Você se lembra das correntes da internet?
Não estou falando das atuais, que são obviamente falsas e acabam virando memes. Estou falando das antigas, do tipo que entreteiam e aterrorizavam muita gente ao mesmo tempo, e que permitiram que creepypastas como "Smile.jpg" fizessem sucesso ao combinar o medo daquelas correntes enviadas por e-mails ou comentários em sites com a ideia de "e se eu receber aquele e-mail?", ou "e se eu me deparar com aquele comentário?". Estou falando das que apareciam em páginas lotadas de anúncios, jogos em Flash e janelas pop-up que se abriam toda vez que você clicava em qualquer coisa. Estou falando do tipo que apareceu na minha infância.
Faz tipo 11 anos. Eu tinha 9 anos, e era uma criança bem ingênua, tão ingênua que ainda não sabia copiar e colar, tão ingênua que anos depois eu descobriria o que "Alt + F4" fazia. Naquele dia eu estava procurando jogos quando encontrei um daqueles sites que eu descrevi, e enquanto tentava jogar algum jogo que achei que tinha encontrado de graça, virando vítima de abas pop-up toda vez que apertava o botão que dizia "Jogar", eu rolei a página até uma seção de comentários, uma daquelas que exigia que você fizesse login com o Facebook para deixar um comentário.
Havia um comentário longo enterrado entre vários comentários sem sentido e mal escritos de, provavelmente, outras crianças irritadas como eu. Não lembro o texto exato, mas lembro dos detalhes: dizia que um garoto chamado Nick tinha tirado a própria vida em 1993, quando tinha 7 anos, e o motivo eram problemas familiares. Aí veio o aviso:
"Se você não compartilhar esta mensagem em cinco jogos diferentes, Nick virá à sua casa à meia-noite e matará seus pais".
Hoje me parece ridículo, mas aos 9 anos não parecia ridículo de jeito nenhum. Pelo contrário, parecia absolutamente real.
O problema era que eu nem sabia como compartilhar aquilo, e tentei entender o que isso significava. Eu tinha que escrever isso em outros jogos? Copiar? Mandar pra alguém? Não fazia a menor ideia, então passei a tarde inteira convencido de que tinha acabado de assinar uma sentença de morte.
Não contei nada pros meus pais nem pros meus amigos... não contei pra ninguém. Só esperei, e quanto mais a noite chegava, pior eu me sentia. Um medo lancinante ia crescendo exponencialmente.
A noite chegou, e eu tentei dormir enquanto minha televisão ficava ligada, mas não conseguia, e quando chegou a hora de desligar o aparelho, senti que ficava sozinho contra algo que não entendia.
A escuridão parecia diferente. Era mais profunda, mais pesada, e os sons da rodovia próxima não soavam mais como um monte de rodas se movendo em alta velocidade, mas pareciam criar um grito que anunciava desgraça. Lembro de ter medo até de fechar os olhos, especialmente porque meu quarto ficava na frente da casa. Mais perto do portão, mais perto da rua, e mais perto de onde, segundo a minha imaginação infantil, Nick podia aparecer.
Eu não conseguia dormir.
Ouvia cada barulho, cada rangido, cada som do vento. O portão de metal costumava fazer barulho em algumas noites; era normal, mas aquela noite cada som parecia um aviso.
Não tinha relógio nem celular no meu quarto, não tinha nenhuma forma de saber a hora, mas sabia que já devia ser meia-noite... e aí aconteceu.
O portão soou mais alto do que antes. Não foi um estrondo, nem foi o vento, e lembro exatamente do que pensei: "O Nick chegou".
Posso rir disso agora, mas naquela noite eu estava convencido, completamente convencido, e o medo era tão intenso que ainda consigo lembrar fisicamente.
Meu coração batendo contra o peito, minha garganta apertando, a vontade de chorar, de gritar, e a incapacidade absoluta de me mover. Eu podia ter levantado, podia ter ido até a janela, podia ter olhado. Queria confirmar que era o Nick que estava vindo, mas não fiz.
Não consegui.
Ouvi mais barulhos lá fora, e aí ouvi algo vindo do quarto dos meus pais, que ficava do lado do meu, uma voz, talvez duas.
Meu medo transformou as palavras em algo parecido com um zumbido profundo, como ouvir uma conversa debaixo d'água, minha batida do coração me ensurdeceu, o suor parecia me grudar na cama, não conseguia perceber nada além do barulho, e virei rápido pra parede contra a qual minha cama estava encostada, apertando as pernas em posição fetal, arrepiando todo, virando as costas pra janela, virando as costas pro Nick.
Aí ouvi uma janela abrir, a janela dos meus pais. Medo. Horror. Meu coração não me deixava ouvir mais nada.
E depois disso...
Não lembro de nada.
Talvez eu tenha dormido, talvez eu tenha desmaiado, não sei.
A próxima coisa que lembro é acordar com luz do sol entrando pela janela, e uma imagem horrível perfurando minha mente: Minha mãe morta. Meu pai morto. Sangue por toda parte. O Nick tinha vindo, e eu não o impedi.
Fiquei aterrorizado por vários minutos até a porta abrir e minha mãe aparecer. Viva, e um pouco irritada porque eu estava dormindo além do horário habitual de levantar.
Nunca tinha sentido tanto alívio naqueles 9 anos de vida.
Depois, ouvi meus pais conversando sobre algo que aconteceu durante a noite, claro, eu tentei fingir que não me importava, como se tivesse estado dormindo.
Alguém tinha tentado entrar na casa. Meu pai disse que era um homem, de baixa estatura. Aparentemente, um ladrão tinha tentado escalar o portão. Eles viram ele pela janela, gritaram com ele, e ele fugiu.
Lembro de sentir uma mistura estranha de alívio e vergonha. Não era o Nick, nunca foi, era só um ladrão.
Por anos aquela explicação me pareceu suficiente, e se tivesse sido só isso, talvez eu não tivesse escrito isso...
Agora estou com quase 21 anos, e esta manhã minha mãe lembrou daquela noite durante uma conversa entre nós dois no café da manhã.
Ela nunca soube da minha situação patética.
Quando ela mencionou o quão estranha aquela noite tinha sido, perguntei:
"Era verdade que era um ladrão? Porque sempre me pareceu meio estranho."
Ela olhou pra mim, confusa.
"Que ladrão?"
"O homem que tentou entrar."
Minha mãe ficou em silêncio por alguns segundos, depois respondeu:
"Eu nunca disse que era um homem."
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
"Meu pai disse isso."
"Não lembro dele ter dito isso, eu teria dito a ele que estava enganado."
"Então... o que você viu?"
Ela ficou pensando por alguns segundos e finalmente sorriu de forma estranha, daquele jeito que alguém sorri quando lembra de algo que preferiria esquecer.
"Realmente era meio estranho."
"O que era?"
"Parecia uma criança."
Senti algo apertar no meu estômago.
"Uma criança?"
"É."
Silêncio.
"E o que ele estava fazendo?"
"Escalando o portão, obviamente."
"E depois?"
Minha mãe desviou o olhar.
"Quando abrimos a janela pra gritar com ele ou perguntar o que estava acontecendo, ele já estava quase no topo, e de alguma forma estava se segurando nos espinhos do portão. Eu estava aterrorizada porque não sabia o que fazer se ele fosse realmente uma criança, ou apenas um homem que parecia uma."
"E?"
"Ele riu." Eu não respondi. "Ele tinha algo estranho no rosto."
"Estranho como?"
"Não sei explicar. Parecia esquisito, deformado... como eu disse, ele sorriu, riu, e aí fugiu."
Minha mãe continuou a conversa como se nada tivesse acontecido, mas eu não conseguia mais ouvir porque enquanto ela falava, eu lembrei de algo.
Algo que tinha esquecido por 11 ou 12 anos.
O comentário original, ou melhor, a última linha, depois do aviso.
Não lembrava de mais nada da mensagem. Nenhum outro detalhe. Não quem compartilhou. Nem mesmo a página onde encontrei, ou o jogo que tentei jogar naquele dia. Só aquela frase.
E agora eu queria não ter lembrado:
"Feche portas e janelas. Se você não o fizer e o Nick sorrir pra você, é porque ele nunca vai esquecer seu rosto".


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