Eu achei que ia ser um dia normal. Acordei e servi meu café da manhã. Deixei o rádio ligado enquanto preparava alguma coisa para comer. A rádio local tocava sua palhaçada habitual de dois apresentadores idiotas e eles disseram que o céu ficaria limpo o dia todo. Perfeito, era hora de eu capinar o jardim e talvez testar a nova vara de molinete que comprei este mês. Parecia que ia ser um ótimo dia de folga do meu emprego.
Toc toc toc. Ótimo, quem poderia ser? Tenho uma placa de "proibido vendedores" perto da minha porta, mas muitas vezes isso não impede os vendedores mais corajosos de tentarem fazer uma venda e não aceitarem um não. Com toda certeza, vejo um homem parado na minha varanda. Ele é alto e magro, provavelmente de meia-idade, mas a pele dele está esticada no rosto, quase como se usasse Botox regularmente. Ele está usando um sobretudo verde de manga comprida com um padrão áspero por cima de uma camisa branca manchada de suor. Faz sentido, está fazendo 32 graus. Tudo isso complementado por uma gravata vermelha, umas calças cáqui e uns sapatos mocassim. O cabelo loiro dele num penteado para disfarçar a calvície e dentes perolados.
"Olá", ele diz. A voz dele sendo um tanto grave. "Meu nome é Eugene e eu trabalho para a Edge Cutlery". Ele estendeu a mão para apertar a minha, e eu de fato apertei. Não queria ser rude.
"E aí, cara, é um prazer te conhecer, mas eu não discuto vendas. Tenho uma placa de proibido vendedores, talvez você não tenha visto". Fui apontar para a placa e percebi que ela tinha sido vandalizada. Droga, os adolescentes devem ter pintado com spray recentemente, não seria a primeira vez que tive problemas. Essa área tem sua boa parcela de doidões de metanfetamina e adolescentes entediados. "Não, eu não vi nenhuma placa. Então, como eu estava dizendo, eu trabalho para a Edge Cutlery. Nós vendemos facas premium. Você conhece seus vizinhos, os Runyons. Sabe, quatro casas mais pra lá?"
"Não", eu digo a ele. "Não conheço os Runyons e não estou interessado nas facas".
"Ah, vamos lá, senhor", disse Eugene. "Eu nunca tive um cliente insatisfeito, e não pretendo começar agora".
"É que eu não sou um cliente", eu digo a ele. Enquanto tentava fazer entrar na cabeça dele que não tenho interesse nenhum, ele larga sua bolsa de lona e começa a revirar ela. Enquanto isso, algumas nuvens de tempestade começam a se formar. Ótimo, simplesmente ótimo. O meteorologista diz céu limpo, mas é assim que o clima do Kansas funciona às vezes. Provavelmente uma tempestade repentina que vai chegar e ir embora em questão de momentos.
Ele tirou uma das facas de cozinha e um pedaço de papel e começou a cortar para me mostrar o quão afiadas as lâminas são enquanto a chuva caía sobre nós. A chuva foi ficando mais forte e eu disse para ele sair da porra da minha propriedade antes que eu ouvisse as sirenes. Sério, um tornado? Ótimo.
"Eugene, parece que uma tempestade está chegando. Vamos esperar isso no abrigo de tempestade. Não posso deixar você ir durante uma tempestade".
Ele e eu fizemos nosso caminho até o meu abrigo de tempestade. Lá dentro, entreguei a ele uma toalha e uma garrafa de água. "Nossa, essa é uma tempestade ruim", eu digo enquanto faço um inventário mental de onde estão todos os meus suprimentos de emergência. "Não é tão ruim assim", ele diz. "Eu já vi muito pior do que isso. Agora como eu estava dizendo, essas lâminas são incrivelmente afiadas, e eu vejo que você é um homem que faz duras negociações. Vou ir contra minha rotina normal, e vou oferecer a você um kit de limpeza de graça para acompanhar o grande conjunto de lâminas. Esse conjunto tem tudo que você precisa, desde uma faca de açougueiro até uma simples faca de manteiga".
"De novo, não estou interessado nas malditas facas", eu grito. Enquanto eu gritava, a energia caiu. Procurando às cegas, liguei uma lanterna a pilhas que iluminou fracamente o quarto e ele agora está mais perto de mim com as mangas arregaçadas e os olhos muito mais arregalados. Aqueles dentes brancos ficaram amarelos e ele tem um olhar de pânico no rosto. Os braços dele estão cheios de cicatrizes, tanto novas quanto antigas. "Então, você vê senhor", ele ofegou e sibilou rapidamente. "Essas facas são extremamente afiadas. Veja como elas tiram o cabelo do meu braço". Ele começou a raspar o braço com uma das lâminas e arrancar o cabelo, fazendo pequenos cortes pelo caminho. "Afiadas o suficiente para circuncidar", ele riu de forma estridente. Lá fora, o vento estava uivando e o trovão estalava. Água começou a entrar no meu abrigo, isso só acontecia quando as tempestades eram intensas. Ele se aproximou de mim e meteu a mão na bolsa de lona mais uma vez. "Eu ainda vou incluir um amolador de graça. Você viu o quão afiadas essas facas são, senhor. Mas, além do kit de limpeza, eu ainda vou incluir um amolador". Saiu de lá um spray de tinta. Spray de tinta preta. A cor que arruinou minha placa.
"Ah", ele cacarejou. "Você não devia ter visto isso". Ele começou a catar os dentes com a faca que estava segurando. Parecia que um trem estava passando por nós lá fora. Esse não era um tornado comum; esse é um que poderia destruir tudo que eu tenho. "Você está tornando isso muito difícil".
"Do que você está falando", eu perguntei. "Você vandalizou minha propriedade e agora está me segurando à força com uma faca". Peguei uma pá que eu mantinha no abrigo. "É melhor você ficar longe de mim", eu gritei.
"Ficar longe de você", ele riu. "Por que eu faria isso? Não estou tentando te machucar. Se eu quisesse fazer isso, eu realmente te mostraria o quão afiadas essas lâminas são", enquanto ele tentava me golpear, mas errou. Eu acertei ele com a pá, e ele caiu numa pilha de enlatados. Ele riu e olhou para mim enquanto se recompunha.
"Tenho que dizer, senhor. Você tem culhões. E eu poderia cortá-los. Você não seria o primeiro".
Lá fora os relâmpagos estavam ficando mais rápidos, e o trovão começou a ecoar.
"Eu posso fazer tudo isso parar, sabe"
"Do que você está falando", eu exigi.
Ele se levantou e endireitou a gravata. "Eu posso fazer a tempestade parar". Ele limpou o sangue da testa. "Isso pode ficar muito pior. Você não pode me matar, eu sei que você está pensando nisso. Você não seria o primeiro a tentar. Também não será o último. Nós dois podemos sair desse abrigo, eu pego um pote daqueles pêssegos que sua avó enlatou. Sua casa não será destruída e aquela picape que você quase terminou de pagar não será virada de cabeça para baixo. Isso pode ficar muito, muito pior e eu não preciso te tocar". Ele sorriu e riu de novo, "Ou você pode me deixar te vender as facas e eu sigo meu caminho".
Para poupar você de mais problemas... agora tenho um conjunto de facas sentado num bloco no meu balcão e ele começou a andar para o Leste. Se você por acaso vir um vendedor de meia-idade com um maço de facas numa bolsa de lona, apenas gaste os 90 dólares.


0 comentários:
Postar um comentário