Vou começar com alguns avisos, porque o título desse post é um pouco enganoso. Primeiro, não tenho 100% de certeza da contagem. Durante um bom tempo eu tinha, mas agora tenho que admitir que existe uma margem de erro de pelo menos ±5. Isso apesar de todos os meus esforços pra lembrar, e isso me deixa inquieto pra caralho, porque é prova de que minha cabeça tá escorregando. Mais sobre isso depois. Apesar dessa incerteza toda, tenho marcado os últimos posts meus como “dia cinco mil”. Eles parecem performar melhor quando o título tem um número redondo. Não sei bem por que eu me importo com uma merda dessas; talvez só faça bem fingir que ainda sou humano o suficiente pra caçar atenção. Também ajuda imaginar que eu tenho algum controle sobre o tamanho da audiência que lê meu testemunho. Ajuda ainda mais fantasiar que um dia alguém com conhecimento esotérico/oculto vai responder com um método de fuga. Claro que tudo isso é só meu jeito de lidar com a situação. Já faz tempo que aceitei meu destino.
Segundo, tô só chutando quando uso a palavra “demônio”. Eu poderia ter dito “Estou preso em um loop temporal por uma entidade de outro mundo”, mas não tem o mesmo impacto. Além disso, o post não bomba tanto quando eu descrevo como “demônio” ou “diabo”. Eu tenho um monte desses joguinhos. Outro é rastrear quais frases/detalhes atraem quais tipos de comentadores. Tem um cara que só responde se eu mencionar a cidade onde moro; outro só fala alguma coisa se eu mentir e escrever que tô preso há 1000 anos. Novidade virou um recurso raro necessário pra minha sobrevivência, então desculpa qualquer detalhe aleatório nesse post — faz parte do meu protocolo regimentado de sanidade.
Como eu estava dizendo, não faço a menor ideia se meu captor é realmente um demônio ou qualquer coisa do tipo. Dito isso, acho que o termo não tá totalmente fora de lugar. Não sou religioso (e especialmente não sou mais), mas essa coisa definitivamente encaixa na descrição do que eu imaginaria que um demônio pareceria e agiria. Pensei nisso pra caralho, e “parasita demoníaco” é a melhor explicação que consigo dar pra identidade da criatura que tá parada no canto do meu quarto agora mesmo. Mas nunca vou saber com certeza. Pode ser um alienígena, um fantasma, ou algum experimento de laboratório que escapou, pelo que eu sei. Não é como se ele fosse me contar. Ele só falou um punhado de vezes, e nenhuma delas me fez acreditar que tem a menor intenção de se explicar pra mim.
Sei ainda menos sobre como ele me encontrou e me prendeu no loop pra começo de conversa. Não explorei nenhum templo antigo abandonado e fui amaldiçoado, não é o resultado trágico de algum pacto faustiano com um estranho enigmático nem o backfire irônico de um desejo de pata de macaco. Na real, sempre tive como regra vaga não mexer com coisas que não entendo. Sou uma pessoa cautelosa por natureza e passei a vida pegando toda oportunidade pra reduzir riscos ou evitar me meter em qualquer coisa perigosa. Mas no final não significou porra nenhuma. A única explicação que consigo dar de como acabei aqui não é explicação nenhuma, é um fato bruto. Eu sou profundamente azarado. Passei anos pensando naquele dia, neste dia, e não consegui apontar absolutamente nada que, se eu tivesse mudado, teria me salvado desse destino. Eu ter sido selado no tempo foi só um acidente bizarro, igualzinho a um acidente de avião ou um tsunami. Se criaturas como essa existem — e elas existem —, significa que algum pobre coitado vai acabar na mira delas por puro acaso. Só consigo imaginar que eu estava pisando em alguma falha psíquica extradimensional no lugar errado na hora errada, e agora fui engolido inteiro por algo horrível. Uma criança que coloca a língua pra fora durante uma nevasca está fadada a pegar pelo menos um floco de neve, mesmo que milhões de outros cheguem ao chão em segurança. Só que o floco derrete rápido, poupando ele de um destino como o meu.
Muita coisa do começo tá ficando nebulosa, mas ainda lembro do primeiro loop com clareza total. Na real, não percebi que tinha algo errado nas primeiras horas do dia. Acordei bem cedo, então minha cabeça ainda tava meio enevoada e não reconheci que a data no meu celular era do dia anterior. No meu trajeto matinal pro campus, comecei a apertar os olhos enquanto admirava o nascer do sol pela janela do trem na minha frente. O jeito que o sol refletia na água parecia estranhamente familiar, como se eu tivesse visto em um sonho ou filme. Esse déjà vu vago só endureceu virando um terror quieto quando cheguei na biblioteca. Como estudante de mestrado, eu tava lá pra adiantar um pouco da minha tese antes da primeira aula do dia. Ao abrir o documento, porém, não tinha nenhuma das adições que eu tinha feito na noite anterior. Apavorado achando que tinha perdido todo aquele progresso, chequei o histórico de edições e descobri que a edição mais recente era da noite retrasada. Antes que eu pudesse reagir direito a isso, fui interrompido pelo meu amigo Jon vindo na minha direção.
“De volta aqui tão cedo? Você realmente não consegue parar de queimar a vela pelas duas pontas assim”, ele disse com um sorrisinho, puxando uma cadeira ao meu lado. “Acho que posso te fazer companhia.”
Meus olhos se arregalaram de choque enquanto eu virava a cabeça devagar pra encarar ele. Ele tinha dito isso ontem. Isso tinha acontecido ontem. Esse momento, essa troca, aquelas palavras naquela ordem. Meu coração começou a bater mais rápido devagar enquanto eu murmurava algo quase incoerente e fazia sinal de que ia levantar. Depois de correr direto pra porta pra pegar ar fresco e me acalmar, respirei fundo umas vezes antes de checar o celular. 8:37 da manhã, 24 de fevereiro. Aquelas respirações fundas não serviram pra nada quando comecei a hiperventilar. Hoje era pra ser o dia 25. Eu sabia disso com mais certeza do que de outros dias, porque o 25 é o aniversário do meu pai. Eu tinha passado a noite anterior editando um vídeo de todos os meus familiares desejando feliz aniversário pra ele. Era pra eu mandar isso hoje. Mas hoje era ontem. Eu desabei no chão, meu corpo se revoltando contra essa verdade nojenta. Por entre respirações irregulares, só um pensamento ficava martelando na minha cabeça: Isso não pode estar acontecendo.
Mas estava acontecendo. Passei as próximas horas lutando contra um surto psicótico enquanto andava pela cidade lotada, perguntando pras pessoas a data periodicamente. Era 24 de fevereiro toda vez, sem exceção. Cada confirmação piorava aquela sensação de aperto e ardor bem fundo no peito. No final resolvi que isso podia ser só um glitch solitário no estilo “falha na matrix”. Era só um soluço isolado, e eu ia voltar pro fluxo do tempo quando acordasse amanhã de manhã. Esses sonhos foram esmagados quando acordei no 24 de fevereiro seguinte, segurando a cabeça nas mãos por horas depois de checar o celular.
É aqui que as coisas começam a ficar borradas. Lembro dos meus primeiros meses em traços largos, mas os detalhes estão sumindo. Sei que minha primeira fase de luto diante da eternidade, a negação, consistiu em tentar descobrir que lição eu precisava aprender pra me libertar do que eu ainda acreditava ser algum castigo cósmico. Meditei, voltei pra igreja, liguei pra ex-namoradas, qualquer coisa que eu conseguisse pensar que pudesse levar a alguma reconciliação. Nada disso fez merda nenhuma. Depois de um tempo, acreditar que eu podia me libertar pelos meus próprios esforços virou uma maldição sufocante em vez de um farol de esperança.
Em vez disso, comecei a me entregar pro loop, explorando as novas avenidas de entretenimento que tinham se aberto pra mim. Descobria exatamente quais sequências de palavras faziam o Jon, meus professores ou até a garota sentada do meu lado no trem rir, chorar ou se apaixonar por mim. Descobri como convencer eles de que eu tava preso num loop e sentia um prazer doentio vendo os rostos deles se contorcerem em expressões distorcidas de horror e luto. No começo era um pouco nojento saber mais sobre essas pessoas do que os próprios entes queridos mais próximos, mas superei esse peso moral. Superei um monte de pesos morais. Nadar em tempo profundo faz isso com você. Meu entretenimento naqueles primeiros meses e anos ia muito além de esgotar todas as opções de diálogo com as pessoas no meu caminho. Meu corpo resetando todo dia significava que eu podia experimentar qualquer droga sem criar tolerância ou vício químico. O medo de overdose também não era limite, porque toda vez que eu exagerava, simplesmente acordava na minha cama no começo de mais um 24 de fevereiro. Devo ter passado pelo menos seis meses experimentando heroína pela “primeira” vez. Olho pra trás com carinho, mesmo que embaçado, daqueles dias.
Em vez de bater de frente com vício, foi o tédio que cortou meu uso de drogas. Era uma experiência surreal olhar pra uma seringa de heroína com nada além de apatia no coração. Devo ser o único humano vivo que já enjoou de narcóticos pesados. Hedonismo é só escapismo no fundo, e escapismo só vale a pena quando você tem uma crença razoável de que pode realmente escapar do que tá tentando evitar. Sem essa possibilidade disponível pra mim, até as atividades que pareciam mais cheias de adrenalina acabavam virando chatas e até irritantes. Talvez alguns de vocês conseguissem se picar pra eternidade, mas eu enjoei. Enjoei de violência também. Você só consegue dar um soco na cara do seu professor no meio da aula ou assassinar o prefeito um número limitado de vezes antes de ficar dessensibilizado e enjoar da coisa toda. Humanos são puxados naturalmente pro significado, e quanto mais tempo passava por cima de mim, mais eu percebia que esse dia nublado de fevereiro não tinha absolutamente nada pra me oferecer.
Minha memória é mais falha na próxima fase do meu aprisionamento. Quando a busca por emoção deu lugar a uma névoa melancólica, parei de me importar com a minha situação. Sem tentar mais escapar nem curtir minha nova vida, simplesmente me recusei a interagir com ela de qualquer jeito. Passei o que devem ter sido décadas só deitado na minha cama, mal pensando em qualquer coisa. Você sabe como é ficar tanto tempo sem nenhuma vontade de comer? Sem a menor vontade de levantar a cabeça do travesseiro? Eu já estava morto pro mundo no momento em que fiquei preso, mas agora eu estava completamente morto pra mim mesmo. Eu tinha tentado suicídio antes de me prender voluntariamente na cama, mas toda queda livre de 150 metros pro concreto terminava do mesmo jeito: com meu alarme me acordando num grito gutural. Essa era minha próxima melhor alternativa. Eu planejava ficar ali deitado indefinidamente, torcendo pra que quanto mais nada eu experimentasse, menos consciente eu ficasse. Perto do fim, estava começando a funcionar. Comecei a me sentir menos como uma criatura senciente e mais como a memória de alguém sobre uma. Era quase como se minha própria consciência estivesse sendo sugada, como se eu estivesse perdendo o que me fazia saber que eu podia perder coisas.
Em algum momento durante esse declínio cognitivo autoinduzido, porém, algo primal dentro de mim se agarrou aos aglomerados de sombras no canto do meu quarto. Pareceu instintivo, como se minha amígdala tivesse identificado uma ameaça pela primeira vez em uma eternidade. Fazia um tempo impossivelmente longo desde que eu tinha focado conscientemente minha visão em qualquer coisa, mas esse surto repentino de atividade cerebral me devolveu pra um estado em que eu queria desfocar minha visão e focar naquelas sombras. Meus olhos se arregalaram de terror quando finalmente consegui ver o que realmente estava parado a poucos metros de mim.
Era uma figura alta, musculosa, humanóide, com pele cinza carvão áspera. Com a cabeça a poucos centímetros do teto, ela estava virada pra mim, bloqueando a porta do meu quarto. Não usava nada além de um pano preto grosso amarrado na cintura. Mesmo quando foquei os olhos, o contorno da criatura ainda parecia borrado, como se estivesse sempre na minha visão periférica. Não tinha olhos. No topo da cabeça tinha só uma grande mancha de pele enrugada, tipo de cotovelo, só que as linhas eram bem mais profundas. Apesar da falta de olhos, eu tinha certeza de que ela estava intensamente focada em mim. Não tinha nariz também, só um sorriso enorme de orelha a orelha revelando fileiras de dentes pretos irregulares. Babava pela boca sorridente, fios grossos de saliva pendurados nos lábios. Deve ter percebido que eu estava olhando pra ela, porque soltou quatro palavras numa voz baixa e ofegante:
“Volta a dormir.”
Embora as palavras fossem quase sussurradas, era como se cada uma penetrasse minha alma com uma intenção maliciosa pura. Eu sabia por que ele estava babando. Entendi ali na hora que isso era um predador, e eu era a presa. Não obedeci o comando; acho que nem conseguiria, mesmo se quisesse nesse ponto. A onda de choque e sensação percorrendo meu corpo depois de eras de nada parecia um balde de água gelada no meu sistema nervoso inteiro. Fiquei ali sentado, paralisado, olhos arregalados de horror fixos na coisa. Mas enquanto eu continuava laser-focado na criatura, ela começou a ficar cada vez mais borrada. Era como se estivesse se dissolvendo quanto mais eu encarava. Isso continuou até virar só o estranho aglomerado de sombras que eu tinha identificado no começo. Depois de ficar na cama o que pareceu horas, finalmente juntei coragem pra atravessar elas. Não aconteceu nada.
Comecei a viver de novo depois desse primeiro encontro. Não tinha certeza total do motivo, talvez porque o escapismo voltou à moda depois que eu tive uma experiência que eu faria qualquer coisa pra esquecer. Tentei imaginar que era só consequência da minha mente derretendo, que era só o último suspiro do meu subconsciente. Mas lá no fundo eu sabia a verdade. Era real, e minha intuição me dizia que eu devia minhas décadas de tormento pra criatura no canto do meu quarto. Mas por que eu nunca tinha visto ele antes? Por que ele não simplesmente colhia minha alma ou me arrastava pro inferno ou pra nave-mãe dele ou pra onde quer que fosse e acabava logo com isso?
Aqui está o que eu sei. Essa criatura, esse demônio, não come no sentido tradicional. Parece não ter interesse nenhum no corpo da vítima; só se importa com a mente. Além disso, só se interessa por mentes desoladas e inativas. Essa é a única forma de eu fazer sentido daquele primeiro encontro e das aparições seguintes. Agora, você imaginaria que a refeição ideal dele seria um paciente em coma num hospital, né? Mas não pode ser. Eu era um intelectual em ascensão fazendo mestrado em antropologia evolutiva, e mesmo assim ele preferiu me desgastar em vez de se banquetear com uma mente já quebrada. Então tenho que concluir que esse demônio não é um necrófago. Ele caça, e o loop é o jeito.
Na minha vida antiga, passei muito tempo pesquisando a origem da humanidade. A maioria das pessoas atribui nosso sucesso evolutivo e domínio sobre o mundo natural à nossa inteligência aprimorada, mas isso é só parte da história. Humanos primitivos eram caçadores de resistência. Tínhamos a maior stamina de qualquer mamífero terrestre do mundo. Perseguíamos nossa presa sem descanso, sem dar a ela chance de recuperar o fôlego ou se curar de ferimentos contínuos. Éramos uma força opressora total de morte e desespero pra qualquer pobre coitado que cruzasse nosso caminho. Não importava o que você fizesse; a gente te pegava no final. Eu antes achava que isso era um nicho evolutivo único, que éramos as únicas criaturas que caçavam desse jeito. Agora eu sei melhor.
Até psicopatas podem ser torturados com confinamento solitário. Um espaço sem nenhuma novidade ou propósito eventualmente leva a mente à loucura. O loop é minha cela. É o mecanismo pelo qual o demônio pretende esvaziar meu crânio, me levar a uma morte cerebral funcional. Não tenho como saber se isso é algo necessário pro processo digestivo dele, tipo cozinhar carne crua, ou algo opcional pra dar sabor, tipo tempero. De qualquer forma, é assim que ele escolhe caçar, e quase conseguiu.
Claro, isso é só minha teoria de trabalho sobre o que está acontecendo. Mas ela é sustentada pelo que aconteceu desde nosso primeiro interação. Depois que voltei pro mundo fora do meu quarto, comecei a notar mudanças na sequência normal de eventos que eu estava acostumado. Era sutil no começo, mas quando você vive o mesmo dia milhares de vezes, capta cada detalhe imperceptível. O Jon andava um pouco mais devagar na minha direção na biblioteca, ou o sol ficava um pouco mais baixo e mais fraco no céu do que deveria no meu trajeto de trem. Isso piorou com o tempo, as coisas ficando cada vez mais vazias e sem graça. Eu pegava um livro novo na biblioteca só pra descobrir que todas as páginas estavam em branco. Tentava gritar obscenidades pra um estranho pra ter reação, e ele simplesmente passava reto. O céu, os prédios e as árvores começaram a desbotar pra um cinza escuro.
O tempo todo, eu continuava vendo aglomerados de sombras nas bordas da minha visão periférica, tomando forma mais sólida se eu continuasse ignorando eles. Pelo que entendo, o demônio está apertando o cerco no loop depois de falhar em me matar no quarto. Está reduzindo a largura de banda de tudo, removendo sistematicamente qualquer fonte de estímulo que eu possa usar pra me manter são. Ele odeia quando tô distraído, quando tô absorvido em qualquer coisa que me deixe esquecer minha situação por um segundo que seja. Eu estava lendo um dos livros que ainda tinham texto um dia, bem preso no monólogo interno do personagem principal. Não cheguei ao fim da página antes de ouvir uma única palavra sussurrada bem atrás de mim. Ainda num tom baixo, mas bem mais forte do que da primeira vez que ouvi ele falar.
“Para.”
É assim que cheguei à conclusão de que ele me quer dócil e sem cérebro. No mesmo dia, escrevi meu primeiro post aqui. Foi curto e mais um grito de socorro do que um testemunho, mas fiz de novo no dia seguinte. Foi bom dar voz à minha luta. E isso nos traz até agora. Passei os últimos 5000 (mais ou menos) dias fazendo tudo que posso pra adiar o declínio mental inevitável, com meus posts diários sendo uma parte chave do meu protocolo de sanidade. O protocolo é simples, mas sigo ele à risca. No fundo é só passar cada dia buscando o máximo de estímulo novo possível. Livros, filmes, escrita criativa, e até lendo todas as suas experiências aqui. Entrei em cada prédio da minha cidade e explorei tudo. Sei falar 10 línguas (no momento tô aprendendo islandês). Tenho um domínio de nível de mestrado em física quântica. Se eu voltasse pro fluxo normal do tempo, eu seria um polímata de verdade. Mas não vou voltar. Sou um condenado no corredor da morte.
O protocolo teve que sofrer algumas alterações conforme menos e menos fontes de novidade ficam disponíveis. Um dia acordei e descobri que entrar na URL de qualquer serviço de streaming devolvia só uma tela preta. O mesmo com a Wikipedia, que foi uma perda particularmente brutal. Tive que recorrer a mídia analógica pra maior parte do meu estímulo. Discos de vinil, fitas VHS, o pacote completo. Sempre gostei de coisa antiga mesmo, e tem várias lojas na minha cidade que vendem equipamentos vintage (hoje em dia o caixa nem fala nem faz nada se eu roubar na cara dura). Sou grato que esse site ainda funciona e que consigo continuar compartilhando meu testemunho. Escrever minha história ocupa várias horas de cada dia, mas é essencial. É como eu retenho minhas memórias do que aconteceu e de quem eu sou. Sem a repetição diária da minha situação, eu teria enlouquecido há muito tempo.
Mas não consigo manter isso pra sempre. Eu sei. Eventualmente o demônio vai sacar, e meus discos não vão emitir som nenhum. Eventualmente todo livro que eu abrir vai estar em branco. Posso até perder a cabeça antes disso acontecer. Rachaduras estão se formando no último ano. Não queria admitir por um tempo, mas a perda recente da contagem desses posts finalmente me fez encarar. Alguns dias demora mais do que deveria pra eu lembrar o nome do Jon, ou pra lembrar que “amanhã” é o aniversário do meu pai. Meu Deus. Meu Deus. O nome dele não se escreve assim; é John. Porra, caralho, eu realmente tenho escrito assim esse tempo todo? Caso em ponto. Tô escorregando. Ele vai vencer no final, e ele sabe. Mesmo agora, consigo ver o contorno fraco de um sorriso na minha visão periférica. Aquele sorriso nojento, presunçoso do caralho.
Chegou um ponto nesse ciclo em que eu quis morrer, sumir. Mas quanto mais eu entendia o que realmente estava acontecendo comigo, maior ficava a vontade de lutar. Isso não aconteceu comigo do nada; eu devo o que calculo ser quase um século de sofrimento a esse demônio. A culpa é dele. Não faço ideia de quantas pessoas ele já condenou a esse destino doente no passado, nem quanto tempo levou pra todas elas quebrarem. Mas eu não vou quieto. Vou cuspir no carpete enquanto me arrastam pro inferno. Vou alongar esse processo o máximo que puder. Se tudo que posso fazer diante desse mal de outro mundo é incomodar ele, então é isso que vou fazer. Eu sou Sísifo e a pedra me odeia. Mas eu odeio a pedra ainda mais.
O que a mosca fica pensando enquanto se dissolve na boca da planta carnívora? Ela realmente acredita que tem chance de lutar? Acho que nunca vamos saber. Vejo vocês todos amanhã.


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