Então, eu não tenho certeza absoluta se foi realmente o que aconteceu ou se eu só imaginei tudo no estado em que eu estava naquela época, mas eu só queria compartilhar essa história da minha infância enquanto ainda tento entender isso sozinho e não consigo decidir se acredito que foi algo sobrenatural ou não.
Minha infância foi difícil, pra dizer o mínimo. Eu nunca cheguei a conhecer minha mãe porque ela morreu no parto, e por isso fui criado pelo meu pai, que aparentemente achava que a morte dela tinha sido culpa minha e fazia questão de que eu nunca esquecesse disso.
Ele não me batia propriamente dito, mas era extremamente negligente e abusivo psicologicamente. Em algum momento, quando eu ainda era bem pequeno, ele começou a beber, e eu não tenho nenhuma memória dele que não seja a de um cara gritando ou chorando feito um trapo. Hoje, depois de todos esses anos, eu até sinto um pouco de pena dele, mas na época eu odiava as tripas dele.
Se vocês estão se perguntando como isso pôde durar tanto tempo sem intervenção da assistência social ou do conselho tutelar, é só lembrar que foi há uns 20 anos numa aldeia do Leste Europeu, e isso não era nada incomum na época.
Enfim, o vício do meu pai acabou matando ele quando eu tinha 12 anos. Era inverno e ele ficou tão bêbado que desmaiou numa vala e morreu congelado.
Minha avó, mãe dele, que morava não muito longe, me acolheu. E pra qualquer um de vocês que quiser falar mal dela porque ela deixou meu pai me abusar todos aqueles anos — nem tentem. A mulher era um anjo e a única pessoa boa na minha infância inteira. As coisas simplesmente eram assim naquela época e as pessoas não sabiam fazer diferente.
Ela era uma alma bondosa e se esforçava pra caramba pra compensar todos aqueles anos de negligência que eu vivi.
Cerca de seis meses depois de eu me mudar pra casa dela, os pesadelos começaram. Eu sonhava que estava preso num lugar frio pra caralho, congelante. Não conseguia ver nada, não conseguia ouvir nada. Só sentia aquele frio que gelava até os ossos. Era tão vívido que, mesmo depois de acordar, eu continuava tremendo e batendo os dentes, mesmo no meio do verão.
Os pesadelos eram tão ruins e aconteciam com tanta frequência que minha avó finalmente decidiu me levar num psicólogo — o que era uma decisão bem incomum naqueles tempos, porque uma coisa dessas podia te marcar como louco pro resto da vida. Mas eu não conseguia dormir, não queria comer nada, então ela realmente não tinha outra escolha.
O diagnóstico do médico foi bem óbvio: um trauma resultante de um longo período de abuso psicológico, e as circunstâncias da morte do meu pai fizeram meu subconsciente me punir na forma de sonhos. Por que punir?, vocês podem perguntar. Bom, porque eu senti alívio depois da morte dele. Não tinha dúvida nenhuma sobre isso. Além do mais, eu tinha só 12 anos — por que eu questionaria as palavras dele?
Ele disse pra minha avó me levar regularmente pras sessões de terapia pra trabalhar o trauma, e foi o que ela fez. Durante as sessões, além das coisas normais, ele me falou que eu precisava aprender a reconhecer um sonho pelo que ele era: só um sonho. Assim, uma vez que eu fizesse esse reconhecimento, eu deveria conseguir tomar controle do sonho e ou mudar ele pra algo agradável ou simplesmente acordar.
Eu queria que ele nunca tivesse me dito isso.
Não vou fingir que sei se foi realmente isso que piorou as coisas, porque não faço a menor ideia. Só sei que, assim que comecei a colocar a teoria em prática, as coisas escalaram.
Eu aprendi a reconhecer que era sonho bem rápido. A segunda parte, porém, estava totalmente além das minhas capacidades. Eu não conseguia mudar porra nenhuma. Não conseguia me forçar a acordar. E assim eu ficava preso nessa escuridão, congelando, sabendo que estava sonhando, mas completamente incapaz de fazer qualquer coisa a respeito. E o fato de saber que era “só um sonho” de alguma forma tornava tudo ainda pior. Eu me sentia preso, impotente e morrendo de medo. E o pior é que eu não conseguia voltar pros ajustes originais, então agora cada pesadelo era muito, muito pior.
E se tivesse parado por aí… Aos poucos, os pesadelos viraram episódios de paralisia do sono. Eu não estava mais numa escuridão fria e vazia. De vez em quando eu “acordava”, ou sentia como se tivesse acordado — e aí a linha entre sonho e realidade começou a ficar cada vez mais difícil de distinguir — e eu estava no meu quarto, na minha cama, completamente paralisado. Eu ficava encarando o teto pelo que parecia horas, incapaz de mexer um único músculo. E o frio? O frio continuava lá. Aquele calafrio no ar que parecia tão pesado, tão palpável, que quase me sufocava.
E nem era o fim. Foi piorando aos poucos.
Cada episódio era pior que o anterior. Pareciam durar mais tempo. Às vezes meus pulmões simplesmente se recusavam a respirar e eu ficava lá em pânico puro, sentindo a dor dos músculos se contorcendo pela falta de oxigênio, sem ter controle nenhum sobre meu corpo. Eu sei que não podia durar pra sempre, mas parecia uma eternidade. (Aliás, tô colocando isso aqui só pra manter minha própria sanidade — escrever isso tá me fazendo reviver esses momentos e eu preciso de uma distração agora.) É por isso que eu nunca consegui terminar de assistir Deadpool. Sabe aquela cena em que colocam ele no aparelho e regulam o oxigênio pra ele sufocar? Era exatamente assim que eu me sentia. Não ganhei superpoder nenhum, infelizmente.
Enfim, voltando pra essa merda pesada.
Em algum momento eu comecei a sentir uma presença no quarto durante os episódios. Vocês conhecem aquela sensação de estar sendo observado? Você não consegue apontar quem nem de onde, mas simplesmente sabe que tem alguém te vigiando?
Eu sentia isso. Tinha alguém, ou alguma coisa, no quarto comigo em cada episódio. A presença — e não consigo explicar como eu sabia — era maligna. A aura de maldade era quase palpável, e eu juro que sentia ela queimando minha pele com o ódio que tinha por mim, e isso era ainda pior que o frio.
Tentei falar sobre isso com o psicólogo, mas ele não tinha respostas prontas além de “encontrar a origem dos problemas e trabalhar neles”, e isso, obviamente, levava tempo.
E eu não tinha tempo. Todo dia parecia cinza pra mim. Eu passava dias inteiros só deitado na cama sem fazer nada. Via minha avó chorando quando ela achava que eu não estava olhando, e saber que era por minha causa me destruía ainda mais. Ela era a única coisa que me segurava e me impedia de acabar com meu sofrimento ali mesmo. Eu teria feito isso sem pestanejar se não fosse por ela.
Os episódios estavam ficando mais frequentes e mais aterrorizantes. Em algum ponto eu comecei a ver uma silhueta escura aos pés da minha cama. Só conseguia ver pela visão periférica, porque meus olhos estavam sempre grudados no teto, então não dava pra identificar direito. Só sabia que não era minha avó.
Aí a coisa… e vou continuar chamando de “coisa” pra manter a consistência (além do mais, silhueta é uma palavra complicada pra caralho) começou a se aproximar cada vez mais…
Uma noite eu fui “acordado” — bem, não exatamente acordado, porque ainda não conseguia me mexer — por um peso enorme pressionando meu peito. A coisa, fosse lá o que fosse, estava sentada em cima de mim. Eu ainda não conseguia ver direito, mas na minha cabeça eu estava gritando e chorando desesperado. Sentia como se minha mente estivesse prestes a se despedaçar. Não sei como não enlouqueci completamente naquela época… foi a pior experiência da minha vida inteira.
A coisa esticou o braço e agarrou meu pescoço. Os dedos eram ásperos e extremamente frios. E então eu senti o cheiro…
Uma coisa que eu não tinha contado sobre meu pai. Ele era alcoólatra, sim. Mas era bem específico na escolha da bebida. Só bebia um tipo de schnapps de hortelã-pimenta que tinha um cheiro bem característico… E era exatamente esse cheiro que eu sentia na coisa que estava me sufocando.
Depois do que pareceu horas, recuperei um pouco do controle e comecei a gritar com toda a força dos meus pulmões. Como sempre, a coisa desapareceu na hora. Eu ainda sentia o frio, mas conseguia me mexer de novo e, mais importante, conseguia respirar.
Minha avó entrou correndo, me abraçou forte e tentou me consolar. Passamos o resto da noite rezando e eu finalmente consegui dormir lá pelo amanhecer.
Teve muitos episódios e muitas coisas que eu poderia contar, mas eu realmente não quero voltar pra isso tudo agora. Só queria dar uma ideia geral do que eu passei. A história já está longa o suficiente.
Então minha vida era um pesadelo. Eu não era feliz e, mesmo assim, Deus, ou seja lá que força rege esse universo, ainda não tinha terminado comigo.
Minha avó ficou doente. Diagnosticaram câncer em estágio IV e ela morreu oito meses depois. Eu fiquei completamente sozinho.
O serviço social me levou pra uma instituição temporária. Nesse ponto, sozinho e ainda sofrendo com a paralisia, eu teria me matado se tivesse chance, mas eles sabiam disso e me monitoravam muito de perto.
Alguns meses depois, meu psicólogo disse que queria me transferir pra uma família acolhedora. Era uma fazenda enorme e a família que morava lá era muito gentil e já cuidava de outros três órfãos. Ele achou que ter trabalho pra fazer (ajudando na fazenda) poderia me ajudar e arranjou a transferência.
Bom, não foi a melhor ideia que ele teve. Na primeira oportunidade que tive, eu arrombei a gaveta de remédios e engoli o máximo de comprimidos que consegui. Fui pro meu quarto e fiquei esperando morrer.
Eu voltei a mim no meio de outro episódio de paralisia do sono. A coisa estava me sufocando, o cheiro de hortelã forte no pouco ar que eu conseguia puxar. Dessa vez, porém, eu recebi de braços abertos. Me sentia em paz… sentia a vida escapando de mim… e então uma brisa quente repentina entrou pela janela. Senti outra presença. Essa era totalmente oposta à coisa que me sufocava. Não conseguia olhar pra ela, mas sentia ela parada do meu lado. E então eu ouvi ela falar:
“Olek, sai de perto do meu menino!”. Juro por Deus que era a voz da minha avó. E Olek era o nome do meu pai…
A pressão no meu pescoço diminuiu e então veio um grito agudo. Nenhum ser humano conseguiria emitir um som tão estridente. Mas depois disso, o peso no meu peito simplesmente sumiu. E o frio desapareceu. Senti uma mão passando de leve no meu cabelo. “Agora está tudo bem.”
Eu estava prestes a responder, mas de repente tinha alguma coisa se forçando pra dentro da minha boca. Eu vomitei. E vomitei de novo. E de novo.
Quando abri os olhos, tinha gente ao meu redor. Eu estava deitado no chão e um paramédico estava iluminando meus olhos com uma lanterna.
Eles me levaram pro hospital, onde passei alguns dias me recuperando.
E desde aquele dia eu nunca mais tive um episódio de paralisia do sono.
Agora que tenho mais de 30 anos, não sei o que pensar sobre tudo isso. Na época parecia tão real. Eu gosto de me ver como uma pessoa racional.
Eu até criei uma teoria que explicaria por que os episódios pararam.
Talvez quando eu desmaiei e meu coração parou (eu sei que parou, os médicos me disseram), uma parte do meu cérebro responsável pelos episódios não recebeu oxigênio suficiente e simplesmente morreu. É uma teoria forçada e eu teria sido muito sortudo se tivesse sido isso, mas pelo menos é lógico, né? A outra explicação? O espírito da minha avó me salvou do fantasma do meu pai.


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