domingo, 22 de fevereiro de 2026

Não entre no trem cancelado

Quando a empresa mudou o escritório de lugar, eu fui um dos poucos que reclamou pra caralho. Eu tinha me mudado pra cá exatamente por causa desse emprego, e o novo endereço ia me obrigar a pegar uma hora de deslocamento todo santo dia. Infelizmente pra mim, a maioria venceu: o lugar novo tinha conexões melhores de transporte público, então era vantajoso pra quase todo mundo.

Eu nunca tinha usado transporte público direito até então. Meu apartamento anterior ficava tão perto do trabalho que eu simplesmente ia andando todo dia. Por isso, na primeira vez que fui fazer o trajeto, uma semana atrás, nem me dei ao trabalho de checar se tinha alguma atualização sobre o trânsito do dia. Já cheguei na estação e vi o cartaz: “Cancelado hoje por causa de greve”.

Dei uma risada sozinho enquanto pegava o celular pra chamar um Uber. Ainda tinha muita coisa pra aprender, pelo visto. Aí ouvi um trem chegando. Eu sabia que, mesmo com trens cancelados, eles às vezes ainda rodam por outros motivos — tipo treinar funcionários novos ou só reposicionar o trem em outra estação. Por isso fiquei confuso quando ele parou bem na minha frente e eu vi gente lá dentro.

Olhei pra trás pra confirmar: o painel digital ainda mostrava a mensagem de cancelamento. Mas no trem, o letreiro dizia claramente: “Linha 4, Green Street”. Era exatamente a minha conexão. As portas abriram, as pessoas desceram, eu peguei minha mochila e entrei na hora. Procurei um banco vazio, achei um e sentei. Começou o trajeto de uma hora.

O trem estava lotado, óbvio. 6:30 da manhã numa das linhas mais movimentadas do metrô de uma metrópole grande. Não me surpreendi quando ficou tão cheio que eu não conseguiria nem me levantar sem pedir pra galera abrir espaço. O que me surpreendeu mesmo foi que, depois das primeiras duas ou três estações, ninguém mais entrou.

O trem já estava lotadão, claro. Entrar quando não tem mais espaço era literalmente impossível. Mas as estações onde a gente parava agora estavam vazias também. Ninguém esperando esse trem. E, além disso, fazia um tempo que ninguém descia também.

Quando vi cinco estações seguidas sem ninguém entrando nem saindo, comecei a ficar preocupado. Estava começando a sentir claustrofobia. Olhei no celular pra ver a hora, torcendo pra chegar logo. Faltavam 45 minutos. Abri o app de rideshare de novo pra ver quanto custaria do próximo ponto até o trabalho. 25 dólares? Foda-se, eu pago. E a partir de amanhã, home office direto, a menos que tenha algo muito importante no escritório. Decidi ouvir meu instinto e descer na próxima estação. Alguma coisa nessa situação estava me deixando extremamente desconfortável.

Foi aí que começou de verdade.

Percebi que o trem não parava fazia uns bons cinco ou seis minutos. Não era só passar pelas estações sem parar — é que simplesmente não tinha mais estação nenhuma. Só via túnel escuro e empoeirado pela janela. Resolvi dar mais um tempinho antes de surtar de vez, mas depois de uns 10 minutos sem nenhuma mudança na paisagem, eu tive que levantar. Tinha que sair daquele trem.

“Com licença?”, falei pro cara na minha frente. “Quero levantar, a próxima é a minha.” Nada. Ele estava olhando pro lado direito, como se nem tivesse me ouvido.

“Com licença, preciso levantar”, tentei de novo. Dessa vez puxei a manga da jaqueta dele pra garantir que notasse. Zero reação. Olhei em volta e percebi que fazia um tempo que não ouvia ninguém fazer barulho nenhum. Voltei a olhar pro cara, que continuava me ignorando.

Não aguentei mais. Sempre fui péssimo com espaços apertados. Sou do tipo que fecha o vídeo de mergulho em caverna na hora, senão surto. Agora eu estava surtando pra valer.

Levantei, meu corpo espremendo contra as pessoas na frente, mas tive que forçar a barra. Se eles não iam reagir, melhor pra mim. Ia me virar no meio da multidão até a porta e puxar o freio de emergência.

Virei pro lado direito, com o rosto esmagado contra os outros ao redor. Quando tentei dar o primeiro passo, senti algo nas minhas costas. Não era gente apertando — eram mãos. Quatro ou cinco. Todas diferentes. Mãos que me agarraram com uma força do caralho por trás. Duas puxaram meu braço esquerdo. Uma pegou meu pescoço, e as outras agarraram minha jaqueta, tentando me puxar de volta.

Gritei e lutei contra a multidão pra me virar o mais rápido possível. As mãos sumiram. Ninguém mais me segurava. Todo mundo olhando pra outro lado. Eu respirava rápido, empurrando as pessoas pra longe enquanto gritava no meio da multidão: “Que porra vocês querem de mim?”. Nada.

Estava prestes a me virar de novo quando senti as mãos de novo. Dessa vez vindo da direção exatamente oposta. Entrei em pânico. Queria tirar elas de mim. Me joguei contra elas, me debatendo e gritando pra afastar. Acabei caindo de volta no banco. Olhei pra cima: todo mundo ainda no mesmo lugar na minha frente. Olhando pro lado, igual antes.

Contra todos os meus instintos, fechei os olhos. Precisava me acalmar. Respirei fundo e fiquei ali uns minutos. Primeiro as coisas importantes: tinha que chegar no freio de emergência. Os outros passageiros pareciam me agarrar toda vez que eu virava as costas pra eles. Isso me deu uma ideia, mesmo odiando pensar nisso.

Deslizei da cadeira até sentar no chão e empurrei os outros o máximo que consegui. Consegui abrir espaço suficiente pra deitar. Protegi a cabeça com as mãos e estiquei as pernas pra me empurrar devagarinho em direção à porta do trem. Não tirava os olhos deles nem por um segundo — ficava encarando como se minha vida dependesse disso. Por sorte, a ideia funcionou. Ninguém mais tentava me agarrar.

Continuei assim até chegar na porta. Sentei, depois levantei devagar, sempre mantendo as costas viradas pros passageiros. Agora via o freio de emergência. Uns metro à esquerda.

Estiquei o braço, mas não alcançava. Virei o tronco pra me inclinar mais, quando senti as mãos de novo. Mas já era tarde demais pra eles. Consegui engancharem meu dedo indicador no freio e, com toda a força do mundo, jogando meu corpo inteiro contra as mãos que me seguravam, puxei.

O túnel não era a única coisa que parecia infinita. O trem freou violentamente, com um barulho ensurdecedor, e praticamente todo mundo voou pra trás com a força brusca. Consegui me segurar na maçaneta da porta. A sensação e o chiado nos ouvidos não paravam. Continuava como se a distância de frenagem fosse infinita, empurrando todo mundo sem parar. Pelo menos isso tirou as mãos de mim. Elas ainda tentavam me pegar, mas eram arrastadas pela força da frenagem.

A pressão era insuportável, e eu só via uma saída: de algum jeito, tinha que abrir a porta do trem. Mesmo que precisasse pular de um trem em movimento, minhas chances de sobreviver ali dentro eram bem piores.

Por sorte, as portas do trem eram separadas por uma camada de silicone nas bordas, pra ninguém se machucar se ficasse preso no meio. Usei isso: enfiei a mão na fresta com força.

Empurrei pra conseguir passar a mão o máximo possível, quando senti algo. Algo do outro lado da porta. Outra mão, mas dessa vez não estava me agarrando. Estava acariciando meu braço devagar, de fora. Um arrepio subiu pela minha espinha e quase puxei a mão de volta por instinto. Quase. Foda-se o que quer que esteja lá fora. Eu não podia ficar ali. Precisava sair. Ignorei.

Enfiei a segunda mão na fresta e a carícia continuou na outra mão. A força da frenagem parecia que ia quebrar meus dois braços naquela posição, mas eu tinha que continuar. Comecei a puxar as portas pra abrir com toda a força, quando vi o reflexo dos outros passageiros nas janelas. Até então não tinha visto a expressão deles, porque sempre viravam o rosto.

Eles estavam todos se segurando — uns nos outros, outros nas barras — tentando resistir à frenagem, mas as ações não batiam com a situação. Uns com celular na mão, outros pareciam estar conversando, embora eu ainda não ouvisse som nenhum. Tudo parecia completamente normal… exceto que todos estavam me encarando, balançando a cabeça em negação, como se dissessem que o que eu estava fazendo era errado. Nenhuma das ações deles parecia coordenada, exceto o movimento da cabeça — todos fazendo exatamente igual, em uníssono.

As portas começaram a se abrir. Não dava pra ver nada pela fresta, mas continuei. Consegui abrir o suficiente pra passar o joelho no meio. Não parecia que ia abrir mais, então tentei passar o máximo que dava. Dei uma última olhada nos reflexos das pessoas. Empurrei o ombro. Parte do tronco passou. Depois a cabeça ficou do lado de fora. O chiado dos freios estava ainda mais alto ali fora e dava pra ver faíscas voando.

Quando meu tronco inteiro saiu, tentei me afastar da porta pra tirar a perna e o braço que faltavam. Ouvi um estalo alto e voei contra a parede do túnel.

O chiado sumiu quase na hora. Eu estava zonzo, deitado no chão, a visão ficando cada vez mais vermelha. Mas estava vivo. Olhei em volta e não via mais o trem. Tentei levantar, mas não conseguia. Não era surpresa: pular de um trem em movimento machucou pra caralho. Comecei a rastejar.

Depois de um tempo, vi lanternas ao longe. Aparentemente a cidade aproveitou a greve pra fazer manutenção necessária no túnel. Nenhum deles viu trem nenhum passar quando perguntei.

Estou no hospital agora. O médico disse que saio amanhã. Ainda pego-me olhando pros reflexos nas janelas, quando vejo alguém virando o rosto de mim, mas não vi nada estranho desde então.

Não estou escrevendo isso pra ninguém ter pena de mim, francamente tô pouco me lixando. Só preciso contar pras pessoas. Mesmo que o trem cancelado apareça de verdade… por favor, não entre nele.

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