terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Há meses, meu filho vem colocando os dentes de leite dele embaixo do travesseiro. Toda noite, quando eu chego no quarto dele, eles já sumiram...

O Milo tá naquela idade em que os dentes de leite das crianças caem da boca como fruta madura caindo do galho. Uns meses atrás, ele perdeu dois dentes bem no meio do treino de beisebol: um incisivo lateral e um molar. Nas duas vezes, ele veio correndo até meu lugar na arquibancada, sorrindo largo, queixo sujo de terra, agitando os dentes pra todo mundo ver, pros outros pais ficarem olhando.

Naquela noite, eu entrei de fininho no quarto dele com uns dólares dentro de um saquinho plástico. Meus filhos nunca acreditaram em Fada do Dente, nunca mesmo, mas quem não curte uma tradição que faz você acordar com dinheiro? Eu cheguei perto da cama dele e enfiei a mão com cuidado embaixo do travesseiro, mas não achei o saquinho que eu tinha mandado ele colocar os dentes. Pra não correr o risco de acordar ele, coloquei o dinheiro ali mesmo, achando que ele tinha esquecido de colocar.

De manhã, ele jurou de pé junto que tinha colocado os dentes no saquinho embaixo do travesseiro e sugeriu que talvez tivesse caído entre o colchão e a cabeceira. Parecia uma explicação razoável, mas depois de deixar as crianças na escola, eu praticamente desmontei a cama dele e mesmo assim não achei os dentes. Não estavam encaixados embaixo do colchão, não tinham caído no chão, nem escorregado pra dentro da fronha. Fiquei sem entender. Só me restava torcer pra que o Milo tivesse jogado os dentes fora sem querer. A alternativa era que estivessem presos em alguma fresta da cama e eu fosse encontrá-los meses depois, já marrons e podres.

Há umas semanas, aconteceu de novo. No meio do jantar, o Milo de repente ficou parado. Eu cruzei o olhar com ele do outro lado da mesa enquanto ele fazia careta, pegou um guardanapo e cuspiu um bocado de comida meio mastigada ali dentro. No meio daquela gororoba, aparecia um dente branquinho brilhando. Meu marido, brincando que o Milo tava nos sangrando até secar, lembrou pra ele colocar o dente embaixo do travesseiro dessa vez. O Milo assentiu.

E mesmo assim, quando eu tentei repetir meu papel de Fada do Dente, não consegui consertar o fracasso anterior. De novo, não achei o dente. Eu lembro de ficar ali parada no escuro do quarto dele, pensando nas possibilidades. Uma vez era um descuido compreensível; duas vezes significava que o Milo estava fazendo alguma coisa com os dentes. Alguma coisa que, por algum motivo, ele não queria que eu soubesse.

Desviei o olhar da cama e varri o chão com os olhos, cheio de pilhas de roupa e brinquedo. Tinha uma pilha em especial no canto do quarto que eu não lembrava de ter visto mais cedo naquele dia. Fiquei um tempão encarando aquele monte disforme que provavelmente era roupa pendurada na cadeira da escrivaninha dele, depois voltei a atenção pro Milo. Pela luz fraca que entrava do corredor, dava pra ver que os olhos dele estavam bem abertos e olhando direto pra mim.

A visão me deu um susto. Eu dei um pulinho, pedi desculpa por ter acordado ele e falei alguma coisa sobre não conseguir achar o dente. Por um instante, achei que o olhar dele tinha se desviado pra alguma coisa atrás de mim, alguma coisa no canto do quarto. Depois, ele perguntou baixinho se a gente podia conversar de manhã. Me sentindo envergonhada e estranhamente inquieta, concordei e saí do quarto.

Não tive chance de conversar com o Milo na manhã seguinte. A irmãzinha dele ficou doente, grave o suficiente pra eu ter que faltar no trabalho, e quando a bagunça acalmou, os dentes sumidos já tinham ido pro fundo da minha cabeça. Passaram vários dias até eu lembrar deles de novo.

Uma noite da semana passada, quando a gente tava deitando, finalmente contei tudo pro meu marido — sobre os dentes e sobre aquela inquietação crescente que tinha começado a pintar minhas conversas com o Milo. Meu filho estava escondendo alguma coisa de mim, e quanto mais o tempo passava sem eu tocar no assunto, mais preocupada eu ficava.

No começo, meu marido não dividiu minha preocupação. Ele riu e sugeriu que talvez a Fada do Dente fosse real mesmo, roubando os dentes do Milo antes de eu chegar lá. Mas o tom dele mudou quando eu falei das pequenas mudanças que tinha notado no nosso filho. Nas últimas semanas, o Milo tinha ficado mais reservado. Ainda era quase sempre alegre, mas tinha uma energia nervosa por baixo, algo inquieto e tenso. Eu pensava se estavam zoando ele na escola. Ele sempre foi um pouco queridinho dos professores (um fato que eu sempre tive medo que pudesse torná-lo alvo), mas não conseguia encaixar os dentes sumidos nessa hipótese.

“Sabe uma coisa que eu notei ultimamente?”, meu marido perguntou de repente. “Ele não pede mais nada. Doce, roupa, videogame… ele vivia me pedindo pra aumentar a mesada dele a cada quinze dias. Vai saber; talvez não seja bullying, talvez seja só ele começando a crescer.”

Eu continuei insatisfeita com essa explicação. Ontem, só fui perceber na hora do jantar que ele estava sem um incisivo central. Eu nem sabia que estava mole. Quando perguntei quando exatamente ele tinha perdido o dente, ele só deu de ombros, dizendo que devia ter caído na hora do almoço.

Olhando agora, tudo arrumadinho assim, não tinha nada de intrinsecamente suspeito nos dentes sumidos. Dava pra explicar fácil com descuido de criança. Mesmo assim, eu não conseguia me livrar da sensação de que alguma coisa estava errada. Estava tão convencida disso que passei na escola do Milo hoje à tarde, bem na hora da saída. As moças da recepção não curtiram muito minha visita sem aviso, mas acho que eu já ajudei em tantos eventos da associação de pais que deixaram passar. A secretária me acompanhou até os portões principais e me levou até a sala do Milo.

A essa altura, a maioria das crianças já tinha saído do prédio e ido pro pátio esperar os pais. A secretária voltou pra recepção, e eu olhei pelo vidrinho estreito e retangular da porta pra ter certeza de que o professor do Milo, o Sr. Haskett, ainda estava lá. Ele estava sentado na mesa dele, com cara de exausto. Eu vi ele abrir uma latinha de Altoids na mesa e jogar uma pastilha na boca. Ele se recostou na cadeira e fechou os olhos como se tivesse acabado de dar uma tragada longa num cigarro. Achando graça, abri a porta devagar, tentando não assustar ele.

Quando entrei na sala, ele me olhou surpreso, mas logo trocou por um sorriso largo. Me cumprimentou pelo nome e fez sinal pra eu sentar na cadeira do outro lado da mesa. Papéis amassaram e as pastilhas chacoalharam na latinha enquanto ele rapidamente limpava o tampo da mesa, enfiando tudo numa gaveta enquanto eu puxava a cadeira.

“Desculpa aparecer tão tarde”, eu disse, sentando na frente da mesa dele. “Sei que o dia já acabou.”

“Não tem problema nenhum”, o Sr. Haskett disse. “Fico feliz que tenha vindo. O Milo é um dos meus favoritos.”

Eu sorri automaticamente com isso. “Ele sempre gostou da escola — esse ano com o senhor em especial”, eu disse. “Ultimamente, porém, ele tem ficado um pouco… retraído, digamos assim.”

Haskett assentiu, ouvindo. “Notei que ele tá mais quieto”, disse. “Mais independente. Faz o trabalho dele sem eu precisar falar nada. Não pede muito.”

“Ah, pois é, isso é uma coisa que eu e meu marido também percebemos”, eu disse. “Sei que parece besteira reclamar de uma criança que pede menos, mas é como se ele tivesse decidido que não precisa mais de nada.”

“Às vezes isso faz parte de crescer”, ele disse. “As crianças chegam nessa idade em que gostam de fazer as coisas sozinhas. Não querem que entreguem tudo de mão beijada.”

Pensei nisso por um momento. “Então, além dele ficar um pouco mais sério, o senhor não notou nada estranho? Nenhum problema com as outras crianças?”

“Não vi nada fora do comum”, ele disse, com tom calmo e confiante. “O Milo é um menino inteligente e gentil. Bem querido pelos outros alunos.”

Eu assenti, sem saber mais o que dizer. Conversamos mais uns minutos sobre coisas da escola, depois agradeci pelo tempo dele e me levantei, alisando a saia enquanto me virava pra porta. Foi aí que notei os nichos ao longo da parede do fundo. A maioria estava vazia agora, só com luvas esquecidas e folhas de atividade perdidas.

Um não estava. O nome do Milo estava impresso bem arrumadinho na etiqueta. Dentro, tinha um par de tênis cano alto que eu reconheci na hora. Umas semanas antes, a gente tinha ido fazer compras de roupa de inverno juntos. O Milo tinha parado de repente na frente de uma vitrine, colado as mãos no vidro e apontado pra eles todo animado. Eu disse que eram caros demais, e ele assentiu e deixou pra lá, guardando a decepção tão direitinho que quase doeu ver.

“Esses tênis”, eu disse, apontando. “O senhor viu o Milo usando esses tênis?”

Haskett olhou pra lá, depois deu de ombros. “Não tenho certeza. Por que pergunta?”

“Eu não comprei esses pra ele.”

“Provavelmente estão no nicho errado, então”, ele disse. “As crianças misturam as coisas o tempo todo.”

“Mas por que estariam no nicho de alguém e não, sei lá, nos pés da pessoa?”

Ele deu uma risada leve. “Não saberia te dizer. Mas não se preocupa, tenho certeza que vão voltar pro dono de algum jeito.”

Enquanto ele falava, começou a juntar as coisas dele, arrumando a mochila com uma eficiência de quem já fez isso mil vezes. A mensagem era clara. Era minha deixa pra ir embora. Mesmo assim, fiquei mais um instante.

“Antes de eu ir”, eu disse, apontando pra mesa dele, “o senhor se importa se eu pegar uma pastilha?”

Ele parou. Quando olhou pra mim, deu um sorriso largo — extremamente branco e totalmente sem graça.

“Desculpa”, ele disse. “Acabou.”

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Eu tenho uma vida bem fora do comum

Sabe, eu estou muito doente. Tão doente que meu marido contratou uma equipe inteira pra cuidar de mim e da casa, porque tem tanta coisa que eu simplesmente não consigo mais fazer. Toda manhã, uma das minhas atendentes me acorda e traz o café da manhã. E os remédios. São tantos comprimidos que eu tenho que tomar, mas eles parecem ajudar mesmo. Às vezes consigo me sentar na cama e me alimentar sozinha, embora minhas mãos tremam pra caralho e meus músculos estejam rígidos demais. Outras vezes, a atendente tem que sentar comigo e me dar comida na boca como se eu fosse um bebê. No começo era humilhante, quando eu passei a precisar de tanta ajuda extra, mas me acostumei. Sou grata pelas atendentes e por tudo que elas fazem por mim.

Depois do café, as crianças geralmente vêm me visitar no quarto. Meus anjinhos lindos, todos com aquelas auréolas de cachos dourados e olhos azuis brilhantes. Eles correm pelo quarto, rindo e brincando de pega-pega, pulando na minha cama e saltando pro chão. Eu nunca os repreendo nem mando parar, porque aquece meu coração ver eles se divertindo tanto. Tenho três bebês, e eles vão ser sempre meus bebês, não importa quanto tempo passe. A mais velha, Jocelyn, tem 8 anos. Ela está começando a ficar muito parecida comigo, acho, com o nariz afiado e pontudo e as sobrancelhas delicadas, sempre franzidas em pensamento. As bochechas dela estão perdendo aquela gordurinha de criança e meu coração dói de ver ela crescendo tão rápido.

Simon é o do meio e meu único menino, e que menino ele é. Selvagem, nem aí pras regras que eu e o meu marido tentamos impor tantas vezes ao longo dos anos. Ele tem meus lábios carnudos e cheios, e dá pra ver que quando crescer vai ter a sobrancelha forte e o maxilar do pai, e ele só tem 6 anos. Pra mim ele parece uma escultura grega de mármore, com aquelas linhas duras da estrutura óssea ainda tão suavizadas pelo jeitinho de bebê. Mas até ele já me parece tão crescido agora.

A caçula é Eveline, e ela tem só 3 aninhos. Tem um rostinho doce e querubim, com cílios impossivelmente longos e bochechas rosadas e gorduchas. Ela não corre tão rápido nem pula tão alto quanto os irmãos, mas vai atrás o mais rápido que as perninhas permitem. Ela ainda é a que mais faz carinho em mim, se enroscando nos meus braços quando eu tiro uma soneca antes do almoço. O cheirinho doce do cabelo dela enche meu nariz e me faz dormir tão tranquila.

Quando as crianças não estão rodopiando pelo meu quarto como dervixes, elas costumam sair pra brincar no jardim. Jocelyn e Simon são sempre tão gentis com a Eveline e sempre esperam ela alcançar. Tenho muita sorte de ter uns bebês tão doces que se amam tanto. Antes de ficar doente, eu conseguia ir com eles pro jardim, e às vezes me dá uma tristeza ficar presa aqui dentro, no meu quarto.

Tenho um rodízio de atendentes que ficam comigo todo dia. Faz sentido, né, imagino que todas tenham família pra voltar quando o turno acaba. Meu marido fez questão de eu ter cuidado o tempo todo, então são três atendentes diferentes por dia — uma pro turno da manhã, outra pro da tarde e uma pra noite. Elas me ajudam a tomar banho toda manhã e a me vestir todo dia. Faz muita diferença poder usar roupa limpa e fresca todo dia e não ficar apodrecendo na cama com a mesma camisola por dias seguidos. Tiffany, que é uma das minhas favoritas, penteia meu cabelo longo e faz uma trança francesa linda pra mim. Só vejo ela duas vezes por semana, e as outras atendentes parecem não querer se dar ao trabalho com meu cabelo. Ele fica bem embaraçado até a Tiffany voltar, e ela passa um tempão desembaraçando com paciência e delicadeza. Às vezes ela murmura enquanto penteia e trança: “Senhora Margaret, cadê aqueles bebês lindos seus?” Eu sempre respondo que devem estar em outra parte da casa, talvez brincando com a casinha de bonecas ou espalhados na sala de brinquedos lendo livros. A Tiffany sempre estala a língua e não fala mais nada.

Claro, além das atendentes, tem os médicos. Dr. Philips é um homem alto e magro, cabelo grisalho bem curto, óculos de armação grossa preta que sempre parecem a ponto de escorregar da ponta do nariz comprido. Ele vem me ver todo dia depois do almoço pra me examinar e perguntar como estou me sentindo. Geralmente dou a mesma resposta todo dia. Dra. Wilcox, que me disse que posso chamar ela de Jennifer, é médica dos meus sentimentos. Foi assim que ela explicou quando nos conhecemos. Disse que estar tão doente pode trazer um monte de sentimentos ruins, e que queria que eu me sentisse à vontade pra dividir qualquer coisa que estivesse me incomodando. Ela nunca consegue avançar muito comigo. Sempre fico cansada demais depois de falar com o Dr. Philips pra responder às perguntas dela. Às vezes respondo, e ela me lança um olhar estranho e anota coisas no caderno. Não sei o que ela faz com aquele caderno depois que sai do meu quarto, mas eu gostaria de ler um dia.

Todo mundo que cuida de mim usa uniforme; acho que é obrigatório pela agência que meu marido contratou. A única pessoa que vem me visitar e nunca usa uniforme é minha amiga, Allison. A Allison sempre traz o cachorro dela, Fig, um Golden Retriever enorme e avermelhado. Na primeira vez que conheci a Allison e o Fig, percebi que ela estava um pouco... tensa. Segurava a guia com força na mão, embora a guia estivesse frouxa. Mas eu reparo nessas coisas. Ela murmurou algo pra uma das minhas atendentes enquanto o Fig se aproximava de mim na cadeira. O cachorro veio direto, colocou a cabeça enorme e quadrada no meu colo, olhando pra mim com aqueles olhos castanhos macios. Levantei a mão, fiz carinho na cabeça dele, cocei atrás das orelhas, e ele fechou os olhos e deixou o peso todo da cabeça no meu colo. Vi o punho da Allison relaxar na guia, e ouvi ela falar baixinho pra atendente: “O Figgy é um ótimo juiz de caráter.” O atendente deu de ombros e virou o rosto, quase irritado.

Depois daquele primeiro encontro, a Allison traz o Fig pra me visitar toda semana. Se eu estiver na cama, o Fig pula e deita do meu lado, me aquecendo com o pelo sedoso avermelhado. A Allison sempre puxa uma cadeira e senta perto de mim, faz conversa fiada sobre o tempo ou conta alguma história engraçada do que o Figgy aprontou desde a última vez. Às vezes a Allison pega minha mão e me dá um olhar cúmplice. Uma vez ela perguntou por que eu estava doente, e eu disse que era melhor pra nós duas se ela não soubesse. Mas isso não a espantou. Um dia, aquele mesmo atendente que estava lá no primeiro encontro com a Allison e o Fig puxou uma cadeira mais perto de mim e da Allison do que o normal, abriu um jornal e começou a ler. A manchete grande na capa dizia: “Pai de crianças desaparecidas há 3 anos pede que sejam declaradas oficialmente mortas”. Uma história triste, sem dúvida. Uma foto do pai com as crianças, todos sorrindo pra câmera, ocupava quase toda a primeira página.

Meu marido viaja tanto a trabalho que quase nunca consegue me visitar. Quando vem, geralmente se reúne com meus médicos e eles conversam em voz baixa. Eu pego pedaços: “Nenhum progresso... nenhuma nova informação... medicação diferente...” Meu marido tem controle sobre meu tratamento porque a doença muitas vezes me deixa tão cansada e confusa que não consigo consentir com mudanças. Ele aprendeu a só me visitar antes das 17h, porque já teve visita demais depois do jantar em que ele entrou no meu quarto e algo horrível tomou conta de mim e eu o ataquei. Saí da cama ou da cadeira de rodas com as mãos esticadas, tentando arrancar a garganta e os olhos dele enquanto a atendente corria pra me conter. Sempre que isso aconteceu, meu marido se recusa a me olhar nos olhos, com medo de encarar o verdadeiro motivo pelo qual eu quero matá-lo — um motivo que só ele e eu saberemos para sempre.

É que os remédios da manhã começam a fazer menos efeito depois do jantar, e eu só posso tomar a dose da noite às 19h. Conforme a tarde vira noite, sinto os sintomas voltando. Minha visão, borrada e desfocada o dia todo, fica nítida. A luz dourada que banha tudo escurece e vira um azul frio, jogando tudo em relevo duro e deixando o ambiente hostil e clínico. Minha cabeça, tão enevoada e lenta o dia inteiro, começa a clarear, e as memórias voltam. Vejo as atendentes como elas realmente são: funcionárias que cuidam de mim com relutância, não com dedicação e carinho.

O pior, porém, são as crianças. Quando vêm me visitar depois do jantar, elas não parecem mais felizes, angelicais, cheias de vida e risada. Não parecem mais como eu quero lembrar delas. Em vez disso, parecem como sou obrigada a lembrar. A Jocelyn tem metade do couro cabeludo arrancado do crânio e falta o olho esquerdo. Sangue mancha o nariz e a boca, e tem hematomas roxos grossos no pescoço. A cabeça pende num ângulo estranho, e as pernas só arrastam o corpo pra frente porque as fraturas expostas têm pedaços de osso perfurando a pele. Todo o lado esquerdo da cabeça do Simon está completamente afundado, e ele cospe bolhas de sangue enquanto tenta puxar ar em respirações rasgadas. A caixa torácica está esmagada e estilhaçada, os pulmões batendo inutilmente contra a parede do peito. E a Eveline... minha pobre e doce menininha, nova demais pra entender o que estava acontecendo. Os olhos estão pretos, cheios de sangue morto. A língua está enorme e roxa, saindo da boca. Ela também tem hematomas grossos no pescoço, embora mal dê pra notar porque agora ela carrega a cabeça nas mãozinhas — arrancada completamente dos ombros. Todos vêm até mim e me encaram, chorando: “Por quê, mamãe?” No começo isso me enlouquecia, e na maioria das vezes quando apareciam pra me assombrar eu arranhava os braços com tanta força enquanto gritava de angústia que acabava amarrada na cama com restrições acolchoadas enquanto uma enfermeira aplicava uma injeção pra me fazer dormir. Agora só choro em silêncio. Não desvio o olhar, porque meus bebês merecem ser vistos, mas meu coração se despedaça em milhões de pedaços toda noite quando eles vêm me lembrar do que eu fiz.

Um caminhoneiro me encontrou na beira da estrada há três anos, coberta de sangue — parte meu, parte não. No pronto-socorro tentaram me fazer contar o que tinha acontecido, mas eu não conseguia. Só gritava enquanto via meus bebês do jeito que os deixei antes de fugir pro mato. Acho que queria me perder e morrer de frio lá, mas em vez disso saí cambaleando na pista e quase fui atropelada por um caminhão. Morrer assim teria sido melhor do que eu merecia. Quando a polícia chegou pra me interrogar, os funcionários do hospital ficaram confusos. Aí o detetive explicou. Meu marido tinha registrado o desaparecimento das crianças e o meu naquela manhã, depois de acordar e encontrar a casa vazia. Contou à polícia que eu não andava bem ultimamente, que não estava tomando os remédios, e que temia que eu tivesse machucado as crianças. A polícia já sabia disso quando me viu na maca, coberta do sangue deles. E eu não conseguia falar pra contar o que realmente aconteceu. Por fim me sedaram pra parar os gritos, e quando acordei estava algemada na grade da cama com um policial me encarando do canto do quarto.

Me levaram a julgamento, mas fui considerada inapta pra responder pelo crime. O psicólogo do estado que me avaliou concluiu que eu tinha entrado em estado catatônico e que, naquele torpor, eu era incapaz de compreender as acusações. E foi assim que vim parar aqui no Willow Grove, o hospital psiquiátrico forense de segurança máxima do estado. Presa junto com outros considerados inaptos pra julgamento, como eu, ou os que foram declarados não responsáveis criminalmente — o termo técnico pra não culpado por insanidade. E aqui fiquei esses últimos 3 anos, sob uma névoa constante de antipsicóticos e benzodiazepínicos, incapaz de contar a ninguém o que realmente aconteceu naquela noite em que me encontraram. Incapaz de contar o verdadeiro motivo de ter atacado meu marido tantas vezes, o motivo que só ele e eu saberemos para sempre.

Porque não fui eu que machuquei meus bebês preciosos naquela noite no mato.

Eu monitoro câmeras de segurança pra viver. Uma delas tá me mostrando agora mesmo

Trabalho pra uma empresa de monitoramento de segurança. A gente vigia os feeds de pequenos negócios. Postos de gasolina, depósitos, estacionamentos cobertos. Lugares muito pão-duros pra contratar seguranças de verdade.

Meu trampo é ficar sentado numa sala sem janela olhando pra doze monitores. Cada monitor vai rodando os feeds de clientes diferentes. Se eu vejo algo que merece ser reportado — roubo, vandalismo ou alguém desmaiado no banheiro —, corto o vídeo e mando pro cliente. Do contrário, só fico olhando.

Pego o turno da madrugada, das 23h às 7h. Quatro noites por semana. O salário é uma merda, mas dá pra fazer lição de casa entre os incidentes e ninguém me enche o saco.

No mês passado comecei a ver coisas nos feeds que não faziam sentido nenhum.

Coisas pequenas no começo. Uma câmera dava um glitch, mostrava estática por uns segundos e voltava. Ou o timestamp pulava pra frente, perdia uns minutos como se tivesse um buraco na gravação. Comentei com minha supervisora e ela disse que o sistema era velho, provavelmente HDs corrompidos. Mandou eu registrar os glitches e continuar trabalhando.

Os glitches pioraram.

As câmeras cortavam pra feeds que não estavam na rotação. Eu tava vendo o estacionamento quando a tela piscava e de repente eu tava olhando pra outro lugar. Corredores vazios. Escadas. Salas que eu não reconhecia. Depois piscava de novo e voltava pro feed normal.

Comecei a anotar todas as anomalias. Horários, locais, duração. Em duas semanas eu tinha trinta e sete incidentes. Nenhum padrão que eu conseguisse enxergar. Câmeras diferentes, horários diferentes, sempre rápidos. Nunca mais de dez segundos.

Aí eu me vi.

Era 3h47 de uma terça-feira. Eu tava vendo o feed de uma lavanderia 24 horas. A câmera aponta pra porta da frente e pra fileira de máquinas de lavar junto à vitrine.

A tela piscou. A imagem mudou.

Eu tava olhando pra uma cozinha. Pequena, antiquada. Piso de linóleo, armários brancos, luminária fluorescente. Uma mulher estava de costas pro balcão, despejando algo de uma panela num pote.

A mulher se virou.

Era eu.

Mesmo rosto. Mesmo cabelo. Mesma cicatriz na sobrancelha esquerda de quando bati a cabeça num balanço na terceira série. Ela olhou direto pra câmera por uns dois segundos, depois o feed voltou pra lavanderia.

Fiquei ali parado, olhando pro monitor. Minhas mãos tremiam.

Voltei o vídeo. Assisti de novo. Com certeza era eu. Com certeza uma cozinha que eu nunca tinha visto. O timestamp marcava 3h47, igual ao horário atual, mas a data estava errada. Mostrava uma data três dias no futuro.

Cortei o vídeo e salvei no meu drive pessoal.

Não contei pra supervisora. Fui pra casa quando o turno acabou e tentei dormir, mas ficava vendo aquela cozinha. Os armários brancos. A luz fluorescente. Eu nunca tinha estado naquela sala. Tinha certeza.

Mas a pessoa no vídeo era eu.

Na noite seguinte vigiei os monitores com mais atenção. Peguei um caderno e anotei toda vez que um feed deu glitch. A maioria era igual aos anteriores. Lugares aleatórios, flashes rápidos, nada identificável.

Às 2h18 vi a cozinha de novo.

Mesma sala. Mesmo ângulo de câmera. Dessa vez a cozinha estava vazia. Só o balcão, os armários, a luz. O vídeo rodou por seis segundos e cortou de volta pro posto de gasolina que eu devia estar vigiando.

Confiri o timestamp. Horário atual, mas data dois dias no futuro.

Comecei a puxar vídeos antigos do arquivo. A empresa guarda tudo por noventa dias antes de apagar. Voltei seis semanas de gravações da madrugada, procurando anomalias nos meus turnos.

Me encontrei em quarenta e três clipes.

Lugares diferentes. Roupas diferentes. Mas sempre eu, sempre com timestamp que não batia. Alguns no futuro. Alguns no passado. Uns poucos com datas que ainda não tinham chegado.

Num clipe eu caminhava por um corredor de concreto. Paredes institucionais, blocos pintados, portas pesadas com janelas de tela metálica. Eu usava jaleco hospitalar. Nunca tive jaleco. O timestamp dizia que tinha sido gravado oito meses atrás.

Em outro eu estava sentada num carro. Noite. Estacionado num lugar escuro. Eu estava chorando. Esse clipe era datado cinco dias a partir de agora.

Fiz cópias de tudo e tentei achar padrões. Horários do dia. Locais. O que eu estava vestindo ou fazendo. Nada se conectava. Os clipes pareciam aleatórios, espalhados por meses, me mostrando em lugares que eu nunca estive fazendo coisas que eu não conseguia explicar.

Aí encontrei o mais longo.

Dezoito minutos de vídeo de uma câmera que eu não conseguia identificar. Mostrava um quarto pequeno. Cama de solteiro, cômoda, uma janela com persiana. O timestamp dizia que tinha sido gravado três semanas atrás, às 4h33.

Eu estava dormindo na cama.

A câmera estava posicionada no alto, provavelmente fixada num canto perto do teto. Tinha visão clara de todo o quarto. Fiquei olhando eu mesma dormir por dezoito minutos. Não me mexi muito. De vez em quando mudava de posição. Em certo momento rolei e o cobertor escorregou.

Aos dezesseis minutos, eu me sentei.

Não como se estivesse acordando. Mais como se algo tivesse me puxado pra cima. Meus olhos estavam abertos, mas eu não olhava pra nada. Saí da cama, fui até a cômoda, abri a gaveta de cima. Tirei algo. Não dava pra ver o quê. Depois saí do quadro.

O vídeo continuou por mais dois minutos. Quarto vazio. Cama desarrumada. Depois cortou.

Eu não reconhecia o quarto. Não era meu apartamento. Não era lugar nenhum onde eu tinha ficado. Mas com certeza era eu na cama.

Comecei a carregar o celular pra todo lado, gravando tudo. Se eu estivesse sonâmbula ou tendo estados de fuga, talvez eu me pegasse fazendo algo que não lembrava.

Gravei oito horas por dia durante uma semana. Toda noite antes de dormir, toda manhã ao acordar. Gravei o turno inteiro no trabalho, o trajeto, o tempo em casa.

Nada fora do comum. Eu estava exatamente onde achava que estava, fazendo exatamente o que lembrava de ter feito.

Mas os clipes continuavam aparecendo nos feeds de segurança.

Vi eu mesma num estacionamento discutindo com alguém que eu não conhecia. Vi eu mesma num prédio comercial, passando por baias às 2h da manhã. Vi eu mesma parada num campo vazio ao anoitecer, só parada ali, sem me mexer.

Os timestamps estavam chegando mais perto do presente.

Tentei achar os locais. O estacionamento parecia genérico, mas rodei a cidade inteira conferindo todas as garagens que encontrei. Nada batia. O prédio comercial não tinha nada que identificasse. O campo podia ser qualquer lugar.

Pensei em ir à polícia, mas o que eu ia dizer? Que estava me vendo em câmeras de segurança que eu não tinha acesso, em lugares que nunca estive, em horários que não batiam com a realidade?

Semana passada me vi no meu próprio apartamento.

O feed deu glitch à 1h23. Quando voltou, eu estava olhando pra minha sala. Mesmo sofá, mesma estante, mesma TV. O ângulo era do canto perto do teto, igual à câmera do quarto que eu não reconhecia.

Eu estava sentada no sofá. Só sentada ali, olhando pra parede.

Levantei da minha mesa no trabalho e olhei em volta. Estava sozinha na sala de monitoramento. A porta fechada. Olhei de novo pro monitor.

Na tela, eu me levantei do sofá no meu apartamento. Fui até a janela e olhei pra fora. Depois me virei e olhei direto pra câmera.

Meu celular estava no bolso. Tirei, abri o app da câmera, troquei pra visão frontal.

Eu estava no trabalho. Luzes fluorescentes. Paredes cinzas. Monitores atrás de mim mostrando os feeds.

Na tela, vi eu mesma no apartamento sair do quadro.

O feed ficou mais dez segundos e depois cortou de volta pro depósito.

Fui pra casa quando o turno acabou. Revirei cada canto do apartamento. Cantos, teto, atrás dos móveis. Procurando câmeras. Algo tinha que estar me gravando.

Não achei nada.

Mas comecei a reparar em coisas que estavam levemente erradas.

Objetos mudados de lugar. Não muito longe. Uma xícara no balcão seis centímetros pro lado. Minhas chaves na mesinha de centro em vez do gancho na porta. Livros na estante em ordem diferente.

Coisas pequenas. Fáceis de achar que era falha de memória.

Só que comecei a testar. Antes de ir pro trabalho, arrumava objetos em padrões específicos. Três canetas na mesa formando triângulo. Quatro livros empilhados com a lombada pra fora. Quando voltava, os padrões estavam diferentes.

Alguém entrava no meu apartamento enquanto eu não estava.

Ou eu entrava no meu apartamento e não lembrava.

Configurei o notebook pra gravar enquanto eu estava no trabalho. Apontei pra sala, deixei rodando a noite toda. Quando cheguei em casa na manhã seguinte, conferi o vídeo.

Sete horas de uma sala vazia. Ninguém entrou. Ninguém mexeu em nada. Mas quando olhei pra mesinha de centro, o controle remoto estava do lado errado.

Tentei pensar racionalmente. Talvez eu estivesse mexendo nas coisas e não lembrando. Estresse, falta de sono, algum estado dissociativo. Marquei consulta com médico.

Mas os vídeos do trabalho continuavam piorando.

Vi eu mesma numa cabine de banheiro, sentada no chão. Vi eu mesma num porão com canos expostos e paredes de concreto. Vi eu mesma no porta-malas de um carro, encolhida, olhos abertos, sem me mexer.

Esse clipe era datado amanhã.

Ontem à noite vi eu mesma morrer.

O feed deu glitch às 4h52. Eu estava olhando pra uma sala que não reconhecia. Piso de azulejo, pia industrial, mesa de metal. Eu estava deitada na mesa. Sem me mexer. Olhos fechados.

Alguém entrou no quadro. Não dava pra ver o rosto. Usava luvas. Ficou parado em cima de mim por um tempo, só olhando. Depois pegou meu pulso, checou a pulsação.

Deixou meu braço cair e saiu do quadro.

O vídeo rodou mais três minutos. Só eu na mesa. Sem respirar. Depois cortou de volta pro feed normal.

O timestamp dizia que tinha sido gravado seis horas a partir daquele momento.

Liguei dizendo que estava doente. Falei pra supervisora que era intoxicação alimentar. Fui pra casa e tranquei todas as portas, conferi todas as janelas. Estou sentado na minha cozinha com todas as luzes acesas.

São 10h47 da manhã.

Em seis horas eu devo estar morta numa sala que nunca vi.

Mas é o seguinte que não sai da minha cabeça.

Puxei todos os clipes que salvei. Passei frame por frame. Procurando qualquer coisa que me dissesse de onde essas gravações estavam vindo.

No clipe de mim dormindo, aquele de dezoito minutos, tem um momento bem no final. Logo antes de cortar. A câmera se mexe. Só um pouquinho. Como se alguém tivesse ajustado.

E no canto inferior do quadro, por talvez meio segundo, dá pra ver um reflexo na janela.

Alguém parado no quarto. Me observando dormir.

A resolução é baixa demais pra ver detalhes. Mas dá pra ver o contorno. A forma.

Sou eu.

Sou eu que estou segurando a câmera.

Tenho que ir pro trabalho hoje à noite. Meu turno começa às 23h. Pensei em não ir, mas se eu já estiver morta até lá, que diferença faz?

E talvez quando eu chegar lá, finalmente veja de onde todos esses feeds estão vindo. Talvez eu encontre a fonte.

Ou talvez eu só assista acontecer.

Tenho ficado olhando os monitores pelo celular. O app da empresa deixa ver os feeds remotamente. Fico atualizando de poucos em poucos minutos.

Dez minutos atrás apareceu um clipe novo.

Estou na minha cozinha. Agora mesmo. Sentado à mesa com o notebook.

O ângulo da câmera é de trás de mim, por cima do ombro direito. Dá pra ver a tela. Dá pra ver o que estou digitando.

Olhei em volta na cozinha. Não tem nada atrás de mim além da parede.

Mas no celular, consigo me ver sentado aqui. Consigo ver a parte de trás da minha cabeça. Consigo ver minhas mãos no teclado.

O timestamp diz que está sendo gravado agora. Feed ao vivo.

Vou me levantar. Vou me virar.

Se tiver uma câmera, vou achar.

Se não tiver, então eu não sei o que estou olhando.

Acabei de me levantar e me virar.

Não tem nada aqui.

Mas no celular, ainda consigo me ver. Ainda sentado à mesa. Ainda digitando.

A pessoa na tela não se mexeu.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Há uma Sombra no Meu Quintal, e Ela Está Aprendendo a Ser Eu

Era 1h47 da manhã quando eu acordei de sobressalto. Achei estranho — eu quase nunca acordo no meio da noite. Normalmente durmo direto até o dia clarear, mas ali estava eu, de boca seca, encarando o reloginho digital. A Lucy não estava do meu lado na cama. Por um segundo nem lembrei onde ela estava, depois caiu a ficha: ela estava no plantão noturno do hospital.

Meio zonzo, saí rastejando da cama e desci pra cozinha pegar uma água.

A casa ficava vazia e silenciosa à noite, igual o bairro todo. Eu amava essa casa: tranquila, bem localizada, a poucos minutos do centro. Os vizinhos eram gente boa também — mesmo com as casas e os quintais colados uns nos outros, nunca rolava briga. Eu estava ali na cozinha, inclusive pensando em marcar um churrasco com a galera. Bebi um gole d’água — e foi aí que eu vi.

Uma silhueta preta. Mal dava pra enxergar na escuridão da noite, mas se destacava mesmo assim. Lá no fundo do quintal, perto da cerca. Uma forma humana: alta, magra, o contorno quase imperceptível. E ela só ficava lá parada, sem se mexer, olhando pra dentro pela porta de vidro da varanda.

Um arrepio desceu pela espinha. Que porra era aquela parada no meu quintal, me encarando daquele jeito? Por um momento nem ousei me mexer. A figura também não. Parecia que nem respirava. Só ficava olhando pra dentro — olhando direto pra mim. Senti que se eu não fizesse nada agora, ela ia dar o primeiro passo.

Não demorou muito pra o pânico virar raiva. Peguei a lanterna que eu guardava numa gaveta da cozinha e saí feito um louco pra varanda. Abri a porta de vidro com tudo, apontei o facho pra figura — e achei que tinha enlouquecido.

Porque não tinha ninguém lá.

Não tinha ninguém. Varri o quintal inteiro com a lanterna. Não era um quintal grande — a Lucy e as crianças mantinham tudo arrumadinho —, então nem dava pra dizer que alguém podia estar escondido atrás de um arbusto ou no mato alto. Não sabia o que pensar. Dei de ombros, culpando os olhos cansados e o fato de ter acordado no susto no meio da madruga. Devia estar só exausto mesmo.

Voltei pra dentro, pra cozinha, pra terminar o copo d’água pela metade. Mas mal cheguei no balcão, vi de novo. Pelo canto do olho, uma figura preta alta — o contorno inconfundível. Lá no quintal, exatamente como antes, olhando pra dentro.

Engoli em seco. Não ousei gritar; o Francis e o Tommy estavam dormindo lá em cima, e o bairro inteiro em silêncio absoluto. Fiquei com os olhos cravados na figura parada. Dessa vez decidi que ia sair de novo — mas ia correr atrás, quem quer que fosse. Não ia deixar alguém me aterrorizar dentro da minha própria casa.

Voltei pisando forte pra porta da varanda, sem tirar os olhos da figura lá fora. Já estava quase na porta quando percebi uma coisa estranha. A figura não estava só parada. As pernas dela se mexiam exatamente como as minhas. No começo achei que era coincidência… mas quando parei, ela parou também. Perfeitamente sincronizado.

Como se eu estivesse olhando pro meu próprio reflexo — só que do lado de fora, no escuro.

Entrei em pânico. Andei de um lado pro outro na cozinha. Lá fora, a figura fez o mesmo. Dava o passo igual ao meu. No começo realmente pensei que fosse algum tipo de reflexo, mas tinha algo errado nos passos dela. Como se estivesse só agora aprendendo a andar — às vezes desajeitada, às vezes sem saber onde colocar o pé. Que caralho era aquela coisa no meu quintal? Por que estava me imitando — e, mais importante, o que ela queria?

Não sabia o que fazer. A única ideia que tive foi apontar a lanterna de novo. Mas no instante em que acendi o facho de dentro da cozinha, não tinha nada. Só o reflexo da janela voltando pra mim. O quintal estava vazio outra vez.

Apaguei a lanterna, e a figura sumiu. Desapareceu. Nem uma silhueta no fundo do quintal. Era como se tivesse se dissolvido na escuridão.

Fiquei ali parado uns minutos, apavorado achando que não tinha ido embora de verdade — só se escondido em algum lugar que eu não via. Devo ter ficado uns meia hora ali, olhando pela janela da cozinha. Procurei em tudo, mas a figura não aparecia mais.

Como era quinta-feira de madrugada e eu tinha que trabalhar no dia seguinte, acabei subindo de novo. Conferi os meninos: os dois dormindo pesado. Da janela do quarto fiquei de olho no quintal mais um tempo, mas a figura não voltou. No fim, peguei no sono — embora cada nervo do meu corpo tivesse pavor de acordar e dar de cara com ela de novo.

O dia inteiro, a noite anterior ficava voltando na minha cabeça. Por que eu tinha acordado tão no susto? Quem — ou o quê — tinha estado no meu quintal? Contei pra Lucy à tarde, mas ela achou que eu estava zoando. Insistiu que eu devia estar cansado, talvez fosse algum tipo de paralisia do sono. Mas no fundo eu sabia que era outra coisa.

A noite chegou de novo. A Lucy tinha que acordar cedo no dia seguinte, então já tinha deitado. Eu não conseguia descansar. As crianças dormiam, e eu fiquei na cozinha, só vigiando. Lá pela meia-noite e meia, acabei cochilando no sofá. Acordei todo duro e dolorido. A casa estava escura, iluminada só pelo brilho da televisão. Meio grogue, levantei e fui pra cozinha pegar água. Foi aí que lembrei por que tinha ficado acordado até tão tarde.

Ela estava lá de novo. No quintal. A sombra preta em forma de gente. Observando.

Desconfiado, fiquei encarando de volta. Cheguei mais perto da janela, tentando distinguir o que era. Mas ela não se mexia — só ficava lá, alta e magra, uma silhueta preta.

Aí me veio uma ideia. Corri pegar o celular no sofá e voltei voando pra cozinha.

Tirei uma foto, mas na escuridão da noite quase não apareceu nada. Talvez tivesse uma figura na tela… ou talvez fosse só algum borrão da foto granulada.

Mas enquanto eu levantava o celular e tirava fotos da sombra, ela começou a me copiar. Desajeitada, como se não tivesse dedos de verdade. Ergueu o braço, mas o pulso dobrou errado, os dedos mais parecendo varas longas e quebradiças. Fingiu tirar foto também, embora a mão se mexesse de um jeito que parecia que ia partir ao meio.

Fiquei olhando pela janela da cozinha outra vez, os nervos à flor da pele. A figura preta não se mexia — só ficava vigiando as janelas da casa. Aí, de repente, começou a se mexer. Mas dessa vez não estava me imitando. Se mexia como se estivesse procurando alguém, olhando em volta com aqueles movimentos bruscos e desajeitados. Que porra ela estava fazendo? Depois, do nada, congelou de novo.

“Gordon, o que você tá fazendo?” a voz da Lucy sussurrou atrás de mim.

Quase tive um treco. Nem tinha percebido ela chegando. Estava totalmente absorto, perdido olhando pra figura no quintal.

“O quê?” gaguejei, assustado.

“O que você tá fazendo, Gordon?” ela chiou irritada. “São três da manhã e você tá aqui parado, olhando pela janela da cozinha. Que porra é essa?”

“Vem ver!” falei rápido, quase animado.

A Lucy veio pro meu lado. Ela ia pegar café mesmo, mas pelo menos olhou pela janela pro escuro.

No começo só revirou os olhos. Mas no instante em que viu, o sangue sumiu do rosto dela. Deu um passo pra trás, como se o vidro não protegesse mais da noite. Dava pra ver que ela tinha visto também. A figura no nosso quintal assustava ela tanto quanto me assustava.

“Que porra é essa, Gordon?” ela sussurrou, o pânico já na voz.

Só balancei a cabeça. Não sabia o que a gente estava olhando. Era humano sequer? Ou era algo completamente diferente — algo que não era desse mundo?

“Gordon, liga pra polícia,” a Lucy disse, branca que nem fantasma.

“E o que eu vou falar pra eles, Lucy?” retruquei nervoso. “Que tem uma sombra no meu quintal?”

Ela me fuzilou com os olhos, já puta da vida. Eu conhecia aquele olhar — se eu insistisse mais, ela ia ficar bem mais assustadora que a coisa parada lá fora.

Foi a Lucy quem acabou ligando pra polícia. Não me deu muito tempo pra reagir, mas eu entendi — ela estava nervosa e com medo.

Enquanto isso, eu não tirei os olhos da figura enquanto a Lucy falava no telefone. A sombra preta não se mexia. Ou melhor, só copiava a Lucy enquanto ela falava. Enquanto eu observava, percebi que estava ficando melhor — imitava os gestos dela com mais fluidez, quase natural.

“Daqui a pouco eles chegam. O que essa coisa tá fazendo?” a Lucy sussurrou, chegando do meu lado de novo.

“Está te copiando,” falei seco. “Enquanto você estava no telefone. Agora só tá olhando.”

“Essa coisa me dá um arrepio do caralho, Gordon,” a Lucy disse, apertando meu braço. “Me sinto tão insegura, e tô com medo pelas crianças.”

“Os meninos estão bem,” respondi calmo. “Já conferi eles.”

Não saímos da janela da cozinha. Ficamos só ali parados, olhando pra fora, até a Lucy finalmente ver o flash das luzes da viatura na frente da casa.

Chegaram dois policiais. A Lucy subiu pros meninos, e eu só tirei os olhos da sombra o tempo suficiente pra abrir a porta pra eles. Mas quando voltamos pra cozinha, ela tinha sumido. O quintal estava escuro e vazio.

Os policiais revistaram o quintal inteiro, até deram uma olhada rápida dentro de casa, mas não acharam nada. Não contamos exatamente o que tínhamos visto — pra falar a verdade, a gente mesmo não sabia. Só falei que alguém tinha ficado parado no quintal, e a gente não fazia ideia de quem era.

O lance da polícia não deu em nada.

A Lucy acabou indo pro trabalho. Consegui dormir um pouco depois que os policiais foram embora. Eles prometeram patrulhar o bairro e dar uma passada na nossa casa de vez em quando.

A figura preta não voltou. Mas demorei muito pra pegar no sono de novo — tinha sido a segunda vez que eu via ela, e a segunda vez que simplesmente desaparecia.

Minha sexta passou rápido. Levei as crianças pra escola, e como era sexta, tive só meio período no escritório. Mas quando cheguei em casa, levei um susto: a Lucy estava na sala, com todas as nossas coisas já arrumadas pras quatro pessoas.

Ela disse que não ficava mais ali. Que a gente devia ir tudo pra casa dos pais dela. Mas eu não queria sair da nossa casa. Era nossa, o nosso lar. Não ia jogar tudo fora por causa de uma sombra — eu era feito de material mais forte que isso. Discutimos um tempo, e no fim ela e as crianças foram pros pais dela pro fim de semana, enquanto eu fiquei pra resolver essa parada da sombra de uma vez por todas.

A primeira coisa que fiz foi comprar uma câmera. Instalei uma câmera com visão noturna do lado de fora, apontada direto pro lugar onde a sombra costumava aparecer. O segundo passo foi comprar uma pistola de gás. Tinha certeza que naquela noite ia acabar com essa palhaçada de susto.

À noite, me tranquei no quarto. Fiquei olhando o feed da câmera do quintal no notebook, rodando na base da cafeína pra garantir que não ia dormir até a sombra finalmente aparecer.

Devo ter cochilado. Quando acordei, já tinha passado da meia-noite faz tempo. O notebook tinha travado a tela. Em pânico, destravei e abri a câmera do quintal.

O vídeo não mostrava nada. O quintal estava completamente vazio. Mas quando aumentei o volume pra ouvir o áudio, peguei algo.

“Foi vista aqui ontem também?” perguntou uma voz de homem.

Depois veio só um barulho confuso, como alguém tentando falar mas sem conseguir formar as palavras.

Eu sabia que era a sombra. Peguei a pistola e, feito quem não conhece medo, desci pisando forte pra cozinha.

Ela estava lá de novo, parada no quintal. O negócio todo era desconcertante: na câmera, nada aparecia — mas pessoalmente, lá estava ela. Abri a porta da varanda com força e apontei a pistola de gás pra sombra.

“Sai daqui, seu filho da puta!” gritei.

Ela não se mexeu. Em vez disso, com gestos estranhos, tortos e lentos, imitou apontar algo pra mim — embora as mãos estivessem vazias.

Na minha fúria, apertei o gatilho. A pistola deu um estalo alto, e o tiro acertou a cerca do quintal. Passou direto pela figura como se ela fosse mesmo só sombra.

Fiquei de boca aberta. Como eu podia ter achado que uma pistola de gás ia parar essa coisa? Quando abaixei a arma, ela abaixou as mãos também. Fiquei só ali na porta da varanda, encarando no escuro a silhueta preta alta que nunca dava pra ver direito.

“Que porra você é?” sussurrei, quase só pra mim mesmo.

“Gordon, o que você tá fazendo?” falou a voz da Lucy.

Mas a Lucy não estava lá. Ela não tinha voltado pra me checar. A voz veio de fora — do quintal, onde a figura estava.

Fiquei todo arrepiado, as pernas tremendo.

“Senhor, infelizmente não encontramos nada.” Veio outra voz em seguida, dessa vez de homem. Era a voz do policial da noite passada.

Um gelo correu nas minhas veias. Que caralho era essa coisa no meu quintal? A gente morava ali fazia sete anos — por que agora? Por que aqui?

E foi nesse momento que minha coragem acabou de vez.

“O que eu devo falar pra eles, Lucy?” veio a minha própria voz do quintal.

E no instante em que falou essas palavras, a sombra disparou — direto pra cima de mim. Correu como um atleta profissional.

Apavorado, entrei correndo na cozinha, peguei a chave do carro no criado-mudo e saí voando pela porta da frente. Atrás de mim ouvi passos pesados se aproximando, e sem parar, a minha própria voz repetindo:

“O que eu devo falar pra eles, Lucy?”

Saí de casa direto pro carro. Pulei dentro, tremendo todo pra encaixar a chave na ignição. E aí eu vi: uma figura preta parada na porta aberta da casa. Tão alta que quase encostava no batente de cima.

Ela não veio atrás. Só ficou lá, olhando. Enquanto eu saía de ré com o carro, peguei um último vislumbre dela no retrovisor — erguendo a mão pra dar tchau. Primeiro rígido e travado, como se não soubesse mexer os braços direito… depois de repente fluido, como o aceno de um velho amigo.
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