Tudo que eu lembro antes de descobrir o sumiço do meu laboratório de biologia era uma raiva fervendo e um desespero total enquanto eu dirigia feito louco pra universidade. Por mais que eu quisesse mandar os clientes comerem merda assim que meu turno acabasse, eu realmente não queria perder esse emprego. Então, continuei atendendo no caixa com diligência e ansiedade até minha substituta entrar pela porta dez minutos atrasada. Eu lancei um olhar mortal pra ela ao sair, mas acho que ela nem percebeu.
Depois de dirigir tão mal que quase bati, estacionei ainda pior na garagem e corri pra aula. Eu tava só vinte minutos atrasado até ali, e se subisse as escadas em vez de pegar o elevador, dava pra economizar mais tempo. Quando finalmente cheguei no terceiro andar, eu tava só um pouquinho ofegante. Não era lá muito atlético, mas aguentava uns lances de escada.
Enquanto parava rapidinho no topo da escada pra recuperar o fôlego, vi aquela garota de novo. Da última vez ela tava sentada no chão, ansiosa pra caralho, mas agora tava deitada ali, dormindo que nem morta, com os braços rígidos na frente do corpo. As mãos dela tavam enfaixadas, e eu pensei em checar se ela tava viva, mas meus pés coçando levaram a melhor, e eu ignorei ela enquanto continuava minha corrida maluca pra aula.
Quando finalmente cheguei, fiquei boquiaberto. O laboratório em si tava completamente normal: luzes acesas, materiais tirados como se fossem ser usados, instruções escritas no quadro. Foi a ausência total e absoluta de qualquer ser humano na sala que fez minha mente girar.
Notei que uma chapa quente ainda tava ligada, e o que quer que tivesse dentro dela tava fervendo violentamente. Quando fui desligar, vi um punhado de micropipetas no chão. Depois de desligar a chapa, fui dar uma olhada nelas. Era incrivelmente estranho.
Micropipetas na verdade são uma maquininha pequena. Como líquidos e mecânica não se misturam bem, elas seguram a solução numa pontinha de plástico que você encaixa e joga fora quando termina. O lance das pontas de pipeta, pelo menos nesse laboratório, é que elas soltavam se você deixasse a pipeta cair, nem que fosse de trinta centímetros — fato que eu só sei depois de contaminar minha bancada acidentalmente um monte de vezes. Todas as pipetas no chão ainda tavam com a ponta de plástico encaixada, e metade delas ainda tinha líquido dentro.
Quando entrei, o pensamento de que toda a minha turma tinha sido fulminada por Deus no meio do laboratório passou pela minha cabeça, mas agora parecia mais que eles pararam o que tavam fazendo, colocaram o equipamento no espaço mais próximo disponível e simplesmente saíram da sala.
Ainda assim, sem ninguém aqui, era possível que essa não fosse minha turma. Chequei o horário e o número da sala de novo, e sim, era a minha. Aí chequei meu e-mail pra ver se tinha sido movida pra outra sala ou se tinha algum alerta de desastre, mas não achei nada. Tentei mandar um e-mail pra minha monitora, mas o sistema não achava o contato dela. Afastei o sentimento de pavor me lembrando que a conexão de internet ali era uma merda. Aí chequei todas as salas do prédio, e além de uma aula de matemática, não achei nenhuma outra aula rolando.
Não tinha certeza do que fazer, então decidi ir pra casa, onde eu sabia que a internet funcionava, e mandar um e-mail pra monitora dizendo que, por algum motivo, eu não tinha recebido o recado de que o laboratório tinha sido movido ou cancelado hoje. No caminho pra casa, meu pavor continuava crescendo. Minhas explicações racionais tavam perdendo aos poucos a capacidade de me convencer que tinha uma explicação lógica pra tudo isso. Mesmo se tivesse um desastre, com certeza todo mundo daria um passo pra colocar as pipetas na mesa ou garantir que a chapa quente tava desligada. Eu quase desejei que as pontas de plástico das pipetas tivessem quebrado. Um arrebatamento repentino era menos perturbador que a imagem de todo mundo tão hipnotizado, mas ainda mentalmente capaz, que colocaram tudo no chão com cuidado antes de sair.
Quando cheguei no apartamento, minha mãe tava atrás do balcão da cozinha limpando ele. Sexta à noite era o último resquício do tempo livre dela, e eu tinha dito várias vezes que eu podia cuidar da casa no fim de semana e que ela devia só relaxar, mas ela nunca escutava. Casey, minha irmã adotiva, tava sentada na sala de estar ao lado, meio assistindo TV e meio colorindo.
Quando minha mãe percebeu que eu tava em casa, ela disse: “Você chegou tarde, Trevor. Já tá quase nove, e por que você tá carregando essa mochila? Espero que não esteja tentando contrabandear nada pra dentro de casa. Você tá fazendo isso mal pra caralho, tá muito na cara.”
Eu lutei pra encontrar qualquer palavra pra responder. Minha mãe tava com demência precoce ou o quê?
“Hm, acho que você quis dizer que cheguei cedo. Sério, mãe, acho que você precisa tirar férias; todo esse trabalho tá te afetando. A aula costuma acabar tarde. É sexta, afinal, você esqueceu?” Eu soltei essa pergunta tremendo, tentando firmar a voz pra ela não perceber que o que ela disse tinha me abalado pra caralho.
Casey de repente se interessou pela conversa e perguntou: “Por que você tá tremendo, Trevor? Aaaaah, talvez a tia tenha razão e você fez algo ruim. Você devia ter ficado em casa colorindo comigo.”
Casey então me mostrou orgulhosa o trabalho dela. Normalmente, eu zoava de leve o colorido bagunçado dela, mas até ela mencionar, eu não tinha notado que tava tremendo fisicamente. Dava pra ver que minha mãe tava começando a passar de confusa pra preocupada, então murmurei uma desculpa e voltei pro meu quarto.
Meu quarto na verdade era só um armário fundo estranho com um colchão de solteiro no chão, as poucas coisas que eu tinha nas prateleiras de cima, e tanto roupa suja quanto limpa penduradas em cima de mim. Na época que minha mãe adotou oficialmente minha prima Casey, eu me ofereci pra morar no armário de roupa de cama. Era isso ou dividir quarto com uma bebê de seis meses. Achei que tinha me acostumado com o aperto desse lugar e, nos últimos anos, até achava meio legal, mas no meu estado abalado, eu só me sentia completamente claustrofóbico.
Tirei meu laptop de merda da mochila e entrei no Blackboard. Meus piores medos tavam se tornando reais. Não só minha aula tinha simplesmente sumido do painel, mas o cabeçalho que indicava que eu tava matriculado em qualquer aula de verão tinha sumido.
Peguei o celular e mandei mensagem pro meu melhor amigo Nathan. A gente fazia parte de um grupo de amigos que incluía uma garota chamada Carla, que também tava no meu laboratório.
“Ei Nathan, pode ser uma pergunta estranha, mas você lembra da Carla, né? Desculpa se eu parecer louco.”
Poucos momentos depois, ele respondeu.
“Tinha aquela garota na nossa turma de quinta série. Aquela louca por cavalos.
Cara, eu não pensava nela há séculos.”
Senti minhas mãos tremerem tanto que digitar tava ficando difícil. Respondi.
“Não, não ela. Carla, a que a gente conheceu na faculdade. Aquela que a gente dois tava comendo??”
Nathan demorou um segundo pra responder.
“Que porra você tá falando? Trev, você tá zuando comigo. Fala sério. Você sabe que eu namoro a Jill desde o primeiro ano. Por que eu ia transar com a melhor amiga dela??”
“Você tá namorando a Jill???”
“Cara, você sabe ler? Nossa conversa sobre pedir ela em casamento foi literalmente a última. Eu sei que você é o Sr. Nota Máxima, mas acho que você tá estudando tarde demais ou algo assim.”
“Talvez você tenha razão”
Encerrei a conversa e rolei pelas nossas mensagens. Uns setenta e cinco por cento delas eram as que eu lembrava, embora vagamente. Os outros vinte e cinco eram completamente novos, e todos substituíam conversas centradas na Carla. Não só qualquer memória dela tinha sido apagada, mas qualquer memória que ficaria inconsistente sem ela tinha sido completamente reescrita. Toda conversa de texto com os membros do meu grupo de amigos era assim. O chat em grupo era o pior, porém. As respostas dela ainda tavam lá, os remetentes das mensagens simplesmente substituídos por quem tivesse a personalidade mais parecida com a resposta. Era principalmente a Jill, mas vi umas poucas que supostamente eu tinha mandado.
Mandei mensagem pra Jill; afinal, ela era amiga de infância da Carla. Nosso relacionamento não era do tipo que conversa, mas pelo menos eu sabia disso.
“Jill, por favor me diz que você ainda lembra da Carla.”
Ela nem se deu ao trabalho de responder por texto; em vez disso, me ligou assim que leu a mensagem.
“Graças a Deus do caralho. Eu tava me sentindo louca. Eu tava conversando com umas garotas do time de vôlei e não sei quando, mas foi como se um interruptor tivesse virado. Eu mencionei ela umas vezes desde que a gente divide quarto e tudo, e tava ok, aí de repente mencionei ela e todas me deram um olhar como se eu tivesse enlouquecido.
Quando perguntei por quê, elas tipo ‘hm Jill você mora sozinha’ e eu pedi pra elas me contarem a história que eu acabei de contar. Era pra ser uma indireta porque a Carla tava na história que eu contei, mas aí elas me contaram uma história completamente diferente, uma que eu literalmente nunca vivi, quanto mais compartilhei. Enfim, procurei online depois e todos os vestígios dela simplesmente sumiram, puf! Mandei mensagem pra um monte de gente que era amiga dela e ninguém lembra dela nem um pouco. Também mandei pra mãe dela e os pais dela ainda lembram dela, graças a Deus.”
Escutei a Jill contando a história dela de um jeito frenético. Aí ela me fez uma pergunta.
“Ei Trev, sem ofensa, mas por que você lembra da Carla? Perguntei pra um monte de gente sobre ela, mas nem pensei em te perguntar porque vocês dois não pareciam especialmente próximos.”
“É o laboratório de biologia que a gente dois tava fazendo. Cheguei na aula atrasado e quando cheguei lá tava... bizarro, tipo eles todos se levantaram e saíram. Aí quando cheguei em casa minha mãe tinha esquecido completamente que a aula existia. Perguntei pro Nate sobre ela e ele não lembrou, disse que tava namorando você?”
“Laboratório, que laboratório? A Carla só tava fazendo microeconomia. Queria que ela tivesse fazendo outra coisa pra todas as histórias dela não serem sobre o professor velhote dela. E sim, eu namoro o Nate desde sempre.”
“Jill, me faz um favor. Se o Nate tá namorando você, com certeza você tem algo físico que prove, né? Um moletom, uma meia, qualquer coisa. O Nate é um porco, com certeza deixou algo pra trás.”
“Você acha que minhas memórias foram fabricadas também?”
“Eu sei que suas memórias são falsas porque semana passada o Nate tava me dizendo que se eu não começasse a namorar a Carla publicamente, ele ia.”
“Tá, isso é assustador. Deixa eu dar uma olhada.”
Ouvi os barulhos abafados de um quarto sendo revirado enquanto a Jill procurava algo. Isso durou um tempo antes dela falar de novo.
“Jesus Cristo, você tá certo. Ele tava aqui ontem à noite e eu até revirei o lixo pra achar a comida que a gente pediu e simplesmente sumiu. O que a gente faz? Talvez se a gente procurar no laboratório a gente ache algo? Isso tá fodendo com a minha cabeça. Amanhã serve pra você?”
“Sim, eu tenho turno cedo, então provavelmente consigo por volta das quatro? Na verdade risca isso, vou ligar dizendo que tô doente, vamos nos encontrar às 10.”
“Tá, te vejo lá.”
Com nossos planos feitos, a conversa terminou de repente, e eu desliguei o telefone. Duvidava que a gente fosse achar algo, mas era reconfortante que pelo menos uma outra pessoa soubesse que algo tava errado.
Estiquei o braço e apaguei a luz. Nem me dei ao trabalho de trocar de roupa; só queria que já fosse amanhã. Claro, sono nunca vem fácil quando algo assim acontece. Deixei minha mente vagar. Parecia que se você fosse próximo de alguém que sumiu, você era resistente a ter suas memórias roubadas. Eu tinha a sensação roedora de que, embora isso te tornasse resistente, não te tornava imune. Pensei em ligar pra Jill de novo e pedir pra ela se encontrar mais cedo, mas decidi não.
Cheguei na escola uma hora mais cedo. Sentei num banco do lado de fora do prédio do meu laboratório e esperei. Enquanto sentava e esperava, curti a paz e o sossego do campus no fim de semana. Eu tava na sombra, e tava gostoso.
Tinha um grupinho de alunos do ensino médio fazendo tour, e eu ouvi enquanto o guia explicava as maravilhas da vida universitária pra eles. Aí de repente alguém correu pelo meio da multidão. Foi estranho; nem um deles agiu como se alguém tivesse quase os atropelado. Um deles caiu depois de ser empurrado pro lado, mas os amigos dele só zoaram ele por tropeçar parado.
Levantei e corri atrás da pessoa que acabou de atravessar a multidão. Não lembrava o nome dele, mas sabia que era alguém da minha turma. Puta merda, ele era rápido, e tinha uma vantagem. Ele tava indo em linha reta, empurrando as pessoas pro lado enquanto corria e desviando por pouco dos postes de luz. Não consegui chegar mais perto dele quando ele correu pro meio de um cruzamento movimentado.
Vi ele ser atingido por um caminhão. Ele voou pelo ar, e o caminhão pisou no freio ao ouvir o impacto, mas sem ver nada. Eu ouvia outros carros buzinando confusos enquanto via ele bater no chão sem vida. Ele ficou lá por talvez um segundo antes de se levantar de novo e continuar correndo em linha reta. O caminhão começou a andar de novo, e eu fiquei na beira da faixa de pedestres recuperando o fôlego. Depois disso, voltei devagar pro meu banco e continuei esperando a Jill.
A Jill tava atrasada. Muito atrasada. Quando eu tava pensando em mandar uma mensagem pra ela, finalmente a vi. Ela tava vindo na minha direção, parecendo confusa e meio atordoada. Senti meu coração afundar. Será que ela já tinha esquecido da Carla? Puta que pariu, eu sabia que devia ter marcado mais cedo. Caminhei até a Jill e perguntei se ela lembrava da Carla. A resposta que ela me deu foi pior do que eu esperava.
“Hm, eu te conheço?” ela perguntou, completamente confusa com um toque de medo.
“Jill, sou eu, o melhor amigo do Nate. A gente ia se encontrar aqui pra investigar o sumiço da sua colega de quarto. Lembra?”
“Colega de quarto? Eu moro sozinha”, ela começou a me dar um olhar que dizia que queria sair dessa situação o mais rápido possível.
Antes que ela pudesse ir embora, perguntei: “Só mais uma coisa. Você sabe por que veio aqui?”
Eu vi um momento breve de reconhecimento nos olhos dela que sumiu rápido antes dela murmurar baixinho: “E-eu não sei. Eu só tive essa sensação de que precisava estar “
Ela parou de falar de repente e segurou a cabeça como se tivesse dor de cabeça antes de continuar friamente: “Desculpa, senhor, não tô interessada no que você tá vendendo”, e ir embora.
Desabei no banco e tirei o celular. Como esperado, quase todas as mensagens que eu tinha tinham sido deletadas. Todas as fotos que eu tinha com meus amigos sumiram, e pela primeira vez, minha caixa de entrada de e-mail tava completamente vazia. Até spam tinha sumido. A única pessoa com quem eu ainda tinha registro de comunicação era minha mãe.
Quando cheguei em casa, minha mãe percebeu que eu tava passando por algo, mas decidiu não pressionar. Fiz o jantar pros três porque a mãe tinha o turno de fechamento numa mercearia local e tinha passado o dia corrigindo redações. Nunca fui muito bom cozinhando, mas ter uma tarefa pra fazer era calmante.
Enquanto a gente sentava na mesa de jantar, minha mãe fez a rotina habitual dela de compartilhar coisas bobas que os alunos dela tinham escrito. Casey parecia anormalmente pensativa e não tava comendo, só mexendo na comida com o garfo.
Eventualmente, o que quer que ela tava pensando finalmente comeu o pouquinho de paciência e tato que ela tinha.
Ela largou o garfo de repente e apontou pra mim, perguntando com a franqueza que só uma criança tem: “Tia, quem é esse?”
Embora fôssemos primos, Casey e eu éramos basicamente irmãos. Ela nunca chamava minha mãe de “mãe” por respeito a uma mãe que ela nem podia lembrar, mas constantemente me lembrava que eu era o melhor ou pior irmão mais velho do mundo, dependendo de como ela se sentia. Meus amigos me esquecerem era assustador, mas Casey me esquecer era de partir o coração. Fechei as mãos em punhos pra tentar não chorar.
Tudo que a gente tinha sumiu. O primeiro ano de ressentimento como adolescente, esse bebê que eu não queria e que precisava de atenção constante foi jogado na minha vida sem eu nem ter voz. Aí veio a realização gradual de que Casey não pediu pros pais dela morrerem num acidente bizarro mais do que eu pedi pra ela estar aqui.
Quando essa realização bateu, percebi o quanto eu queria ser irmão mais velho o tempo todo. Nunca me cansava de responder o fluxo interminável de perguntas dela enquanto os olhos dela brilhavam e ela gritava o quão esperto eu era, mas um dia ela ia ser mais esperta. Cuidar dela no ensino médio enquanto minha mãe tava no trabalho provavelmente me impediu de ficar tão amargo com minha vida.
Continuei cerrando os punhos o mais forte que podia, sem ligar pra dor. Desejei com todo o coração ter passado a noite passada brincando com ela em vez de fazer essa pesquisa inútil. Zoar ela uma última vez ou dar um último conselho.
Minhas palmas tavam começando a sangrar enquanto eu percebia o quanto tinha perdido. Mesmo se a gente começasse de novo agora, ela nunca ia aprender a andar de bike do zero, nunca ia me mostrar orgulhosa a primeira nota dela, tudo sumiu.
Minha mãe, sem surpresa, ficou imediatamente preocupada.
“Casey, se você tá brincando, não tem graça. O Trevor tá tendo um dia ruim, então vamos ser legais.”
“Ah, o nome dele é Trevor. Ele veio consertar o barulho engraçado que o vaso faz?”
Minha mãe, percebendo que Casey absolutamente não tava agindo como se fosse uma mentirosa ruim, levantou e disse: “Vou ligar pro meu gerente e dizer que não posso ir. Vamos levar a Casey pro hospital agora.”
“Eu não quero ir pro hospital, vão fazer a gente esperar pra sempreeee e a sala de espera só passa aquelas novelas chatas”, Casey protestou.
Eu queria zoar ela, dizer que uma criança com aparentes lesões cerebrais seria triada e vista imediatamente, explicar o conceito de triagem pra ela do melhor jeito que eu pudesse. Em vez disso, não disse nada. Sentia que qualquer coisa que eu dissesse pra ela não significaria nada vindo de um estranho. Em vez disso, calcei os sapatos e pedi educadamente pra Casey calçar os dela. Quando ela recusou, minha mãe, que tinha terminado a ligação, veio e calçou os sapatos dela.
A viagem curta pro hospital foi tensa. Casey passou o tempo todo reclamando, e minha mãe tava apertando o volante tão forte que os nós dos dedos tavam brancos. Eu olhava pela janela, tentando não pensar em nada.
Como esperado, Casey foi atendida quase imediatamente. O tempo todo no hospital, me senti completamente invisível. Toda vez que a enfermeira entrava, ela dava uma olhada assustada pra mim. Quando trouxe cobertores e água, trouxe só o suficiente pra duas pessoas. A única que reconhecia minha existência era minha mãe, e mesmo ela parecia falar comigo cada vez menos.
Várias horas depois, o médico entrou na sala e nos disse que não tinha nada errado com os pulmões da Casey, mas que a gente devia ficar de olho em qualquer sinal preocupante.
Minha mãe deu um suspiro de alívio e disse: “Graças— hm, você disse pulmões, né? Não, acho que não é isso. Ela tá aqui porque não conseguia lembrar de algo... algo importante. O que era? Ah sim, ela tá aqui porque não conseguia lembrar do irmão mais velho dela nem um pouco. Por que você tava olhando pros pulmões dela?”
“Desculpa, senhora, mas a Casey tá aqui porque começou a chiar alto. Foi o que você disse na ficha de entrada, e foi o que a Casey disse também. Se quiser, podemos fazer imagens da cabeça, mas vai demorar um pouco.”
Minha mãe era uma mulher muito teimosa quando se tratava da Casey, e por isso eu esperava que ela discutisse muito com o médico, mas em vez disso, ela desabou na cadeira e murmurou algo sobre precisar de mais dias de folga.
A volta pra casa foi mais quieta que a ida pro hospital. Principalmente porque Casey tinha chegado no limite e dormiu no carro antes mesmo da gente sair da vaga.
Quando chegamos em casa, percebi que minha mãe tava carregando a Casey pra cama quando normalmente isso seria meu trabalho. Na verdade, ela tava agindo como se eu nem estivesse lá. Como se esse dia não pudesse piorar.
Assim que minha mãe terminou de colocar a Casey na cama, eu dei um abraço nela cheio de todo o calor que eu podia e disse: “Eu te amo, mãe.”
Ela retribuiu o abraço com um pouco de hesitação e disse: “Eu te amo também.” Teve uma pausa breve enquanto ela tentava lembrar meu nome, “Trav—Trevor.”
Me tranquei no meu quarto. Esvaziei minha mochila de todos os materiais escolares e enchi com roupas antes de considerar meu quartinho pequeno por um último momento. Se eu pudesse ficar mais, eu ficaria, mas sabia que minha mãe, se ainda pudesse me notar, não ia lembrar de mim. Não tinha nada aqui pra mim além do lembrete constante de que eu tinha sido completamente apagado.
Entrei no carro e só dirigi pro norte. Não sei por quê, mas me sentia compelido a fazer isso. Meu emprego tinha me deixado com dinheiro suficiente pra viver na estrada por cerca de um mês.
Uma noite, enquanto tava deitado no banco de trás do carro tentando dormir, mexendo na porcaria no chão quando vi, um pedacinho de papel dizendo “me encontra no L’s mais tarde? -Carla”
Não consigo lembrar quando ela tinha me passado isso, mas a Carla era fã de me passar bilhetinhos na aula como se estivesse no fundamental. Eu poderia ter pulado de alegria; o que quer que tenha feito isso não era onipotente, tinha deixado passar algo na correria pra destruir evidências. Não sabia o que tinha no norte, mas talvez eu pudesse fazer algo com isso e me devolver minha vida. Adormeci com o papel na mão.
Cerca de uma semana na viagem, parei de comer fast food, os caixas pararam de responder quando eu ficava na fila, e parecia que nada que eu fizesse fazia eles me notarem. Em vez disso, eu tava vivendo de água engarrafada e sanduíches de mortadela que eu fazia no banco de trás do carro.
Enquanto carregava as compras de volta pro carro, saí do estacionamento do Walmart quando vi outro colega de turma correndo em linha reta. Só via as costas dele, e acelerei pra sair do estacionamento e entrar numa rua movimentada tentando alcançar, e fui atingido pelo tráfego vindo na contramão.
Fugi do carro sem me dar ao trabalho de pegar nada e continuei a pé. No minuto que tive pra sair do carro, ele tinha sumido, mesmo eu continuando a correr atrás por quarteirões.
Decidi abandonar o carro e continuar pro norte a pé. Naquela noite, entrei numa loja de conveniência de posto de gasolina, peguei o que eu quis e saí. A pessoa atrás do balcão nem olhou do celular. Esse roubo descarado não aconteceu muito depois disso. Os períodos de tempo que eu precisava pra dormir e comer pareciam ser cada vez menos com o tempo, e eu percebi vagamente que em algum momento eu tava correndo em linha reta por dias sem descanso.
Não sei quanto tempo faz desde que saí, e cheguei numa cidadezinha pequena que fica na beira de uma floresta densa. Pra ser honesto, não posso te dizer o que aconteceu durante esse período. Não consigo lembrar muito de nada. Tive sorte de ter escolhido escrever uma descrição do evento logo depois de sair. Leio várias vezes por dia agora. Tem nomes sublinhados no texto, e dá pra ver pelo contexto que eram importantes pra mim, mas agora não vem uma cara na mente quando leio eles. Mal lembro do meu próprio nome. Começa com T, é tudo que sei.
Amanhã, parto mais pro norte numa missão suicida, mas primeiro, meu eu do passado escreveu uma nota muito insistente pedindo pra eu transcrever e postar isso em algum lugar. Lembro vagamente de algo sobre posts online sendo deletados, então acho que não vai funcionar. Decidi levar a descrição escrita junto com umas anotações que adicionei e mandar pelo correio pro endereço de casa na minha carteira de motorista. Espero que minha memória seja boa o suficiente pra eu ir letra por letra pra escrever o endereço porque não consigo segurar palavras na mente por muito tempo.
A vontade de ir pro norte diminuiu um pouco desde que cheguei nessa cidade, ou talvez o desejo subconsciente de ter outras pessoas sabendo da minha história finalmente tenha segurado. Seja como for, espero conseguir roubar uns selos fácil.
Então, por enquanto, é o T se despedindo, permanentemente. O desejo de morrer com um fiapo da minha identidade intacta é uma das duas coisas que ainda consigo lembrar. A outra é um medo de esquecer absolutamente tudo.
Uma última coisa... não lembro claramente, mas vi ela nessa cidade uns três ou quatro dias atrás. A garota, Carly, acho, que sumiu. Ela tava andando com movimentos estranhos, espasmódicos. As pessoas a ignoravam como faziam comigo. Eventualmente, ou eu falei algo ou ela notou que alguém mais podia ver ela, e ela virou rápido, e eu vi o rosto dela. Não lembro os detalhes, mas parecia que alguém tinha arrancado o rosto dela e costurado um novo.


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