Era uma cidadezinha chamada Grindsworth.
Grindsworth era considerada uma cidade sortuda pra caralho. Nunca tinha tempo ruim, quase zero crime, terras agrícolas ótimas e a cidade vivia ganhando recursos de presente do prefeito.
Muitas famílias de cidades vizinhas se mudavam pra Grindsworth justamente por causa dessa sorte dela.
Mas a cidade tinha uma regra estranha que todo mundo que morava lá precisava seguir.
Ninguém podia sair de casa na Noite da Parada.
Todo dia 9 de cada mês, durante a noite, uma parada passava pela cidade tocando música até o sol nascer. Ninguém explicava o motivo de não poderem ver a parada, mas mesmo assim todo mundo obedecia a regra.
Eu moro em Grindsworth desde pequeno. Quando eu era criança, meus pais eram perfeitos. Nunca brigavam, nunca me trataram mal. Eram os pais que qualquer um sonharia em ter.
Mas depois que minha mãe morreu, há três anos, meu pai virou alcoólatra. Ele gritava comigo se eu não estivesse em casa antes do pôr do sol. Eu não podia fazer porra nenhuma à noite sem levar bronca. Mesmo assim, às vezes eu saía escondido quando ele apagava cedo.
Uma noite, meus amigos resolveram se encontrar justamente na Noite da Parada. Eu fiquei na dúvida no começo, mas depois de uma briga feia com meu pai, decidi ir junto.
Depois que meu pai desmaiou no sofá da sala, eu saí de fininho pra encontrar a galera.
Mais ou menos duas horas antes do pôr do sol, me encontrei com o Fritz, o Alan e a Hannah. Sou amigo do Fritz e do Alan desde o ensino fundamental. Da Hannah eu não sabia quase nada — só que ela estava namorando o Alan há uns meses.
A gente se reuniu na casa do Alan e começou a jogar Monopoly. A mãe dele estava em viagem de negócios a semana toda, então ele estava cuidando da casa sozinho. Enquanto a gente jogava, as sirenes de tornado da cidade não paravam de tocar, lembrando todo mundo pra ficar dentro de casa na Noite da Parada.
Na hora eu não sabia, mas meus amigos na verdade queriam ver a parada. Eu achava que ia ser só mais um sleepover normal, como sempre.
O Fritz falou que já tinha saído durante a Noite da Parada antes e que era tudo balela, uma farsa.
O Fritz sempre foi aquele cara doido pra caralho, vivia fazendo merda só pra se mostrar. O estranho é que ele quase nunca se machucava de verdade.
A única vez que eu lembro dele se ferrando feio foi quando quebrou o braço tentando escalar o playground da escola ainda no fundamental. Fora isso, quando não estava fazendo besteira, ele era um amigo foda.
O Alan ficou interessado na hora e topou ir junto com o Fritz. Só eu e a Hannah éramos contra. Mas o Alan acabou convencendo a Hannah a entrar na onda também.
Eu não queria ir de jeito nenhum, mas fiquei com medo do que poderia acontecer se eu deixasse eles sozinhos. E se desse merda e eles precisassem de mim?
Acabei concordando. Antes de sair, peguei escondido uma faca da cozinha do Alan e guardei na minha mochila.
Uns 10 minutos antes do pôr do sol, as sirenes de tornado tocaram o último aviso antes da Noite da Parada.
O Fritz nos levou pra um beco perto da praça central. No beco tinha duas lixeiras gigantes. Ele mandou a gente arrastar elas pro fundo do beco pra gente ter onde se esconder durante a parada.
Naquele momento meu coração estava batendo tão forte que parecia que ia explodir. Minhas mãos tremiam pra caralho. A vida inteira me falaram pra nunca olhar a parada… e ali estava eu.
Isso é tão idiota. Porra, por que caralho eu tô fazendo isso?
De repente, a gente ouviu o som de música e passos de marcha vindo de longe…
A gente viu várias pessoas de uniforme vermelho vivo marchando pela rua, todas sincronizadas. A maioria carregava instrumentos e tocava aquela música de banda que ecoava pelas ruas. Alguns faziam truques — malabarismo com pinos, acrobacias, esse tipo de coisa.
E bem no meio do grupo tinha um carro alegórico. Parecia que era pra ser uma ovelha.
Meus amigos estavam boquiabertos, impressionados pra caralho. Mas eu notei uma coisa estranha: todos os integrantes da parada tinham cordas ligando eles ao carro alegórico.
De repente, um berro ensurdecedor saiu de dentro do carro alegórico. A parada parou na hora. Todo mundo ficou congelado.
No canto da minha orelha eu ouvi a Hannah sussurrando: “Que porra foi—”
Olhei pro lado e vi o Fritz em pânico total tapando a boca dela com a mão. Nunca na vida eu vi o Fritz com tanto medo.
Olhei de volta pra parada e… eles estavam olhando direto pra gente.
O Fritz gritou: “CORRE!”
A gente saiu correndo do beco atrás dele. Enquanto corríamos, a música voltou a tocar, só que agora mais rápida, mais agressiva, mais intensa.
Eu ouvia gritos atrás de mim. Na hora eu estava em pânico total e nem percebi que o Alan e a Hannah não estavam mais comigo.
De repente, um dos membros da parada passou o braço no meu pescoço e tapou meus olhos com a outra mão. Eu me debati pra caralho tentando me soltar, mas o filho da puta não largava.
Enquanto ele me arrastava, eu ouvia meus amigos gritando e um rosnado horrível, gutural. Tentei me debater mais ainda e ouvi um barulho nojento de osso esmagando, junto com a Hannah gritando e chorando desesperada. Consegui finalmente tirar a mão dele dos meus olhos e vi o que estava rolando.
Na minha frente tinha uma coisa humanóide grotesca de uns 6 metros de altura. O corpo parecia velho, mas era musculoso e completamente deformado. O rosto era uma aberração: olhos cinza saltados, dentes podres, boca sem lábios nenhum.
A parte de baixo do corpo dela era onde todas aquelas “cordas” se conectavam aos membros da parada. Não eram cordas… eram cordões umbilicais.
Nas mãos dela estava o corpo do Alan, já meio comido. Ao lado da criatura, caído no chão, estava o carro alegórico que ela usava como casca.
Eu me debati pra cacete até conseguir me soltar do membro que me segurava, peguei a faca na mochila e enfiei no peito dele. Ele caiu. Corri até a Hannah e comecei a esfaquear várias vezes o membro que segurava ela, mas a porra não reagia nem um pouco.
Em puro desespero, agarrei o cordão umbilical que conectava o membro e cortei ele no meio. O cara soltou a Hannah na hora, começou a gritar feito um animal e, segundos depois, explodiu em chamas, virando só um corpo carbonizado.
O resto dos membros recuou de nós. A gente aproveitou o momento e correu pra porra toda. Olhei pra trás enquanto corria e vi que eles não estavam mais nos perseguindo.
A criatura rastejou de volta pra baixo do carro alegórico e a parada continuou marchando pela rua. O sol finalmente estava nascendo.
A Hannah acabou ligando pra polícia e contou tudo o que rolou. Ela insistiu pra eu ficar e esperar os policiais, mas eu só queria voltar pra casa.
Cheguei correndo, encontrei meu pai ainda largado no sofá. Tentei acordar ele pra contar o que tinha acontecido.
Ele não acordava. Chequei o pulso… Ele tinha morrido dormindo.
Anos depois, eu moro agora com minha tia e meu tio em outro estado. Ninguém nunca mais soube do Fritz desde aquela noite. Ele simplesmente sumiu.
Tentei falar com a Hannah algumas vezes, mas ela ficou muito deprimida depois daquilo.
Recentemente fiz mais pesquisa sobre a cidade e descobri algumas coisas.
1. Isso já aconteceu várias vezes desde que a cidade foi fundada. Por que ninguém nunca tentou matar aquela coisa?
E 2. Aparentemente, quem vê a parada fica amaldiçoado com azar o resto da vida. Será que eu causei a morte do meu pai só por ter visto aquilo?
Eu perdi tudo naquela noite. Vou descobrir que porra era aquela criatura e, de algum jeito, vou matar ela. Se você souber qualquer coisa sobre a Parada, por favor me avisa.


0 comentários:
Postar um comentário