quinta-feira, 4 de junho de 2026

O último andar do meu estacionamento está fechado. Eu desci lá mesmo assim

Preciso que alguém me diga que eu não estou ficando maluco.

Me mudei para a cidade recentemente e o estacionamento do meu apartamento fica numa garagem a um quarteirão e meio de distância. É chato, mas eu simplesmente aceitei como uma daquelas peculiaridades da grande cidade. No meu e-mail de boas-vindas me disseram para estacionar "apenas nos andares P4 e P5" e, como não tenho vontade de conhecer as empresas de guincho locais, obedeci.

O estacionamento tem cinco andares abaixo de um hotel turístico e, quando desço até o andar quatro e viro a esquina, o andar cinco está interditado. Há uns cones de trânsito e um cavalete dizendo que o andar cinco está fechado, "até segunda ordem."

Ok, isso é estranho, mas o cheiro de mofo vindo de lá me diz que é compreensível. Encontro uma vaga para o meu carro e deixo isso escapar da minha mente por um tempo — o apartamento novo, desfazer as malas e me acomodar no trabalho ocupam todo o espaço livre no meu cérebro como um jogo de Tetris vencedor. À medida que as semanas passam, porém, eu continuo checando. Me pego vagando até a barreira, tentando olhar para baixo e ver o que causou o fechamento. Por um tempo assumi que era um vazamento de água, porque quanto mais chego, mais opressor eu acho aquele cheiro de mofo. Me lembra dos verões de volta em casa, no Maine, cavando tralhas e relíquias antigas no sótão da minha avó. Sabe, acho que foi isso que despertou minha curiosidade no início. Uma garagem de concreto não deveria cheirar como um sótão de madeira. Então, às vezes depois do trabalho, eu vagava até lá e simplesmente... espiava para baixo. Sabe, dava uma olhada nas coisas? Você provavelmente está pensando naquela frase sobre gatos e curiosidade, mas eu não estava.

Enfim, eu não só moro na cidade, eu moro numa cidade que leva seus esportes a sério. E, embora eu fique feliz em sentar e assistir a um jogo de beisebol (atividade perfeita de verão) ou ver a Copa Stanley, eu não sou do tipo que se preocupa com a classificação. Nunca foi meu foco principal. Meu time ganha ou meu time perde, a vida continua de qualquer jeito. Então, quando nosso time local se classificou para os playoffs, meu único sinal foi a garagem ficando absolutamente lotada. Gente pra todo lado, literalmente cada vaga ocupada. Enquanto eu desço o carro até o quarto andar, engatinhando numa velocidade de lesma para não atingir os fãs chapados cambaleando e oscilando, quase como se o álcool tivesse lhes dado fome pela grade frontal de um carro. Olha, sim, eu deveria me manter mais informado sobre o que está acontecendo, mas acabamos de atualizar o software no trabalho e isso tem ocupado todo o meu tempo. Então, isso é a última coisa que eu queria ver numa sexta-feira. Eu queria ir para casa, fechar as persianas, tomar um Moxie e assistir a um filme de terror merda, e eu estou começando a estressar porque cada vaga está ocupada—

E eu noto que o andar cinco está aberto.

Os cones ainda estão lá, mas foram empurrados para o lado, e o cavalete está encostado numa parede. Por um breve momento me pergunto se é a administração da garagem ou algum fã bêbado fazendo merda antes de dizer a mim mesmo Seu passe de estacionamento diz andar cinco e eu dirijo o carro pela rampa. A primeira coisa que noto é que tudo parece... completamente normal. Ok, então tem tipo um pouco de terra ou cisco espalhado por todo lado, mas tem um monte de vasos de planta lá fora, então talvez seja aqui que eles guardam as coisas? De qualquer forma, eu era a única pessoa nesse andar, então tinha um pouco de alívio da devassidão e da farra lá em cima. Na verdade, assim que saí do carro, notei que o barulho não estava apenas abafado — tinha sumido. Nem mesmo os cânticos e gritos mais altos chegavam até aqui. As luzes estavam visivelmente mais fracas também, as que funcionavam. Muitas estavam simplesmente completamente apagadas, mergulhando a área na escuridão, e várias outras piscavam fracamente. Ficando do lado de fora do meu carro, longe do barulho e da algazarra da cidade, me dei conta de quão silencioso estava. Não experimentava silêncio assim desde a mudança. Fiquei ali por um momento, respirando fundo e soltando o ar, maravilhado com o quão alto era sem nenhuma cacofonia externa para interromper. Quase pensei que veria minha respiração, de tão frio que estava. E, uma vez que pensei nisso, me ocorreu que isso era estranho. Estava anormalmente quente lá fora, não deveria estar tão frio, andar mais baixo seja lá o que for.

E aí eu ouvi aquele sussurro. Tipo, eu ouvi, mas não de fora? Eu ouço essa voz, e não consigo identificar de onde, mas juro que já ouvi essa voz. É doce, mas rouca, grave, e é como uma voz que eu esperei a vida inteira para ouvir. Tem um cheiro, por trás do mofo vindo da terra. É azedo, como podre, mas de um jeito é intoxicante. A única forma que consigo explicar é como um uísque escocês muito turfoso. É horrível e, ainda assim, é tudo que eu sempre quis provar. Ouço uma voz de novo na minha cabeça e ela fala meu nome...

E a próxima coisa que soube foi que estava acordando no banco de trás do meu carro, minha camisa literalmente grudada na pele, de tão encharcado de suor que estou. Tato pelo meu celular, e são quase onze da manhã. Graças a Deus era fim de semana, então podia lidar com essa crise sem me atrasar para o trabalho. Que porra tinha acontecido? Meu primeiro pensamento foi bebida, mas não toquei na porra há três anos. Me empurrei para fora do carro e olhei em volta e percebi que estava de volta ao andar quatro. Lancei um olhar para a rampa e o cavalete estava apoiado do mesmo jeito de todas as vezes anteriores.

Fiz a coisa que faço de melhor e imediatamente comecei a ignorar. Fui para casa, fiz café, olhei receitas para preparar refeições, até assisti a um filme. Li três capítulos do livro que não tocava há seis meses, depois liguei para minha mãe e falei com ela por quase duas horas. Quando estava tomando banho e me preparando para dormir, já tinha me convencido de que era exaustão. Uma semana longa no trabalho tinha me desgastado e eu tinha sonhado que estacionei no andar cinco. Que sonho merda, ri enquanto me deitava para descansar.

Usei a desculpa de exaustão para pedir meus mantimentos entregues no dia seguinte. Disse a mim mesmo que era apenas um erro simples quando o aplicativo travou três vezes. Depois que reiniciei meu celular e o aplicativo travou mais seis vezes, admiti que estava evitando meu carro. Estava evitando aquela garagem de estacionamento. E isso é absolutamente loucura, é meu carro. E não estou só fazendo pagamentos dele, estou pagando para estacioná-lo. Peguei um moletom e saí pela porta. Não vou ficar com medo por causa de uma semana ruim. Repito isso como um mantra enquanto caminho pela calçada, desviando das multidões de adolescentes e turistas. Quando estou nas escadas da garagem, estou sussurrando, e quando chego ao meu carro estou dizendo em voz alta para mim mesmo. Coloco minha mão na maçaneta da porta, ainda falando em voz alta enquanto olho para o cavalete bloqueando o andar cinco, e começo a rir.

Digo, eu estou em pé, falando sozinho numa garagem de estacionamento vazia e com medo de espaço. Digo, nem é uma coisa! Espaço é a falta de uma coisa! Sinto minhas bochechas corarem, envergonhado e humilhado por estar em pé sozinho numa garagem de estacionamento e balbuciando para mim mesmo. Enquanto meu cérebro resgata cem outros momentos em que me senti envergonhado ou humilhado, solto a maçaneta e marcho até o cavalete. Puxo meu pé para trás e acerto bem no centro de "até segunda ordem" e o plástico é lançado pela rampa abaixo. Ele cai no concreto lá embaixo com um barulho que eu gostaria que fosse mais alto, porque imediatamente depois de chutá-lo ouço meu nome sendo chamado de novo. Não é na minha cabeça dessa vez, e eu giro para verificar a extensão da garagem, embora eu saiba de onde veio. Começo a descer a rampa enquanto a adrenalina enche minha corrente sanguínea. Minha cabeça fica leve, eu me lembro disso agora. Cheguei ao fim da rampa e virei a esquina.

Uma figura está me esperando. É alta, e magra, mas ainda carrega um peso. Eles chamam meu nome de novo e tudo que consigo distinguir é sua forma, nenhuma feição ou semblante. Havia aquele cheiro opressor de terra e podre e ferro.

Eu deveria correr, mas tudo que quero é que essa figura me toque, me abrace. Quero que ela me envolva, me envolva por completo. Sei que ela me protegerá do mundo. Um abraço, um grande abraço de urso para me segurar e me proteger de todo o mundo, é tudo que preciso. Meus tênis arranham o concreto áspero enquanto me aproximo. Eles chamam meu nome de novo e soa como mel sendo gotejado nos meus ouvidos. Tudo que eu sempre quis na vida — a admiração, o respeito e o amor — está tudo ali nesse único grande abraço. Estou quase lá, está tão perto.

Acabei de acordar na rampa do carro. Já fazem horas desde que entrei aqui e tudo que quero é sair. Estou tentando convencer minhas pernas a se moverem e acho que ouço uma voz de novo.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O gravador de voz disse que eu não passaria da meia-noite. Estou começando a achar que ele estava certo

Estou escrevendo isso porque a gravação disse que eu não passaria da meia-noite. Eu sei como isso soa. No começo, eu também achei. Mas agora estou sem outras explicações, e não tenho mais muito tempo para fingir que isso é um mal-entendido.

O gravador de voz apareceu no meu apartamento há três dias. Eu não comprei. Eu não pedi nada. Ele simplesmente… estava lá. Em cima do balcão da cozinha, como se sempre tivesse feito parte da bagunça que eu aprendi a ignorar. Modelo antigo. Sem marca que eu reconheça. Uma fita cassete já dentro. A primeira coisa que fiz foi rebobiná-la.

Havia uma gravação já carregada. Era eu. Dormindo. Pelo menos, soava como eu. O mesmo padrão de respiração que eu já ouvi nos meus próprios fones de ouvido quando deixo os memos de voz ligados sem querer. A mesma pequena pausa que eu dou antes de expirar completamente. Mas a data não fazia sentido. Estava datada para o dia seguinte.

Eu lembro de ter rido na primeira vez que ouvi. Rí de verdade, alto. Eu me disse que alguém estava me sacaneando — talvez o inquilino anterior tenha deixado para trás como uma piada, ou o proprietário tinha um senso de humor torto. Aí eu ouvi a segunda gravação. Essa não tinha ninguém dormindo. Apenas silêncio por oito segundos. Depois a minha voz, acordada, alerta — alerta demais: "Se você está ouvindo isso cedo demais, não durma naquele quarto de novo." Houve um clique depois disso. Como se o gravador tivesse sido colocado no chão.

Eu verifiquei todos os cômodos do meu apartamento depois daquilo. Nada estava diferente. Exceto que eu parei de dormir no quarto.

Ontem à noite, eu me mudei para o sofá. Foi quando a terceira gravação apareceu. Eu não gravei. Mas ela já estava lá esperando quando eu apertei reproduzir. E ela tem apenas uma frase: "Você se mudou. Isso é bom. Nós nos adaptamos." Depois disso, tem respiração de novo. Não é a minha desta vez. Muito perto do microfone. Muito constante. E então a minha voz — de novo, mas errada de algum jeito, como se estivesse sendo moldada no meio da frase: "Você está escrevendo isso agora. Isso significa que você ainda acha que pode sair antes da meia-noite."

Eu parei a gravação imediatamente depois daquilo. Porque eu não estava escrevendo nada quando ouvi. Mas agora eu estou. E o gravador está na minha mesa de novo. Exceto que eu não o movi para lá.

Eu fiquei parado por quase uma hora depois daquilo. O apartamento fazia seus sons de sempre — canos rangendo, o compressor da geladeira ligando e desligando. Mas por baixo de tudo, eu ficava pensando que conseguia ouvir outra coisa. Um zumbido baixo, quase imperceptível, como um fio vibrando dentro das paredes. Ou talvez fosse apenas o meu pulso nos meus ouvidos.

Por volta das 22h, eu decidi testar uma coisa. Eu peguei o gravador e coloquei dentro do micro-ondas. Não para destruí-lo — eu não era tão corajoso — mas para ver se ele ainda conseguiria se mover sozinho. Eu fechei a porta, não coloquei tempo, apenas o deixei lá. Depois eu sentei no sofá com uma linha de visão limpa para a cozinha.

Às 22h17, eu pisquei. Foi só isso que levou. Um piscar de olhos. A porta do micro-ondas estava aberta. O gravador estava de volta no balcão, a luz vermelha piscando suavemente.

Eu não apertei reproduzir imediatamente. Em vez disso, fiz chá. Eu nunca fiz chá na minha vida. Mas eu precisava de alguma coisa para fazer com as mãos que não fosse apertar reproduzir.

Às 23h03, eu cedi.

A quarta gravação começou com estática — não o tipo normal, mas rítmica, quase como sílabas sendo apagadas em tempo real. Depois a minha voz de novo, mas em camadas. Duas versões de mim falando ao mesmo tempo, uma ligeiramente atrasada em relação à outra, como um eco ruim.

"Você acha que o apartamento é a gaiola. Não é. A gaiola é o tempo entre quando você adormece e quando acorda. Nós temos vivido lá. Você simplesmente nunca notou."

Uma pausa. Depois, mais baixo:

"Não olhe o armário do seu quarto."

Eu não olhei. Eu juro que não olhei. Mas os meus pés me levaram lá mesmo assim.

A porta já estava aberta dois centímetros. Ela nunca fica aberta. Eu a mantenho fechada porque não tem nada lá dentro exceto casacos de inverno e um aspirador de pó.

Eu empurrei o resto do caminho.

Os casacos estavam rearranjados. Não jogados para lá e para cá — rearranjados. Uma manga do meu parka estava amarrada em um nó frouxo em volta da mangueira do aspirador. E escrito na poeira da parede, em letras maiúsculas grandes o suficiente para que eu tivesse que dar um passo para trás para ler tudo:

VOCÊ DORME AQUI. NÓS OBSERVAMOS. HOJE À NOITE É DIFERENTE.

São 23h47 agora. O gravador está na minha mesa de novo, mesmo que eu o tenha colocado na pia do banheiro com uma panela em cima. Eu não sei como ele continua saindo dali.

O meu celular diz meia-noite em treze minutos. Eu tenho escrito essa história toda num aplicativo de notas, mas agora estou olhando para a tela e percebendo — eu não estou mais digitando. Essas últimas frases estão aparecendo sozinhas. Não apagadas. Não sobrescritas. Simplesmente… adicionadas.

A mais recente acabou de aparecer: "Você estava certo em não olhar o armário uma segunda vez. Mas nós não estamos mais no armário."

Eu não vou me virar. Eu vou continuar de frente para a tela até a meia-noite.

Esse é o acordo, não é? É isso que a gravação quis dizer. "Você ainda acha que pode sair antes da meia-noite."

Não sair do apartamento. Sair da história. Parar de escrever. Desviar o olhar. Fingir que isso é ficção.

Mas eu não posso, porque toda vez que tento fechar o aplicativo, uma nova linha aparece. A mais recente: "Sete minutos. Não pisque de novo."

Eu não sei quem são os "nós". Eu não sei por que eles precisam que eu durma. Mas eu sei uma coisa com certeza agora.

Quando eu toquei a quarta gravação de novo agora — aquela que eu não fiz — havia alguma coisa no final que eu não tinha percebido antes. Depois que a respiração para, e depois que a versão errada da minha voz desaparece, há um sussurro. Baixo o suficiente para que você precisasse de fones de ouvido para ouvir.

Ele diz: "A meia-noite é apenas quando nós começamos a falar de volta."

O cursor está piscando. Eu não estou movendo as minhas mãos.

Quatro minutos. A porta do armário atrás de mim acabou de ranger.

Eu não vou verificar. Eu não vou parar de escrever. Essa é a única regra que me resta.

Os Caídos

Desde os primeiros dias da minha memória, a sombra da morte paira sobre mim, uma presença espectral que me marcava como diferente. Minha infância era uma tapeçaria tecida com encontros arrepiantes com a mortalidade, cada fio um lembrete do mundo invisível que sussurrava em meu ouvido.

O primeiro encontro veio com um acidente de carro. Com seis anos, eu brincava no parque quando o rangido dos pneus quebrou a paz. O tempo parecia se esticar enquanto eu testemunhava o veículo perder o controle, culminando em um acidente catastrófico. No meio do tumulto, um sussurro gelado acariciou meu ouvido: "Somos os caídos que não seguem."

Aos nove, o coro sombrio ecoou novamente. Era um dia ensolarado na piscina da comunidade, cheio de risos e respingos, subitamente silenciado quando uma criança de quatro anos foi retirada sem vida da água. No meio dos gritos frenéticos por ajuda, o mesmo sussurro arrepiante retornou, um murmúrio sombrio se infiltrando em minha consciência.

O encontro mais assombrado ocorreu aos quinze, testemunhando a queda fatal de um trabalhador da construção de um arranha-céu. A cena horrível se desdobrou na realidade nítida, acompanhada por aquele sussurro agora familiar, mais insistente: "Somos os caídos que não seguem."

Esses encontros com a morte me deixaram isolado, carregando uma verdade secreta que eu não conseguia compreender. Conforme avancei para a idade adulta, minha busca por entender essa conexão se intensificou. Eu me aprofundei no ocultismo, buscando respostas em tomos esotéricos e lendas sombrias.

Minha busca me levou a um prédio abandonado, rumorado como um nexo de atividade paranormal. Foi lá, no meio do deterioro e lendas sussurradas, que finalmente os encontrei - os arquitetos dos sussurros. Eles surgiram das trevas, uma congregação de figuras sombrias com olhos que pareciam carregar séculos de tristeza.

Suas vozes, uma mistura arrepiante de desespero e autoridade, me envolveram. "Você sempre foi tocado pela mão fria do outro mundo", entoaram, suas palavras como gelo contra minha pele. "Desde a sua juventude, nós o observamos, sentimos sua sintonia com a morte. Não é por acaso que a tragédia é sua companheira constante."

Eles se revelaram como os caídos, anjos exilados do céu, mas não alinhados com Lúcifer. Tinham escolhido um caminho de condenação solitária, vagando pela Terra, alimentando-se da angústia e desespero que cultivavam.

Em sua recordação solene, falaram de uma guerra que uma vez rugia nos céus, uma batalha celestial pelas almas da humanidade entre o Todo-Poderoso e Lúcifer. No meio desse conflito cósmico, eram anjos dilacerados entre a obediência divina e o atrativo da rebelião. Sua indecisão levou à sua queda, expulsos do céu, nem com Deus nem com Lúcifer, condenados a vagar pela Terra. Cortados do poder divino e infernal, eram forçados a se sustentar semeando tragédias entre a humanidade.

Enquanto falavam, o ar ficava denso com a presença sinistra deles, uma escuridão tangível que parecia distorcer a própria realidade. "Somos os caídos que não seguem", proclamaram, seu tom uma mistura de convite e advertência. "Você, que sentiu nosso toque frio desde a infância, está preparado para abraçar seu destino? Você nos liderará?"

Então, com uma gravidade que parecia dobrar o próprio ar ao nosso redor, apresentaram seu ultimato. "Você tem seis dias", declararam, "seis dias para decidir se se juntará a nós em nossas peregrinações eternas, para nos liderar, para moldar os destinos tanto dos vivos quanto dos mortos."

Naquele momento, a magnitude de sua proposta pairava sobre mim. Liderá-los poderia significar uma descida a um reino de sombras e tristeza, uma jornada além da compreensão mortal. No entanto, havia um fascínio, um chamado para desvendar a extensão completa da minha conexão com essas entidades enigmáticas. A escolha estava diante de mim, envolta em escuridão e incerteza, mas me chamando para um destino que sussurrava meu nome desde a infância.

O relógio estava correndo, cada segundo um sussurro do passado, cada dia um passo mais perto de uma decisão que definiria minha existência. Aceitarei a oferta deles e liderarei os caídos, ou recusarei esse caminho sombrio e buscarei um destino diferente?

Descida ao Céu

Sei que todos vocês têm boas intenções, mas estou realmente cansado de ser questionado sobre minha ascensão. Tentei deixar claro que era um assunto doloroso, mas isso só pareceu instigar vocês a insistirem ainda mais. Entendo que a transcendência espiritual soa como um sonho realizado, que contemplar a face da realidade suprema traria algum tipo de paz interior. Mas não foi nada assim. Então, embora isso me perturbe mais do que vocês podem imaginar, finalmente cedi. Escrevi isso para explicar, de uma vez por todas, o que aconteceu, mas depois disso, nada de perguntas sobre o assunto, nunca mais, tá bom? Tô falando sério pra caralho.

Tudo aconteceu enquanto eu estava ligado à Fundação Deísta Livre. Não tomem isso como uma recomendação; por favor, não lotem os templos deles ou persigam seus monges exigindo aprender os segredos do universo. Eu era apenas um cliente vagamente associado quando aconteceu, e não faço ideia de quanto crédito eles podem realmente merecer. Sou um buscador, e ao longo da vida fiz parte de várias organizações. Até trilhei meu próprio caminho, baseado no que sentia no coração. Foi isso a verdadeira fonte da minha experiência? Nem eu sei.

Mas me lembro de como tudo começou. Era uma manhã de sábado fresca, e como já havia feito tantas vezes, eu estava no templo, um entre muitos suplicantes no salão central, sentado em almofadas perfumadas, meditando juntos. Os monges mantinham incensários queimando ao redor do altar, com acólitos abanando a fumaça com folhas de palmeira, espalhando-a sobre nossas cabeças. Alguns suplicantes murmuravam, outros entoavam cânticos, mas muitos, como eu, preferiam ficar em silêncio.

Nem sei o que desencadeou aquilo. Eu estava lá, sentado, tentando me conectar com o universo em minha mente, sem desejar resultados específicos. Sabia que deixar meu ego guiar meu caminho era uma estrada certa pro nada, e me esforçava pra manter isso sob controle. No fundo, porém, eu nunca conseguia evitar sentir que demonstrava minha superioridade e valor ao escolher esse caminho, em vez da realidade degradante e mundana do dia a dia — a busca incessante por prazer, a cultura pop entorpecente, as distrações de baixo nível. Eu achava que isso tudo era inferior a mim. Minha meditação não era só uma prática; era um ato de desafio, um caminho justo pra enfrentar a sordidez da existência. Admito que talvez eu tenha cultivado um ego silencioso sobre meu valor espiritual. Não estou dizendo isso pra me exaltar ou julgar alguém — só estou sendo honesto pra que vocês entendam de onde eu realmente vinha.

Pelo que sei, eu estava fazendo o que sempre fazia; não havia nada de especial naquele dia. Mas a primeira mudança que notei foi que o barulho ao redor ficou mais baixo, o volume diminuindo suavemente, como se ele, ou eu, estivesse de alguma forma muito distante. Tentei não reagir; parecia um bom sinal, que eu finalmente estava me desconectando do mundo exterior, um progresso na minha prática de meditação. Então, sem aviso, senti uma mudança. Não um despertar suave, mas um deslocamento brusco, quase violento. O templo, os sons, o próprio ar, tudo se dissipou. Não era nada do que eu esperava que a ascensão fosse.

De repente, eu estava em outro lugar. Pra minha grande decepção, não era um banco de nuvens brilhante, nem um espaço liminar onde Deus nos olhava com benevolência. Era uma praça lotada, o céu com uma tonalidade doentia de marrom-esverdeado. Eu me vi cercado por uma multidão vasta, agitada e indiferente. O ar ali não era etéreo; era abafado, meio mofado, com um leve cheiro de ozônio e poeira antiga. À minha frente, ao longe, brilhando reluzentemente, havia um portão dourado. Era exatamente como a entrada do Céu descrita em incontáveis pinturas e experiências de quase-morte. A multidão avançava lentamente, atraída inexoravelmente para ele. Não parecia haver muita escolha a não ser seguir junto, então deixei a multidão me levar suavemente pra frente.

Tive bastante tempo pra olhar ao redor; a multidão era uma mistura desconcertante. Como esperado, havia idosos curvados que pareciam ter saído direto de seus leitos de morte; eles viravam a cabeça pra lá e pra cá, observando a multidão, muitos com a mesma expressão vazia e inquieta. Alguns eram incrivelmente magros, pouco mais que esqueletos ambulantes; eles tendiam a se apoiar em quem estivesse por perto. Isso lhes rendia olhares indignados, mas nada além; parecia claro que não tinham controle sobre isso. Outros eram morbidamente obesos, de pé por conta própria pela primeira vez em anos, sem necessidade do andador de alumínio com bolinhas de tênis nas pernas dianteiras. A densidade esmagadora da multidão os deixava avançar sozinhos, no ritmo lento ao qual estavam acostumados.

Muitos eram pessoas de meia-idade cansadas, marcadas por doenças crônicas; mais do que qualquer outro ali, eles pareciam em paz, contentes em arrastar os pés junto com os outros. Alguns piscavam sob a luz incomum; embora seus olhos mostrassem o branco opaco da cegueira causada por diabetes, eles aparentemente podiam ver de novo, mas pareciam surpresos demais pra aproveitar. Um cara que nunca vou esquecer — tudo o que restava de seu rosto era um único olho. Pelo menos metade da cabeça dele estava faltando, o vazio chegando quase até a nuca, a garganta costurada exceto por dois pequenos buracos, talvez pra respirar e comer. Eu tinha ouvido falar de casos graves de câncer de cabeça assim, mas nunca tinha visto um. Ele parecia estar bem, no entanto, seus movimentos animados transmitindo alegria e alívio.

Havia jovens agitados, claramente chegados ali por mortes súbitas e violentas, acidentes ou façanhas arriscadas. Eles se denunciavam pelas expressões horrorizadas e súplicas inúteis por outra chance; por fim, caíam em um silêncio emburrado e se juntavam aos outros, só se movendo quando alguém os empurrava por trás. Alguns seguravam membros decepados com o braço que lhes restava, sem saber o que fazer com eles. Outros lutavam pra remover vigas de madeira ou espetos de aço de seus torsos, alguns recebendo ajuda de quem estava por perto, só pra serem forçados a carregar seus instrumentos de empalamento, já que não havia onde colocá-los. Uma segurava a própria cabeça com as duas mãos, o sangue nos ombros denunciando sua lesão; de vez em quando, ela erguia a cabeça pra olhar melhor ao redor, mas rapidamente a colocava de volta no coto ensanguentado do pescoço, claramente desconfortável com essa nova habilidade.

Eu não tinha certeza se vi alguém que se parecesse comigo. Havia algumas túnicas esvoaçantes aqui e ali, mas eu não sabia se eram buscadores; podia ser apenas o estilo deles. A multidão densa tornava impossível fazer muito além de arrastar os pés rumo aos portões dourados. Notei que alguns recém-chegados apareciam no meio da multidão, assustando seus novos vizinhos. Não sei se minha chegada causou algum protesto; eu estava chocado demais pra ter qualquer noção de mim mesmo.

Senti um empurrão do meu lado esquerdo; um novo suplicante havia chegado. Uma dor cortante explodiu no meu torso; senti o aço frio rasgando minha carne. Virei pra franzir o cenho diante dessa afronta, e imediatamente minhas palavras viraram pedra na garganta. Ao meu lado estava uma espécie de sacerdotisa gótica, suas vestes pretas como teias de aranha mal escondendo os detalhes de seu corpo voluptuoso. A pele exposta era tão pálida quanto a carne mal coberta. Seus olhos grandes e assombrosos, exquisitamente maquiados de preto, eram suficientes pra me dar arrepios, mas fui imediatamente distraído pelas lâminas de metal saindo de sua cabeça sem cabelo, perfurando seu véu. Rapidamente, percebi que o resto do corpo dela estava coberto pelas mesmas lâminas, embora dobradas, coladas à pele. Uma delas aparentemente havia se projetado o suficiente pra cortar um talho no meu flanco.

“Delícia do Diabo!” ela exclamou. “Pela minha vontade, e pelo poder concedido pela escuridão infinita, transcendi o mundo maldito e cheguei aqui!” Seu sorriso selvagem pontuava o olhar febril em seus olhos; eu não encontrava força, nem coragem, pra desviar o olhar. Sua presença por si só azedava o ar.

A expressão dela suavizou, e ela me olhou com uma impassividade firme, como uma cobra avaliando sua próxima refeição. “Eu sou Thelema,” ela declarou. “E quem seria você?”

“Eu... hum... Julian,” ofereci timidamente.

O rosto dela se contorceu em zombaria. “Então eu sou Norma, embora ninguém mais me chame assim.” Ela me olhou de cima a baixo com óbvia desaprovação. “Você realmente usa seu nome de nascimento?” Ela jogou a cabeça pra trás e gargalhou. “Tem de tudo, né?”

Ela me fixou com um olhar perplexo. “Você realmente fez do jeito difícil? Vida limpa, estilo de vida estético, meditação sem fim, esse tipo de coisa?”

“Bem, eu... sim.”

Ela gargalhou de novo. “Então tenho que parabenizar seu esforço! Eu nunca tive paciência pra nada disso. Só trabalhei duro pra encontrar atalhos.”

Temendo a resposta, perguntei mesmo assim. “Então como você conseguiu?”

Ela deu de ombros. “Sou uma buscadora. Um pouco de magia negra aqui, um pouco de bruxaria ali... mas ultimamente, ando mais focada em magia ritual.” Timidamente, ela passou os olhos pelo seu corpo curvilíneo. “Principalmente magia sexual. Você já tentou isso?”

“Não!” retruquei. “Meu caminho atual é celibatário.”

Ela balançou a cabeça suavemente enquanto uma gargalhada gutural crescia em volume. “Nossa, seu pobre iludido. A vida é pra ser vivida! O universo nos oferece muitos prazeres! Ele não quer que renunciemos à sua abundância! Ele quer que sejamos felizes!” Ela estalou a língua ao ver minha túnica marrom simples. “Você realmente viveu a vida no modo difícil, hein? Admito, sua alma tá menos manchada que a minha, mas que diferença faz se acabamos no mesmo lugar?”

Eu me esforcei pra controlar minha raiva. “Não acredito que alguém como você tem permissão pra entrar no Céu.”

“Não só permitido, mas bem-vindo!” ela exclamou, jogando os braços pra cima, o único lugar onde havia liberdade de movimento. “Você já ouviu o ditado, né? Existem muitos caminhos, mas só um destino!”

Fechei os olhos com força e tentei ignorar o ambiente. Eu tinha aprendido a me desconectar do mundo real durante a meditação, e tentei desesperadamente fazer isso ali. A multidão esmagadora, seus cheiros variados mas uniformemente horríveis, e o lamento dos recém-falecidos tornavam isso impossível. Abri os olhos pra ver Thelema ainda ao meu lado, os olhos arregalados com uma insanidade alegre.

“Então, qual foi o seu gatilho?” perguntei. “O que finalmente te deixou ascender?”

“Nada que eu não tenha feito várias vezes antes,” ela respondeu. “Apenas o último virgem, e o ritual profano de sempre.” Ela me fixou com um olhar penetrante. “Você sabe como é difícil encontrar virgens hoje em dia? Acabei tendo que recorrer a reclusos desempregados. Você não faz ideia de quanto tempo passei navegando por fóruns anônimos, procurando otários crédulos. Enviei tantos nudes que às vezes me sentia uma vadia. Mas valeu a pena no final!”

Eu sentia essa conversa manchando minha alma, mas ela continuou. “Então lá estava eu, com meu último trouxa, quicando ritmicamente em cima dele. Esse tinha um pau bem grande. E tivemos um dos maiores orgasmos simultâneos que já tive.” Ela inclinou a cabeça pro lado. “Talvez tenha sido isso. A maioria deles goza rápido demais e depois tenta mentir sobre isso.” Um sorriso maligno se espalhou por seu rosto. “Finalmente, valeu a pena! Aqui estou!”

Olhei pra frente, sem resposta. “Qual o problema?” ela perguntou. “Você também conseguiu, não foi?”

“Não acredito que o Céu recompensa pessoas como você,” rosnei. “Você é o oposto de tudo que considero iluminação.”

“Eu te disse!” ela comemorou. “A vida é pra ser vivida! O universo quer que você seja feliz! Não todo engarrafado por dentro, negando sua natureza. Nunca houve motivo pra ser tão duro consigo mesmo!”

“Acho que não entendo a natureza do Céu,” concluí finalmente. Notei que os portões dourados estavam mais próximos, e senti alívio que esse sofrimento logo acabaria.

Senti um empurrão brutal por trás, seguido de um rugido feral. Fechei os olhos e me encolhi, temendo o que vinha a seguir, surpreso ao ouvir várias vozes femininas gritando de forma semelhante. Quando isso acalmou, alguém gritou no meu ouvido. “Sai da frente, plebeu!”

Abri os olhos pra ver Thelema olhando atrás de mim, os olhos arregalados de espanto, o rosto cheio de deleite. Virei pra ver um peito em forma de barril coberto de peles de animais. Estiquei o pescoço pra cima pra ver a cabeça sobre aqueles ombros; seu olhar feroz envergonhava o de Thelema. Num dia cheio de horrores e depravações, isso era mais do que eu podia aguentar.

“Eu disse, sai da frente! O Novo Senhor das Trevas exige!” Seu peito inchou ainda mais; a ameaça parecia jorrar debaixo de suas roupas bárbaras.

“Não posso!” retruquei. “Ninguém aqui pode se mover!”

“Ah, você vai se mover,” ele rosnou. “Todos vocês vão.”

Notei que sua mão segurava as pontas de várias correntes enferrujadas. Seguindo-as, fiquei chocado ao ver que todas estavam ligadas a um grupo de mulheres emaciadas e trêmulas atrás dele. Cada uma vestia roupas rasgadas quase ao nada; por baixo, a pele exibia vergões, hematomas e feridas sangrentas. As correntes estavam presas a coleiras com espinhos ao redor de seus pescoços, mas os espinhos ficavam do lado de dentro, cravados na carne. O olhar em seus rostos me desconcertou; todas pareciam claramente quebradas e traumatizadas, mas cada uma tinha um sorriso incongruente, a felicidade do sorriso contrastando com o medo em seus rostos e o terror nos olhos.

“Que porra você fez com elas?” desafiei, finalmente encontrando minha voz.

“Exatamente o que prometi!” ele trovejou. “Elas sabiam que o caminho era cheio de tormento e dor! Entraram nesse pacto de livre vontade! E eu cumpri!”

“É!” uma das mulheres gritou, a voz gorgolejante. “Aqui estamos, na frente do Céu!”

“Deixa ele em paz!” gritou outra. “Ele cumpriu a palavra! Finalmente, valeu a pena!”

Ele se inclinou pra mim; seu rosto estava a centímetros do meu. Um fedor horrível saía de sua boca; parte podia ser de sangue azedo, mas a maior parte era indizível. Engasgando involuntariamente, tentei recuar. “E agora,” ele disse simplesmente, “sai da frente.”

Ele empurrou meu ombro; pra minha surpresa, tropecei pro lado. Olhando ao redor, percebi que a multidão havia se aberto na minha frente. Com um sorriso presunçoso, ele avançou, dando um puxão nas correntes. Suas mulheres tropeçaram, depois o seguiram. Uma caiu no chão; ela gritou de dor. Ele se virou, os olhos furiosos, e puxou a corrente dela. “De pé, bruxa!” Ela gritou de forma patética enquanto tentava se equilibrar. Ele marchou adiante, alheio à dor dela. “Abram caminho pro Novo Senhor das Trevas!” ele rugiu, deslizando pelo corredor estreito que se formara na multidão. Enquanto a multidão o aclamava, ele e seu séquito passaram, o caminho se fechando atrás deles.

“Nossa!” Thelema exclamou. “Você acredita nisso?”

“Nem por um segundo,” murmurei. Tantas das minhas suposições sobre a natureza de Deus e do universo desmoronaram enquanto eu as ponderava impotente.

“A audácia do caminho dele!” ela exclamou. “Tortura! Magia de sangue! Você tem que admirar a coragem!”

“Tenho mesmo,” murmurei.

Thelema me olhou de novo. Dessa vez, parecia simpatia genuína, o que achei desconcertante. “Não leve tão a sério!” ela aconselhou. “Você chegou aqui tanto quanto ele, afinal! Pode haver muitos caminhos, mas o destino é o mesmo!”

Eu não conseguia entender o que acabara de testemunhar. Os gnósticos ensinavam que Deus era completamente indiferente ao nosso sofrimento, mas nunca a evidência tinha sido tão clara. Tinha que haver uma resposta pra tudo isso, e eu esperava que estivesse além daqueles portões dourados.

“Se for tudo bem pra você,” disse, virando pra Thelema, “prefiro só focar em passar por aqueles portões e descobrir como é o Céu.”

Thelema pareceu melancólica. “Como quiser,” ela respondeu. “Embora eu esperasse te encontrar do outro lado. Estava ansiosa pra explorar esse novo território com você.”

Franzi o cenho enquanto a olhava de cima a baixo. “Acho que você não é meu tipo.”

“E que tipo seria esse?” ela retrucou. “Bonita? Disposta? Espiritualmente centrada? Acho que temos muito em comum.”

“Talvez alguém que não parecesse uma faca suíça desdobrada,” resmunguei.

Ela suspirou com indignação. “Pensei que você fosse diferente,” ela disparou. “Mas você é como todos os outros. Nem consegue ver além da superfície.”

Virei-me dela com raiva, focando meu olhar nos portões dourados, que se aproximavam cada vez mais. Logo, disse a mim mesmo, esse sofrimento acabaria.

Algo empurrou meu lado direito; isso foi seguido por gorgolejos fervorosos e vômitos repetidos. Depois de tudo o que aconteceu hoje, parecia o menor dos meus problemas. Após uma rodada de tosse violenta, meus ouvidos foram subitamente atingidos por um lamento agudo. Redobrei meus esforços pra ignorar o que acontecia ao meu redor.

“Mamãe!” a voz aguda gritou. “Quero minha mamãe!”

Virei pra olhar; ao meu lado estava uma garotinha, as roupas encharcadas, as tranças em seu cabelo loiro-acinzentado se desfazendo. Ela tremia incontrolavelmente.

“O que aconteceu com você?” perguntei, incapaz de manter meu distanciamento.

O rosto da garotinha ficou sombrio. “Mamãe disse que ia fazer tudo ficar melhor,” ela relatou. “Aí ela dirigiu pra fora da ponte e caiu na água.” A garotinha olhou ao redor freneticamente. “Cadê ela? Ela pode estar machucada!”

Fechei os olhos com força e tentei manter a compostura. “Tudo está melhor agora, querida,” ouvi Thelema dizer. “Você está indo pro Céu.”

A garotinha fungou; abri os olhos pra vê-la encarando, sem piscar. “E meu irmãozinho? Ele tá bem?”

“Ele já tá no Céu, querida,” Thelema assegurou. “Bebês vão direto pro Céu.”

Um pequeno sorriso de alívio apareceu no rosto da garotinha. “E minha mamãe?”

Thelema não respondeu. Virei a cabeça e olhei pra baixo. “Se sua mãe dirigiu de propósito pra fora da ponte com vocês, ela com certeza não vai pro Céu.”

Os olhos da garotinha se arregalaram de horror; um grito gorgolejante virou um berro contínuo. “Mamãe!” ela chorou.

“Por que você teve que dizer isso pra ela?” Thelema rosnou.

“O que eu deveria dizer?” retruquei. “É a verdade!”

“Não, é a sua verdade,” Thelema disparou. “E não é muito gentil.” A garotinha continuou a chorar. O olhar indignado de Thelema me perfurava como jatos de fogo. “Você ainda não percebeu o quanto entende pouco sobre a natureza do universo?”

Comecei a falar, mas minha garganta travou nas palavras. A garotinha agora batia em mim inutilmente com seus punhos pequenos, gritando “Não! Não! Não!” repetidamente. Virei pra olhar Thelema, mas ela estava encarando os portões do Céu, com uma expressão azeda. Expirei bruscamente e voltei a olhar naquela direção. Logo, tudo isso acabaria.

Finalmente, passei pelos portões dourados. Por baixo, percebi com um sobressalto que eles não eram dourados coisa nenhuma. Podiam brilhar ao sol, mas não só eram pintados de branco, como a tinta estava desgastada, deixando listras e manchas opacas. A única cor dourada vinha do sol e do tom sobrenatural do céu. Suspirei pesadamente e continuei arrastando os pés pra frente. Logo notei cordas suspensas em estacas metálicas; não sei quando elas começaram. Elas me guiaram por um caminho que terminava em uma fileira de mesas simples, cadeiras baratas espalhadas ao longo delas.

Sentei na primeira vazia que encontrei, enfrentando o olhar cansado do primeiro anjo que já vi. Longe de me encher de admiração, ele parecia um funcionário público cínico, completo com uma túnica mal ajustada e ligeiramente brilhante. Olhando pelas mesas, notei que os outros anjos pareciam semelhantes. Thelema sentou na cadeira ao meu lado, seus olhos me lançando um olhar frio e desaprovador. O anjo designado pra mim mexia em papéis que pareciam feitos de luz pura, mas, ao olhar mais de perto, pareciam planilhas intermináveis. Sua plaqueta simples dizia “Peter”.

“Nossa!” exclamei. “Você é o São Pedro da lenda?”

Seus olhos de pálpebras pesadas me encararam. “Claro que não,” ele respondeu. “Tem um monte de Pedros no Céu. Igual de onde você veio.” Ele olhou de perto seus papéis. “Terra. Argh. Meus pêsames.”

Ouvi fungadas à minha direita. Ao meu lado estava a garotinha; seu anjo esticou a mão sobre a mesa pra segurar a dela. “Não tenha medo, pequena,” ela arrulhou. “Sua dor acabou.”

“Cadê minha mamãe?” ela choramingou.

“Ela vai chegar logo,” o anjo declarou. “Até lá, você pode esperar lá dentro com seu irmãozinho.”

Ela olhou pra cima com um sobressalto. “Ele tá bem?”

“Ele tá ótimo!” o anjo assegurou. “E ele quer muito te ver.” A garotinha olhou pra trás ansiosamente, um grande sorriso no rosto.

O anjo pegou um colar brilhante e colocou sobre a cabeça da garotinha. Em um instante, uma luz dourada fluiu sobre ela, consertando suas roupas rasgadas, curando todas as feridas e deixando-a impecável. O rosto da garotinha brilhava com uma alegria beatífica. “Você pode entrar,” o anjo explicou. “Siga a Luz. Você vai saber pra onde ir.”

Sem dizer mais nada, a garotinha se levantou e foi embora, desaparecendo rapidamente de vista.

“Não encontro seu nome aqui,” Peter anunciou. “Você era esperado?”

“Como assim, esperado?” respondi. “Estou meditando há anos, e finalmente, ascendi.”

Peter me lançou um olhar desaprovador. “Um voluntário, é? Quase tão ruim quanto um suicida.”

“Como assim?” perguntei, surpreso.

“Você é pelo menos parte de um grupo organizado?” ele perguntou.

“Não exatamente um membro, não,” expliquei. “Eu pago pra meditar no salão central deles, mas nunca me juntei formalmente. Eles me convidaram, mas eu sempre recusei.”

Peter balançou a cabeça e beliscou a ponte do nariz com os dedos. “Então você tem um monte de papelada pra preencher pro seu pedido de visto.”

“Visto?” perguntei baixinho.

Olhei pra baixo e vi uma pilha grossa de formulários na mesa à minha frente; não sei quanto tempo eles estavam ali. Peter os empurrou pra mais perto de mim. “Você pode levar esses pro salão de estudos e preenchê-los. Quando terminar, volte. Precisamos manter essa fila andando.”

“Os mortos têm que preencher formulários pra ir pro Céu?” gargalhei, incrédulo.

“Não!” Peter disparou. “Só os ascendidos. Se você vem pra cá antes da sua hora, tem muita papelada envolvida. Normalmente, as igrejas fazem isso por você. Achou que a religião organizada existia sem motivo?”

Minha boca ficou aberta; eu não conseguia formar uma resposta. “Nossa, você é realmente o pior,” ouvi Thelema dizer. Ela me encarava como se eu fosse algo grudado na sola do sapato dela. “Você não fazia ideia do que estava se metendo.”

“Você faz parte de um grupo organizado?” zombei.

“Claro!” ela disparou. “O Cotilhão Necromântico! Você acha que eu enfiei todas essas lâminas em mim mesma?” Ela passou as mãos pelo corpo. “Isso exige trabalho em equipe!”

“Nossa, você não sabe literalmente nada,” Peter rosnou. Outro formulário apareceu no topo da minha pilha. “Aqui tá uma lista simplificada, pra te ajudar a começar com esses formulários.”

Olhei rapidamente a lista. “Aqui diz que eu tenho que escolher uma profissão?”

“Claro que sim!” Peter retrucou, jogando as mãos pro alto. “Você acha que eu me ofereci pra essa tarefa exaltada de lidar com você? Olha pra mim! Esse pode ser o seu futuro!” Ele se inclinou um pouco e me olhou nos olhos. “Se o Céu fosse melhor que estar vivo, as pessoas estariam se matando aos montes pra chegar aqui. Aí onde estaríamos?”

Peguei a lista e olhei de perto, principalmente pra me proteger do olhar penetrante de Peter. “Sempre pensei que gostaria de ser um Bodhisattva.”

“Há!” Thelema interrompeu. Ela agora usava um colar brilhante, banhada em um brilho dourado; todo o metal cravado em sua pele tinha sumido. Com a saúde restaurada, ela parecia mais bonita que nunca. O olhar de cobra em seus olhos sumiu; eles agora irradiavam puro calor, puro amor. Senti um nó na garganta.

“Cadê todos os seus piercings?” perguntei.

“Sumiram, óbvio!” ela retrucou. “Chama-se penitência. Tá me dizendo que nunca ouviu falar de prescrever dor pra fins religiosos?”

“Sempre achei isso tão desnecessário e brutal,” opinei.

Ela se levantou e começou a se afastar. “Mais uma coisa que você tá errado.” Ela deu um tapa na minha nuca ao passar, fazendo meu tronco se inclinar pra frente. “Não acredito que já fui atraída por você.” Ela rapidamente se misturou à multidão e sumiu.

Olhei pra ela com raiva por um momento, depois voltei. Peter tentava, sem sucesso, conter o riso. Ele abaixou a mão e sorriu pra mim.

“Qual foi essa?” rosnei.

“Você não sabia?” Peter perguntou. “Bodhisattva é um dos piores empregos que existem. Você tem que descer de volta aos reinos inferiores pra ser um professor, ou messias, embora isso geralmente termine sendo queimado vivo por heresia, ou pregado numa cruz, ou algum outro destino horrível.”

Voltei a ler a lista. “Que outros tipos de empregos existem?”

Peter riu. “Não saberemos até você preencher os formulários. Mas pelo que vi até agora, você provavelmente vai acabar no bem-estar social, num conjunto habitacional de alta densidade.”

Um arrepio percorreu minha espinha. “Isso parece o Inferno.”

“É o Inferno!” Peter revelou. “Torres do Inferno é o maior complexo habitacional que temos. Quarteirão após quarteirão de prédios de apartamentos, cada um mais brutalista que o outro.”

Uma onda de tédio me invadiu; minha mão caiu molemente na mesa, levando a lista com ela. “Não é nada do que eu esperava.”

“E daí?” Peter disparou. “Quem morreu e te fez princesa?”

Notei que os dois anjos sentados perto de Peter me encaravam e riam. “Estamos todos lidando com essa criação terrível da melhor forma que sabemos!” Peter continuou. “Você não tem todas as respostas, e nós também não!”

Fechei os olhos enquanto sentia lágrimas brotando dentro de mim. De muitas formas, o Céu era pior que o lugar que deixei. “Acho que prefiro voltar.”

Peter bufou com desdém. “Agora ele entende.”

O ar mudou de repente ao meu redor. Meus olhos se abriram; eu estava de volta no templo, sentado na minha almofada. Encontrei-me cercado pelos outros acólitos, me encarando com expectativa, grandes sorrisos em todos os rostos. “Você ascendeu!” um exclamou. A multidão aplaudiu alto.

“Como vocês sabiam?” perguntei enquanto os aplausos diminuíam.

“Porque você parou de se mover!” outro revelou. “E estava emanando uma luz dourada o tempo todo!”

Desviei os olhos; as lágrimas que eu estava segurando começaram a rolar. “O que houve?” um perguntou. “Você não foi pro Inferno, foi?”

“Não sei,” respondi. “Não cheguei tão longe. Acho que foi algum tipo de Purgatório.”

Os acólitos trocaram olhares preocupados. “Do que você tá falando?”

“A ascensão não é o que vocês pensam,” revelei. 

“Não se deem ao trabalho de tentar. É só uma multidão enorme e muita espera.”

Levantei pra ir embora; eles me encararam com expressões confusas. Virei uma vez antes de sair do salão central. “E os formulários são incompreensíveis.”

Foi a última vez que pisei naquele templo, e não pretendo voltar, nem lá, nem em nenhuma outra igreja. Passei a maior parte da minha vida me preparando pra alcançar o outro lado, e achei mais aterrorizante do que posso compreender. E agora, não sei o que fazer comigo mesmo. Devo festejar até ficar quebrado? Devo me furar com alfinetes e agulhas? Devo me alistar no exército e morrer heroicamente? O hermetismo há muito declara “como é em cima, é embaixo”. Só agora percebo o horror total por trás dessa afirmação.

Espero que isso responda todas as perguntas sobre minha ascensão. Agora vocês sabem a verdade brutal — que não valeu a pena tentar. E espero que entendam por que agora estou dedicado a viver a vida mais longa que puder — porque este mundo, por mais horrível que seja, é muito melhor que a alternativa.
Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon