Desde que a gente se conheceu, a gente sempre curtiu pra caralho contar histórias de fantasma. Na real, foi isso que nos uniu de verdade. Quando a gente era criança, ficava acordado até altas horas nas festinhas do pijama trocando histórias assustadoras. Eu poderia ter escrito um livro inteiro com todas as lorotas que eu contava pra ela, pro irmão e pra irmã dela. A satisfação que eu sentia vendo eles grudados em cada palavra minha, com aqueles olhos arregalados de medo...
Conforme a gente foi crescendo, isso virou assistir vídeo no YouTube de atividade paranormal e fenômenos bizarramente inexplicáveis. Depois a gente saía pra fazer nossas próprias caçadas a fantasma. Eu lembro que eles moravam no segundo andar, no apartamento dos fundos de um prédio antigo de dois andares no bairro Back of the Yards, em Chicago. Agora era a vez dela me contar histórias de fantasma. Só que dessa vez as dela eram de verdade.
Elas sempre envolviam o quartinho bem no fundo da casa. Um cômodo pequeno demais pra caber uma cama, então era onde ficava o computador da família. Era ali que a gente passava a maior parte do tempo vasculhando o YouTube atrás dos vídeos mais apavorantes que a gente conseguia achar. Ela vivia falando de como ouvia vozes. Aquele chiado de sussurros bem no ouvido dela quando estava sozinha. Até a mãe dela jurava que já tinha ouvido vozes estranhas saindo do quarto dos fundos.
Então, sempre que eu ia lá pra ficar, as histórias que eles contavam ficavam martelando na minha cabeça, me deixando com o ouvido ligado e olhando por cima do ombro o tempo inteiro.
Na maior parte do tempo eu nunca tinha vivido nada. Mesmo depois de todos aqueles vídeos sinistros que a gente assistia juntos, eu ainda não tinha presenciado porra nenhuma com meus próprios olhos. Isso até uma noite no verão de 2005. Ela me chamou pra ir lá depois da aula. A gente estudava na mesma escola. Normalmente o irmão e a irmã dela estavam por perto pra entrar na brincadeira macabra, mas acho que era sexta-feira, então eles deviam estar saindo com os amigos deles dessa vez.
Éramos só nós dois. Foi aí que minha amiga me mostrou que tinha comprado um tabuleiro Ouija. A gente sempre falava como seria foda pra caralho brincar com um, então ter um de verdade pra testar me deixou animadíssimo. Isso foi antes de todo mundo ter celular no bolso, então nas nossas caçadas a fantasma a gente geralmente filmava com a câmera digital Canon dela ou com o gravador de voz. Nessa noite a gente decidiu ir com o gravador de voz.
Era um dia quente pra porra em Chicago, máximas nos 80s. Quando entramos no quarto, eu lembro que estava abafado e úmido pra caralho, então minha amiga abriu uma fresta na janela pra deixar entrar uma brisa que simplesmente não existia. A gente limpou uma mesinha pequena, montou o tabuleiro e colocou o gravador de voz bem do lado. Os nervos já começaram a subir. A gente tinha passado a tarde toda maratonando nossos vídeos amadores de encontro com fantasma e fenômenos estranhos inexplicáveis, então o clima já estava tenso pra cacete. Ela colocou as mãos no planchette e eu fiz o mesmo. Ela explicou as regras: “A gente traça um oito três vezes e depois faz uma pergunta. Não solta até a gente dizer tchau pro tabuleiro, não importa o que aconteça.”
Minhas mãos já estavam suando frio. A gente fez o oito três vezes como ela mandou e deixou o planchette bem no meio do tabuleiro, com as nossas mãos descansando levemente em cima. “Vai, pergunta alguma coisa.” Ela me olhou com um sorrisinho de canto de boca; dava pra ver que ela também estava nervosa. “Tá bom. Tem alguém aqui nessa sala com a gente?” O silêncio era ensurdecedor. Eu lembro de conseguir ouvir meu coração batendo forte pra caralho no peito. Nada. “Tem alguém aqui? Fala com a gente.” A gente ficou sentado ali por um minuto inteiro, mas nada rolou. Minhas mãos estavam encharcadas de suor, segurando aquele planchette de plástico que brilhava fraquinho na luz baixa do quarto. Foi aí que eu tirei as mãos pra enxugar na calça... e aconteceu. Eu nunca vou esquecer essa merda.
Minha amiga ficou sentada ali, imóvel que nem estátua, mãos nunca saindo do planchette triangular. O cabelo dela caía na cara, fazendo sombra, mal dava pra ver o rosto dela. Ela falou. Mesmo estando bem na minha frente, eu não consegui entender porra nenhuma do que ela disse. “Quê?”, eu perguntei. Ela falou de novo, mas agora dava pra distinguir só um monte de besteira nessa voz rouca, gorgolejante, gutural pra caralho. Eu comecei a ficar apavorado de verdade. Chamei o nome dela: “Eu não tô entendendo nada do que você tá falando, para de brincar.” De repente eu senti a brisa mais gelada do mundo, tipo gelo puro, invadindo o quarto inteiro. Depois vieram aqueles estalos altos pra cacete de todos os cantos do quarto, igual quando a casa range de noite, só que nunca tinha sido tão alto e vindo de todo lado ao mesmo tempo.
Eu pirei completamente e pulei da cadeira. “Que porra tá acontecendo?!” Chamei o nome dela de novo. “Para de porra de brincar, eu tô com medo pra caralho!” Ela finalmente voltou a si. “Diz tchau. Você tem que dizer tchau”, ela me falou. Eu agarrei o planchette e a gente puxou ele pra baixo, até onde estava escrito “Goodbye” no pé do tabuleiro. Eu lembro de estar em pânico total, olhos enchendo de lágrima. “Tô fora, cara, eu não vou mexer com essa merda nunca mais”, eu falei. “Que porra aconteceu?! Você tá bem?” Eu nem conseguia firmar as mãos, tremendo pra caralho. “O que você tava falando? Você soava super estranha e eu não entendia nada do que você dizia.” Ela só me olhou, confusa. “Eu só tava fazendo a pergunta, tem alguém aqui com a gente.”
A gente ficou conversando sobre o que tinha rolado. Ela confirmou tudo que eu senti: o quarto ficou gelado do nada e ela também ouviu as paredes estalando e rangendo. Sobre ela ter começado a falar em línguas de repente, ela não tinha muita explicação. Tudo que eu sei é que ela estava falando sério pra caralho quando disse que não estava brincando. A única coisa que ela tinha perguntado foi exatamente aquela pergunta. Eu já tinha tido o suficiente. Estava tarde. Eu fui embora pra casa. Foi a caminhada de volta mais apavorante que eu já fiz na vida inteira.


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