segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Outro Lado do Fim

Menos duas horas até o impacto

"O sistema de alerta do governo se repetirá da seguinte forma: Em duas horas, o Cometa colidirá com a Terra. Permaneça em casa e siga as instruções militares. Você não pode evacuar. Mantenha a calma. Por favor, aguarde uma mensagem do seu presidente."

Essa era a conversa na caixa. Tocando em loop há três dias. Poderíamos algum dia acreditar no que estava acontecendo? Quando li a notícia pela primeira vez, eu era um dos que acreditavam. Eu era um deles. Não demorou muito para as opiniões dos outros azedarem. Para dizer que não ia ser real. Não demorou muito para minha família me ouvir bebendo. Eu observava meus vizinhos se debatendo abaixo de mim enquanto eu sentava na minha cadeira de jardim, que rapidamente batizei de "trono". Minha preparação era tão boa quanto a do próximo cara. Uma caixa térmica de cerveja e um punhado de charutos. Até consegui trazer minha garrafa de uísque irlandês pra cá. Havia algo melhor do que um bom gole de uísque ruim nesta vida? Tudo o que eu tinha que fazer era apertar o gatilho. Mas por alguma razão impiedosa, eu escolhi beber.

Eu devia dar um pouco de contexto... Três meses atrás, ouvimos falar do cometa. Aparentemente, eles estavam rastreando ele há anos. Nós nos preparamos como qualquer um faria. Beijos e abraços logo se transformaram em sussurros e conspirações sobre quem soube que ele estava vindo primeiro. A segunda vítima em qualquer guerra é a razão. As pessoas pararam de se cuidar umas das outras. Eu também sou culpado nesse quesito. Corri até a loja e peguei água para minha gente. Eu estava pensando que um fardo seria suficiente. A piada está nos sobrevivencialistas egocêntricos por acreditarem que 24 fardos de água seriam o suficiente para sobreviver a cerca de 20 quilotons de força. Mas eu divago.

De qualquer forma, comida era um artigo de luxo e água era, bem, água era tão valiosa quanto... É só ver acima.

Não me lembro exatamente de quando acabou. Como você sabe, eu estava bebendo. Então, leve isso em consideração. Não me lembro de quando ele atingiu. Não me lembro dos vizinhos gritando. Só me lembro de acordar. Quando acordei no telhado, não havia nada. Silêncio. Eu deveria ter sabido que o silêncio era alarmante.

Isso não é uma terra arrasada. Deus, como eu esperava ter visto fogo. Agora eu vejo o vazio. Nenhum vizinho. Nenhum carro buzinando desesperadamente tentando arrancar qualquer segundo de salvação. Nenhum latido, nenhum zumbido, nenhuma porra de ruído branco.

Desci do meu telhado e não havia nem o zumbido de uma mosca. Aventurei-me pela cidade e vi os prédios intactos. A eletricidade ilumina cada negócio como se fosse uma terça-feira comum. Minha calma se transformou em pânico. Por que esse cometa não causou a destruição esperada? Os carros vazios, os negócios e os arranha-céus me disseram exatamente o que eu precisava saber. Eu estou sozinho.

Isso é a morte?

Eu cheirei o ar. Desesperado por qualquer coisa, comecei a cheirar o chão. Até tentei cheirar a terra. Deixa eu cheirar merda de cachorro nesse ponto. Não havia nada. As árvores, as flores e as raízes estavam todas lá. O lixo, a sujeira, o elemento humano também estava lá. Mas nenhum humano, nenhum cheiro, e nada que eu tocasse me dava qualquer sensação. Procurei por algo, qualquer coisa. Nada.

Eu anseio por alguém que me diga. Eu perdi alguma coisa? Eu fiz alguma coisa errada? Eu pensava que a morte seria como o nascimento. O nada. Seria como se você nunca tivesse estado aqui. Mas isso. Isso é diferente. Isso é estar sozinho.

Eu queria ver o cometa atingir a Terra no meu telhado. Eu fiz tudo o que eu deveria fazer. Mas por que eu ainda estou andando nesse deserto? Por favor, alguém responda.

Eu não acho que estou morto. Deus, como eu gostaria de estar.

Eu gostaria de estar morto.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon