Em 1995 meus pais moraram em Bangalore, na Índia, por quase um ano porque meu pai pegou um trampo temporário lá. Como era só um contrato curto, quando a empresa ofereceu um duplex pra alugar eles toparam na hora. Veio com as regalias típicas da classe média alta indiana: duas empregadas que corriam atrás de limpeza, mercado e quase toda a comida. Vida mansa pra um casal recém-casado e sem filho, praticamente tudo resolvido pra eles.
Na época minha mãe não trabalhava, ficava em casa enquanto meu pai ia pro batente. No mesmo andar tinha outro apartamento com uma véia morando sozinha. Minha mãe cumprimentava educada, mas a mulher sempre olhava torto e deixava ela desconfortável. Na terceira ou quarta vez que se falaram, a véia perguntou:
“Tá tudo bem morar nesse apartamento?”
Minha mãe deve ter feito que sim com a cabeça, aí a mulher insistiu:
“Você não sente nada não?”
Minha mãe ficou bolada com a pergunta, mas a véia não explicou porra nenhuma. Depois disso, toda vez que se cruzava no corredor a velha mandava: “Não fica sozinha aí não, filha.” Minha mãe achou que era só paranoia de idoso mesmo.
Numa manhã normal, solzão e fresquinho, umas 8h. Uma das empregadas tinha acabado de passar pano no chão, minha mãe e minha avó paterna (que tava de visita rápida) tavam na cozinha, meu pai tava na sala numa das poltronas lendo jornal. O esquema era duas poltronas com uma mesinha no meio onde ficava o telefone fixo, e uma sacada grande com porta de correr do lado esquerdo de quem tá sentado.
O telefone toca. Minha mãe atende, era um parente ligando pra avisar que minha bisavó materna tinha batido as botas – tinha mais de 90 anos, morte natural. Minha mãe era muito apegada pra caralho com a avó, ficou super abalada. Passou o telefone pro meu pai falar também. Quando ele estica o braço pra pegar, cai uma baita gota de um troço que parecia sangue no chão. Depois uma menor, depois outra, outra, até parar perto da porta de correr, sem acertar o pé dele. Eles descrevem como aquele sangue vermelho vivo de quem corta o pulso.
Depois que desligaram, os dois se olharam totalmente perdidos. A empregada tinha acabado de limpar, ninguém tava cortado, teto sem infiltração… então que porra foi aquela? Mesmo sendo céticos, não acharam explicação nenhuma. A empregada, que ainda tava ali, se recusou a chegar perto, então o negócio ficou lá. Com o tempo o “sangue” secou, virou um pozinho marrom. A vida seguiu, minha mãe ficou meio bolada e começou a seguir o conselho da véia: passava as tardes numa biblioteca ali perto. Meu pai encontrava com ela na volta do trabalho e eles voltavam juntos.
Meses depois, o incidente já tava quase esquecido. Era a última noite deles naquela casa – no dia seguinte pegavam voo cedinho e davam adeus pra Bangalore pra sempre. Tavam no quarto arrumando mala, minha mãe deixou alguma coisa cair no chão, abaixou pra pegar e… replay do caralho. Mesma coisa: uma gotona + várias menores, passando do lado da mão dela sem acertando o chão. Dessa vez os dois piraram de vez, chegaram a pensar em ir pra hotel passar as poucas horas que faltavam. Saíram de Bangalore sem explicação nenhuma.
O próximo casal jovem que ia morar lá era amigo deles, mesmo trampo na empresa. Eram ainda mais céticos, deram risada das histórias dos meus pais e se mudaram de boa. Numa madrugada, a mulher acordou com sede, desceu pra pegar água. Quando tava subindo a escada, começou a mesma merda: a cada degrau que ela subia, caía uma gota de sangue do lado do pé dela. Ela levou um susto do caralho, teve uma crise epilética e caiu escada abaixo. O barulho acordou o marido, que veio correndo e levou ela pra cama. Ela ficou bem depois.
De manhã o marido tava convencido que era pegadinha. Raspou o sangue seco com um pedaço de papelão duro, botou num vidrinho e ia levar pro laboratório no caminho pro trabalho. Saiu do prédio, chamou um auto-rickshaw (aquele triciclo motorizado, tuktuk), entrou. No segundo que ele sentou, o motorista perdeu o controle do nada, o auto rodopiou 360°, jogou ele e a pasta do trabalho pra fora. Motorista saiu ileso, o cara quebrou o braço e o vidrinho sumiu do bolso fundo da pasta fechada.
Tem mais umas coisinhas menores que rolaram nesse apê, mas já tá gigantesco, então paro por aqui. Por fim: o apartamento ainda existe, a gente já passou na frente várias vezes quando vai pra Bangalore.


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