segunda-feira, 8 de junho de 2026

Carona Compartilhada Pode Ser Perigosa

Tô fazendo carona compartilhada há alguns meses. Algumas pessoas parecem amar isso, mas pra mim é só um trampo de meio período. Busco alguém, passo por um papo furado constrangedor, ou um silêncio constrangedor, e deixo a pessoa. A gente acostuma.

Essa semana aconteceu uma coisa que me deixou no hospital. Ainda tô tentando processar, mas pensei que escrever sobre isso poderia ajudar.

Umas 23h40, uma notificação apareceu no meu celular [2 min (0,8 km) de distância · 5,0 ★].

Quando cheguei no local da busca, um cara alto saiu andando pra dentro da luz de um poste piscando. Abaixei o vidro enquanto parei o carro. "E aí, mano, cê tá esperando um Uber, é o John, certo?"

Ele não levantou a cabeça, mas começou a andar até a porta do carro. Sinceramente, nada tão estranho, ainda mais tarde da noite. Pelo retrovisor, tentei dar uma olhada no rosto dele por baixo do boné, instinto humano, acho, mas não vi nada. Ele enfiou o corpo magrelo pela porta do carro, mantendo o olhar fixo no chão o tempo todo.

Decidi não encher o saco e deslizei o [iniciar viagem] no app. Ele tava indo pro parque público, uns 5 minutos de distância. Quando saí do meio-fio, minha escolha consciente de não me intrometer virou uma pergunta inconsciente, "O que que tem no parque? Tem algo lá que eu devia conferir?"

Olhei no retrovisor de novo, e na luz fraca, dava pra ver só a parte de baixo do rosto dele, o queixo, a boca.

Era nojento.

Através da barba por fazer, um líquido laranja grosso tava vazando da boca escancarada dele, passando por uns dentes amarelos tortos que se projetavam pra todos os lados possíveis. Era como se alguém tivesse tentado encher a boca dele com o máximo de dentes que cabia. O rosto dele tava coberto de um monte de feridas abertas que escorriam, quase como se alguém tivesse cravado as unhas na cara dele.

Ele pareceu perceber que eu tava olhando pra ele.

Desviei o olhar do banco de trás e voltei pra estrada. A gente tava desviando pro lado da rua, era um milagre eu não ter batido em nada. Tentei ajustar o carro rapidamente, mas o barulho dele se mexendo no banco de trás dificultava focar.

Uma mão agarrou um punhado do meu cabelo e começou a puxar pra trás. Minha cabeça foi jogada pra trás no encosto de cabeça, fazendo o carro guinar de repente de novo. O passageiro foi arremessado contra a lateral do carro com um som pesado de esmagamento.

Tentei retomar o controle do carro mais uma vez, procurando um lugar pra encostar sem ser atropelado. Um som começou a ecoar pelo carro, mãos cravando as unhas nos bancos, tentando se reequilibrar.

Mas, outra coisa também. Algo horrível, um arranhar e raspar vindo do homem. Baixo, mas ficando mais alto a cada segundo. Ele tava soltando uma risada grotesca, xaroposa, que parecia lutar pra passar por aquele líquido laranja jorrando da boca dele. Meu peito ficou apertado, como se tentasse segurar a força do grito que eu ainda não tinha gritado.

Tentei abrir a porta do carro, mas ele agarrou meu braço e tentou me puxar de volta com toda força. Alcancei o outro lado do corpo pra tentar pegar o spray de pimenta que eu guardava no porta-luvas. A risada dele encheu o carro inteiro, ecoando no interior, enchendo minha mente de visões do que ele podia fazer se eu não saísse daquele carro AGORA MESMO. Aí parou.

Ele bateu as mãos nos meus ombros, me segurando no lugar.

O grito que tava se formando no meu peito finalmente escapou, "ME SOLTA, QUE PORRA— O QUE CÊ TÁ FAZENDO? POR QUE CÊ TÁ FAZENDO ISSO!" Eu me debatia, tentando me soltar do aperto dele, mas o aperto dele só ficou mais forte.

O rosto dele tava colado no meu agora. A umidade do meu rosto cheio de lágrimas se misturando com aquele líquido grudento que cobria o dele. Ele sabia que tinha me prendido onde queria. Ele falou pela primeira vez, direto no meu ouvido, um sussurro baixo e faminto, crepitando e borbulhando a cada sílaba que ele parecia forçar pra fora. "Praa onde cê vai, eu preeeeciso de você."

Ele mordeu meu ombro, rasgando a carne e mandando ondas alternadas de dor e medo pelo meu corpo. Com a pouca energia que ainda me restava, pisei fundo no acelerador, fazendo o carro disparar pra frente.

Nós voamos pela rua e batemos na parede de uma loja de conveniência.

Os airbags explodiram na minha cara e minha consciência começou a sumir. Nos meus últimos momentos de consciência, ouvi um som de ar sendo puxado vindo do banco de trás, a porta abrindo, e uma massa grande caindo do carro.

Acordei alguns momentos depois, sendo puxado pra fora do carro por uma mulher de uniforme verde, o rosto dela pálido e suado. "Ai meu Deus, ai meu Deus, você tá bem? Quem era aquele cara?"

Tentei responder, mas minha boca parecia cheia de cola, e minhas palavras saíram meio sem forma.

Uma ambulância chegou alguns longos momentos depois e me trouxe pro hospital, onde fiquei me recuperando nos últimos 2 dias. Os médicos dizem que é um milagre eu não ter me machucado mais no acidente, mas tem uma coisa que não para de me incomodar.

Minha saliva está laranja.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon