Três semanas atrás, minha namorada começou a fazer esse barulho absurdamente agudo. Pelo menos, três semanas atrás foi quando eu me lembro de ter notado pela primeira vez que tinha algo errado. Pode ter começado antes, mas como eu não consigo realmente ouvir o barulho, só consigo chutar. No começo eu nem percebi que ela estava fazendo algum som — só parecia que ela tinha desenvolvido esse hábito estranho de abrir a boca como se fosse dizer alguma coisa, só pra depois fechar de novo. Mas toda vez que ela fazia esse novo tique, coisas estranhas pareciam acontecer por perto.
A primeira vez que aconteceu, a gente estava na cozinha. Minha namorada estava lavando a louça enquanto eu terminava umas coisas no meu laptop na mesa da cozinha. Aos poucos, eu notei que o cachorro do vizinho estava pirando no quintal ao lado. Eu estava tentando ignorar o barulho passivo-agressivo que ela fazia batendo os pratos, então não reparei nos latidos logo de cara. Mas quando chegou num nível maníaco, como se o cachorro estivesse sendo espancado ou algo assim, eu levantei os olhos.
Minha namorada não reagiu ao barulho nem um pouco. Ela estava curvada sobre a pia, com os braços enfiados na água com sabão, os olhos meio vidrados. Estranhamente, ela estava só parada ali, congelada, sem nem esfregar mais a louça. A boca dela aberta que nem um peixe lutando pra respirar.
“Ei, amor?” eu perguntei. “Você tá bem?”
Ela não reagiu. Só quando eu fui até lá e dei um tapa brincalhão na bunda dela que ela olhou pra cima e fechou a boca. No instante que ela fez isso, o cachorro parou de latir.
“Você finalmente vai me ajudar com a louça?” ela perguntou.
“Eu te disse que ia quando terminasse as coisas do trabalho”, eu falei. “Se você puder só esperar eu acabar.”
“A pia tá cheia faz quase três dias.” Ela começou a levantar a voz, depois parou e respirou fundo. Fechou os olhos e soltou um suspiro dramático de resignação, pra deixar bem claro que ela era a mártir da história. “Só... me dá um espaço”, ela disse.
Ainda bem que eu tenho trabalhado com meu terapeuta pra reconhecer e não reagir às tentativas dela de manipulação emocional, então consegui deixar isso passar e voltar pro meu trabalho. Pra ser sincero, eu já tinha terminado a parte real do “trabalho” meia hora antes, e agora estava montando meu time de fantasy football. Mas eu nem sou muito fã de futebol americano, e só estava fazendo isso porque meu amigo me pressionou pra entrar na liga dele, então pra mim era basicamente trabalho.
Logo eu estava tão mergulhado vasculhando o Reddit atrás de informações sobre jogadores e estatísticas que esqueci completamente do surto do cachorro e do comportamento estranho da minha namorada.
Então veio um grito horrível. Parecia alguém sendo torturado pra caralho. Demorou um segundo pra eu perceber que era o cachorro de novo, porque nem parecia mais um cachorro, o uivo dele estava tão cheio de terror. Na hora, foi o pior som que eu já tinha ouvido.
Minha namorada não estava em lugar nenhum, acho que eu estava tão focado que nem notei ela sair da sala. Eu pulei da cadeira e corri pra porta dos fundos, achando que o vizinho devia estar abusando do coitado do cachorro. Mas bem quando eu saí correndo pra fora, com o celular já na mão pronto pra ligar pro 911, eu vi uma coisa que fez meu sangue gelar ainda mais.
Minha namorada estava parada de frente pra cerca de madeira que separa nosso quintal do do vizinho. Eu tentei me convencer que ela devia estar tentando acalmar o cachorro, mas tinha alguma coisa errada no jeito que ela estava parada. Ela estava bem ereta e os braços pendiam completamente soltos ao lado do corpo. Eu só conseguia ver as costas dela, mas pelo jeito que os ombros subiam e desciam, ela estava respirando pesado. Enquanto eu me aproximava, o choro do cachorro virou gemidos roucos, como se as cordas vocais do pobre animal tivessem se esgotado.
Eu conseguia ver agora, de lado, que a boca da minha namorada estava aberta do mesmo jeito que quando ela estava lavando louça. Parecia que ela estava gritando, principalmente pela maneira como ela puxava aqueles fôlegos enormes, como se estivesse berrando com toda a força dos pulmões. Mas ela não estava fazendo nenhum som. Só tinha o gemido agonizante do cachorro e o arranhar das unhas dele na madeira — como se ele estivesse tentando quebrar a cerca pra vir pro nosso lado.
“Ei, amor?” eu disse. “Que porra tá acontecendo?”
Ela virou pra mim, na hora voltando pra uma expressão totalmente normal no rosto. A mudança foi tão brusca que me assustou mais do que o comportamento estranho dela. Ela fez uma cara feia.
“Eu te disse pra me dar espaço”, ela cuspiu. “O que é tão difícil de entender nisso? Tipo, isso é tão fodidamente difícil assim?”
“Uau”, eu disse, e comecei a recuar. Meu terapeuta tinha me ensinado uma coisa chamada “gray rocking”. Sempre que minha namorada ficava agressiva, eu tinha que manter distância e não reagir. Mas o cachorro ainda estava surtando, e alguma coisa no comportamento dela estava muito errada. E não tô falando do “errado” normal de ela ser uma vaca, mas tipo, errado sinistro.
“Ei, amor...” Eu não consegui evitar perguntar. “Desculpa, isso vai soar estranho, mas... você fez alguma coisa com o cachorro?”
Ela me deu um olhar vazio e depois explodiu: “Que porra você tá falando?”
Eu senti pena do cachorro, mas até onde eu podia ver, não tinha ninguém do outro lado da cerca abusando dele, ele aparentemente só estava surtando sem motivo. E se minha namorada queria... sei lá o que ela estava fazendo (tentar acalmar ele? provocar? ficar olhando pra porra da cerca?), bom, é um país livre.
As coisas já estavam complicadas entre a gente, e depois do lance do cachorro ficaram piores. Minha namorada basicamente parou de falar comigo, enquanto isso eu tive que aguentar uma conversa raivosa com o vizinho, que queria saber o que a gente estava fazendo pra mexer com o cachorro dele. Depois de mais ou menos uma semana, eu tentei fazer as pazes oferecendo pra gente dar uma volta pelo bairro juntos, como a gente fazia durante a Covid quando tudo estava fechado. Pra minha surpresa, ela aceitou, mas aí não falou uma palavra a viagem inteira, só ficou andando encurvada com a boca aberta feito uma idiota.
Todo cachorro que a gente passava, fosse na coleira, no quintal ou dentro de casa olhando pela janela, começava a latir e se rolar no chão como se estivesse sentindo uma dor incrível.
Quando a gente voltou pra casa, eu estava tão perturbado que fui pro meu quarto, barricadei a porta por dentro e liguei pra um terapeuta de casais.
Meu terapeuta tinha me aconselhado contra terapia de casal. Ele disse que pra pessoas em relacionamentos abusivos, isso pode acabar habilitando o abusador. Disse que mesmo se minha namorada não fosse abusiva propriamente dita, algumas coisas que eu contei pra ele sobre ela eram preocupantes o suficiente pra ele não recomendar terapia de casal naquela hora. Mas alguma coisa inquietante estava acontecendo com ela, e eu não conseguia descobrir se ela nem falava comigo, então decidi morder a bala e marcar uma sessão pra gente.
Minha namorada tentou me fazer cancelar, dizendo que a gente não devia gastar dinheiro com nada depois que ela perdeu o emprego. Mas embora eu não seja rico de jeito nenhum, eu recebo um salário bem generoso como engenheiro júnior na Lockheed Martin, então o dinheiro não era realmente problema. Ela finalmente cedeu quando eu ameacei cancelar a viagem de aniversário dela pro Glass Flowers Gallery (e eu quase desejei que ela não tivesse cedido, porque eu não estava nem um pouco ansioso pra dirigir até Boston só pra ver uns porras de dentes-de-leão de Swarovski).
Eu pretendia perguntar pro terapeuta sobre o lance do cachorro, pensando que talvez fosse sinal de alguma doença mental que afetasse os animais via comportamento ou até feromônios ou algo, mas antes mesmo de eu conseguir dizer uma palavra, minha namorada começou a reclamar sem parar de como eu não escutava ela, que nada do que eu fazia era bom o suficiente pra ela, que eu “weaponizava a incompetência”. Engraçado, meu terapeuta tinha dito exatamente a mesma coisa sobre ela!
“Então o que eu tô entendendo”, o terapeuta disse, depois de ouvir minha namorada tagarelar por mais de meia hora, “é talvez uma diferença de expectativas em torno da comunicação. Seria justo dizer isso?”
“Não”, minha namorada retrucou. “Eu não acho que seria justo dizer isso. Porque me diz por que alguém consideraria não se comunicar de jeito nenhum uma expectativa válida pra comunicação?”
“Isso é uma distorção”, eu disse, “eu me comunico o tempo todo. Literalmente eu que marquei essa sessão pra gente poder se comunicar. Você é a que tá me dando gelo—”
“Comunicação envolve escutar”, minha namorada disse. “Quando eu percebo que você não tá escutando, eu penso: qual é o ponto?”
“Tipo, só essa manhã”, eu continuei como se ela não tivesse me interrompido. “Você surtou comigo, dizendo que eu não estava prestando atenção quando você estava me contando sobre sua consulta no médico, só porque a TV estava ligada no fundo.”
“Você estava assistindo futebol.”
“Eu te disse, eu preciso estudar como funciona — amor —” Eu me peguei reagindo, e respirei fundo. “Você tá me gaslighting de novo”, eu apontei calmamente.
“Não é isso que gaslighting porra nenhuma significa!”
O terapeuta levantou as mãos, “Ok, vamos desacelerar um segundo e pensar no que vocês estão ouvindo um do outro até agora, ok?”
“Eu tô ouvindo ela dizer que eu não presto atenção”, eu disse, “mas se eu não tivesse prestado atenção quando ela estava me dizendo a hora pra buscar ela na consulta do médico, eu não teria chegado bem na hora pra pegar ela, né?”
Minha namorada me encarou com uma raiva completamente injusta nos olhos.
“Que foi?” eu perguntei. “Eu sinto que tenho o direito de me defender. Tipo, vamos lá. O que mais você quer que eu faça? O quanto mais difícil eu poderia escutar? Escutar é escutar.”
“Por que eu fui no médico?”
“Que?”
“Por que eu fui no médico, Brian?”
Isso não foi justo. Ela definitivamente não tinha me dito por que estava indo no médico. Porque caralho, eu tinha prestado atenção. Eu sou um cara. Eu consigo prestar atenção pra caralho numa conversa e num jogo de futebol ao mesmo tempo.
“Você tá me gaslighting”, eu disse de novo, a ficha caindo. Eu virei pro terapeuta. “Ela nunca me disse por que ia no médico.”
“Oh meu Deus do céu”, minha namorada gritou. “Exatamente. Eu te falei que tinha uma consulta de emergência no médico e você nem perguntou por quê!”
Eu fiquei em silêncio, chocado. Não conseguia acreditar que o terapeuta ia só ficar sentado ali e deixar ela gritar comigo. Eu achei que isso era pra ser um espaço seguro. Fazia todo sentido agora por que meu terapeuta pessoal tava tão hesitante com a gente fazendo uma sessão de casais.
“Eu acho que acabamos aqui”, eu disse, levantando do sofá. “Se você não consegue falar comigo sem levantar a voz, a gente não vai falar nada. Eu tô pronto pra tentar de novo quando você estiver pronta pra falar com respeito.”
A boca da minha namorada caiu aberta, do mesmo jeito que eu tinha visto ela fazer na pia e na cerca com o cachorro. Como se ela estivesse gritando, mas sem nenhum som saindo.
Teve um POP fraco. O terapeuta arfou em choque. Os óculos dele tinham estilhaçado na armação.
Você pode estar se perguntando por que eu ainda tava com minha namorada nesse ponto.
Qualquer um pode adivinhar os motivos dela ainda estar comigo — eu era dono da casa e do carro, pagava todas as contas (pelo menos enquanto ela ainda procurava emprego novo), e até eu entrar em terapia, era um pouco capacho. Também, apesar de eu ser jovem, eu infelizmente tenho disfunção erétil por ter feito muita coca na faculdade. Não tenho orgulho das escolhas que fiz, mas eu contei pra minha namorada sobre minha condição no nosso primeiro encontro porque acredito que é importante acabar com o estigma. Ela pareceu bem aceitando na época, mas agora eu vejo como ela basicamente achou que ganhou na loteria — uma carona grátis de um cara que ela raramente ia ter que cavalgar. Então se eu tinha percebido que tava com uma cavadora de ouro e ela me tratava tão mal, por que eu não tinha dado um pé na bunda dela até agora?
Bem, pra começo de conversa, ela era gostosa pra caralho. O corpo dela era um dez. Não só um dez, mas tipo um dez elevado à décima potência. Se ela não estivesse namorando comigo, ela provavelmente poderia ter ganhado muito dinheiro só entrando no OnlyFans em vez de procurar emprego de verdade. E quando ela não tava usando pra me encher o saco sobre merda nenhuma, ela conseguia fazer coisas absolutamente irreais com a boca.
Depois de compartilhar isso, eu sei que alguns de vocês provavelmente vão estar pensando “ai meu bife tá muito amanteigado, minha lagosta tá muito suculenta”, e eu concordo. Foi por isso que eu ainda tava com ela. Eu não queria terminar, só queria que as coisas voltassem ao normal. E porque eu sou engenheiro, descobrir o que tinha de errado com minha namorada virou uma obsessão. Terapia de casais não parecia que ia funcionar, e de qualquer forma, eu tava começando a achar que ela precisava mais de um exorcista do que de um terapeuta.
Eu contei o que aconteceu com os óculos do terapeuta... Bem, no último fim de semana foi o aniversário da minha namorada, e... vamos só dizer que a Harvard não conseguiu provar nada, mas a gente tá banido permanentemente da Flores de Vidro.
Então isso me traz pra hoje. Na última semana, minha frustração com o comportamento dela honestamente derreteu, substituída por entusiasmo enquanto meu cérebro de engenheiro se acendeu pra resolver o problema. Eu trouxe pra casa um medidor de nível sonoro do trabalho e confirmei o que eu suspeitava: de alguma forma, ela está gerando um som impossivelmente mais alto e agudo do que humanos conseguem ouvir, ou deveriam conseguir fazer. Isso é só uma coisa que mulheres mais novas fazem? Ela tá possuída? Tem alguma coisa na água? No ar? Por que isso afeta ela e não eu?
Eu preciso descobrir logo. Tenho começado a ter umas dores de cabeça terríveis, e hoje de manhã acordei e encontrei sangue seco dentro dos meus canais auditivos. Também parece que estou desenvolvendo um zumbido no ouvido. Ainda tá fraco, mas já é o pior som que eu já ouvi, tipo um grito infinito dentro do meu cérebro, que ninguém mais consegue ouvir. Até quando eu tô dormindo, eu escuto ele através dos meus sonhos.
Enfim, se algum cara aí já passou por algo parecido com a namorada de vocês, ou se algum cientista tiver alguma ideia do que pode estar acontecendo, tô ouvindo. Sem trocadilho.


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