segunda-feira, 9 de março de 2026

Eu recentemente cheguei a uma realização

Eu estava com trinta e seis horas de jejum. Tinha terminado de me arrumar pra missa e fui até o quarto da minha colega de quarto Rowan, batendo forte na porta pra garantir que ela me ouvisse por cima dos cantos gregorianos que ela estava tocando. Ela abriu a porta, com o cabelo já coberto por um véu azul escuro. “Pronta?”, perguntou. Normalmente minhas colegas de quarto e eu íamos juntas pro culto da noite, mas a Rue não estava em lugar nenhum. Achando que ela ia nos encontrar lá, nós duas fomos andando.

Sentamos na ponta do nosso banco de sempre, enquanto outros alunos começavam a ocupar os lugares restantes. O sino tocou e nós nos levantamos. Redemoinhos de arco-íris opacos dançavam sob minhas pálpebras. Agarrei a madeira na minha frente, tentando fazer a tontura passar. Quando abri os olhos, vi de relance o que com certeza era o cabelo loiro-branco da Rue passando correndo por mim. Quando consegui virar a cabeça direito, vi a porta do banheiro se fechando devagar. Depois de trinta minutos e ela ainda não ter voltado, eu saí de fininho do banco enquanto as pessoas começavam a encher os cestos tecidos com dólares.

Dentro do banheiro, as luzes fluorescentes hostis me engoliram quando me aproximei da cabine que escondia um par de sapatilhas de balé de cetim. Soluços baixos ecoavam. “Rue?”, chamei. “Você tá bem?” Como resposta, ela escancarou a porta, me acertando bem na cara; minhas mãos foram direto pro ponto na testa onde eu sabia que um hematoma ia nascer. Antes que eu conseguisse formar um xingamento na cabeça, meus olhos caíram no teste de gravidez que ela estava me estendendo.

Positivo.

Levantei o olhar pro rosto molhado de lágrimas da Rue. “Caralho”, foi tudo que consegui dizer.

Antes que ela pudesse explicar a situação, a Rowan entrou no banheiro. Os olhos dela se arregalaram quando viram o teste na mão da Rue; um entendimento sombrio tomou conta dela.

Eu segurei firme os ombros da Rue e aproximei meu rosto do dela. “Você precisa explicar essa merda agora.”

Ela assentiu freneticamente. “Mês passado, meus pais viajaram pra uma reunião de negócios nas férias, então eles me mandaram ficar com o Wes. Ele disse que se eu obedecesse ele, ia falar bem de mim pros amigos dele em Dartmouth”, ela fungou.

O Padre Wesley comandava o culto de domingo; a pele do pescoço dele caía até os joelhos enquanto ele falava. Só de imaginar aquelas mãos roxas tocando nela...

Meus dedos traçaram o contorno da minha clavícula; as luzes ficaram ofuscantes enquanto eu tentava pensar no que fazer. As leis do Maine e da Igreja Católica não permitiam aborto legal. De todos os remédios que eu sabia como conseguir, nenhum era misoprostol. Mas eu tinha uma coisa que podia oferecer, algo que eu normalmente não recomendava pra quem não estava predestinado à grandeza.

Nós nos entreolhamos enquanto ignorávamos a palestra gaguejada da Rowan sobre pureza. “Chega”, eu interrompi, depois que a Rowan perguntou o que o futuro marido da Rue ia pensar. “Vai ficar tudo bem. Eu tô no controle dessa porra.” Eu esperava que tivesse soado convincente.

O sol já tinha se posto e todo mundo tinha ido embora. As estrelas espiavam pelas janelas, lançando seus julgamentos sobre nós. Rue e eu estávamos no altar no escuro, os dedos dela brincando com meu cabelo enquanto eu tirava um maço de cigarros. Entreguei um pra ela.

“Eu não fumo”, ela disse com aquele jeitinho coquete. Ela sempre ficava tão bonita de noite.

“Nem eu”, respondi, colocando um cigarro aceso na boca, tragando por um momento antes de soprar a fumaça pra cima, na cara de Deus. “De agora em diante, você faz exatamente o que eu mandar.”

“Quando foi que eu não fiz?”

Meses de corridas diárias de oito quilômetros e jejuns de vinte horas não estavam dando conta do inchaço duro na barriga da Rue. Toda manhã ela vomitava tantas vezes que fazia as meninas que sigo no Tumblr ficarem no chinelo. Linhas vermelhas nos peitos e na barriga dela protestavam contra o estiramento anormal da pele. Tornozelos inchados a carregavam enquanto íamos pra aula e pros cultos da noite. Era um milagre ninguém ter notado. Ela estava se transformando bem na nossa frente e eu não fazia ideia de como impedir.

As dores de cabeça de nicotina e os sermões constantes da Rowan sobre a santidade da vida também não ajudavam em nada. O altar na nossa sala de estar normalmente tinha santos rotativos. Desde aquela noite, todo dia a gente era recebido por Santa Gianna Beretta Molla, Madre Teresa e fotos ridículas de anjos da guarda chorando ao lado de berços vazios. Os olhos deles me seguiam enquanto eu fazia minha pesagem noturna.

Depois da aula, Rue e eu normalmente terminávamos o trabalho na biblioteca, mas um dia a Rowan decidiu nos arrastar pra uma das reuniões semanais dela do Estudantes pela Vida. Quando entramos na sala, grupos de freiras distribuíam panfletos de recursos pra gravidez. Estava muito claro. Tinha gente demais — mulheres demais. A esperança no futuro da nossa comunidade escorreu de mim enquanto eu olhava aquele mar de colegas fiéis e iludidos. O Padre Wesley estava no púlpito da frente, os olhos nos seguindo enquanto sentávamos na fila do meio.

“Boa tarde”, ele começou, com aquela voz rouca cortando minha pele. Era o primeiro dia da vigília deles dos Quarenta Dias pela Vida. Fileiras de velas ficavam atrás da figura curvada dele. “Vamos começar com nossa oração de intercessão: Obrigado, Senhor, por termos sido criados à tua imagem. Busca as mães que estão pensando em acabar com a vida de seus filhos. Tira elas da confusão e ilumina elas sobre o dom que é a criação da vida. Que o coração que bate no ventre dela seja sustentado. Bendito sois Vós, que crias e sustentas a vida. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

As orações seguintes pareciam ruído branco. Rue segurava o terço com os dedos azulados. Eu conseguia ver a tensão no maxilar dela aumentando a cada palavra que ele dizia. Como ele ousava respirar perto dela? Como a Rowan ousou trazer a gente aqui?

A hora passou; alunos e funcionários começaram a sair da sala aos poucos. O Padre Wesley nos deu um sorriso nojento antes de se arrastar embora. Rowan olhou pra gente cheia de expectativa. “O que vocês acharam?”

A pergunta dela escureceu ainda mais as olheiras ao redor dos meus olhos. “Você tá de brincadeira, né?”, eu zombei.

“Eu sou muito séria quando o assunto é salvar a vida de crianças pré-nascidas.” O cabelo ruivo fino dela estava numa trança que descansava em cima da coluna protuberante. A cada vértebra que aparecia na pele, ela achava que ficava mais próxima Dele.

Abri a boca pra falar, mas fui interrompida.

“Talvez a Ro tenha razão”, suspirou Rue. “Talvez o que estamos fazendo seja errado.” Ela colocou a mão na barriga. “Talvez isso seja uma coisa boa, na verdade. Tipo, talvez signifique que eu tô destinada a algo maior.”

Senti uma pontada de traição no peito. “Você acha que ser mãe é uma conquista maior do que estudar em Dartmouth?”, eu ironizei, sentindo o pouco sangue que circulava no meu corpo ferver.

“Sonhos não são motivo válido pra esquartejar um ser humano”, Rowan retrucou com cara feia. Ela abriu o panfleto. Uma mulher de desenho animado abraçava a barriga grande, com um feto também de desenho dentro. O texto embaixo dizia: ‘Ame os Dois.’

Que porra de merda era essa.

“Eu não preciso ficar com ele. Posso dar o bebê pra adoção.”

Rowan assentiu com aprovação.

“Você pulou dois anos. Tá entre os cinco por cento melhores da turma. A Sarah-Beth foi suspensa só por ter cartas de tarô. Imagina o que ia acontecer se todo mundo descobrisse sobre você. Eu não vou deixar você destruir sua vida.” Os pés da minha cadeira rangeram quando eu levantei. Empurrando o cansaço e a raiva, saí pisando duro e caminhei até o primeiro lugar que achei: a loja de bebidas mais próxima.

Cigarros não estavam mais dando conta, e eu tinha quase certeza que a Rowan estava esmagando vitaminas pré-natais no shake de proteína da Rue. Embora eu tivesse vontade de jogar a Rue escada abaixo do nosso prédio, eu sabia que tinha um jeito melhor de resolver isso. Tinha que ter.

Agora um manto de neve cobria o campus. Já tinha se passado um mês de vodca cranberry sem açúcar. O preço extra por eu ser obviamente menor de idade, além das discussões que a Rue começava e a Rowan defendia, não eram nada agradáveis, mas eu não tinha escolha.

Estávamos todas na sala de estar quando aconteceu. Rue estava no sofá de short cinza; eu estava do lado dela atualizando meu blog quando ouvi ela gritar. Ela se levantou trêmula e rios de sangue escorreram pelas pernas dela. Pedaços e coágulos de matéria vermelha e roxa grudavam na pele.

“Tá tudo bem”, eu disse pra acalmá-la, abraçando ela enquanto ela se debatia nos meus braços. “Você vai ficar bem. É assim que tem que ser.” Eu a guiei até o banheiro pra ela expelir o resto do tecido em paz.

Quando voltei, Rowan estava chorando, apertando o terço com força na mão. “É pro bem dela”, eu disse balançando a cabeça, pegando umas toalhas pra limpar o sangue que manchava o piso de madeira. “É o que ela realmente queria.”

“Você não é Deus”, ela rebateu. “Não cabe a você decidir quem vive ou morre.”

Ela não podia estar mais errada.

Era tarde, horas depois do toque de recolher. O sol tinha se posto, mas os postes de luz iluminavam meu caminho até o lago. Eu precisava de no mínimo quinze mil passos, e não estava a fim de ficar andando de um lado pro outro no quarto ouvindo a Rue chorar através das paredes finas como papel. A neve estalava debaixo dos meus pés como ligamentos se partindo.

Quando finalmente cheguei na água prateada e parada, fiquei olhando meu reflexo por um tempo. Apesar das bochechas fundas e dos ossos do peito visíveis, eu não reconhecia o que via. Acendi um cigarro devagar e dei uma tragada lenta. Passos se aproximavam atrás de mim, mas eu não conseguia desviar o olhar do meu reflexo distorcido.

“Dorian!” Virei a cabeça rápido e vi a última pessoa que eu queria encontrar. O Padre Wesley descia a colina na minha direção. “Que surpresa agradável”, ele disse animado.

“Queria poder dizer o mesmo”, eu respondi com desprezo.

Ele riu. “Você sempre foi uma rebelde.” Tirou um maço de Newports. “Me empresta fogo?” Meu isqueiro cinza combinava com o tom dos olhos injetados dele. Ele deu uma tragada casual no cigarro, fechando os olhos enquanto soltava a fumaça. “Tentei parar no seminário. Tentei mais cinco vezes depois. Acho que essa é uma tentação que nunca vai me deixar.”

“Quando sois tentados, Ele também vos dará um escape.”

Ele murmurou. “Primeira aos Coríntios.” Deu outra tragada. “Todos nós cedemos à carne. O que importa é que nos arrependamos.”

Cerrei o maxilar. “E você se arrependeu?”

“Claro.”

“Então está tudo perdoado?”

“Essa é a beleza do nosso Deus. Ele é misericordioso. Ele estende Sua graça pra todo mundo que a aceitar.”

Balancei a cabeça e joguei o cigarro meio fumado na neve. “Como Deus pode perdoar o que você fez?”

“Do mesmo jeito que Ele te perdoa pelo que você fez com a Rue.”

O tempo parou. “Você... você sabia? Esse tempo todo?” Minha garganta começou a fechar.

“Não exatamente o tempo todo”, ele corrigiu. “Eu tive algumas suspeitas depois da nossa noite juntos. Depois a Rowan ficou estranhamente envolvida nas reuniões do clube. Eu via ela discutindo o assunto com a Irmã Grace nos corredores. Só quando ela veio confessar que tinha testemunhado o assassinato de uma criança que eu juntei as peças.”

“Qual foi a penitência dela?”

“Ela já se sentia culpada o suficiente. Eu não quis torturá-la. Aconselhei ela a deixar uma oferenda no nosso memorial pros não-nascidos.”

O interior da minha boca sangrou de tanto que mordi a língua. “Não foi assassinato”, eu rosnei.

“O coração do bebê começa a bater com seis semanas.”

O dela estava batendo há dezesseis anos. “Não foi assassinato.”

Foi um sacramento.

Ele jogou a pontinha acesa no chão, onde apagou quase instantaneamente. Suspirou, soltando uma nuvem de fumaça. “Eu rezo pra que o Senhor revele pra você a brutalidade do aborto.”

Uma onda de náusea me acertou. Meus olhos tremeram enquanto eu imaginava a brutalidade do que ele fez com ela.

“Aqui”, ele remexeu no bolso do casaco e me entregou um crucifixo prateado, “entrega isso pra Rue, por favor? Um presente pro momento difícil dela.”

Eu nem registrei o movimento do meu braço nem o arquejo que saiu da boca dele. Ele levou a mão pro buraco no pescoço onde o metal entrou. Eu não consegui parar. Os pés de Cristo entravam e saíam da jugular dele, um tossido grotesco escapando a cada estocada. As luzes amarelas dos postes piscaram e apagaram até a lâmpada e o vidro em volta estourarem. Sangue quente e fino cobriu minhas mãos enquanto ele caía no chão. Meu peito subia e descia; gotas de suor escorriam pelo meu rosto.

A caminhada de volta pro dormitório foi silenciosa. O vento gelado soprava flocos brancos que grudavam nas minhas roupas como o vermelho que me manchava.

Rowan estava rezando quando entrei no quarto. Os hematomas verdes nos joelhos dela não eram nada comparados ao peso do pecado dela. Ela olhou na minha direção, os olhos se arregalando e as pernas se levantando pra correr até mim. “Que porra você fez?”, ela exigiu. Pegou meu pulso e subiu a manga do meu suéter, uma coisa que ela fazia nos dias que eu ficava mais distante. Não era por preocupação. Pelo menos não com meu bem-estar. “Por que você tá coberta de sangue?” Os olhos azul-escuros dela estavam arregalados de raiva e frustração. Por trás disso, tinha outra coisa. Medo.

Eu puxei meu braço com força. “Você estava errada”, sussurrei.

Eu decido quem vive ou morre.

Ela me seguiu enquanto eu andava até o altar. Coloquei o crucifixo ao lado de uma foto do nosso suposto salvador. Observei as engrenagens girando na cabeça dela. Ela arquejou, as mãos magras se agarrando na parede pra se equilibrar. “Você não fez isso...”, ela disse quase implorando.

As luzes começaram a piscar. “Você estava errada”, eu disse.

Eu sou Deus.

“COMO VOCÊ FOI CAPAZ?”, ela gritou.

Eu me virei pra encarar ela. “Como eu não seria?”, retruquei. “Ninguém nessa porra dessa escola se importa com nada que realmente importa. Vocês fazem jejuns de trinta dias, vão pras reuniões e fingem que isso resolve alguma coisa enquanto sua amiga de verdade sofre. Meu Deus, você é tão egoísta pra caralho.”

“Eu sou egoísta?”, ela debochou. “A Rue não queria nada disso, mas você não deu a mínima pro que ela queria porque só se importa com o seu próprio orgulho.”

Ela ainda não tinha entendido. “Tinha que ser feito.”

Porque toda vez que eu olhava pra ela, via a língua preta e nojenta dele na pele dela, os dedos desabotoando a camisa dela. Via o rosto manchado de idade dele enquanto desenganchava o sutiã dela e forçava as coxas dela abertas. Quando eu olhava pra ela, eu parava de ver uma pessoa. Só via trauma.

Nossa atenção foi roubada pelo barulho de um baque pesado vindo do quarto da Rue. Corremos pra abrir a porta e fomos atingidas por um ar grosso com cheiro de metal. Rowan acendeu a luz do teto com uma careta.

Sangue cobria o chão, a cama e até partes das paredes.

Rue estava no chão, membros contorcidos, o rosto enfiado no carpete bege áspero. As pernas pálidas dela estavam pintadas de vermelho.

Um zumbido encheu meus ouvidos enquanto eu me ajoelhava pra sentir a pulsação dela.

Nada.

Pelo canto do olho, vi Rowan correr pra fora do quarto. Eu me levantei.

Eu sabia dos riscos; só presumi estupidamente que isso não ia acontecer.

Foi culpa minha. A pessoa que eu amava mais que tudo estava morta. E mesmo assim eu não sentia nada.

Paramédicos invadiram o quarto inutilmente. Eles cercaram ela como urubus bicando os restos de um cervo. Uma deles falou: “Ela deve ter ficado hemorrágica por horas”, disse triste.

Eu observei enquanto eles levavam ela embora num saco preto como se fosse lixo.

Pra essa escola, era só isso que ela era.

Era só isso que qualquer uma de nós era.

Rowan e eu sentamos na cama dela. Senti o tecido frio manchando minhas roupas. Fechei os olhos e desejei que a escuridão tomasse conta.

Eu costumava achar que era especial. Achava que tinha uma disciplina que ninguém mais tinha. Tinha seguidores pra provar. Tinha o peso pra provar. Percebi que, no fundo de tudo, nós não éramos nada. Não tinha nada de único no nosso peso, na nossa fé ou no cheiro de sangue que nos cobria. Era tudo tão perturbadoramente normal.

domingo, 8 de março de 2026

Brasas de um Coração que Já Ardia

“Tem certeza do que você tá fazendo?”

O cara de capuz suspirou.  
“Tenho.”

“Usando essa música como tortura, você tá me entregando quem você é… Brandon.”

“Acho que não foi lá uma grande reviravolta”, disse Brandon, derrotado, tirando o capuz e a máscara. “Pelo menos você vai morrer com a sua música favorita virando a sua própria tortura enquanto morre de fome.”

Minha música favorita?

Brandon nunca gostou muito de mim. Eu só não fazia ideia do quanto. Ele era grandão; eu não. Ele era bonito; eu não. Ele foi rejeitado; eu não. Nós dois conhecemos a Pearl na mesma época. Ele se apaixonou perdidamente por ela no segundo que botou os olhos nela. Dá pra dizer que eu não. Ela era bonita, mas eu nunca fui do tipo que se apaixona pela primeira garota que fala comigo de boa. Brandon não era popular (eu era). Mas ele foi um bom amigo por um tempo.

Ah, mulheres. Nossa ruína. Mas vale a pena perder uma amizade por alguém que você ama de verdade. Agora, tentar matar alguém? Aí eu traço o limite.

2020 criou um novo tipo de serial killer. Não tinha mais escola pra fazer um assassino estilo Scream, então o Brandon improvisou. Acho que todo mundo tem um lado gênio; o dele era matar. Cada um com o seu, né. A primeira vítima foi a amiga da Pearl, a Vanessa. Ela era engraçada pra caralho. Na época da morte dela, eu já conhecia a Pearl há mais de dois anos e a gente já tinha desenvolvido sentimentos um pelo outro. A morte da Vanessa foi horrível. A Pearl me consolou mais do que eu consolei ela. Ela tava em paz com aquilo, sabendo que a Vanessa tinha seguido o caminho de Jesus e ia subir pra um plano superior de existência.

A Pearl tava se preparando pra ser missionária. Ela perdeu um ano de escola, então ia fazer 18 no ano seguinte. Depois da formatura, tipo o exército, ela ia ser despachada pra outro país — um na Europa. Não lembro mais qual era.

Eu lembro que adorava chamar ela de “minha mórmon bonitinha”. Ela odiava, mas entendia, porque era sempre por mensagem e escrever “minha garota bonitinha da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” dava um puta trabalho. Mensagem não precisa de tanto texto assim. Então ela me dava um tapa brincalhão toda vez que a gente escapava pra se encontrar. Ela não curtia muito essa parada de distanciamento social. Eu até curtia, mas eu amava ela, então a gente se encontrava sem ligar pra proteção. Não esse tipo de proteção — tô falando de máscara e tal. Ela me convenceu que ia dar tudo certo. E deu, mas foi arriscado pra caralho.

Quando a Vanessa morreu, ela me perguntou várias vezes como eu tava. “Tá tudo bem chorar. Eu sei que você não acredita que vai ver ela de novo numa vida após a morte, então pode chorar por ela. Ela era sua amiga também.” Ela falou tão carinhoso que alguma coisa dentro de mim se quebrou. Eu desabei em lágrimas e prometi que ia encontrar quem tinha feito aquilo. Ela, claro, era contra, mas não ficou insistindo na história de perdão.

“Deixa eu tirar uma foto. É pros momentos que você achar que a vida não vale a pena”, ela disse. “Isso vai te lembrar o quanto uma vida perdida pode ser importante.”

Eu não pensei muito na foto nem no quanto ela ia foder com a minha cabeça depois que eu fiquei sozinho por dias no porão de uma cabana no meio do nada, perigosamente perto de um pântano cheio de jacarés. Eu perdi a esperança depois de 20 horas. Afinal, o “Florida Man” que podia estar por perto tava bêbado demais, ocupado acariciando jacarés e vários outros bichos perigosos, então eu só apaguei depois de perder a voz tentando pedir ajuda. Achei que dormir ia diminuir o tempo que eu ia sofrer com aquela morte de merda que eu tinha nas mãos. Tava molhado, miserável, e a minha música favorita tava tocando bem alto. Foi aí que eu entendi o que minha música favorita significava. De onde o Brandon tirou essa habilidade poética? Filho da puta. Foi o que eu pensei na hora.

Não importa o quanto você se faz de indiferente na frente da pessoa que tá tentando te matar. Quando você fica sozinho, é foda manter aquela pose de “não tô nem aí”. Eu tava com medo pra caralho e puto da vida que o Brandon, logo ele, tinha matado a Vanessa, a Pearl e agora eu. Eu tava completamente indefeso.

O Brandon nunca agiu estranho perto de mim pra eu sacar que ele era o vilão, porque a gente nem se viu até ele me capturar. A gente tava há um mês na pandemia quando a Vanessa morreu. Não deixaram a gente ir pro funeral dela; decretaram como morte relacionada à COVID. Mais uma estatística. Eu não acreditei. A Pearl nunca questionou por que eu achava que ela tinha sido assassinada.

Ela tava perfeitamente saudável no dia anterior à morte.

Depois de 20 horas sem água nem comida, o corpo entra num estado de jejum extremo onde supostamente tira água das células de gordura. Isso quando você tá num lugar seguro. Mas suado e amarrado numa caldeira? Isso só me jogou mais rápido pro desidratação. Eu tava morrendo mais rápido do que deveria. Não ajudou nada que eu também tinha sido drogado com sabe-se lá o quê e apagado por umas seis horas. Eu nem fazia ideia que abstinência também era um problema. Acho que nos filmes eles esquecem isso; você não precisa ser viciado pra sofrer efeitos de abstinência de uma droga forte.

Foi nesse momento que eu entendi que o Brandon tinha pensado em como as mortes por COVID aconteciam — repentinas e meio difíceis de acreditar. Por isso tinha tanta teoria da conspiração maluca em volta. Tudo que ele fez foi dar uma overdose nela. Ele seguiu ela. Eu percebi que a Vanessa morreu por minha causa.

Outra realização veio ali. Eu queria tanto acreditar que era só o estado delirante que eu tava. Pearl…

Horas depois, eu já tinha desistido. Perdi a conta do tempo apesar do relógio na parede. E aí uma foto foi jogada com força suficiente por baixo da porta pra eu conseguir ver de perto. Era a foto que a Pearl tirou de mim quase seis meses antes — quatro meses depois da morte da Pearl. Eu podia ter incluído esse detalhe desde o começo, mas onde é que tá a graça nisso? Meu mundo se estraçalhou ainda mais. Aquela foto não era pra dar coragem. Era um lembrete.

Antes da Vanessa morrer, a gente se encontrava. Já fazia um tempo que a gente se encontrava. É, eu tava traindo a Pearl com a melhor amiga dela. E a Pearl sacou. O Brandon nem era o cérebro da parada. Era a Pearl.

A foto alimentou uma raiva que eu nem sabia que tinha dentro de mim. Provavelmente noradrenalina. Eu nem percebi que minha mão tava quebrada até cair de costas, livre dos canos da sala da caldeira. Eu corri pra fora. O Brandon obviamente ouviu eu caindo que nem saco de batata, então tava voltando pra sala da caldeira. Não tava escuro, mas ele não esperava que um maluco quase morto fosse dar um tackle nele naquele momento sem dor. A gente caiu no chão junto, mas com um movimento rápido eu levantei e continuei correndo. Não tinha tempo pra vingança. Eu tava puto, mas não burro. Até que o “burro” me acertou e me tirou do transe, como se tivessem jogado água gelada no meu momento mais quente. O choque. Foi demais.

Eu até podia ter sacado, mas ver a Pearl levantando do sofá correndo quando ouviu os passos foi o que me matou (não literalmente). Eu fiquei cheio de medo. Não tinha explicação praquilo. Depois eu soube que era por causa de trauma. Perder alguém e ver a pessoa viva, na sua frente… pode te matar. Literalmente.

“Você matou ela!” Foi só isso que eu consegui gritar pra sair daquele transe e fazer meu corpo responder.

A verdade é: eu tava apaixonado pela Vanessa. E ela tinha chegado bem perto de mim flertando de volta várias vezes. Um dia antes da escola fechar — uns oito meses antes —, a Vanessa agiu um pouco diferente. Eu sempre fui bem direto. “Você tem namorado, né?”

“Hum, você acha?”

Eu gostava de usar palavras inglesas menos comuns nos EUA. Pras garotas. Mas a Vanessa era mais amiga e interesse amoroso que a Pearl. Eu sei que não comecei a história com essa narrativa, mas eu vivi uma história tipo romance barato na adolescência, então tive que manter o mistério. Eu nunca desenvolvi sentimentos pela Pearl, mas pela felicidade da Vanessa eu faria qualquer coisa, mesmo que fosse só platônico.

“Então, tô errado?”, perguntei.

“Tá, mas a Pearl confessou que tá louca por você. Olha…” Ela tentou explicar, mas eu já sabia onde ela queria chegar.

“Acho que a maníaca religiosa obcecada com pureza nunca teve namorado e tá confundindo uma crush com amor.”

A Vanessa ficou brava por um segundo, mas sabia que aquilo tava ficando injusto.

“Eu não quero machucar ela”, respondeu. “E por favor não chama ela assim. Além do mais, a gente vai pra faculdade e ela não. Você não acha que é destino a gente ir pra mesma?”

“Você é uma manipuladora ruim”, eu disse sorrindo. “Só se eu puder partir o coraçãozinho dela antes dela ir embora.”

Por algum motivo, os olhos da Vanessa começaram a encher de lágrimas. Ela sabia que a Pearl ia achar que eu ia ser o marido dela se a gente durasse tempo suficiente pra ela ir na missão. Ela não tava ok com a amiga sofrendo por causa do timing ruim. Mas era ela. Uma garota boa. Uma cristã de verdade. Colocando os interesses da amiga na frente dos dela. Ela também era mórmon, só que não tão fanática (eu nunca chamei ela de mórmon. Sempre de cristã. Eu sabia que “mórmon” era usado como ofensa).

Na real ela tinha me contado sobre as bênçãos patriarcais e como o cara falou que ela precisava ir pra missão. Não sei se devo me orgulhar de ter convencido ela a não ir. Talvez isso tenha começado toda a cadeia de eventos. Foi culpa minha.

Claro, a Vanessa fingiu que tava nos juntando pra gente acabar no mesmo lugar e blá blá blá, a gente ficou junto. Eu não era a Vanessa. Eu nunca pensei no Brandon e na crush dele pela Pearl. Se eu tivesse lembrado, podia ter respondido: “Não posso; o Brandon tá apaixonado por você. Não posso magoar meu amigo.”

Idiota egoísta. Eu matei o possível amor da minha vida.

“Então você tá fora. Não acredito que você sacou. Você é mais esperto do que parece, mas mais burro do que deveria. Talvez se você não pensasse tanto com o seu pecado”, disse a Pearl com um ar de superioridade, segurando um livro. Ela tava lendo; o dedo ainda marcando a página. Provavelmente achando que ia voltar a ler. O Brandon veio correndo.

“Tá tudo bem, amor. Eu e o herege precisamos conversar.” O Brandon só deu um passo pra trás. Sem raiva.

“Precisa conversar?” Eu tava perdendo o efeito dos químicos de pânico e raiva no cérebro. Logo eu ia desabar. “Se você insiste, o certo é me dar água primeiro.”

“Água?”, disse a Pearl, ofendida. “Você merece vinagre aguado.” “Foi bom o suficiente pro Jesus”, eu sorri, tentando me manter inteiro.

“Como você ousa.” Ela ficou puta. Abraçou o livro.

“Por que você matou ela?” Como se eu não soubesse.

“Você tirou ela do caminho do Senhor. Eu não queria que ela descesse mais, então eu parei ela antes que…”

“Parou mesmo?”, interrompi. “Não foi porque você percebeu que alguém queria que ela ficasse? Ela era amada demais e amava alguém de volta demais pra dizer não pra sua missão. Você queria isso, né? Imagino que seus pais tavam super felizes de você ir embora. Você é estranha pra caralho, afinal.”

“Você é cheio de si.”

“E você vai pras trevas exteriores. Jesus não vai te perdoar. Seus esquemas. Assassinato e tentativa de assassinato. Você brinca com o Espírito San—” Ela gritou. Eu vi a cara real dela. Aquela era uma boa imagem pra morrer. Mas eu não morri.

“Eu salvei a alma dela!”

“Salvou? Você nunca vai saber o quanto ela falava bonito de você. Ela cometeu o erro de amar. Eu sou culpado pela morte dela. Então nós três… te encontramos no inferno ou onde quer que a Vanessa não esteja.”

Não sei onde ele escondeu aquilo o tempo todo, mas o Brandon confuso puxou um machado do nada e veio correndo pra cima de mim. Eu não queria me mexer. Mas aí todo mundo ouviu um barco e vozes. O Brandon parou. A Pearl ficou com medo e eu pulei pela janela. Única forma deles acreditarem que eu era a vítima antes da Pearl fazer o papel de donzela em perigo. Ela tinha a cara pra isso, afinal.

“Socorro.”

O Brandon tava perdido demais. Descobri que ele tava drogado, provavelmente pra anestesiar a culpa. Ele tava apaixonado e manipulado. De coração partido. Tudo por minha causa. Ele tentou me matar, mas o cara que não tava segurando uma píton morta atirou nele sem nem soltar a cerveja.

“Ela tá com ele. Ela matou a Vanessa.” Eu apaguei.

Do sonho que eu tive sobre ela, a única coisa que lembro é o sorriso gentil dela.

O Brandon testemunhou contra a Pearl e se declarou culpado. A Pearl foi pra prisão por tentativa de assassinato e foi excomungada. Eu passei um mês no hospital, mas a memória da Vanessa me deu força pra estar no julgamento e contar a história. Tenho certeza que dei um relato melhor dos fatos no tribunal. Eu falei da traição. Aceitei minha própria culpa, mas acontece que trair a namorada não é crime nem defesa possível. Foi o próprio juiz que disse isso, olhando pra Pearl enquanto falava.

Ela alegou insanidade temporária e extremismo religioso dos pais. A defesa dela era que ela acreditava que tava fazendo a obra de Deus. Mas todo o planejamento longo — a foto, os detalhes — foi pesado, mas não coisa de alguém só temporariamente insano. Usar a COVID como cobertura pra morte da Vanessa foi calculado demais, quase genial. Quase. No final, ela só pegou três anos e cumpriu metade. A família dela conseguiu que ela fosse julgada como menor, só porque ela não puxou o gatilho (por assim dizer). Felizmente ela foi mandada pra um hospital psiquiátrico. Ela fingiu a própria morte.

Pelo menos isso também significou que a família dela teve que pagar indenização.

Os pais dela disseram que me perdoavam. Eu mandei eles se foderem. Os da Vanessa não perdoaram. Eu pedi desculpas mesmo assim. A Vanessa me ensinou que eu tinha que pedir desculpas independente do que a outra pessoa ia obviamente falar. Perdão é um presente que você pode ou não receber. Não depende de mim. O que dependia de mim era o arrependimento.

“Eu vejo túmulos não como o lugar onde seus entes queridos descansam. Mas igual igreja, ajuda você a focar. Ajuda você a falar com eles com mais clareza. Você ainda pode se queimar se tocar nas brasas que uma pessoa deixou pra trás.”

Um fragmento de uma das muitas conversas que eu e a Vanessa tivemos.

O Bétula Sorridente

O silêncio em Blackwood Verge não é uma ausência de som; é um peso físico, um predador esperando que eu faça o primeiro barulho. Quando herdei a cabana, pensei que o isolamento seria uma bênção. Minhas finanças estavam em ruínas, e meu luto era uma coisa alta e estridente que precisava ser abafada pelas florestas. Eu esperava que o vento suspirasse entre os pinheiros e que os pássaros tagarelassem nos beirais. Em vez disso, encontrei um cenário de privação sensorial. Não há esquilos por aqui, nem insetos zumbindo na grama alta — só uma quietude sufocante que faz o ato de respirar parecer uma intrusão.

Fiquei porque não tinha escolha. Eu não tinha dinheiro, família nem para onde ir. Essa vulnerabilidade, eu percebo agora, era a isca. Eu era um cara sem rede de segurança, despojado do zumbido digital do mundo moderno, deixado sozinho para escutar as batidas do meu próprio coração. Nesse vácuo, minha mente começou a pregar peças, ou pelo menos foi o que eu me disse. Só depois de uma semana dessa quietude pesada e antinatural que notei a anomalia parada bem na beira da clareira.

Era um bétula, mas o nome parece uma mentira. Enquanto as árvores ao redor estavam desgastadas e escuras, essa entidade era de um branco chocante, cirúrgico. A casca não descascava nos cachos naturais e papéis de uma árvore saudável; parecia esticada, como pele pálida puxada com força sobre uma estrutura que não encaixava direito. Seus galhos não cresciam para cima em direção à luz, mas eram articulados, dobrando em ângulos afiados e impossíveis que sugeriam cotovelos e joelhos. O mais perturbador era o "sorriso" — uma fenda profunda e horizontal no tronco. Quando o vento não soprava, um chiado baixo e úmido saía daquela abertura escura e sem lábios, como ar sendo sugado por uma garganta cheia de catarro.

Passei horas na janela, fazendo os malabarismos intelectuais do desesperado. Eu me convenci de que era um raio, um crescimento fúngico esquisito ou talvez um resquício cruel do folclore local — algo que os moradores da região poderiam chamar de manifestação Inklistrad. A gente racionaliza o irracional porque a alternativa é admitir que o mundo nos virou as costas. Fui pra cama e tranquei a porta, tentando esquecer a visão daqueles galhos articulados.

Na manhã seguinte, a árvore estava uns seis metros mais perto, e o sorriso parecia ter se alargado num esgar.

As noites que se seguiram foram uma sinfonia de violações sutis. Comecei a ouvir um som úmido e rasgante, como papelão molhado sendo rasgado devagar por mãos gigantes. Era o som da casca da entidade se expandindo. Na terceira noite, vi aqueles galhos brancos e articulados pressionando contra as janelas altas do sótão, os "dedos" dos ramos arranhando o vidro ritmicamente com o som de uma faca sendo afiada. Acordei na manhã seguinte e encontrei uma seiva viscosa acumulada nas tábuas do chão perto da porta. Toquei nela, depois recuei; não cheirava a pinheiro, mas carregava o aroma enjoativo e metálico de ferro e cobre — o cheiro de uma ferida fresca.

A realidade começou a se desfiar nas bordas. Eu não estava só observando a árvore; a árvore estava me colonizando. Eu via o sorriso em todo lugar — na forma como as sombras caíam no meu próprio rosto no espelho, no arranjo acidental dos meus talheres. Meus próprios dedos começaram a ficar rígidos e lenhosos, minhas juntas estalando a cada movimento como gravetos secos. Foi aí que percebi que o isolamento não era um refúgio, e a cabana não era um abrigo.

A cabana era uma jaula, e o Bétula Sorridente era a única coisa me vigiando através das grades.

O fim não veio com um estrondo, mas com uma intrusão lenta e irresistível. A entidade invadiu o espaço da sala de estar através das tábuas do chão, suas raízes estilhaçando a madeira com a força de um deslocamento tectônico. Não era uma árvore em nenhum sentido biológico; era um organismo predador usando a aparência de um bétula para caçar. Quando seus galhos finalmente se enrolaram ao meu redor, a textura era fria e papirácea, abrasando minha pele até eu sangrar. Tentei gritar, mas minha garganta parecia entupida de serragem.

O sorriso no tronco se abriu largo, revelando não madeira nem polpa, mas um interior escuro e úmido que zumbia com uma vibração baixa e rítmica. Eu não lutei de volta. Não consegui. Estava preso num estado de paralisia aterrorizada, assistindo a casca branca começar a rastejar sobre minhas próprias mãos, costurando minha pele na sua própria arquitetura. Não houve luta heroica, só a frieza absoluta da percepção de que eu estava sendo integrado. Meu último momento de lucidez foi gasto vendo o chão da floresta subir para me encontrar enquanto minhas pernas criavam raízes.

Eu ainda estou aqui, embora o cara que eu era tenha sumido. Agora observo a cabana da perspectiva da linha das árvores, minha visão filtrada pela textura granulada da madeira. Minha pele endureceu em casca pálida e rígida, e minha boca está permanentemente fixada naquele sorriso largo e acolhedor. Sinto o vento, mas não sinto frio. Só sinto a fome.

Ontem, um cara de terno impecável subiu pela trilha longa e tomada por mato. Ele martelou uma placa de "À Venda" na terra macia na entrada da garagem. Olhou ao redor para a quietude, talvez incomodado pela falta de canto de pássaros, mas no fim das contas sorriu pra si mesmo, pensando na comissão. Ele não me notou parado a só alguns metros dali, esperando pela próxima pessoa que precisa de um lugar quieto pra se esconder.

Dá uma olhada na casca das árvores do seu quintal hoje à noite. Se você encontrar um nó que pareça demais com um olho, ou uma fenda que pareça demais com uma boca — não olhe de novo. Só vai embora. A casa não vale a alma que você vai trocar pra mantê-la.

Encontrei uma corda que não leva a lugar nenhum

Encontrei uma corda que não leva a lugar nenhum.

Sem sentido. É tudo sem sentido. Vida, morte, não importa nada; não tem porra nenhuma lá fora e ninguém vai vir te salvar.

Eu… acho que tô me adiantando. Meu nome é Wayne, e tem uma corda no meu quintal que não leva a lugar nenhum.

Hoje é sábado, 6 de março. Enterrei minha mãe hoje de manhã; o câncer no fígado finalmente acabou com ela. Ela era uma lutadora, sempre foi. Não… não tá sendo fácil. Sei que isso não parece importante agora, mas prometo que é. Só continua ouvindo.

Foi um velório bonito. Recebi os pêsames de todas as tias e tios que não via desde o enterro do meu pai, e ouvi o mesmo mantra ensaiado das amigas da minha mãe, tentando me consolar. “Ela tá num lugar melhor agora”, todas diziam. “Ela tá no céu neste exato momento, rindo de nós aqui chorando por causa dela.”

Agora eu tenho mais medo do que nunca do lugar onde ela se meteu.

Naquela noite, voltando pra casa, a única coisa que me impediu de jogar o carro pra fora da estrada foi o pensamento de que minha mãe acordaria no céu e seria recebida pelo abraço quente do meu pai. Ele apertava ela forte, prometendo que nunca mais iria embora. Não posso dizer que esse pensamento me traz consolo algum agora.

Assim que entrei pela porta da frente da minha casinha simples, já tava fuçando dentro da geladeira atrás de uma solução alcoólica pra dor. No final, peguei um fardo de cerveja e decidi beber até apagar na varanda dos fundos. Minha casa não tem nada de especial: um quarto, um banheiro e uma cozinha do tamanho de uma van. O que falta em tamanho sobra na vista. A varanda dos fundos dá direto pra uma clareira pequena na borda de uma floresta atrás do bairro. Algumas das minhas coisas favoritas são fumar charuto olhando pras estrelas, tomar café vendo o sol nascer e, naquela noite, ficar bêbado sob a luz da lua.

Só que quando abri a porta de correr naquela noite, não encontrei a dança dos vagalumes nem o canto dos grilos. Em vez disso, dei de cara com uma corda pendurada. Olhei ao redor do quintal pra ter certeza de que não tinha ninguém estranho por perto, saí da varanda e me aproximei daquela merda. A corda era grossa, com cerca de 1,3 cm de diâmetro, cor marrom escura. Quando segui ela com os olhos pro céu, tomei um susto ao perceber que tava errado: a corda não estava amarrada em árvore nenhuma e simplesmente sumia no nada.

“Que porra é essa?”, murmurei pra mim mesmo, colocando o fardo de cerveja no chão.

Estendi os dois braços, segurei a corda com força e dei um puxão, achando que ela ia soltar e cair como algum erro que precisava ser consertado, virando história pra contar em volta da fogueira. Mas nada. Ela continuou firme, ancorada no nada, sem mexer um milímetro.

Dei um passo pra trás e olhei de novo pra cima. Ainda não sei explicar, mas só de ver aquela coisa eu já fiquei puto da vida. Ela não tinha o direito de estar ali. Era como um dedo do meio apontado pras leis do universo.

Arregacei as mangas e me aproximei com uma confiança arrogante de que ia consertar aquilo. Agarrei a corda e puxei com toda a força que eu tinha. Mesmo assim, ela não se mexeu. Berrei de raiva, enrolei a corda nas mãos e gritei: “Sua merda! Por que você não se MEXE logo!” Meus pés afundaram na terra e eu senti a corda ceder um pouquinho. Já foi o suficiente pra eu continuar puxando.

“Isso aí! Vai se foder—!” rosnei com os dentes travados antes da corda escapar das minhas mãos.

Caí de costas no chão e gritei de dor quando uma queimação insuportável tomou conta das palmas das minhas mãos. Antes que eu pudesse olhar pros ferimentos, a corda voltou pro lugar com tudo e um badalo ensurdecedor explodiu lá do céu. Tampei os ouvidos, perdi a audição por alguns segundos e depois só restou um zumbido agudo na cabeça.

Olhei desesperado ao redor, achando que uma bomba tinha explodido. Mas não tinha nada. Quando minha audição voltou, entendi o que era: a corda balançava devagar enquanto o som de um sino ecoava do alto.

“Que porra tá acontecendo!?”, gritei.

O sino foi diminuindo aos poucos até a corda parar de novo. Só então prestei atenção na dor queimando nas mãos. A pele da palma tinha sido arrancada nos lugares onde eu tinha segurado. Só de olhar já doía dez vezes mais. Comecei a voltar pra varanda pra fazer um curativo.

Mas no instante em que dei as costas pra corda, centenas de milhares de vozes gritaram ao mesmo tempo dentro da minha cabeça. Caí de joelhos apertando a cabeça, rangendo os dentes. Cada voz era diferente, mas todas transmitiam a mesma mensagem.

Elas falavam numa língua que eu nunca tinha ouvido, mas minha alma entendia perfeitamente.

“Quem é você?”, elas gritavam em pura agonia.

“Para, por favor para!”, eu berrei.

“Wayne?”

“Dói! Para, por favor, tá doendo!”

As vozes silenciaram. Abri os olhos e não tinha ninguém. Levantei girando como um doido, procurando de onde aquelas vozes tinham vindo, mas não havia alma viva.

“Você tocou o sino”, as vozes sussurraram novamente, baixinho.

Continuei olhando pra floresta. Conseguia ouvir elas em todo lugar, mas não via ninguém.

“Você pediu nossa presença. Chamou por nossa voz. Fez um sacrifício. Agora, o que você quer?” As vozes estavam ficando impacientes.

“Quem são vocês?!”, gritei, recuando devagar.

“Nós somos tudo. Nós não somos nada. Nós somos todos. Nós somos menos. Nós somos a morte. Nós somos a vida. Nós somos um anjo. Nós somos um demônio. Nós somos quem você chamou.”

“O que vocês querem?!”, berrei, cada vez mais apavorado.

“Você nos invocou. Fez o sacrifício. Queremos que faça sua pergunta.”

“Eu não entendo!”, gritei, o medo tomando conta.

“Quer que a gente te ajude a entender?”

Balancei a cabeça. O sino tocou forte lá em cima e eu gritei.

“Você nos invocou. Sofreu por nós. Então viemos trazer conhecimento em troca do seu sofrimento. Nós sabemos tudo. Nós somos tudo. Vamos revelar qualquer verdade que você pedir… por um pequeno preço”, a voz respondeu com satisfação.

“Por que eu deveria acreditar em vocês?”, perguntei.

Uma pergunta tinha ficado martelando na minha cabeça. Se aquela coisa pudesse responder, eu tinha que perguntar.

“É essa a verdade que você deseja conhecer?”, as vozes sussurraram, ainda mais perto.

“Sim”, respondi firme, me aproximando da corda de novo.

“Você está disposto a sofrer por essa verdade?”

Meu sangue gelou. Repeti a pergunta na cabeça e respondi: “Sim!”

“Estenda sua mão”, as vozes disseram, quase alegres.

Estendi o braço. Em vez de resposta, veio uma dor lancinante. Caí no chão gritando, me contorcendo. Minha mão tinha murchado, a pele rasgada nos nós dos dedos, osso à mostra, veias pretas. Não sangrou, mas doeu mais que qualquer coisa na vida.

“Que porra você fez comigo?!”, chorei.

A dor sumiu tão rápido quanto veio e o sino tocou novamente.

“Seu nome é Wayne, quarenta e três anos, sozinho. Seu pai morreu de infarto, sua mãe morreu de câncer, você...”

“Para. Eu acredito em vocês.” A ferida na mão continuava lá, mas parou de doer. “Onde estão meus pais? Eles estão no céu? Estão felizes?”

Houve silêncio. Depois as vozes voltaram: “Você está disposto a sofrer por essa verdade? O preço é muito maior pra esse segredo. Um preço que só pode ser pago uma vez.”

“Sim, eu estou disposto!”, gritei, a raiva crescendo.

O sino tocou mais uma vez.

“Me ajuda!” Uma voz familiar gritou de dentro do nada.

Era a voz da minha mãe, sozinha dessa vez.

“Mãe?!”, berrei, correndo até a corda.

“Me ajuda, por favor! Eu não quero mais ficar aqui, por favor me tira daqui! POR FAVOR!”, ela implorava chorando.

“Mamãe, onde você está?!”

“Me ajuda!”, uma voz masculina gritou.

“Pai? Pai, onde você tá? Por favor aparece!”

Eu chorava sem parar, me sentindo completamente inútil.

“Eles agora fazem parte de nós”, as milhares de vozes voltaram, abafando tudo. “Eles não estão felizes. Eles estão sofrendo.”

“Traga eles de volta! Para de machucar eles! Pega eu no lugar deles! POR FAVOR!”, implorei de joelhos.

“Você recebeu sua verdade. Agora nos dê seu sofrimento.”

“NÃO! TRAZ ELES DE VOLTA!”, gritei.

Peguei o fardo de cerveja e joguei com toda força na floresta.

“Nos dê...”, as vozes sussurraram antes de sumir.

As cervejas voltaram voando em alta velocidade, explodindo ao meu lado, abrindo um buraco no chão e me encharcando de cerveja.

“O SEU SOFRIMENTO!”, as vozes berraram com puro ódio.

Corri pra dentro de casa, bati a porta e tranquei tudo, fechando todas as cortinas.

Mesmo agora, enquanto digito isso escondido na cozinha, fico olhando pelas frestas das cortinas. Juro que vejo algo magro e pálido correndo entre as árvores, me provocando. Não tenho muito tempo. Ele quer a minha voz também. Quer que eu pague o preço.

A corda mudou. Agora está suspensa a quase dois metros do chão, terminando num laço de forca. Eu sei o que ele quer que eu faça. E não vai parar até conseguir.

Estou com um medo do caralho, completamente aterrorizado. Não quero morrer. Não quero me juntar àquela coisa!

Ainda escuto a voz da minha mãe implorando por ajuda.

O sino está tocando de novo. Chegou a hora. Antes de ir, só consigo pensar: será que essa verdade valeu a pena morrer por ela? Ou tem coisas que é melhor deixar mortas?
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