segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Onde a Luz Caiu

Eu bem que gostaria de não estar de plantão no meu dia de folga. Mas aquela propriedade rural velha e acabada na beirada da cidade subiu na lista de demolição mais cedo do que eu esperava. Precisei dar uma passada pra conferir se não tinha nenhum morador de rua, pra equipe poder derrubar tudo sem sustos nem surpresas.

A primeira coisa que me chamou atenção foi o quanto a casa ficava longe da estrada. Acho que os donos originais gostavam mesmo era de privacidade. De longe, o lugar parecia até comum. De perto, os detalhes saltavam.

Trepadeiras subiam pelas paredes, rompendo pedaços do que um dia foi tinta branca. Canos enferrujados pendiam soltos, prontos pra despencar ao menor toque, e um capacho de boas-vindas jazia meio comido pelos ratos.

Quando pisei no limiar, algo mudou. Os pardais lá fora calaram a boca de uma vez, e o calorzinho da primavera virou um frio úmido e cansado. Fechei a porta atrás de mim e ela rangeu de um jeito estranho, quase intencional. Como se estivesse tentando falar alguma coisa que eu não conseguia entender direito.

Eu esperava que uma casa velha assim cheirasse a mofo ou podridão. Em vez disso, o ar trazia um leve perfume doce, floral. Jasmim, logo jasmim. Aqui não tem jasmim, muito menos numa casa abandonada sem ninguém pra regar. Mesmo assim o cheiro ficava ali, suave e teimoso, ficando mais claro conforme meus olhos se acostumavam com a penumbra.

Outra coisa esquisita: o interior parecia escuro demais, mesmo com sol entrando pelas janelas. A luz nunca caía de qualquer jeito. Ela escolhia lugares. Tocava só certos pontos, como se tivesse critério. Uma escova de cabelo jogada no chão. Um livro em cima da mesinha de centro. Um par de luvas de forno pendurado na parede da cozinha. Um presente de Natal ainda embrulhado embaixo de uma árvore seca. Um soldadinho de brinquedo nas tábuas empoeiradas. A luz evitava o vazio e se acomodava só nos objetos que pareciam ter história, como se a casa quisesse me mostrar eles de propósito.

O soldadinho era o mais estranho de todos. Estava lá no chão empoeirado, mas impecável. Limpo demais, como se alguém tivesse brincado com ele ontem. Ajoelhei pra olhar melhor. Nem uma partícula de poeira. A casa estava abandonada há pelo menos cinco anos.

Também não sabia o que pensar das sombras que ficavam pelos cantos. Eu só via pelo canto do olho. Pareciam sólidas demais pra serem só sombra, mas sem forma definida. Às vezes, quando eu tentava focar nelas de lado, elas escureciam mais, quase pulsando com um brilho abafado. Mas bastava virar a cabeça e pronto, sumiam. Enquanto eu revistava o térreo, ficava ouvindo um barulhinho delicado de páginas virando. Um estalinho leve, depois silêncio. Eu parava toda vez, certo de que não era coisa da minha cabeça. Mas quando ia atrás do som, não tinha livro nenhum. Nada.

Subi a escada velha de madeira pra conferir o andar de cima. A cada degrau, as tábuas rangiam de um jeito que parecia… pessoal. Não era o ranger comum de madeira velha. O ritmo mudava, o volume subia e descia, como se os rangidos estivessem tentando formar palavras presas ali dentro. “James, desce pra jantar”, pareceu murmurar um degrau. “Tá bom, mãe”, sussurrou o seguinte.

Na metade da escada, o vento lá fora ficou mais forte. Mas até isso não soava certo. Por baixo do barulho normal de ar batendo nas venezianas quebradas, eu ouvia uma melodia suave, uma mulher cantarolando. Quando parei pra escutar melhor, a música ficou cristalina. The Skye Boat Song. “Carry the lad that’s born to be king… over the sea to Skye.” Minha mãe cantava isso pra mim quando eu era pequeno.

No andar de cima o ar mudou. O cheiro leve de jasmim quase sumiu. Ficou mais frio, com uma quietude que parecia feita de propósito. A luz de uma única janela alcançava só um lugar: a maçaneta da porta no fim do corredor. As sombras aqui demoravam mais pra sumir do canto do olho. Principalmente perto daquela porta.

Quando segurei a maçaneta, o calor dela me assustou. A porta abriu quase sozinha, sem resistência, e no mesmo instante algo relaxou no ar. Soltei o ar sem querer. A casa pareceu soltar junto comigo.

Era um quartinho pequeno. A cama estava desarrumada, o cobertor intocado exceto por duas marcas suaves sob a poeira. Uma maior. Outra menor, encolhida bem pertinho. A luz do quarto escolhia de novo: um livro de receitas na mesinha de cabeceira, um livrinho infantil e um aquecedor portátil coberto de poeira. A janela estava bem fechada. O quarto parecia lacrado, como se tivesse prendido a respiração por anos. Cheguei mais perto do aquecedor. O botão estava quebrado. Um aquecedor avariado num quarto sem ventilação era uma tragédia anunciada.

Olhei de novo pra cama. As marcas iluminadas pelo sol estavam tão quietas, tão acomodadas, como se ninguém tivesse mexido nelas desde o dia em que foram feitas.

Liguei pra polícia local e avisei o que tinha encontrado. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer, só torcer pra que tratassem o caso com o respeito que merecia. Enquanto esperava eles chegarem, deixei um pequeno sinal de respeito. Tirei a poeira dos dois livros que a luz tinha escolhido. Ajeitei o cobertor com cuidado pra não apagar as marcas. Olhei o aquecedor e, com quase nenhum esforço, girei o botão quebrado de volta pro lugar. Um consertozinho bobo que poderia ter salvado os dois.

Na saída, fechei a porta do quarto. A maçaneta agora estava fria, igual ao resto da casa. O perfume de jasmim tinha sumido de vez. O vento lá fora era só vento. A escada não sussurrava mais sob meus pés, e o virar de páginas tinha calado. As sombras se esticavam de forma comum. A luz caía sem graça pelo chão.

Antes de sair, vi o soldadinho de novo. Agora não estava mais impecável — coberto de poeira, com umas teias de aranha penduradas no capacete. Sorri.

Uma paz quieta, inesperada mas firme, desceu sobre mim enquanto eu ia embora. A casa agora parecia vazia. Vazia de verdade.

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