sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

10% das pessoas nem são pessoas de verdade...

Sou entomólogo, o que quer dizer que eu me dedico ao estudo dos insetos. Falar do meu trabalho costuma entediar as pessoas até quase chorarem, mas as crianças ficam absolutamente fascinadas com o que eu faço; por isso comecei a dar palestras educativas para escolas que visitam o museu local de história natural. Eu adorava inspirar a garotada sobre a classe biológica mais fascinante do reino animal.

Fascínio e terror não são coisas que se excluem, como eu aprendi seis meses atrás, e estou começando a desejar que meus amigos e minha família — sempre tão desinteressados — estivessem certos.

Seria melhor pra todo mundo se, de fato, não houvesse nada de extraordinário nos insetos.

Depois de uma das minhas palestras no museu, no fim do verão, um garoto esperou o professor se distrair com os colegas dele, aí se afastou do grupo e, meio tremendo de medo, me contou sobre a descoberta de um inseto novo: um com asas de um “branco esquisito” e que fazia um “zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção”.

Ele não foi a primeira criança empolgada (nem o primeiro adulto, inclusive) a achar, por engano, que tinha descoberto uma espécie nova — mas com certeza foi o primeiro a estar apavorado. O medo dele atiçou minha curiosidade, então quando ele mandou eu ir embaixo do píer da praia da cidade pra ver com meus próprios olhos o inseto de asas brancas, foi exatamente o que eu fiz.

Eu estava a uns bons 90 metros de distância quando avistei pela primeira vez os bichinhos de asas brancas. Eles emitiam um zumbido nauseantemente íntimo, como papel amassando dentro dos meus canais auditivos, como se estivessem mais perto de mim do que pareciam. Eu disse a mim mesmo que deviam ser moscas-brancas de estufa, mas insetos sugadores de seiva assim não teriam nada a ver com um píer de madeira caindo aos pedaços.

Além disso, a verdade é que não pareciam moscas-brancas.

Eram umas quatro vezes maiores do que deveriam ser, e aquele branco não era branco como eu já tivesse visto antes. “Branco esquisito”, como o garoto tinha chamado. Ainda assim, descartei isso como coisa da minha cabeça privada de sono, do mesmo jeito que descartei aquele som alienígena de papel enrugando — diferente de qualquer inseto que eu já tivesse ouvido. Um zumbidinho sussurrado que você só ouve se prestar muita atenção. O garoto estava certo de novo. Eu já tinha atravessado aquele píer dezenas de vezes e provavelmente nunca ouvi os bichinhos, apesar de passar bem por cima deles. Só agora, que eu estava procurando e ouvindo com intenção, foi que eu tinha percebido.

E mesmo que eu tentasse ignorar todas essas estranhezas, tinha uma coisa impossível de ignorar: o jeito que eles fugiam.

Os insetos mergulharam no mar.

Eu devo ter ficado pálido. Eu nunca tinha visto nada parecido. Insetos suicidas? Eu levantei essa hipótese, mas fui até a água lambendo a beira da praia e não vi um único inseto afogado boiando na superfície. Os insetos voadores tinham nadado por baixo d’água e sumido.

Meus colegas riram da minha história de “inseto voador aquático”, e eu me peguei rindo junto. O mais perturbador é que a lembrança já estava ficando turva na minha cabeça. Era um tipo de letargia diferente de tudo que eu já tinha sentido. Eu sinceramente acredito que, se aquele garoto não tivesse voltado ao museu com os pais uma semana depois, meu cérebro teria apagado qualquer conhecimento do que eu vi e ouvi.

Os pais deram risadinhas enquanto o filho falava daquele inseto “novinho em folha”. Disseram que ele tinha imaginação demais, e eu dei um sorrisinho, concordando, mas aí o garoto disse uma coisa que gelou minha pele.

“Você já esqueceu, né? É isso que eles fazem.”

O pai bufou, debochado. “São só insetos, campeão. Tenho certeza de que o doutor Farrow consegue identificar a espécie.”

Os pais pediram desculpa por tomarem meu tempo e puxaram o garoto pra longe, mas as palavras dele desenterraram aquela memória abafada da minha visita ao píer. Eu me lembrei de ouvir um som impossível de descrever. Eu me lembrei de ver insetos, de uma cor impossível, mergulharem na água e desaparecerem.

Claro que, como cientista com os pés ainda fincados na realidade, eu achei que talvez estivesse tendo um surto psicótico. O único jeito de ter certeza era voltar ao píer mais tarde naquele mesmo dia.

Eu fui até a praia, parei à minha distância “segura” de uns 90 metros e observei as pessoas caminhando ao longo da passarela elevada do píer. Lá embaixo, não havia insetos — só uma mulher parada com o rosto esticado pra cima, tentando espiar pelas frestas entre as tábuas do píer acima dela. Ela se debatia de um jeito errático, movendo os membros duros e estalando os lábios, como um peixe dourado, como se estivesse tendo uma conversa muda com alguém. Eu segui a linha do olhar dela até uma mulher no píer; ela conversava com as amigas e gesticulava com entusiasmo, mexendo os braços.

A mulher lá embaixo estava imitando a mulher lá em cima.

Eu decidi que era como ver um bebê aprendendo com um adulto — só que aquilo era uma mulher adulta aprendendo com outra mulher adulta. Ela é uma mulher? veio um pensamento horrível quando eu encarei a imitadora embaixo do píer, e isso arrancou de mim um gemidinho involuntário de terror, lá do fundo. Foi um som baixo. Baixo demais pra alguém a 90 metros de distância ouvir. Mesmo assim, a mulher que imitava congelou na hora, como se estivesse brincando daquela brincadeira infantil de estátua.

Não passou nem um segundo, e ela virou o rosto na minha direção num estalo.

Os olhos dela eram inteiramente brancos; só esclera, sem pupilas. Um branco impossível, como o tom que eu só tinha visto uma vez na vida. E quando pedacinhos da pele dela começaram a se soltar, descamando, carregados pelo vento na minha direção, eu percebi que eram insetos.

Eu percebi que ela era insetos.

Eu disparei pro estacionamento da praia, sem fôlego demais até pra gritar. Mas quando eu virei pra olhar pra trás, não tinha nada além de um pedestre preocupado — provavelmente tentando entender por que eu estava tão desesperado pra chegar no meu carro. Não havia insetos de asas brancas. Não havia mulher.

A partir daquele dia, eu me esforcei de verdade pra evitar aquela cidade litorânea e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Esquecer os insetos. Esquecer o garoto. Voltar pra ignorância feliz, por mais que isso fosse contra meus princípios científicos. Meu medo engoliu minha curiosidade.

Esquecer funcionou — até certo ponto. Aquele lodo misterioso voltou pra minha cabeça, afogando minhas memórias; sempre acreditei que era um mecanismo de defesa dos insetos.

Mesmo assim, algumas semanas depois, enquanto eu dirigia por uma cidade próxima, eu vi ela atravessando a rua: a mulher debaixo do píer. Quando eu parei, ela parou também, e virou a cabeça pra me mostrar os olhos — que não eram mais vazios brancos. Tinham pupilas castanhas por cima do branco. Ela parecia humana, se movia como humana, e eu tinha certeza de que também soaria humana. Mas eu vi a falsidade daqueles olhos e o sorriso embaixo deles, e quando eu realmente escutei, eu ouvi de novo: aquele som de papel amassando, se enfiando pelas frestas da lataria do meu carro pra afogar o interior do veículo.

O zumbido enlouquecedor dos insetos aquáticos de asas brancas parecia quase carregar, escondido no chiado, um aviso; parecia quase carregar palavras.

A gente se vê.

Por um instante, eu achei que ela ia se jogar com o corpo em cima do capô. Minha garganta inchou e quase fechou de terror enquanto eu esperava ela fazer isso — e ela com certeza comunicou essa vontade com os olhos. Graças a Deus, ela terminou de atravessar a rua, então eu pisei fundo no acelerador, acreditando que tinha escapado dela ileso mais uma vez. Aí eu olhei no retrovisor e soltei um soluço apavorado.

Sangue estava escorrendo dos meus ouvidos.

As palavras sussurradas dela, de papel, tinham me cortado.

Eu consegui esquecer de novo, porque aquele lodo preto de memória era uma bênção tanto quanto era um horror. Mas não dá pra esquecer pra sempre. Acho que, como aquele garoto no museu, eu abri a Caixa de Pandora. Não importa quantas vezes eu enterrasse os insetos e a mulher, alguma coisa sempre vinha com uma concha e puxava o lodo pra servir a verdade de novo. Aquele som de papel amassando me perseguia, e sempre que eu ia atrás da fonte, eu acabava vendo alguém que não parecia totalmente certo: escleróticas meio encardidas e movimentos estranhamente ensaiados.

Foi quando eu parei de me esconder disso. Eu gravei áudio daquele som estranho de papel enrugando em público e tirei fotos às escondidas de desconhecidos com olhos estranhos. Eu enchi o saco de outros cientistas com o que eu tinha encontrado, e bastou uma semana pra o instituto me mandar embora, alegando uma suposta “preocupação com seu bem-estar mental”.

Alguns colegas prometeram, com um ar de desculpas, que não estavam sendo teimosos nem fazendo de conta que não viam. Eles também estavam inquietos com meus dados sobre essa espécie de inseto não classificada, mas algum “chefão” do instituto tinha ameaçado que eles largassem isso pra lá — ou seriam mandados embora comigo.

Um colega chegou a dizer que tinha cavado um pouco e descoberto incidentes parecidos em outros institutos científicos. “Meu conselho? Para de cavar agora, doutor Farrow. Agradece pelo que você ainda tem. Já ouvi falar de pesquisadores tendo destinos piores do que uma demissão forçada.”

Eu me senti justificado. Claro que não era só um garotinho que sabia dos insetos.

Gente poderosa está encobrindo isso.

Gente que, eu temo, talvez nem seja gente.

Olha só: nos últimos cinco meses, eu venho torrando minhas economias numa caça por respostas. Tenho viajado de continente em continente, país por país, cidade por cidade, e município por município. Tenho estudado pessoas por horas todos os dias: gravando, fotografando e chegando perto de assediar, eu admito. Eu quase não dormi. Quase não comi. E depois de compilar dados de 36.794 “pessoas” ao longo de 189 dias, sabe o que eu descobri?

3.707 indivíduos tinham olhos com uma coloração estranha ou, quando eu realmente escutava, emitiam aquele zumbido de papel amassando; e eram sempre as “pessoas” que me encaravam com sorrisos duros, inabaláveis, e a maior desconfiança. Muitos paravam onde estavam e sussurravam ameaças horríveis com suas vozes de papel, fatiando meus canais auditivos e fazendo o sangue escorrer livre. Uma ou duas vezes, os mais ousados chegaram a avançar pra cima de mim, e eu saí correndo, morrendo de medo.

Eu encontrei 3.704 não humanos que pareciam humanos.

10%.

10% das pessoas vêm do mar como insetos de asas brancas, imitam nossos comportamentos e depois viram a gente.

10% das pessoas nem são pessoas de verdade.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon