sábado, 13 de dezembro de 2025

Eu não tenho cachorro

Moro num prédio alto, daqueles que só dá pra acessar por um túnel duplo de trem ou carro. Anos atrás isso aqui era uma base militar, mas foi convertido em moradia residencial. O lugar é bem sombrio, e todo mundo que mora aqui se mudou ou ficou pelo mesmo motivo: a gente queria isolamento. Por ser tão isolado — praticamente uma ilha —, temos todas as comodidades necessárias pra sobreviver sozinho. Tem academia, escola fundamental, consultório médico, delegacia e umas poucas lojinhas. Eu trabalho numa loja de conveniência simples no quarto andar.

Acordei numa manhã fria de inverno e dei de cara com minha goldendoodle branca gigante deitada na cama comigo. Ela me manteve aquecido, e aquele cheiro familiar de pipoca dela me fez sorrir na hora que eu voltei à consciência total. Dei um carinho na cabeça dela e nós nos levantamos juntos. Enquanto eu me vestia, ela foi pra sala e se apoiou no parapeito da janela pra olhar a paisagem completamente branca lá fora — estava rolando uma nevasca dos infernos. Não tinha tigela nem ração na cozinha. Fiz uma nota mental pra comprar umas coisas no caminho de volta do trabalho, mas ela era uma cachorra grande e aguentava ficar sem uma refeição. Deixei um pote de cerâmica com água na cozinha, dei um carinho de despedida e saí.

No elevador antigo, mas confiável, trombei com Agnes Keller, uma mulher de meia-idade do nono andar. Ela estava com aquelas roupas cor-de-rosa de sempre. Agnes trabalhava no consultório com o Dr. Pyre. O que me chocou foi que o rosto enrugado dela estava rachado num sorriso. Ela era famosa por ser uma das pessoas mais carrancudas do prédio. Acho que nunca tinha visto nada além de uma cara fechada daquela mulher até hoje. Dei um oi simples e não quis estragar o bom humor dela fazendo perguntas. Mas ela mesma se explicou sem eu pedir. O filho dela tinha contado uma piada engraçada naquela manhã. O engraçado é que Agnes não tinha filho.

Marcus Lin estava andando de um lado pro outro na loja com uma prancheta na mão e me olhou com aquela mistura habitual de desprezo e insatisfação. Meu gerente me botou pra trabalhar na hora, mandando pro estoque repor mercadoria. Por sermos tão isolados, o depósito atrás da loja era enorme e lotado de suprimentos de emergência, bem além do padrão normal. Lin gostava de tocar a loja como se estivéssemos no meio de um centro turístico lotado. Eu aguentava o estilo ditatorial dele porque isso fazia os dias passarem rápido. Depois do nosso “horário de pico” da manhã — umas seis pessoas, mais ou menos —, desci o corredor onde ficava a ração pra cachorro. Um pensamento esquisito me veio à cabeça enquanto eu olhava as poucas opções. Lembrei de uma conversa com Lin em que ele reclamava que a única razão pra gente estocar aquela porra de ração era por causa da Sra. Innes, do segundo andar. Ela era a única pessoa no prédio que tinha cachorro.

Lin me liberou pro intervalo obrigatório de quinze minutos e eu voltei pro meu apartamento com uma lata de ração na mão. Meu gerente nem comentou a compra. A cachorra estava sentada no sofá assistindo TV. Ela tinha um cheiro tão familiar, e só de ver aquela criatura fofinha já dominava qualquer sensação de desconforto com uma tranquilidade gostosa. Ela correu na minha direção e se esfregou na minha perna, ganhando uma coçada na barriga. Nem pensei em como ela tinha ligado a TV. Ela devorou a ração com gula e abanou o rabo. Lin ia me dar um sermão daqueles se eu demorasse mais que o permitido, então deixei a cachorra com a promessa de levá-la pra passear no meu intervalo de almoço maior. Só quando já estava de volta no elevador é que percebi que eu não conseguia lembrar o nome da minha própria cachorra.

Quando voltei pra loja, fiquei surpreso de não encontrar Lin. Ele nunca deixava o lugar sem ninguém e fazia os intervalos ali mesmo, comendo macarrão instantâneo e me criticando. Aí encontrei o bilhete escrito à mão dele. Ia passar o intervalo de almoço em casa com a esposa. O Sr. Lin não era casado. Minha cabeça começou a ficar enevoada enquanto eu tentava juntar as peças da manhã. Uma sensação esmagadora de pavor subiu dos meus pés, fazendo minha pele arrepiar e os cabelos ficarem em pé. Repetidas vezes eu revivia a memória vívida de acordar ao lado da minha cachorra e depois vê-la sentada no sofá. Por que eu tinha lembrado dela como branca e fofa? Ali parado na loja, lutando pra não gritar, eu soube com uma certeza absoluta que a coisa que estava me esperando no apartamento na verdade era magra, cinza e tinha dentes afiados.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

De onde caralhos tá vindo esse sangue?

Sou lurker antigo aqui e resolvi contar uma parada que rolou com meus pais há uns 30 anos. Eu sou viciado em história paranormal, adoro quebrar a cabeça tentando achar explicação lógica, mas essa aqui sempre me deixou de cara, deixou meus pais (os dois céticos pra cacete) e qualquer pessoa que eles contaram também. Então queria saber se alguém já passou por algo parecido ou tem uma explicação minimamente razoável.

Em 1995 meus pais moraram em Bangalore, na Índia, por quase um ano porque meu pai pegou um trampo temporário lá. Como era só um contrato curto, quando a empresa ofereceu um duplex pra alugar eles toparam na hora. Veio com as regalias típicas da classe média alta indiana: duas empregadas que corriam atrás de limpeza, mercado e quase toda a comida. Vida mansa pra um casal recém-casado e sem filho, praticamente tudo resolvido pra eles.

Na época minha mãe não trabalhava, ficava em casa enquanto meu pai ia pro batente. No mesmo andar tinha outro apartamento com uma véia morando sozinha. Minha mãe cumprimentava educada, mas a mulher sempre olhava torto e deixava ela desconfortável. Na terceira ou quarta vez que se falaram, a véia perguntou:  

“Tá tudo bem morar nesse apartamento?”  
Minha mãe deve ter feito que sim com a cabeça, aí a mulher insistiu:  

“Você não sente nada não?”  

Minha mãe ficou bolada com a pergunta, mas a véia não explicou porra nenhuma. Depois disso, toda vez que se cruzava no corredor a velha mandava: “Não fica sozinha aí não, filha.” Minha mãe achou que era só paranoia de idoso mesmo.

Numa manhã normal, solzão e fresquinho, umas 8h. Uma das empregadas tinha acabado de passar pano no chão, minha mãe e minha avó paterna (que tava de visita rápida) tavam na cozinha, meu pai tava na sala numa das poltronas lendo jornal. O esquema era duas poltronas com uma mesinha no meio onde ficava o telefone fixo, e uma sacada grande com porta de correr do lado esquerdo de quem tá sentado.

O telefone toca. Minha mãe atende, era um parente ligando pra avisar que minha bisavó materna tinha batido as botas – tinha mais de 90 anos, morte natural. Minha mãe era muito apegada pra caralho com a avó, ficou super abalada. Passou o telefone pro meu pai falar também. Quando ele estica o braço pra pegar, cai uma baita gota de um troço que parecia sangue no chão. Depois uma menor, depois outra, outra, até parar perto da porta de correr, sem acertar o pé dele. Eles descrevem como aquele sangue vermelho vivo de quem corta o pulso.

Depois que desligaram, os dois se olharam totalmente perdidos. A empregada tinha acabado de limpar, ninguém tava cortado, teto sem infiltração… então que porra foi aquela? Mesmo sendo céticos, não acharam explicação nenhuma. A empregada, que ainda tava ali, se recusou a chegar perto, então o negócio ficou lá. Com o tempo o “sangue” secou, virou um pozinho marrom. A vida seguiu, minha mãe ficou meio bolada e começou a seguir o conselho da véia: passava as tardes numa biblioteca ali perto. Meu pai encontrava com ela na volta do trabalho e eles voltavam juntos.

Meses depois, o incidente já tava quase esquecido. Era a última noite deles naquela casa – no dia seguinte pegavam voo cedinho e davam adeus pra Bangalore pra sempre. Tavam no quarto arrumando mala, minha mãe deixou alguma coisa cair no chão, abaixou pra pegar e… replay do caralho. Mesma coisa: uma gotona + várias menores, passando do lado da mão dela sem acertando o chão. Dessa vez os dois piraram de vez, chegaram a pensar em ir pra hotel passar as poucas horas que faltavam. Saíram de Bangalore sem explicação nenhuma.

O próximo casal jovem que ia morar lá era amigo deles, mesmo trampo na empresa. Eram ainda mais céticos, deram risada das histórias dos meus pais e se mudaram de boa. Numa madrugada, a mulher acordou com sede, desceu pra pegar água. Quando tava subindo a escada, começou a mesma merda: a cada degrau que ela subia, caía uma gota de sangue do lado do pé dela. Ela levou um susto do caralho, teve uma crise epilética e caiu escada abaixo. O barulho acordou o marido, que veio correndo e levou ela pra cama. Ela ficou bem depois.

De manhã o marido tava convencido que era pegadinha. Raspou o sangue seco com um pedaço de papelão duro, botou num vidrinho e ia levar pro laboratório no caminho pro trabalho. Saiu do prédio, chamou um auto-rickshaw (aquele triciclo motorizado, tuktuk), entrou. No segundo que ele sentou, o motorista perdeu o controle do nada, o auto rodopiou 360°, jogou ele e a pasta do trabalho pra fora. Motorista saiu ileso, o cara quebrou o braço e o vidrinho sumiu do bolso fundo da pasta fechada.

Tem mais umas coisinhas menores que rolaram nesse apê, mas já tá gigantesco, então paro por aqui. Por fim: o apartamento ainda existe, a gente já passou na frente várias vezes quando vai pra Bangalore.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Tem uma coisa no meu quarto enquanto eu durmo…

Duas coisas eu sei com certeza. A primeira é que ela tá lá. A segunda é que ela tá se matando pra eu não perceber que ela tá lá.

É silenciosa, isso que eu quero dizer. Silenciosa pra caralho. Tão silenciosa que eu fico me questionando o tempo todo à noite. De dia também, até agora que eu tô escrevendo isso. Mas eu tenho certeza absoluta que tem alguma coisa. São coisinhas pequenas, só que frequentes. Constantes. Algo arranhando o assoalho de madeira. O lençol lá na ponta da cama, aquele pedaço que fica pendurado pra fora, deslizando quando alguma coisa passa por baixo. Eu deixo roupa na cadeira da escrivaninha o tempo todo, também escuto elas se mexendo.

Parece exatamente o barulhinho que minha gata fazia antigamente, quando eu tinha bicho. Aquela movimentação de um bicho pequeno e noturno andando pela casa no meio da madrugada. Sabendo que você tá ali. Só que eu não tenho gato há anos, e nunca tive nesse apê.

Moro com três colegas numa casa estranha pra cacete. Não estranha de assustadora, mas é uma casa antiga que virou apartamento colocando parede em lugar doido, então eu tenho um closet que fica embaixo da escada do apê do lado. O teto do closet é inclinado e vai longe pra dentro quando você entra. Quando a gente se mudou, encheu aquilo de caixa e traste que ainda não tinha lugar, e nunca desempacotamos direito, então virou um labirinto bem ali no meu quarto.

Tenho quase certeza que é pra lá que ela vai de dia. Não fui muito fundo porque, pra ser sincero, tô com medo de encontrar.

Você deve tá pensando: “porra, então dorme no sofá ou se muda logo”. A noite passada foi a primeira vez que eu tive certeza absoluta que era real. Como eu disse, ficava sempre na linha do “pode ser nada”, então eu ignorava. É a casa assentando. Aquecimento de inverno fazendo madeira dilatar. Sabe quando você joga um moletom no encosto da cadeira e demora uma hora pra cair no chão fazendo barulho, mesmo ninguém encostando? Eu ficava botando na conta disso. Sempre tinha uma explicação plausível. Talvez seja assim que ela se safe.

A desconfiança já vinha crescendo faz tempo. Ontem à noite me deixou 100%. Ultimamente eu tava demorando mais pra pegar no sono. Costumo dormir com vídeo rolando, white noise, essas coisas. Ontem meu celular morreu, o carregador tava do outro lado do quarto, era 1h da manhã e eu tava com preguiça de levantar. Então fiquei lá deitado no escuro, olho fechado, tentando forçar o sono. Não conseguia dormir, mas acho que passou tempo suficiente pra ela achar que eu tava apagado.

Comecei a ouvir de novo. Bem fraquinho. Sabe quando você tem que se concentrar pra ouvir, senão perde? Batidinhas vindo da porta aberta do closet. Passos mais abafados quando chegava no tapete. Roçou no cobertor que tava pendurado na beira da cama, eu senti ali do lado.

Aí eu ouvi a respiração e fodeu. É baixo, rente ao chão, por isso que eu pensei em bicho antes. Vai ver é rato, roedor, explicação normal. Só que essa respiração parecia humana. Meio aguda, chiada. Dava pra ouvir que a boca tava aberta.

Abri o olho sem querer. Talvez meu corpo tenha ficado tenso. A respiração parou na hora. Como se ela tivesse percebido. Por algum motivo meu instinto foi fechar o olho de novo e fingir que tava dormindo. Sabe quando você era criança, ficava acordado até tarde e ouvia seus pais vindo pelo corredor? Você sabia que tinha que fingir um segundo antes deles abrirem a porta? Foi exatamente essa sensação, só que gelada dos pés à cabeça.

Ouvi ela andando de novo, tão leve, tão cuidadosa. Sentia ela chegando cada vez mais perto do meu rosto. Mesmo de olho fechado eu sentia a presença, o calor do corpo ou alguma merda assim. Eu sabia que se abrisse o olho ia dar de cara com ela. Uma parte de mim até queria, só pra saber o que era, mas eu não consegui.

O pior foi que ela simplesmente ficou ali. Perto pra caralho. Parada, respirando baixinho. Não fez nada, não me tocou, não foi pra outro lugar, ficou ali horas. Horas mesmo. Não preguei o olho a noite inteira. Em algum momento senti ela indo embora e minutos depois senti a luz do sol batendo na minha pálpebra. Já tava amanhecendo. 7h da manhã.

Isso foi hoje de manhã. Já tá quase escurecendo de novo. Não sei o que eu vou fazer. Não consigo dormir aqui essa noite. Mas também não quero deixar essa coisa sozinha com as pessoas que moram comigo, e eu sei que vou parecer completamente louco se tentar explicar o que rolou. Mas eu sei o que eu sei.

Eu sei que ela tá aí.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A Emma não é a Emma

Eu e minha namorada fomos passar um final de semana fora, mas não era ela que tava naquela cabana comigo.

Tudo começou quando a gente decidiu marcar essa escapadinha. A gente falava nisso fazia tempo e, com o trampo dos dois ficando uma merda e a vida em geral pesando, pegamos uma grana que tínhamos guardado e alugamos uma cabana no Lake District por um feriadão: sexta até segunda.

No dia antes de viajar, reparei que a Emma não tava bem. Ela disse que não era nada físico, só uma sensação estranha. Pelo jeito que ela descreveu, pra mim parecia nervosismo misturado com pavor. Ofereci pra adiar ou até cancelar tudo, mas ela bateu o pé que a gente ia mesmo. Beleza, partiu.

Chegamos na cabaninha por volta das cinco da tarde. Logo de cara já senti uma mudança na Emma: quanto mais a gente se aproximava, menos ela falava. Quando entramos, ela nem comentou nada sobre o lugar. A casa mais próxima ficava a pelo menos um quilômetro e meio do outro lado do lago, bem do jeito que eu planejei pra ela, porque no trabalho dela ela lida com um monte de idiota e eu achei que ficar totalmente isolada ia fazer bem. Mas nem um “nossa, que lindo” saiu da boca dela.

Conforme a noite foi caindo, fizemos janta. Tentei puxar papo, mas ela tava monossilábica. Achei que era cansaço da viagem e aquele mal-estar que ela tava sentindo. Coloquei os pratos na sala pra gente comer na frente da lareira. Quando botei os pratos na mesinha, percebi que ela não tava mais atrás de mim. Um segundo antes ela tava ali, carregando as bebidas. Olhei pro corredor que levava pra cozinha: escuridão total. Cadê ela?

“Amor?” chamei, esperando um “esqueci o celular na cozinha” ou qualquer coisa normal. Nada. Só o silêncio sinistro e o estalo da lenha queimando.

Não era o fim do mundo, sentei e comecei a procurar um filme pra gente ver enquanto comia. Passaram uns cinco minutos, zero barulho na casa inteira. Chamei de novo: nada. Fiquei prestando atenção em porta fechando, descarga, qualquer coisa. Até que ouvi um rangido lento e calculado bem atrás do sofá onde eu tava sentado. Impossível ela ter chegado ali sem passar do meu lado direito, que era o corredor da cozinha, ou sem eu ver ela indo pro quarto, que ficava exatamente atrás de mim.

Desliguei a TV na hora pra ouvir melhor. E gelei. No reflexo da tela preta eu vi minha namorada: cabelo pingando, roupa rasgada e encharcada, sorrindo feito psicopata a menos de 30 cm das minhas costas. Pulei do sofá e me virei: ninguém. Nem poça no chão, nada. Mas os rangidos continuavam, como se ela ainda estivesse ali, só que eu não conseguia ver.

Fiquei encarando o corredor do quarto sem piscar, esperando outro rangido pra localizar o que quer que fosse aquilo.

“Ei amor, tá tudo bem?” uma voz veio do meu lado esquerdo. Eu dei um grito e quase derrubei a comida toda.

“Porra, que susto! Parece que você viu um fantasma”, ela falou rindo de leve.

“Que porra, de onde você saiu?”

“Tive que fazer xixi, posso?” respondeu sarcástica.

Tentei controlar a respiração e sentei do lado dela, que agora tava preocupada de verdade.

“O que aconteceu?”

“Achei que vi… alguém no reflexo da TV.”

“Tem certeza? Não era o cabideiro do lado da porta? Quantas taças de vinho você já tomou mesmo?”

Fiquei na dúvida, mas concordei. Vai ver minha cabeça tava zuando comigo porque eu já tava meio tenso. Só queria esquecer essa parada estranha. Assistimos TV, mas eu não conseguia parar de sentir que tava sendo observado. De vez em quando ouvia um pingo bem fraquinho, tipo água caindo no chão de madeira logo atrás de mim.

Na hora de dormir eu ainda tava meio cagado. Quis falar sobre aquilo, mas como que eu ia dizer “ei amor, por que você apareceu feita uma doida no reflexo da TV e depois teleportou?”. Sempre acreditei pra caralho em fantasma e coisa do tipo, a Emma não. Não queria virar piada, porque realmente parecia loucura.

A noite foi tranquila, uns barulhinhos na casa escura que dava pra explicar, nada demais. Talvez eu não tivesse visto mesmo o que achei que vi e a cabana não fosse mal-assombrada pra cacete. Com esse pensamento fechei os olhos e dormi.

Sonhei pesado com o lago: eu e a Emma fazendo piquenique na beira, sol brilhando, passarinho cantando, cena perfeita. A gente levantou e correu pra margem. Olhei pra baixo, ri das ondulações que deixavam a gente parecendo estranho na água.

A água acalmou. Foquei no reflexo da Emma. Ela tava com um sorriso assustadoramente largo, e a cabeça girou pra me encarar enquanto o corpo continuava de frente. Levantei o olhar rápido pra cara dela de verdade: tava tranquila, olhando o horizonte. O oposto total do que eu tinha acabado de ver no reflexo. Acordei na hora, olhei pro lado: ela dormindo, roncando do mesmo jeitinho de sempre. Soltei o ar e tentei voltar a dormir, torcendo pra sonhar menos fudido dessa vez.

No dia seguinte parecia que nada tinha acontecido. Caminhamos, rimos, curtimos pra caralho. Teve umas duas vezes que peguei ela olhando pro nada, sussurrando coisas, mas quando eu falava com ela ou quando percebia que eu tava olhando, voltava ao normal. À noite, porém, não sei pra onde minha namorada foi nem o que tava no lugar dela.

Cozinhamos, jantamos, vimos TV, tomamos banho, fomos pra cama. Tudo normal… até a hora de dormir. Ela já tava de lado, começando aqueles roncos leves. Mas eu não conseguia me sentir seguro. Uma intuição fudida gritando que eu não devia dormir, que não era seguro. Sei lá o que me deu, resolvi descer pra sala e ler uma hora mais ou menos, no escuro, sozinho. Nem eu me acho tão esperto assim, mas foi o que eu fiz.

Nem vi o tempo passar: já tava na poltrona marrom grandona, de costas pra parede da TV, encarando o corredor do quarto, com o corredor da cozinha do lado esquerdo. O livro tampava quase toda a minha visão periférica. Devia ter uns 15 minutos que eu tava lendo quando ouvi um “Ei” seco e rápido no meu ouvido esquerdo.

Bati o livro na mesa e virei pra todos os lados. Tinha uma luminária fraquinha do lado, a luz não chegava no fundo dos corredores, mas não importava: a voz veio a centímetros do meu ouvido. Fiquei meio tenso, mas ignorei. Vai ver era tipo quando você tá de fone e acha que alguém te chamou. Voltei a ler.

Quinze minutos depois: outro “Ei” seco, agora no ouvido direito. Reagi rápido, olhei tudo. Juro que vi um vulto sumindo no corredor. Sussurrei o nome da Emma caso fosse ela, sem resposta. Esperei mais um pouco e decidi subir pra dormir. Quando tava dobrando o cobertor, veio um “EI!” mais alto e puto. Dessa vez não tinha como ser imaginação: era voz real, senti até o hálito gelado e podre na minha pele.

Virei esperando ver alguém, um ladrão, ou a Emma fazendo pegadinha (o que seria muito fora do normal dela). Nada. Espaço vazio e mal iluminado. Apertei o passo pro quarto, pelo menos lá eu não ficava sozinho. Quase chegando, olhei pra trás, devia ter deixado quieto.

Vi um vulto se escondendo rápido atrás da cortina. Não deu pra não ver o cabelo castanho avermelhado comprido que ficou pra fora. Quase ri de nervoso: era a Emma, óbvio, tentando me assustar pra se vingar daquela vez que eu pulei nela. Fui abrir a porta do quarto pra fingir que entrei e pegar ela desprevenida atrás da cortina, mas antes que eu conseguisse, vi pelo canto do olho.

Minha namorada dormindo exatamente na mesma posição e ritmo de antes.

O mundo parou. O que caralhos tava atrás daquela cortina?

Entrei no quarto, tranquei a porta e tentei bolar um plano. Acordei a Emma, expliquei o que vi. Ela apontou pro taco de beisebol do lado da porta e fomos conferir. Claro, não tinha porra nenhuma. De novo me convenceram que eu vejo filme de terror demais.

Ela tava morta de sono e não acreditou em nada, voltamos pra cama. Consegui dormir eventualmente, com um braço pra fora da cama segurando firme o taco.

O sono daquela noite foi uma bosta: pesadelo atrás de pesadelo, tudo muito louco e sem sentido, menos um. No sonho eu acordava, Emma não tava do meu lado. Calçava o chinelo e saía procurando. Ouvi arranhões na parede, segui o barulho e achei a Emma, ou o que tentava ser ela, agachada no canto, estalando o corpo inteiro enquanto se contorcia. Pus a mão no ombro dela, ela virou rápido e cravou uma faca na minha costela. O sorriso não vacilou, só cresceu. Enquanto eu caía no chão apertando o ferimento, ela sussurrou “não sai da cama”. Acordei, já era manhã.

Acordei moído, sem dormir direito e, pra ser honesto, puto. Eu nunca menosprezaria um medo da Emma, e ela fez exatamente isso comigo. No café da manhã fiquei quieto, sem falar nada. Ela percebeu que me chateou, eu me senti culpado, mas precisava ser assim por enquanto.

Umas horas depois ela falou que tinha uma surpresa. Fui atrás dela até a beira do lago: um piquenique montado. Me fez sorrir.

Lá tava minha Emma de volta, sorrindo doce com o sol batendo no rosto. Sentamos, comemos, conversamos, parecia que um peso tinha saído das costas. Não sei o que tava causando esses sonhos e possíveis alucinações, mas ia marcar médico quando voltasse. Ficamos ali um tempo até que um enxame de moscas começou a rodear a cabeça dela. Ela tentou espantar rindo, mas acabou correndo com uma risadinha.

Era estranho pra caralho a quantidade de mosca, mas eu ri e corri atrás até a gente parar bem na beirada da água. Ela tirou umas folhas do corpo, elas caíram na água e fizeram ondulações. Olhei pra baixo, achei graça de como a gente ficava distorcido. E aí me caiu a ficha: era exatamente o meu sonho. A memória tava meio embaçada do que vinha depois, mas senti um déjà vu misturado com pavor.

Quando a água acalmou, levantei o olhar pra minha namorada, admirando o quanto ela era linda olhando a paisagem. Sorri pensando na sorte que eu tinha e olhei de novo pra baixo.

O sorriso sumiu da minha cara na hora. No reflexo, a Emma tava com aquele sorriso escancarado e a cabeça virada pra me encarar. Soltei um grito de terror e andei pra trás até aquela coisa sumir da minha vista. Virei e corri pra casa desesperado, querendo distância da Emma e seja lá o que tava fingindo ser ela. Sem saber qual das duas era real.

Claro que ela veio atrás tentando me acalmar. Mal conseguia falar direito antes de ver ela revirando os olhos. Já tava enchendo o saco. Falei firme que a gente ia embora agora, mas ela veio com um monte de motivo do porquê aquilo era importante pra ela, que a gente precisava desse descanso. Tentei argumentar, ela disse que não era real, que era só coincidência.

Eu tava quase acreditando quando olhei pra baixo e vi as unhas dela pretas, mortas, cabelo seco e quebrando, totalmente o oposto de como ela sempre cuida. Era ela, mas não era. Parecia uma gêmea que tinha vivido no escuro a vida inteira. Sabia que a gente precisava dar o fora dali rápido, mas não conseguia convencer ela. Tinha medo que o que quer que tivesse se alojado na minha namorada fizesse alguma merda e machucasse ela de verdade. Cedo pro dia seguinte de manhã, só precisava aguentar mais uma noite.

Fui dormir apavorado, com medo pela minha namorada e muito medo dela. Sabia que a Emma de verdade ainda tava ali dentro, então tentei ter paciência e tirar a gente dali o mais rápido possível sem acionar nada. De tanto cansaço, apaguei.

Acordei de repente, como se alguém tivesse jogado um balde d’água em mim. Emma não tava do meu lado. Talvez tivesse sede ou foi pegar algo pra comer, ela mal comeu desde que chegamos. Levantei pra ir atrás e ver se tava tudo bem. Quando fui calçar o chinelo, lembrei do dia: tinha sido idêntico ao sonho. Não tinha como ser coincidência.

O sonho que eu tive se realizou. Um pensamento me acertou: o sonho da noite anterior. Gele. Voltou tudo: eu acordando, Emma sumida, procurando, os arranhões, ela agachada, a facada. A memória me acertou como um tijolo, quase fiquei tonto. Levantei devagar, fui até a porta e girei a maçaneta.

Não tem como isso tá acontecendo. Meus sonhos não viram realidade, né? Impossível. Aconteceu uma vez, talvez não aconteça de novo. Mas eu precisava ter certeza que minha Emma tava bem.

Dei uns passos no corredor, respiração curta e acelerada, repetindo pra mim mesmo que não podia ser real. Virei a esquina e ouvi um barulhinho fraco. Forcei o ouvido: foi ficando mais alto, mais alto, até não ter mais dúvida.

Era arranhado.

Na parede.
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