Desde o momento em que nasci, minha mãe desejou que eu estivesse morta.
Afinal, ela se certificava de me dizer isso todos os dias.
"Eu te odeio", ela cuspiria, as palavras como ácido cáustico, cada uma atingindo com precisão exquisita. "Eu me arrependo de tê-la tido." O rosto dela aparecia pela esquina quando dizia isso, súbito e intenso, como se tivesse estado ali esperando, me ouvindo.
Todos os dias, no momento em que meu pai saía de casa, ela se virava para mim, os olhos brilhando de ressentimento. "Criança estúpida", ela sibilava, antes de se aproximar com passos pesados. As palavras dela eram tão afiadas quanto os tapas.
À medida que eu crescia, ela ficava mais magra, mais frágil. Era como se algo nela tivesse sido esticado além do limite e deixado ali. Sua pele estava rachada com sangue seco, como se tivesse se partido, depois cicatrizado, depois se partido de novo. Quando ela sorria, parecia forçado, como se pudesse se fraturar se se alargasse demais.
"Devia ter sido você", ela sussurrava.
Toda manhã, eu acordava com a cabeça latejando, como se veneno tivesse gotejado no meu ouvido a noite toda. Aprendi a me mover silenciosamente pela casa. A evitar as esquinas. Eu era como presa evitando os olhos do predador, nunca querendo chamar sua atenção, sempre prendendo a respiração de um jeito específico. Havia sempre a sensação de que algo nela exigia manuseio cuidadoso, como vidro que já tinha rachado, mas ainda não tinha se estilhaçado.
Com o passar dos anos, ela mudou de maneiras que me perturbavam. Seus ombros estreitaram. Sua postura se curvou para dentro, seus dedos se alongaram e emagreceram, tudo era só arestas afiadas e osso. Ela nunca entrava num cômodo por completo, em vez disso, infiltrava-se pelas bordas. Em portas. Nas sombras. No espaço estreito entre a parede e a moldura. Meio vista, mas sempre atenta. O rosto dela aparecia primeiro, espiando pela esquina, a expressão já formada e gotejando malícia.
O resto dela seguia em pedaços, nunca se alinhando direito, como uma cobra que tinha que se forçar na forma de um corpo. Eu dizia a mim mesma que era a luz. Ou que eu estava cansada.
Uma vez, eu a vi no final do corredor. O corpo dela permanecia na sombra, um ombro encostado na parede, mas a cabeça dela... a cabeça dela estava inclinada na minha direção num ângulo que deveria ter sido impossível daquela distância. Puxada para frente. Esticada. Observando.
O sorriso dela se alargou quando ela percebeu que eu podia ver. Eu pisquei, e ela estava como sempre esteve.
"Você arruinou tudo", ela zombou baixinho.
Quando eu era mais velha, alguém me disse isso. Uma professora, talvez. Ou uma vizinha. Não lembro quem. Só as palavras: Ela deve estar orgulhosa de você.
Não discuti. Deixei passar, do jeito que eu tinha aprendido a deixar a maioria das coisas passar. Mas depois, tentei imaginá-la em outro lugar. Lá fora. Andando. Falando com alguém que não fosse eu, numa voz que não fosse aquela voz. Tentei por muito tempo.
Não consegui.
Foi por volta dessa época que comecei a notar o teto. Uma descoloração fraca na sala de estar, logo além de onde a luz alcançava direito. Eu me pegava em pé debaixo dela mais vezes do que pretendia. Olhando para cima.
Uma noite, acordei com o som de algo acima de mim.
Entrei na sala de estar. A marca estava mais escura agora. Mais funda. Fiquei ali por muito tempo, olhando para cima. No começo não havia nada. E então... algo se moveu. Uma forma, mal visível no início, depois se resolvendo lentamente, como se estivesse emergindo através da superfície. Uma linha fina emergindo, alongando-se lentamente, firmemente, como se fosse puxada para baixo por um peso que se recusava a soltá-la.
Meu estômago se revirou antes que minha mente entendesse.
Pele.
O pescoço dela se estendia da escuridão acima, impossivelmente longo, impossivelmente fino, a pele ao longo dele esticada e desigual, marcada com linhas fracas que pareciam quebras antigas, cicatrizadas mal. E então a cabeça dela apareceu. Lentamente. Sendo arrastada para a vista.
Ela estava olhando diretamente para mim. E naquele momento, tudo encolheu até um único ponto. Meu rosto queimava, meus dedos ficaram gelados e minhas pernas... minhas pernas não se moviam. Entendi, distante, que eu tinha mandado elas se moverem, mas elas não se moviam. E eu não conseguia respirar.
"Eu te odeio", ela roucou. "Eu desejo que você estivesse morta."
A voz dela estava errada. Pressionada contra meu ouvido, contra a parte de trás do meu crânio, circulando pelo ralo dos meus pensamentos, incapaz de escapar. E ali em pé, olhando para cima para ela, eu me peguei tentando, desesperadamente, colocá-la em algum lugar que fizesse sentido.
Mas quanto mais eu tentava alcançar isso, menos havia para segurar.
Não havia manhãs com ela à mesa. Não havia tardes, nenhum momento comum que pertencesse a algo que se assemelhasse a uma vida. Só esquinas. Portas. Vislumbres meio vistos. Um rosto aparecendo onde não deveria estar, uma voz estalando e golpeando minhas costas.
Algo caiu dentro de mim, rápido e vertiginoso, como perder um degrau no escuro. Percebi que não conseguia me lembrar da última vez que a tinha visto se mover de um lugar para outro. Não direito. Não de um jeito que unisse um momento ao seguinte. Ela nunca tinha chegado. Ela só tinha estado ali.
Fiquei com isso por um momento. A casa ao meu redor. A escuridão acima de mim. O som da minha própria respiração, alto demais, perto demais. E então eu me lembrei.
Não tudo de uma vez, mas em pedaços, do mesmo jeito que ela sempre tinha chegado. A ausência dela. O teto. O som particular que a casa tinha feito naquela manhã, antes que eu entendesse o que sons significavam.
Ela não tinha querido liberação. Eu sabia disso agora, olhando para cima para ela. Não havia paz no rosto dela. Nunca houvera. O que quer que a tivesse levado a isso era a mesma coisa que impulsionava tudo o que ela fazia — o mesmo ódio azedo, paciente, particular que sempre tinha sido destinado a mim.
Ela não tinha partido.
Talvez não pudesse. Talvez o ódio fosse simplesmente denso demais, consumidor demais, demais ela para se dissolver em nada. Ou talvez, e esse era o pensamento que eu não conseguia silenciar, ela tivesse escolhido isso. Tivesse olhado para o que quer que esperasse além e escolhido, em vez disso, ficar. Permanecer exatamente onde ela era mais ela mesma.
A boca dela se moveu. As mesmas palavras. Sempre seriam as mesmas palavras.
Eu não sabia mais, se ela era real. Se qualquer coisa disso era algo fora de mim ou apenas a forma que minha mente tinha feito de anos dela. Talvez não houvesse diferença. Talvez esse fosse o ponto.
Mas ela ainda estava ali. E eu ainda estava olhando para cima.


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