Você conhece aqueles protetores de tela que sua smart TV fica passando quando você não está usando ela? São fotos de flores, ou cânions, ou praias. Formações rochosas malucas, essas coisas.
Ela vai passando por elas, aparentemente aleatoriamente, e sempre tem o nome do fotógrafo marcado no canto. Você sabe do que eu estou falando, né?
Você sabia que nem sempre é aleatório? Algumas empresas têm ordens específicas, alguns fotógrafos até pagam só para terem as fotos deles usadas. Como na maioria das coisas, tudo se resume a dinheiro.
Mas se você algum dia — e eu digo isso de verdade — se você algum dia vir um que não... que não pareça certo, então desligue sua TV. Jogue ela pela janela, queime, jogue num lago. Se não tiver o nome do fotógrafo, ou se o nome for muito familiar, ou se a foto for de algum lugar que você conhece, jogue essa porra fora.
Eu estou falando por experiência própria, então confie em mim. Mas deixa eu voltar um pouco e explicar melhor.
Eu tinha acabado de ser demitido do meu emprego, um emprego que eu realmente gostava. Pagava bem, eu gostava dos meus colegas, mas meu chefe de merda cagou tudo e eu paguei o pato. Fui culpado por uma coisa que eu não fiz e acabei levando a pior. Eu estava em choque, destruído, abatido. Eu só deitava no escuro do meu quarto, paralisado.
Depois de alguns dias, eu consegui ligar a TV numa manhã e conectar meu notebook. Eu fui passando por séries, animes, documentários e filmes, mas não consegui me decidir por nada.
Eu acabei empurrando meu notebook pro lado e só fiquei olhando os protetores de tela passando na smart TV. As fotos iam trocando devagar, dolorosamente. Eu me peguei quase entretenido, esperando, tentando adivinhar quando ia trocar, tentando descobrir o padrão, ou se tinha algum.
O dia virou noite enquanto eu ficava ali, vendo as fotos na minha TV trocarem. Eu consegui encontrar um padrão por um tempo: geralmente era algum tipo de flor, depois uma praia, depois uma cidade, depois uma formação rochosa, fosse uma montanha ou um cânion.
Mas algumas horas depois do sol ter se posto, o padrão mudou. Quando devia ter trocado para uma flor, virou uma rua enevoada, e a fotógrafa se chamava Emmalynn Weiss.
Aquilo me chocou por um segundo. Era o nome da minha professora do primeiro ano. A Sra. Weiss era do tipo excêntrica da Srta. Amya, menos o ônibus, que adorava entreter as crianças. No começo eu achei que tinha que ser coincidência, e aí eu decidi: "Não, na verdade eu espero que ela tenha entrado na fotografia, bom pra ela". E quase peguei meu celular, pela primeira vez desde que fui demitido, para pesquisar no Google.
Quase.
Aí trocou de novo. Dessa vez era um prédio grande, bem iluminado. As janelas estavam iluminadas numa disposição visualmente agradável e enquadradas perfeitamente no centro da foto. Eu estava admirando a premeditação que levou a notar uma coisa daquelas, quando percebi duas coisas. Uma: não tinha o nome do fotógrafo.
Aquilo era novo. Sempre tinha um nome. Eu tinha pensado: "Tem que ter um nome, não tem como uma empresa de marca estar roubando as pessoas". E aí eu lembrei como meu emprego tinha sido uma merda e fiz uma careta, percebendo que definitivamente tinha como.
Eu estava prestes a verificar se minha antiga professora também não tinha sido roubada por essa empresa, quando percebi a segunda coisa errada na foto.
Eu conhecia aquele prédio. Eu conhecia muito bem, na verdade. Eu forcei a vista, finalmente saindo da cama por um motivo que não fosse mijar, cagar ou pegar comida fast food e álcool pedidos pelo DoorDash.
No canto, quase imperceptível, estava eu, indo trabalhar. O prédio era meu antigo emprego, e eu estava até nessa foto.
Eu ri. Achei que era uma coincidência maluca. Afinal, não era como se eu fosse o assunto da foto. Alguém claramente achou que as janelas ficaram bonitas e eu fui só uma vítima colateral.
Eu ri tanto que não percebi quando a foto trocou. Eu limpei as lágrimas de alegria do rosto e olhei pra cima, fazendo meu coração afundar.
Era um homem com barba por fazer vestindo um macacão cinza, me encarando na tela. Eu pulei de volta pra cama, meu sangue vibrando nas veias enquanto minha mente entrava em modo de pânico. O homem não se moveu, ele só me encarava através do protetor de tela.
Eu respirava ofegante, segurando meu peito enquanto meu corpo registrava que era só uma foto. Era pra ser uma piada do programador? Você fica tempo suficiente nos protetores de tela e o selfie mais aterrorizante dele aparece?
Eu devia ter desligado naquela hora. Devia ter jogado minha TV num lago e ido viver fora da rede. Mas eu estava curioso. Eu queria ver a próxima foto.
Pareceu que demorou muito mais para trocar. Eu fiquei ali na beirada da cama, encarando o homem desgrenhado pelo que pareceu uma eternidade. Quando eu estava prestes a pegar meu celular e começar um cronômetro, a foto trocou.
Era uma sala de aula lindamente decorada com luz dourada da tarde. Fitas e desenhos e pinturas de crianças iluminavam a sala de cores outonais.
Sentada numa carteira estava uma mulher de meia-idade com grandes marcas de riso e cabelo ainda maior.
"Professora... Weiss...?", eu respirei em voz alta, sem querer.
Assim que eu fiz isso, a imagem trocou de novo, exceto que era só o ângulo, mais baixo e num canto diferente. A foto ainda se passava na mesma sala, porém dessa vez Emmalynn não estava sozinha.
O homem desgrenhado estava atrás dela e olhando diretamente para a câmera, uma faca manchada de sangue já na mão.
"Não... Não... Emmalynn!", eu gritei, minha voz não usada soando fraca.
A imagem trocou de novo. Emmalynn estava caída sobre a carteira, sangue escorrendo no chão, e o homem desgrenhado estava agachado para olhar para a câmera.
Eu desliguei a TV imediatamente e vomitei na lixeira do meu criado-mudo.
Eu peguei meu celular e comecei a tentar encontrar qualquer coisa que pudesse sobre ela ter sido assassinada.
Nada. Na verdade, parecia que ela nem ensinava mais. Ela estava morando com sua nova esposa num rancho no interior, de acordo com as postagens dela nas redes sociais.
"Bom pra ela...", eu respirei aliviado. Eu pensei que devia estar imaginando coisas. Eu mal tinha me movido por dias agora, não tinha saído do condomínio de apartamentos de jeito nenhum. Eu devia ter me dado zoose ou algo assim.
Ou talvez não. Eu queria saber com certeza.
Eu peguei o controle remoto e apertei o botão de ligar.
Não teve logo da marca quando ligou, o que devia ter sido minha primeira pista.
A primeira foto que exibiu era completamente normal. Uma que eu tinha visto antes, na verdade: um close de um narciso. Na verdade, as próximas dez imagens, que passaram dolorosamente devagar, pareciam totalmente normais.
Ou pelo menos eu pensei que sim. Porém, na décima primeira, eu finalmente percebi que tinha algo errado.
No canto superior direito da imagem, quase imperceptível a menos que eu me levantasse e olhasse bem de perto pra TV, estava um fio de cabelo pendurado.
Eu franzi a testa, tentando lembrar se aquilo tinha estado lá da última vez, quando a próxima imagem apareceu.
Era um campo de girassóis, um que eu definitivamente tinha visto antes. Girassóis eram os favoritos da minha mãe, então eu lembro de ter olhado bastante para aquela imagem da última vez.
E eu tinha certeza absoluta que não devia ter uma figura num macacão cinza de costas pra mim no canto inferior esquerdo. A letra nas costas do macacão da figura era ilegível, e enquanto eu tentava olhar mais de perto, a cabeça dela virou quase imperceptivelmente.
Eu dei um passo rápido para trás, e a imagem trocou de novo. Dessa vez, um belo cânion exuberante da rotação anterior. Mais uma vez, no topo da tela, havia fios de cabelo, dessa vez descendo por toda a extensão do topo da tela.
Eu queria correr, mas para onde eu iria? Eu não tinha família, não tinha amigos. Meus antigos colegas não queriam nada comigo depois que fui culpado pelas coisas terem dado errado.
Eu segurei minha cabeça e puxei meu cabelo, me dei alguns tapas no rosto. Eu fiquei com raiva de mim mesmo, e aí fiquei com raiva da TV.
"Vai se foder! Vai se foder! Vai se foder!", eu gritei de olhos fechados para o mundo. Meus vizinhos de cima bateram no chão, a forma deles de me dizer para baixar o tom, de volta quando eu fazia coisas além de apodrecer na cama.
Eu tentei encontrar o controle remoto. Eu tinha deixado ele na frente do rack de entretenimento onde minha TV ficava, mas era difícil de olhos fechados. Eu vasculhei freneticamente tentando encontrá-lo, antes de me resignar a abrir os olhos e ver que coisa horrível os protetores de tela poderiam me mostrar dessa vez.
Quando eu abri os olhos, meu sangue gelou. Pendurado de cabeça para baixo com um sorriso selvagem, estava o homem desgrenhado. O sorriso dele era impossível, os dentes dele eram brancos e perfeitos demais, o que não combinava com a aparência desleixada dele.
Pior que isso, ele estava segurando algo, e eu reconheci instantaneamente. Era meu controle remoto. Eu olhei para baixo, para o rack de entretenimento, percebendo que não estava lá, e olhei de volta para cima.
Eu vi o homem piscar e apertar o botão de ligar. Minha TV desligou.
Eu sentei de volta na cama e me embrulhei nos cobertores. O homem tinha meu controle remoto. Isso queria dizer que ele podia voltar a qualquer momento, ligar minha TV quando quisesse?
Eu ri. Eu ri e ri e ri. Afinal, se esse era o plano mestre dele, eu desligaria essa porra da tomada. Na verdade, eu coloquei roupas reais, limpas, pela primeira vez em quase uma semana, e levei a TV para baixo.
Eu vi uns adolescentes jogando garrafas de vidro e só sendo hooligans em geral. Eu pensei que não podia ter mais sorte.
"Ei!", eu gritei, e os garotos paralisaram, olhos arregalados, percebendo que poderiam levar uma bronca. "Espera, espera, eu não ligo pras garrafas desde que vocês varram. Eu preciso de um favor."
Um garoto alto de cabelo cacheado, claramente o líder de fato do grupo, deu um passo à frente me avaliando.
"Beleza... o quê...?"
"Minha namorada me traiu com o cara que é dono dessa TV. Eu dou vinte pila pra vocês dividirem se vocês espancarem essa TV até não dar mais." Eu estendi a nota. Mesmo sem emprego, vinte dólares pareciam valer a pena.
"Fala menos." O garoto arrancou o dinheiro e a TV das minhas mãos, e imediatamente lançou ela contra uma parede. A tela estilhaçou e o plástico da moldura amassou. Eu sorri calorosamente enquanto via os garotos se divertirem quebrando aquela porra. Quando terminaram, eu voltei para o meu quarto e comecei a me candidatar a empregos.
Eu até consegui um bem decente. Minha entrevista foi ontem e eu arrasei, mas eu tenho um pressentimento de que não vou chegar à orientação.
Eu nunca cheguei a colocar um papel de parede nessa coisa, e eu sempre tenho várias abas abertas, então, por trás do trabalho que eu estava fazendo, meu notebook tinha ficado passando protetores de tela. Flores e cânions e praias e florestas eram o pano de fundo das minhas abas recortadas.
Você vê, eu só comecei esse post porque eu vi um fio de cabelo pendurado no topo da tela do meu computador.
E agora eu tenho que ir.
Porque os olhos dele, de cabeça para baixo, estão espiando por cima da aba agora mesmo.


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