Na minha casa, o silêncio não era paz; era uma regra de ferro. Às quatro da tarde, quando a sombra da cordilheira começava a se estender pelas planícies como uma mão negra, eu já sabia o que estava por vir sem que ninguém precisasse dizer uma única palavra. Bastava eu ouvir o rangido das botas de couro rústico do meu pai e o farfalhar pesado das saias de pano preto da minha mãe para me pôr em movimento.
Eu mal tinha dez anos, e sempre andava três passos atrás, como se fosse uma sombra forçada a seguir os calcanhares deles. Dessa distância, as costas do meu pai pareciam um muro inabalável, uma silhueta imensa que bloqueava meu horizonte. Eu sabia perfeitamente bem que a curiosidade na minha boca era um pecado pago caro, com a ferroada do chicote e o jejum, então eu tinha aprendido a engolir minhas perguntas antes que elas pudessem queimar minha língua. Naqueles tempos, nós, crianças, éramos os mudos do mundo, nada mais.
A estrada para a cidade era um caminho de terra solta na montanha, cavado à força pelos cascos de gado e pelas rodas de carroças. Àquela hora, o ar ficava cortante e mordia meu rosto; trazia um cheiro espesso de névoa, eucalipto triturado e da terra úmida que começava a congelar. O único lembrete de que o mundo ainda estava vivo era o rugido do rio, lá embaixo, esperando sob a ponte de madeira.
Atravessar aquela ponte sempre me dava arrepios. A madeira velha gemia sob as minhas alpargatas, e pelas frestas entre os troncos mal encaixados, eu conseguia ver a água negra passando com velocidade violenta, como se quisesse arrastar os segredos da montanha em direção às planícies. Atravessar o rio significava deixar para trás a segurança do pequeno povoado rural para entrar no território dos homens: a cidade.
Chegamos à praça bem quando os sinos da igreja começaram a badalar, chamando para a missa das seis. Para os meus olhos de criança, que não entendiam nada de culpa, milagres e muito menos de pecado, o templo parecia uma fera cinza com a boca aberta. Lá dentro, respirar exigia esforço: era uma mistura pesada de incenso barato, suor de ruanas de lã encharcadas pela névoa e o cheiro rançoso de velas de sebo gotejando no chão. Eu me ajoelhei onde me mandaram, entorpecido de frio, observando as bocas dos adultos se moverem num murmúrio uníssono, rezando por coisas que eu nem conseguia começar a imaginar.
Meu erro aconteceu na saída. No campo, a noite não cai devagar; ela despenca de uma vez, como se alguém apagasse a última vela no céu. Às sete, quando atravessamos o limiar da igreja, a praça já era um poço de sombras, mal quebrado pelo brilho trêmulo de um lampião a óleo. A maré de chapéus escuros e ruanas se dispersou tão rápido que me deixou tonto.
Eu parei por um segundo. Talvez fosse o reflexo da lua numa poça de lama, ou as formas distorcidas que as gárgulas da igreja projetavam contra os paredões de taipa. Eu me distraí. Uma piscada longa.
Quando olhei para cima, a praça estava vazia. As costas dos meus pais não estavam mais à minha frente. Acostumados a que eu os seguisse por pura inércia, eles tinham começado a subida da montanha sem olhar para trás. Eu corri em direção à trilha, mas a boca da mata já estava completamente escura. Sem vela ou lampião a querosene, tentar subir a montanha no escuro era uma sentença de morte entre os penhascos e o rio furioso.
Sozinho, tremendo, e com o medo devorando meu estômago, eu olhei para trás. A praça era um deserto de cinzas. A única estrutura que mantinha uma luz moribunda, filtrando-se pelos vitrais sujos, era a igreja. A casa de Deus. O lugar mais seguro do mundo — ou assim eu sempre ouvia os mais velhos dizerem. Então, com os pés congelados e o coração pulando no peito, eu empurrei a pesada porta de madeira, que cedeu com um gemido longo, e voltei para dentro.
O ar não era mais o mesmo de durante a missa; o calor dos corpos tinha desaparecido, deixando uma friaca de cripta que penetrava nos meus ossos. Sem o murmúrio das orações, o eco das minhas próprias alpargatas contra a pedra soava como um tiro. Os santos em seus nichos, mal iluminados pelos tocos de vela afogando-se em seu próprio sebo no altar, pareciam me observar com olhos de vidro fixos, mudos e severos, esticando suas sombras deformadas pelas paredes altas. Um som gelou meu sangue: passos pesados e o tilintar de um enorme molho de chaves de ferro vinham da sacristia. Alguém ia trancar. O pânico de ser encontrado ali, de ser arrastado diante do padre ou de a notícia chegar aos ouvidos do meu pai, era mais forte que qualquer outro medo. Eu tinha que me esconder.
Meus olhos varreram a nave central na penumbra e travaram numa estrutura de madeira escura erguendo-se de um dos lados: o confessionário. Parecia uma pequena fortaleza de carvalho, um armário sagrado onde os homens esvaziavam suas almas. Eu pensei, com a inocência dos meus dez anos, que se a igreja era a casa de Deus, então aquela caixa tinha que ser o canto mais seguro do mundo. Corri até ela, abri a cortina grossa de pano desfiado que cheirava a hálito velho e me enfiei lá dentro, puxando as pernas bem contra o peito.
Quando a cortina se fechou, o espaço encolheu até o meu próprio tamanho. Através do tecido denso, ouvi os passos arrastados do sacristão se aproximando da entrada. Depois veio o som do fim do mundo: o gemido violento das portas principais se fechando, o baque surdo da pesada barra de madeira atravessando o portal e o rangido metálico do trinco de ferro girando.
Um momento depois, uma corrente de ar frio varreu o templo; o homem tinha apagado as últimas velas. A luz fraca que filtrava pelos vitrais sujos se extinguiu de uma vez, e a escuridão ficou tão densa que doía. Fiquei cego num segundo. Dizem que quando você perde a visão, seus outros sentidos se aguçam para te salvar, mas eu teria preferido mil vezes ter ficado surdo naquela noite. Porque naquele vazio negro, quando o silêncio do templo trancado deveria ser absoluto, a madeira do confessionário começou a vibrar.
No início, era um rangido sutil, uma pulsação que subia pela minha espinha através do encosto. Mas logo, a madeira não foi a única coisa a despertar. Do lado de fora da cortina de pano, a nave central da igreja se transformou num ninho de ruídos inexplicáveis. Eu ouvi o arrastar pesado de pés descalços sobre a pedra fria; passos rápidos, como os de grandes vermes, correndo de uma ponta do altar à outra. Os bancos de carvalho, densos e pesados, gemiam violentamente, reclamando sob o peso de corpos invisíveis sentando-se e levantando-se numa massa frenética e oculta. Alguém estava chorando perto do sacrário — um choro seco, de uma garganta velha, que de repente se retorceu numa risada abafada e zombeteira que subia pelos pilares até o teto.
Eu levei as mãos à boca e mordi os nós dos dedos até sentir o gosto de sangue. Eu sabia, com a certeza absoluta da sobrevivência, que se eu soltasse um único soluço, o que quer que estivesse correndo lá fora arrancaria a cortina e me arrastaria para o vazio.
Mas o verdadeiro inferno não estava lá fora.
Bem quando eu pensava que a estrutura era minha única proteção contra as coisas que vagavam pela igreja, o ar dentro do cubículo ficou espesso e fétido, gelado como o hálito de um morto. A veia da madeira velha começou a emitir um zumbido. Não vinha da nave; vinha de dentro do carvalho, bem atrás das minhas orelhas, pressionadas contra a nuca. Eram sussurros. Centenas de vozes sobrepostas, presas no móvel que por décadas tinha engolido a podridão da cidade.
Eram os segredos que homens e mulheres não ousavam confessar à luz do sol. Minha mente não entendia o sentido das palavras de adulto naquela época, mas as imagens atingiam meu peito como estilhaços. Eu ouvi a voz trêmula de uma mulher confessando ter afogado um recém-nascido no rio antes que ele pudesse chorar; o sussurro rouco de um homem amaldiçoando o irmão enquanto planejava envenenar seu gado. Orações invertidas, gotejando ódio, implorando pelas mortes de crianças da minha idade, e línguas bifurcadas suplicando o perdão de Deus apenas para ter permissão de pecar de novo ao amanhecer.
O confessionário inteiro vibrava com culpa humana, luxúria e crueldade. Mas no meio da maré de lamentos deformados, havia uma voz que congelava os batimentos no meu peito. Não era o sussurro de um velho consumido pelos anos, nem o choro seco de uma mulher. Era a voz de uma criança. O choro não vinha da maré lá fora, mas do outro lado da tela, como se o eco de sua confissão tivesse permanecido suspenso no ar, preso no tempo.
"Dói, Monsenhor..." o menino dizia entre soluços e lágrimas, buscando um conforto que nunca chegou. "...Ele me disse que era um segredo de Deus. Que se eu contasse para minha mãe, as almas do purgatório viriam buscar ela. Eu tentei rezar, mas ele... ele apagou a vela e segurou minhas mãos na sacristia. Por que Deus deixa ele fazer isso comigo se ele também usa a batina?"
Eu não conseguia dar um nome ao que estava ouvindo, mas sentia um frio nauseante no estômago. Era o som da inocência sendo devorada pelo próprio altar que deveria protegê-la. A pior parte não era o sofrimento da vítima, mas a resposta que vibrou logo em seguida, dita na voz calma e profunda do padre principal da cidade — o mesmo homem que horas antes nos tinha abençoado com a mão erguida.
"Vá para casa, menino, e guarde silêncio. Isto é uma prova de fé. O Irmão Luís está apenas purificando seus pecados. Reze dez Ave-Marias e não fale mais nisso. Deus vê tudo, e Ele castiga crianças mentirosas."
A memória de outra conversa se infiltrou no carvalho, uma que não aconteceu na confissão, mas entre as paredes desse mesmo cubículo minúsculo. Era o padre principal, repreendendo o outro homem, mas seu tom carecia da ira santa de um Deus que pune o pecado:
"Você tem que ter mais cuidado. O menino Martínez já está começando a fazer perguntas, e a cidade não pode descobrir. Mantenha ele longe do altar por algumas semanas. Se os dízimos caírem ou o bispo descobrir, todos nós afundamos. Deus proverá outro caminho, mas tenha cuidado."
Naquele instante, no meio da escuridão sufocante do confessionário, as peças da minha infância se encaixaram com a força de um chute. Eu lembrei dos domingos anteriores. Lembrei do jeito que o padre me olhava do púlpito, a fixidez dos olhos de ave de rapina nas minhas bermudas. Lembrei do domingo em que ele me chamou depois da aula de catecismo, me oferecendo um doce enquanto acariciava a minha nuca com uma mão muito macia, muito quente, insistindo que eu o acompanhasse até a sacristia para mover os cálices de prata. Eu tinha escapulido por pura timidez, impelido por aquele instinto desajeitado dos bichinhos que sentem a armadilha antes de vê-la.
O ar falhou nos meus pulmões. Minha cabeça doía de tanto pressionar as mãos sobre as orelhas com toda a força. Eu estava na barriga do monstro. As paredes que as pessoas comuns beijavam e reverenciavam eram construídas sobre o silêncio de crianças quebradas. As piores pessoas que eu encontraria na minha vida não tinham garras; elas usavam uma cruz no peito e usavam o nome de Deus para camuflar suas atrocidades.
Quando os primeiros raios de sol filtraram-se pelos vitrais sujos, manchando o chão de pedra de uma cor tão vermelha quanto sangue, eu ouvi os ferrolhos da entrada deslizarem. Esperei até que os passos do sacristão se afastassem em direção ao altar e, com o corpo dormente e a alma congelada, eu saí do confessionário. Não olhei para os santos. Não olhei para o altar. Corri para a porta, e meus pés descalços me levaram de volta para a montanha, atravessando a ponte de madeira sem olhar para a água negra.
Cheguei em casa com o caminho inundado de luz, mas minha mente estava mergulhada na noite mais profunda. Meu pai me puniu por ter me perdido, e eu não soltei uma única queixa enquanto o chicote cortava minhas costas.
Os anos passaram, eu me tornei um homem e formei minha própria família. Cresci num homem profundamente respeitoso com a igreja e a religião. Mas não porque eu acredite na salvação; pelo contrário, porque eu sei perfeitamente bem que os piores demônios não chacoalham correntes no inferno — eles sentam-se para confessar em templos.
Minha mulher, como todos nós, foi criada com a palavra de Deus na boca, e foi assim que ela criou nossos filhos. Eu nunca interfiro nesse aspecto da nossa vida, mas sempre estive de olho nos sinais. Meus filhos nunca usaram bermudas, e minhas filhas nunca usaram saias. Éramos estranhos na cidade que nos viu crescer, e eu entendia isso, mas não me importava. Eu nunca forcei meus filhos a irem à missa, e quando nos mudamos para a cidade e eles pararam de ir à igreja, eu nunca os questionei. Eu não sabia que consequências isso teria lá na frente ou quando todos nós morrêssemos, mas pelo menos me garantia que nenhum dos meus terminaria suplicando a um padre para não machucá-los.


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