e quente.
Depois, na voz da minha mãe: "Filhinho?"
Aquilo acertou algo mole no meu cérebro que eu não queria mexer.
Eu fiz um som. Não palavra. Um gemidinho involuntário.
A parede da barraca pressionou de novo.
"Filhinho", disse. "Abre aí."
As palavras tavam certas. O ritmo não. Minha mãe não fala assim.
Aí começou a raspar ao longo da linha do zíper. Devagar. Como se estivesse achando o ponto fraco.
Os dentes do zíper clicaram sob pressão.
Parou.
Toc. Toc. Toc.
Nós em nylon.
"Evan", disse, e a voz mudou — mais velha, rouca, cascalho na garganta.
"Sai daí."
Sussurrei: "Me deixa em paz."
O toc toc parou.
Por um segundo, achei que isso importava.
Aí a parede da barraca desabou.
Não rasgo limpo. Empurrão de corpo inteiro. Varas quebraram. Tecido desabou em cima de mim.
Eu gritei. Feio e alto.
Atirei o spray de urso às cegas no nylon desabando, e a nuvem voltou na minha cara.
Meus olhos arderam. Minha garganta travou. Tossi tão forte que engasguei.
Lá fora, algo recuou com um chiado gorgolejante, tipo ar forçado por algo molhado e estreito.
Arranhei minha saída, meio cego, lágrimas escorrendo.
Ar frio da noite bateu na minha cara.
A clareira era um borrão de escuridão. Minha lanterna de cabeça tava dentro da barraca desabada. Minha lanterna tava na mochila.
Algo caiu atrás de mim. Pesado. Folhas explodiram sob o peso.
Arrastei pra trás, bati numa pedra, caí de bunda com força. Dor subiu pela coluna.
Uma forma alta se mexeu entre mim e as árvores. Alta demais pra pessoa. Não urso em pé também. Proporções erradas.
Brilhos úmidos pegaram a luz das estrelas — olhos como vidro molhado.
Fez aquele som de garganta de novo, agora bravo.
Minhas mãos procuraram o spray. Sumiu.
Meu cérebro gritou corre.
Eu saí correndo pra trilha.
Não peguei a mochila. Minhas chaves tavam na mochila lá no acampamento, mas a ideia de carro parecia história da vida de outra pessoa. Tudo que eu tinha era direção.
Corri morro acima porque acima significava crista, e crista significava trilha principal, e trilha principal significava outras pessoas.
Atrás de mim ele se movia com aquele arrastar sussurrante, agora rápido, controlado.
De algum lugar à frente, ouvi minha própria voz.
"Evan."
Meu nome, no meu tom, com aquela coisa nasal idiota que eu odeio em gravações.
Veio da trilha à frente.
Eu derrapei até parar, pulmões travando.
Na escuridão à frente, uma silhueta tava no caminho. Forma de pessoa. De adolescente. De mim.
Levantou um braço devagar.
"Evan", disse de novo, na minha voz, e parecia que tava sorrindo.
Meu cérebro deu um estalo numa ideia limpa:
Tá me encurralando.
Usando som pra me fazer parar. Pra me fazer virar. Pra me fazer duvidar.
Atrás de mim, folhas sussurraram. Algo encurtou distância.
Então eu saí da trilha batendo nas árvores.
Galhos chicotearam minha cara. Samambaias agarraram minhas pernas. Não liguei.
O chão caiu. Metade caí, metade deslizei por uma encosta íngreme, me segurando em mudas e raízes. Minhas palmas rasparam. Meu joelho bateu em algo duro e a dor explodiu branca.
Continuei até bater em chão mais plano e o som de água me achar.
O riacho de novo.
E reconheci o lugar por uma coisa idiota: um tronco morto com fita laranja de agrimensor presa nele, balançando. Eu tinha notado antes e pensado, aleatório.
Ver aquilo fez meu estômago despencar.
Eu não tinha só corrido. Tinha sido direcionado.
Joguei água na cara mesmo assim, tentando tirar o spray de pimenta, e bebi sem filtrar porque meu cérebro não ligava mais.
Atrás de mim: toc… toc… toc.
Não em nylon. Em madeira.
Virei e vi outra área raspada numa árvore. Madeira clara fresca exposta. Sulcos rasos nela, não palavras, só formas que queriam ser algo.
Um contorno grosseiro de pessoa. Braços compridos demais. Dois círculos pros olhos. Uma linha pra boca.
Parecia bobo. Mesmo assim me deu nojo.
Do outro lado do riacho, algo entrou na água com cuidado. O som mudou ao redor.
Aquele cheiro azedo veio de novo na minha direção.
De rio acima, naquela voz de cascalho, disse meu nome como se gostasse do gosto.
"Evan."
Corri de novo, de lado pela mata, longe do riacho, longe de qualquer coisa que parecesse rota que ele pudesse prever.
Corri até meus pulmões parecerem papel.
Tropecei e caí feio, de cara nas folhas. Dor atravessou meu joelho. O ar saiu num som quase soluço.
Fiquei lá ofegante e escutei.
Sem passos. Sem som de garganta.
Só o barulho constante, indiferente das montanhas.
Pela primeira vez naquela noite, o silêncio pareceu que podia estar me escondendo em vez de me vigiar.
Rastejei pra baixo de um tronco caído — um tronco velho apodrecido num túnel baixo que fedia a fungo. Me enfiei lá, ombros raspando casca. Tirei o cobertor de emergência do bolso e amassei ele pra não brilhar. Mesmo assim estalou alto demais. Odiei aquele som.
O tempo passou em pedaços feios.
Minha lanterna de cabeça sumiu. Minha barraca sumiu. Minha comida sumiu. Minhas chaves sumiram. Tudo que eu tinha levado pra me sentir capaz tava lá na clareira como oferenda.
E meu celular — em algum momento na encosta e na queda — sumiu também.
Aí o cantarolar errado começou de novo.
Meu toque, desafinado, tipo alguém copiando de memória.
Não vinha de alto-falante.
Vinham da mata mesma.
Segurei a respiração e contei na cabeça porque contar é algo que você pode fazer quando nada mais faz sentido.
Um… dois… três…
O cantarolar parou.
Silêncio.
Uma mão pressionou nas folhas do lado de fora do túnel de tronco.
Pele pálida, manchada, esticada demais. Dedos compridos demais. Articulações dobrando levemente errado. Unhas escuras e grossas, não garras, só unhas humanas crescidas e endurecidas.
Pressionou devagar. Folhas estalaram.
Meu corpo inteiro travou. Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza que ele ouvia.
A mão levantou, e algo se abaixou pra olhar dentro.
Uma cara pairou na borda do túnel.
Não humana. Não animal.
Caroço tipo nariz. Fenda tipo boca. Pele úmida em lugares como se nunca secasse de verdade.
Os olhos eram o pior.
Pareciam usados.
Tipo olhos de boneca de vidro colocados errado. Brilhantes. Fixos. Sem piscar.
Chegou mais perto e puxou ar pela fenda da boca como se estivesse provando.
A boca se abriu um pouco.
Dentro não tinham dentes humanos. Pedaços quebrados cravados em gengivas escuras.
Esticou um dedo comprido na minha direção.
O cobertor de emergência estalou enquanto meu corpo tremia.
Aí a cabeça da coisa virou um pouco pro lado, como se tivesse ouvido outra coisa.
Longe, uma voz humana gritou.
"Alguém aí?"
Voz de verdade. Respiração. Esforço.
"Alguém aí? Tem alguém por aí?"
Minha garganta apertou tanto que doeu. Queria responder. Não respondi.
A criatura congelou, calculando.
Depois recuou do túnel, silenciosa, a mão saindo das folhas como se nunca tivesse estado lá.
A voz distante chamou de novo, depois se moveu, depois sumiu.
No silêncio depois, ouvi aquela risada molhada de novo.
Baixa. Perto.
Entre mim e onde o grito tinha vindo.
Como se tivesse seguido o som. Como se soubesse usar ele.
Apertei o rosto na terra até encher o nariz.
Não lembro de dormir. Devo ter dormido, porque a próxima coisa que lembro é luz pálida filtrando pelas folhas e som de pássaros, pássaros normais.
Por uns segundos, esqueci onde tava. Aí me mexi e meu joelho gritou e minhas mãos arderam e minha boca tinha gosto de terra e medo.
A realidade voltou com tudo.
Rastejei pra fora de baixo do tronco piscando pro dia como se fosse claro demais. A mata parecia inofensiva de manhã. Isso me deixou com raiva. Como se as montanhas estivessem fingindo.
Levantei devagar e manquei.
Não vi ele. Não ouvi ele.
Mas a sensação de ser observado não sumiu totalmente. Ficou debaixo da pele como espinho.
Subi morro acima porque acima geralmente significava crista e crista geralmente significava trilha.
Depois de um tempo achei — a terra batida, o jeito que o caminho parecia uma decisão em vez de aleatoriedade.
O alívio bateu tão forte que meus olhos marejaram.
Manquei rápido. Quase corri.
A Pedra de Quartzo apareceu de novo — a pedra com a veia branca — e vê-la torceu meu estômago porque significava que eu realmente tinha sido enrolado. Não perdido-perdido. Movido.
Quando cheguei no loop principal, vi outros trilheiros.
Um cara com um cachorro na coleira vermelha. O cachorro parou morto quando me viu, pelos arrepiados, um latido baixo de aviso na garganta. O cara puxou a coleira e me encarou como se não soubesse o que eu era.
Um casal de short de corrida diminuiu.
"Tá tudo bem?", a mulher perguntou.
Três universitários dobraram a curva, um com caixinha de som Bluetooth presa na mochila, música tinindo e animada. Um viu minhas mãos e falou: "Cara, você tá sangrando."
A mulher ralhou: "Desliga isso", e o garoto atrapalhou, matando a música no meio do refrão.
O silêncio depois fez minha respiração parecer alta.
"Me perdi", falei. Minha voz saiu destruída.
O cachorro continuou encarando pras árvores atrás de mim, focinho tremendo, choramingando como se não gostasse do cheiro em mim.
"Ursos?", o cara da coleira perguntou, meio brincando mas não de verdade.
"Não", falei rápido demais. "Não urso."
"Você tá sozinho?", a mulher perguntou.
Balancei a cabeça.
"Senta", ela disse, e não era pergunta.
Sentei numa pedra porque minhas pernas tavam tremendo. O parceiro dela me deu água. Bebi como se nunca tivesse visto água antes.
"Tem celular?", o cara da coleira perguntou.
"Perdi", falei. Minha voz rachou.
O parceiro dela pegou o celular, subiu um pouco na trilha, e tentou os serviços do parque. Conseguiu na segunda tentativa.
Quando o guarda florestal chegou, perguntou coisas como adulto faz quando tá tentando não deixar virar bagunça.
Onde acampou? Quanto tempo ficou fora? Viu urso? Ouviu algo estranho?
Falei que me virei. Falei que minha barraca desabou. Falei que entrei em pânico e corri.
Tudo verdade, tecnicamente.
Minha mãe chegou como se tivesse dirigido direto pelo próprio medo. Me abraçou tão forte que minhas costelas doeram, depois me empurrou pra trás e me escaneou como se procurasse peças faltando.
O guarda perguntou se queríamos que pegassem meu equipamento.
Minha mãe disse sim na hora.
Minha boca disse: "Não."
Todo mundo me olhou.
"Não quero", falei, afiado demais. "Deixa lá."
O guarda piscou. "É coisa cara, garoto."
Garoto.
Palavra do Wayne.
Minha pele arrepiou.
"Não ligo", falei. "Deixa."
O rosto da minha mãe amoleceu de um jeito que me assustou mais que a raiva dela. O guarda hesitou, depois balançou a cabeça como se já tivesse lidado com trauma antes.
"Tá bom", disse.
Fizeram meu depoimento. Deram pra minha mãe um panfleto de segurança na trilha como se essa fosse a lição. Minha mãe me levou pra casa com uma mão branca agarrada no volante.
Tomei banho até a pele ficar vermelha, vendo água lamacenta escorrer pelo ralo, esfregando como se pudesse apagar um cheiro.
Naquela noite, não dormi.
Não era só medo. Meu corpo se recusava. Todo barulho na casa parecia afiado demais.
Por volta das duas da manhã, ouvi meu celular vibrar.
De onde devia estar — minha mesinha de cabeceira.
Uma vibração curta, tipo notificação. Depois uma mais longa, tipo chamada entrando.
Meu corpo inteiro deu um pulo. Meu coração foi direto pra garganta.
Estiquei a mão, dedos procurando na mesa.
Nada.
Minha mesinha tava vazia exceto por um porta-copos e um livro de bolso que eu fingia estar lendo. Sem celular. Porque eu tinha perdido na mata.
A vibração aconteceu de novo mesmo assim, bem na madeira, perto o suficiente pra eu sentir nos ossos.
Aí, daquele espaço vazio, um cantarolar fino e errado começou. Meu toque, meio tom fora, tipo alguém copiando de memória.
Puxei a mão de volta como se tivesse tocado algo quente.
Meu padrasto gritou da garagem: "Que porra você tá fazendo?"
Não respondi.
Minha mãe entrou e acendeu a luz. Viu minha cara e não discutiu.
"O quê?", disse, já com medo.
"Eu ouvi", sussurrei.
"Ouvi o quê?"
"Meu celular."
Ela olhou pra mesa vazia, depois pra mim.
Dava pra ver que ela queria dizer que eu tava sonhando. Dava pra ver também que ela não acreditava totalmente nisso.
Perguntou o que aconteceu lá fora. O que realmente aconteceu.
Tentei contar, mas tudo que eu via era aquela mão nas folhas e aquela voz usando a palavra dela pra mim como se fosse dona.
Então falei a única coisa que dava pra falar sem parecer louco.
"Acho que algo me seguiu."
Minha mãe me encarou por um longo segundo, depois passou o braço pelos meus ombros como se estivesse me ancorando.
Ficamos lá escutando os sons normais da casa — zumbido da geladeira, tráfego distante, o podcast do meu padrasto abafado pela parede.
E nos espaços entre esses sons, eu ficava esperando.
Por batidas.
Por aquela garganta molhada.
Pela minha própria voz dizendo meu nome de algum lugar que não devia.
Não ouvi de novo naquela noite.
Na manhã seguinte, o guarda ligou de volta pra minha mãe. A voz dele era cuidadosa.
Disse que tinham ido na clareira onde eu disse que acampei.
Disse que acharam minha barraca desabada.
Disse que acharam meu equipamento.
Disse que meu saco de comida tava rasgado e espalhado como se alguém tivesse organizado — carne seca em fila certinha, pacotes de miojo empilhados como criança brincando de lojinha, meu isqueiro colocado numa pedra como se estivesse em exposição. Disse que tinha pedras arrumadas perto do riacho também, como se alguém tivesse ficado ocupado com as mãos.
Aí disse: "Não achamos seu celular."
Minha mãe perguntou se alguém tinha levado.
O guarda pausou.
"Senhora… tinha marcas nas árvores ao redor do local. Tipo esfregadas. Raspadas. Às vezes vemos sinal de urso, mas isso não era típico. Tinha impressões no chão mole também. Difícil dizer de quê. Vamos ficar de olho na área."
Os dedos da minha mãe apertaram os meus tão forte que doeu.
Não ouvi o resto. Não de verdade.
Porque tudo que eu conseguia pensar era: ele não precisava do meu celular.
Nunca precisou do meu celular.
Só gostava do som que conseguia fazer com ele.
E agora nem precisava mais do celular pra fazer isso.


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