segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Apodrecendo por Dentro

Há trinta anos nos mudamos para o apartamento 304 do condomínio Willow Manor, logo depois de um divórcio dos brabos em que meu ex-marido me botou pra fora de casa junto com nosso filho de seis anos. Tive que gastar até o último centavo das minhas economias pra pagar o depósito pro dono do prédio — um véio de uns setenta e poucos anos, daqueles que parecem que já estão de saco cheio da vida. Ele falava o mínimo possível, mas foi gente boa o suficiente pra deixar a gente trazer a Bia, nossa pastora alemã, mesmo o apê sendo minúsculo e mal cabendo eu e o Matt. Era isso ou largar ela na rua e partir o coração do meu filho.

Os dois eram unha e carne. Desde o dia que o Matt nasceu, a Bia nunca largou do lado dele, quase uma segunda mãe. Toda vez que o ex surtava bêbado, gritando comigo e quebrando tudo, ela ficava de guarda na porta do quarto dele. Quando eu finalmente arrumava coragem pra levantar, ir pro banheiro e cuidar do nariz quebrado, os dois vinham atrás e só ficavam olhando. Os dois sem poder fazer nada pra me ajudar. Saímos daquela casa depois que o infeliz decidiu que não queria mais “gastar dinheiro criando o filho que ele mesmo mandou eu ter”. Eu devia ter agradecido por escapar, mas de repente a responsabilidade de sustentar minha famíliazinha caiu toda nas minhas costas depois de anos sendo mantida na dependência e tomando porrada. Eu não fazia ideia de por onde começar.

Depois de mudar com os poucos móveis que consegui levar, chegou a hora de arrumar meu primeiro emprego da vida. Tinha uma vendinha bem embaixo do prédio e, por sorte, eles podiam contratar mais uma caixa. O salário mal dava pro aluguel e pras coisas básicas, mas a gente sobrevivia. Os primeiros meses foram tranquilos, estávamos nos acostumando com uma casa silenciosa. À noite, depois de buscar o Matt na escola, a gente sentava no sofá, via TV e a Bia ficava deitada na porta de entrada. Desde o começo ela parecia estranhar o apartamento, como se sentisse algo que a gente não via. Achei que era só ela se adaptando ao lugar novo. Quando anoitecia, Matt e eu dormíamos juntos — coisa que nunca acontecia na casa do pai dele. Eu queria que ele se sentisse seguro antes de ir pro quarto dele.

Pouco tempo depois, os vizinhos da frente se mudaram e ficamos como o único apartamento ocupado no terceiro andar. O corredor era esquisito: eram quatro apartamentos no total, o nosso ficava entre dois, um na frente e o elevador lá no canto direito. Não demorou muito pra começarem os barulhos. Acordei uma manhã com som de furadeira na parede, achei que eram vizinhos novos e saí pra cumprimentar. Abri a porta: ninguém. Mas o barulho continuava. Pensei que vinha do andar de cima e deixei pra lá. A partir daí, barulho de obra quase o dia inteiro, a ponto de me dar enxaquecas brabas. Liguei pro síndico pedindo pra eles trabalharem em horário decente. Ele respondeu que não tinha obra nenhuma acontecendo no prédio e que eu tivesse paciência até “terminar”. Não quis brigar com vizinho de cima, calei a boca e aguentei.

Uns meses depois, novembro, o sétimo aniversário do Matt estava chegando. Meu presente foi arrumar o quartinho dele e comprar uma caminha com o pouco que juntei no trabalho. Ele ficou louco de felicidade por finalmente ter o próprio quarto e não precisar mais dividir a cama comigo. Fiquei até triste, mas entendi: ele estava crescendo, precisava de independência. Enquanto montava a escrivaninha, reparei num buraquinho na parede que nunca tinha visto. Como o prédio era velho pra caralho e todo detonado, achei que era só mais um defeito. A parede era a que dividia nosso apê do 303. Fiquei curiosa, dei uma espiada: o buraco era pequeno demais, só dava pra ver escuridão.

O Matt nunca foi de me acordar de noite chorando, mas depois que foi pro quarto dele virou rotina. Ele dizia que tinha um homem alto, de barba comprida, que ficava parado na porta olhando ele dormir. Meu ex era exatamente assim, então achei que era trauma, medo dele voltar e destruir tudo de novo. Pelo menos era o que eu queria acreditar. Entre o Matt me acordando toda noite e o barulho do andar de cima, eu mal dormia. Virei um trapo irritado, a paciência zerou, parei de dar atenção pro meu filho. Chegava do trabalho, me trancava no quarto e tentava relaxar.

Com o tempo o buraco na parede foi crescendo — começou a vazar um líquido e criar mofo preto. Eu limpava toda manhã, no dia seguinte voltava pior. Não tinha grana pra chamar pedreiro. O Matt se recusava a dormir sozinho, a Bia nem entrava no quarto, só ficava choramingando na porta. Minha cachorra calma e quietinha começou a correr pela casa latindo pra qualquer barulhinho e mal comia. Ela já era velha, passava o dia deitada, mas nessa época, quando eu levava pra passear, ela fazia de tudo pra não voltar pra casa. No fim, os dois voltaram a dormir comigo, acabando com o restinho de privacidade que eu tinha naquele apê minúsculo. Resolvi trancar a porta do quarto do Matt e fingir que nada estava acontecendo até conseguir alguém pra ver aquilo.

A gente estava infeliz pra caralho. Eu morria de medo de chegar em casa e ver meu filho. Ele vivia falando daquela figura, eu tentava convencer que era imaginação porque não queria acreditar que fosse outra coisa. Ele era muito novo pra entender que a gente não podia se mudar, e eu me sentia a pior mãe do mundo por não conseguir fazer nada. Ele estava assustado, paranoico com a casa — igualzinho antes de sairmos da casa do pai. Eu só queria me jogar na cama e não lidar com nada disso, mas tinha que cuidar dele, senão ia virar o mesmo monstro que o ex. Prometi que a vida ia mudar depois da mudança, que finalmente ele ia se sentir feliz e protegido. Mas a realidade não deixava. Escapei de um pesadelo e caí em outro, talvez pior. Pelo menos antes a gente se tinha; agora parecia que éramos eu contra ele. Eu tinha virado o monstro. Juro que tentei com todas as forças não deixar isso acontecer, mas alguma coisa dentro de mim tinha quebrado. Os dias passavam assim: quase não nos falávamos mais, parecíamos estranhos dividindo o mesmo teto, não uma família. Até a Bia mudou — não queria mais carinho, virava as costas e saía de perto de mim. Eu me odiava.

O cheiro que vinha do quarto trancado era insuportável, um fedor de podre e umidade. Enchi a casa de odorizador, mas não adiantava porra nenhuma. A toalha que coloquei embaixo da porta ficava encharcada de uma água preta, e eu morria de medo de abrir e ver o estado daquilo, porque sabia que não ia poder fazer nada. Parecia que tinha alguma coisa lá dentro querendo sair, e a porta era só uma ilusão de segurança — não pra nos proteger dela, mas pra manter a mentira de que estávamos seguros. A casa estava apodrecendo, e a gente junto. Era uma prisão, mas era isso ou morar na rua. Eu era a responsável por proteger minha família, e isso estava me destruindo. Às vezes me sentia uma criança assustada fingindo ser adulta, sem ninguém pra recorrer.

Chegou a hora de fazer alguma coisa. Minha única saída era pedir pro dono do prédio trocar de apartamento. Não aguentava mais passar um dia naquele lugar. Quando ele veio visitar, a porta do quarto estava quase toda preta de mofo, e eu tinha pavor de abrir depois de tantos meses. Parecia errado entrar ali — estava quase completamente escuro por falta de janela, o mofo preto tinha tomado as paredes. O cheiro era tão forte que parecia que dava pra ver no ar. O buraco já estava tão grande que dava pra passar agachado. O dono ficou puto achando que fomos nós que estragamos tudo e não acreditou numa palavra do que eu contei. Chegamos perto do buraco, tentando não pisar naquela lama preta e nos pedaços de entulho, e olhamos esperando ver o apartamento 303. Só tinha uma parede de tijolos empilhados. O prédio tinha sido construído no final do século XIX e nunca foi totalmente demolido — só reformaram por cima porque estava “bom o suficiente” pra alugar pra gente como eu, desesperada e sem grana. Aquela parede de tijolos provavelmente estava ali há décadas.

Já estávamos quase com tudo empacotado pra mudar no dia seguinte quando a equipe de limpeza chegou. O quarto escuro ficou cheio de gente e luz — senti um peso enorme saindo do peito. Eles desmontaram os tijolos pra limpar a fonte do mofo e atrás encontraram uma poça de líquido com restos humanos boiando. Alguém tinha sido literalmente emparedado ali, tijolo por tijolo, até sufocar. Fiquei horrorizada só de pensar que a gente morou tanto tempo com um esqueleto do lado e que deixei meu próprio filho dormir no mesmo quarto que aquilo. Não quis saber mais nada, só queria cair fora e nunca mais olhar pra trás. O dono insistiu pra gente mudar pra outro apartamento no prédio, num andar diferente, por metade do preço até eu achar outro lugar. Decidi que precisávamos mudar de ares mesmo, procurei um monte de anúncio e achei um lugar num bairro diferente. Saímos dali o mais rápido que deu.

Fiquei aliviada de ir embora, mas o medo do que descobriram ficou comigo por muitos anos. Às vezes passo pelo bairro antigo e ainda sinto o mesmo frio na espinha do dia que olhei pro buraco pela última vez — mesmo o prédio já tendo sido demolido. Morar no Willow Manor hoje parece um pesadelo horrível, e ainda bem que o Matt era muito pequeno pra lembrar de alguma coisa. Nunca contei a verdade inteira pra ninguém, talvez de vergonha por não ter conseguido proteger minha família daquele horror todo. Falar sobre isso torna real, e eu prefiro fingir que nunca aconteceu de verdade.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon