sábado, 13 de junho de 2026

Eu Vi a Cor no Cânion

Me vi de ressaca de novo, deitado desconfortavelmente na minha cama enquanto o fedor nojento de vômito grudava no meu hálito. Eu tinha esquecido quantas vezes tinha feito essa rotina triste. Essa punição por uma noite de alegria fútil. Não importava de qualquer forma. Não era como se eu tivesse outro lugar pra estar. Com grande esforço, me ergui, sentindo os líquidos dentro de mim se movimentarem violentamente. Cerrei os dentes e abri os olhos devagar. A luz vinha derramando pelas frestas das minhas persianas, minhas retinas chiando enquanto captavam um raio de sol perdido. Rapidamente, voltei ao conforto das minhas pálpebras. Quando finalmente os abri de novo, tudo tinha ficado mais escuro, e eu podia ver a bagunça que meu quarto tinha virado. Espalhadas pelo chão estavam roupas, migalhas e latas amassadas, amontoadas como tumores numa casa já doente.

Enquanto eu ia deitar a cabeça de novo, ouvi um bip do meu celular, deitado virado pra baixo do outro lado do quarto bagunçado. Tentei levantar, mas a cambalhota pesada do meu estômago me empurrou de volta pra cama, me forçando a sentar com a mão cerrada pra segurar o vômito. Sem outra solução, rastejei em direção ao celular, me contorcendo pelo chão até que a luz dele pudesse atingir meus olhos. Quando ele acendeu, o aplicativo de GPS abriu, revelando um caminho pra uma localização que eu nunca tinha ouvido falar. Não era nenhum tipo de ponto turístico, ou lugar de beleza natural, apenas um conjunto de coordenadas, me levando a um ponto a 30 minutos daqui. Por que eu tava tentando ir lá ontem à noite? E por que eu desisti? Fiquei pensando nisso um tempo, me perguntando o sentido de seguir as ambições cegas e desconhecidas de um homem bêbado. Ainda assim, enquanto encarava aqueles números desconhecidos, havia uma atração. Era quase como uma corda, algo me amarrando àqueles números por razões que eu não conseguia entender. "Que se foda", pensei, eu não tinha nada pra fazer hoje mesmo. Agarrando a borda do balcão, me puxei pra cima, meu estômago agora mais quieto em seu protesto. Peguei minhas chaves e uma garrafa de água e desci até o meu carro. Sentei no volante, meus olhos injetados de sangue refletindo de volta no espelho. Eu ia precisar de um minuto antes de ir, não podia ir nesse estado. No entanto, quando avistei as chaves, brilhando no sol da manhã, parecendo me implorar pra deixar esse lugar maldito, eu não pude recusar. Contra os desejos do meu corpo, encaixei a chave na ignição, ligando o carro e começando minha jornada até o ponto misterioso.

Depois de uma jornada tumultuada, dirigindo o mais devagar que podia pra acalmar meu estômago, estacionei o mais perto que consegui, na beira da rodovia, ainda a quinze minutos de distância. O celular bipou de novo, me pedindo pra entrar na pequena passagem à minha frente. Isso me assustou de início, a gigantesca parede de rocha marrom se erguendo sobre mim, mas eu continuei em frente. Me encaixei na passagem e me desloquei de forma desajeitada pra baixo. "Por que eu tô fazendo isso?", pensei comigo mesmo. Minha vida me espera de volta na cidade. Meus amigos, minha família, meu emprego, minha namorada. Ainda assim, ainda havia o puxão. Talvez apenas o puxão de uma motivação desconhecida, mas um puxão, não obstante. Passei por outra rocha, levando a uma saliência com vista pra uma extensão plana de areia empoeirada. Apesar do meu horror inicial, os pensamentos de tempo desperdiçado me lavando como chuva ácida, havia algo sobre esse lugar. O ar era mais doce, as rochas mais vívidas, a areia carregada pelo vento mais salgada contra meus lábios. Decidi ficar, a chance de haver algo aqui superando em muito a dor de sentar na natureza, olhando pro deserto enquanto a aurora brotava até o crepúsculo. Enquanto o sol começava a se pôr, e meus olhos começavam a se cansar, eu vi algo se esforçar pra sair do horizonte.

Uma criatura, do tamanho de uma casa pequena, vinha galopando em direção à clareira. Seus olhos vermelhos estavam encravados na cabeça de uma vaca, um pequeno anel dourado pendurado no seu focinho. Ela estava empoleirada sobre um pescoço musculoso e proeminente, mais parecendo com um tronco de árvore do que com qualquer parte de um animal. O corpo era esguio, quase luminescente na luz moribunda do sol, revestido em toda cor que eu já tinha achado bonita, levando a quatro pernas gigantes tanto com cascos quanto com garras, chutando e arranhando a poeira enquanto se movia. Fiquei em pé, incapaz de me mover, meus olhos fixos no animal. Eu era como um peixe, tirado do meu lago estreito e mostrado o sol dançando no céu de chiclete. Eu não achava que tanta beleza existia nesse mundo. Caindo de joelhos, vi ela correr pra dentro da noite, virando uma pequena mancha preta no horizonte. Quanto mais longe ela ficava, mais meus pulmões pareciam esvaziar, até que eu fiquei em pé, esquelético e oco, encarando o ponto agora invisível. Demorou um tempo antes que os pensamentos voltassem pra minha cabeça, seu coral gritando a mesma palavra em vozes diferentes. Corra. Um jorro de energia fluiu pelas minhas veias, e eu comecei a correr atrás da criatura. Uma perseguição insana. Um disparo desenfreado. Eu corria e corria, levantando anos de poeira e rocha debaixo dos meus pés. Mesmo quando minhas pernas começaram a doer, e minha saliva secou e se aglomerou na minha boca, eu nunca parei minha perseguição. Eu nunca vou parar de correr, pois eu sei, no fundo dos meus ossos, que um mundo sem a criatura não é mundo algum.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon