sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Os cervos não gostam de mim...

Eles têm me encarado.

Pra contextualizar, eu moro numa cidadezinha pequena em West Virginia. Uma velha cidade mineradora de carvão com tipo umas mil pessoas. Sou sortudo pra caralho porque tenho uma grana depois de trabalhar um tempo em tech, então consigo viver confortavelmente enquanto os outros estão se ferrando. Então eu tenho uma casa bem decente na saída da cidade, onde moro com minha esposa.

As matas ao nosso redor são lindas pra porra. Na real, a gente escolheu esse lugar pela beleza natural das colinas. É quieto aqui, quase quieto demais, que era exatamente o que a gente queria depois de passar anos em San Fran. Um cantinho só nosso pra curtir um pouco de paz.

Quer dizer… Nosso vizinho mais próximo fica tipo meio quilômetro de distância. Jason, um cara ótimo. Ou era, pelo menos.

Eu tava sentado na varanda dos fundos outra noite com ela, a gente curtindo uma cerveja e batendo papo (a gente já tem essa rotininha de fim de dia), e foi aí que eu ouvi pela primeira vez.

Tinha tipo um som. Não sei bem como descrever. É tipo um rangido, um gemido, ou um zumbido. Meio os dois? Vinha lá do fundo da mata e parecia bem distante. Ela e eu brincamos que eram aliens e não pensamos muito nisso, sinceramente. Quer dizer, coisas estranhas acontecem na mata às vezes, então a gente ficou nas cadeiras de balanço, tomou nossas cervejas e só escutou um tempo.

Depois de uns 30 minutos, parou, e foi isso. A gente entrou, foi pra cama e deu o dia por encerrado. Tudo ficou quieto por um tempo depois disso.

Passa mais ou menos uma semana e as coisas estão normais. Mas uma noite, enquanto eu voltava da loja pra fazer nossa coisinha na varanda, eu ouço de novo. Aquele rangido, aquele gemido de zumbido. Obviamente eu olhei pra trás pras matas, mas não consegui ver nada além de um dos cervos que perambulam pela área. Ele me olhou e saiu correndo, e eu entrei.

Eu lembro de ter contado pra minha esposa que tinha ouvido de novo, e ela disse algo tipo:  
— Talvez seja maquinaria velha de mineração.

Eu perguntei o que ela queria dizer, e ela falou:  
— Bom, eles mineravam carvão na área antigamente. Tem um monte de minas por aqui, talvez alguma coisa esteja acontecendo com as máquinas que eles usavam.

Ela não tá errada; tem um monte de minas de carvão velhas na área. Não que eu soubesse muita coisa sobre isso, mas eu sabia quem saberia. Lembra do Jason? O cara mora aqui a vida inteira, e eu tinha o número dele, então liguei do celular.

Não consegui falar com ele. O sinal tava ruim. Acho que acontece às vezes, mas eu senti uma sensação estranha, rastejante no estômago. Então eu disse pra minha esposa que ia fazer uma visita pra ele, e ela falou que ia manter a cerveja gelada pra mim.

Eu entrei na minha caminhonetinha e fui na direção dele. Agora, Jason é tipo um grandalhão montanhoso, e a esposa dele é uma mulherzinha magrinha que tá sempre do lado dele. Mas quando eu cheguei na entrada de terra da casa dele, eu fui parado pelos faróis.

Ele parou o carro e saiu. Eu fiz o mesmo.

— E aí? — perguntei pra ele. — Tá meio tarde pra tá saindo, né?

E ele só meio que me encara e balança a cabeça.  
— Você ouviu isso?

Eu assumi que ele tava falando do zumbido, então eu disse que sim e perguntei o que era.

Em resposta, ele aponta pras matas, pra um cervo que tá nos encarando direto. No momento que a gente trava o olhar com ele, o cervo sai correndo. Eu achei que era whatever, mas o Jason parecia pensar diferente.  
— Não é normal — ele disse.

— O que não é normal?

E ele cospe e vai:  
— Os cervos. Eles não tão se comportando direito.

— O quê, você acha que o barulho tá assustando eles?

Eu achei que ele ia dizer sim, mas ele só meio que encarou de novo pras matas, onde o cervo tava antes. Depois de um momento ele olhou de volta pra mim e disse:  
— Os cervos não fazem isso.

— Encarar?

Ele assente.  
— Eles não encaram assim.

Eu não faço ideia do que ele tá falando, então eu meio que dei pra ele um olhar de confusão. Mas antes que eu pudesse pedir clareza, ele me diz:  
— É melhor você ir pra casa.

— Por quê?

— Porque cervos não encaram assim.

O-kay? Eu achei melhor deixar ele em paz, ele não parecia bem essa noite. Então eu dei meia-volta e fui embora, cheguei em casa e abri uma cerveja com minha esposa.

Eu contei pra ela o que ele disse, e ela falou:  
— Bom, eu tenho notado mais cervos ultimamente. E eles ficam meio que encarando.

Eu perguntei o que ela queria dizer.

— Eu tava na cidade ontem e vi dois cervos me encarando pelo canto do olho, e quando eu olhei pra eles, eles só meio que saíram correndo.

Huh. Bom. Eu não sabia o que dizer pra isso. Então a gente foi pra cama depois de um tempo de silêncio, salvo pelo zumbido, claro. Isso parou lá pelas dez da noite.

No dia seguinte, eu acordei e desci pra fazer café. Eu tava incrivelmente grogue, como de costume, e então eu não notei de primeira, mas… bom, eu senti essa sensação afundando de estar sendo observado. E pelo canto do olho, eu vi um cervo me encarando direto pela janela da cozinha.

No momento que eu olhei nos olhos dele, eu soube que tinha alguma coisa errada. Ele tava me observando como se estivesse pensando. E assim que eu percebi isso, eu senti um calafrio que me fez tremer, como se eu não estivesse olhando pra um animal de verdade. E então ele só… saiu correndo.

Foda-se o café. Eu peguei as chaves e a carteira, entrei no carro e fui direto pra casa do Jason. Eu literalmente *bati* na porta tipo às oito da manhã. E quando ele atendeu, ele tinha esse olhar nos olhos, um olhar cansado, exausto. Olhos vermelhos, olheiras, um ar de esgotamento total.

Ele me puxou pra dentro rápido.

— Que porra tá acontecendo — eu perguntei.

E ele me leva pra cozinha e me diz:  
— Os cervos não tão certos.

Foi aí que eu notei que ele tem uma espingarda no balcão. E uma perto da porta. E uma 9mm na cintura.

— O que isso significa?

E ele balança a cabeça e diz:  
— Você e sua esposa deviam dar o fora daqui. Os cervos não gostam de você.

— Quem se importa se os cervos não gostam de whatever — eu disse. — Eles são só cervos.

Assentindo, ele meio que morde o lábio, então diz:  
— É, bom, aquele barulho não é só um barulho.

Eu sinto que ele tá super reservado, e eu só sinto um desconforto profundo me invadir. Como se eu não fosse bem-vindo. Isso vindo de um cara que só foi bondade com minha esposa e comigo, então era bem notável.

— Tá bom, bom, então eu vou indo — eu digo pra ele. Mas ele põe a mão no meu braço enquanto eu vou saindo.

— Não sem isso você não vai. — E ele me entrega a espingarda do balcão. Também me dá dois cartuchos — só dois. — Agora vai.

Eu não conto nada pra minha esposa o dia todo, mas acabo cedendo naquela noite quando a gente tá na varanda dos fundos ouvindo o zumbido de novo. Eu despejo tudo pra ela: os cervos, o “aviso” que o Jason me deu, a espingarda… e ela me encara boquiaberta.

Mas antes que ela pudesse falar, eu vejo outro cervo filho da puta na mata dos fundos, só me encarando. Ele não tá se mexendo, mal tá respirando. Só tá nos encarando. E na luz da varanda refletida nos olhos dele, eu consigo ver alguma coisa… humana. Ou pelo menos inteligente. Não sei descrever de outro jeito.

Mas onde eles normalmente saem correndo quando eu noto eles, esse aí só continuou encarando. E encarando. E encarando. Eu olho pra minha esposa, que tá encarando de volta.

— O que tem de errado com ele? — ela me pergunta.

— Não tenho certeza. Mas eu não gosto disso.

A gente entra e eu pego a espingarda, decidindo que já cansei. E eu volto pra fora, e agora tem dois cervos lá, bem fora do círculo de luz da varanda, encarando. Nem fodendo, penso eu, então eu armo a arma e atiro neles.

Eu juro que acertei um bem no corpo. Ele devia ter caído morto ali mesmo, mas não caiu, e em vez disso só saiu correndo. Como se o chumbo tivesse atravessado ele. Eu corri atrás um pouco, na direção da fonte do zumbido, só um pedaço, mas não vi nenhuma marca nas árvores nem nada. Eu *sei* que acertei aquele cervo.

Sem sangue, nem nada.

Então eu corro de volta pra dentro. Agora tem alguma coisa errada, isso eu sei, mas quando eu entro, minha esposa tá na janela da frente me chamando.

— Amor — ela diz —, tem mais cervos lá na frente.

Eu corro pra olhar e com certeza, tem três cervos lá fora, encarando *direto* pra gente. E eu não sei se tô imaginando, mas juro que vi um deles formar a palavra “Shaun” com a boca.

Meu nome é Shaun.

A gente tranca todas as portas e sobe pro quarto, onde a gente se barricada usando um baú velho do pé da nossa cama. Pela janela, eu consigo ver mais cervos se juntando lá fora.

Todos eles encarando direto pra cima, pra gente.

O zumbido tá ficando mais alto também.

Eu digo pra minha esposa que a gente devia revezar pra dormir e ela concorda, e a gente decide cair fora de manhã. Ela dorme primeiro. Os cervos ficam lá a noite toda.

Por volta da uma da manhã, eu acordo ela pra trocar. A gente faz isso, e eu caio no sono, mas acordo de novo tipo às três. E ela sumiu. A porta tá aberta, e ela sumiu.

Mas na fresta da porta, um cervo filho da puta tá me encarando com aqueles olhos humanos. Eu gritei. Eu gritei como nunca gritei antes.

Isso pareceu assustar ele e eu pulei da cama e acendi todas as luzes. Eu chamei pela minha esposa, e não tive resposta. O zumbido parou. Tudo ficou quieto. E eu me senti mais sozinho do que nunca na vida. Sozinho e com medo.

Eu fico acordado até o sol nascer, e começo a procurar minha esposa. Já estamos no hoje nesse ponto. Eu tento ligar pro Jason de novo, e dessa vez tenho sinal.

— Minha esposa sumiu! — eu choro pra ele quando ele atende.

E ele literalmente só diz:  
— Os cervos não gostam de você — e desliga.

Agora eu tô sozinho na minha casa, e tenho que encontrar minha esposa. Nossa caminhonete ainda tá aqui então ela não deve ter ido longe… então eu me armo e vou pra onde o zumbido tá vindo. Não sei o que mais fazer…

Depois de tipo 30 minutos de estrada de terra ruim e pedregosa, eu encontro com certeza: uma mina velha cercada por uma cerca de arame enferrujada. Tá bem quieto aqui, mas em algum lugar lá no fundo, em algum lugar obscuro, eu consigo ouvir. Aquele rangido zumbido. Tipo engrenagens mecânicas chorando por óleo.

A cerca é resistente, mas a frente da minha caminhonete é mais. Eu bati naquela coisa com força total, e acabei numa encosta de mina com poços de madeira velhos e correias transportadoras que provavelmente não são usadas desde os anos 60.

Fodeu a caminhonete pra caralho, porém. Eu peguei a espingarda do banco, um cartucho sobrando, me sentindo impotente e morrendo de medo pra cacete.

— Amor? — eu chamei.

Nada.

Nada além do zumbido, lá no fundo da Terra.

Eu vasculhei o lugar todo, de cima a baixo, antes de encontrar a entrada da mina em si. E eu conseguia ouvir, aquele barulho horrível, lá no fundo.

— Amor?!

Ecoou nas paredes, ricocheteou pra dentro e através. E nesse momento, o zumbido parou. Simplesmente parou completamente. Eu encarei o poço da mina, parado na frente das portas de metal abertas, um cartucho na câmara.

E então eu vejo eles. Os olhos dos cervos. Não um. Não dois. Mas dezenas de cervos, todos piscando pra existência dentro da escuridão lá dentro. O da frente, porém, embora eu não conseguisse ver o corpo dele…

Bom, eu sei como são os olhos da minha esposa.

Eu gritei. Eu corri e gritei.

Eu entrei de volta na caminhonete tão rápido e tentei ligar o motor, mas acho que minha manobra com o portão fodeu o motor pra valer. Eu consegui fazer ele pegar, e mal e mal saí de lá com meu juízo, mas na metade do caminho pra casa ele pifou em mim.

E agora estamos aqui. Tá escurecendo, eu tô na mata, e tenho um cartucho de espingarda sobrando. Tentei ligar pro Jason, mas não tenho sinal de novo. Eu tô chorando. Não tem como eu voltar andando à noite nesse ponto.

E eu consigo ouvir o zumbido gemido ficando mais alto enquanto o sol continua a se pôr.

Eu consigo ver eles. Olhos de cervo nas árvores. Eles tão me encarando. Acho que eles tão esperando.

Não sei o que mais fazer. Mas tenho um cartucho de espingarda, e vou fazer ele valer. Tô com medo, mas não vou cair assim. Os cervos não vão me pegar.

Eu tô escrevendo isso pra avisar as pessoas. Quando alguém disser “os cervos não gostam de você”, não fica pra descobrir por quê. Por favor. Eu imploro.

Porque esses não são cervos.

E eles não gostam de mim.

Eles acabaram de piscar pra mim.

Vou fazer esse cartucho valer.

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