Eu tenho pavor de qualquer coisa remotamente assustadora — fantasmas, lugares mal-assombrados, filmes de terror — eu evito tudo isso. Uma vez assisti a um filme chamado "Lights Out" e não consegui dormir por 3 dias seguidos, e as pessoas me disseram que nem é tão assustador, então é esse o nível que a gente tá falando. Mas isso aqui é algo que realmente aconteceu comigo e eu ainda penso nisso.
Uma coisa que a vida me ensinou por meio de várias lições: nunca, em hipótese alguma, ignore seus instintos. Se ele tá dizendo não, apenas ouça. Essa é uma dessas lições.
Era só mais uma noite. Eu tava no treino de badminton e tava prestes a ir pra casa. Deve ter sido por volta das 20h30 quando meu amigo ligou, disse que tava por perto e que ia me buscar. A gente foi pro nosso ponto de encontro favorito, comeu e riu como amigos fazem. Depois de mais ou menos uma hora, por volta das 22h, a gente foi embora e decidiu dar um rolê no nosso circuito antigo, só uma rota que a gente criou com o tempo sempre que saía pra passear.
Meu amigo tava dirigindo, tava tudo bem, a gente tava conversando e ouvindo música. Aí veio o último trecho.
É uma estrada linda, cercada por árvores perfeitamente idênticas e naturalmente alinhadas, com floresta densa dos dois lados. É assim que ela é de dia, pelo menos. De noite é completamente diferente. Quando eu passei por lá de noite pela primeira vez, eu percebi uma coisa: existem níveis reais de escuridão. Morando num bairro, você sempre tem um poste de luz ou outro, uma entrada iluminada, algum brilho vindo de algum lugar. Você nunca sente de verdade o que é uma escuridão negra absoluta. Essa estrada me mostrou. Mas não era a primeira vez que a gente passava por lá, era nossa rota de sempre, a gente conhecia.
Na metade do caminho eu senti. Essa sensação constante de desconforto. Tudo no meu corpo tava me dizendo pra simplesmente dar meia-volta e voltar. Primeira vez que eu senti algo assim. E não era só eu, meu amigo disse que também tava se sentindo meio estranho. A gente sacudiu isso fora e continuou.
Aí eu ouvi um estrondo repentino.
Pensei que talvez fosse um galho de árvore na estrada, bem comum por lá. Perguntei pro meu amigo o que foi aquilo, ele pausou por um segundo e disse:
"Acho que foi o pneu, furou."
De repente eu fiquei alerta. Antes que qualquer pensamento macabro entrasse na minha cabeça, eu só disse uma coisa: pega as ferramentas, a gente troca isso rápido. Eu desci, liguei a lanterna do celular e vi o pneu traseiro esquerdo completamente vazio. Eu sabia que levaria no máximo 10 minutos com duas pessoas, mas a escuridão em volta já tava me afetando. As lanternas dos nossos celulares eram a única fonte de luz.
Eu peguei o macaco e a chave e comecei nas porcas, mandei meu amigo puxar o estepe do porta-malas enquanto eu posicionava o macaco. Desci e comecei a ajustar ele debaixo do carro.
Foi aí que eu vi.
Do outro lado do carro, um par de pernas. Só parado ali. Virado pra frente. Imóvel. Como se alguém tivesse parado no escuro só observando a gente.
Pensei que fosse meu amigo fazendo graça, então eu gritei com ele:
"Que porra que você tá fazendo parado aí? Eu mandei você pegar o estepe."
Ele respondeu bem do meu lado:
"Tu é burro? Eu tô parado bem aqui do teu lado, do que tu tá falando?"
Eu pulei pra trás. Meu amigo viu minha cara e instantaneamente soube, ele não precisou que eu explicasse nada. Mas a gente tinha um pneu desparafusado, um macaco meio colocado e o estepe já fora, a gente não tava em condições de simplesmente correr.
Aí a gente começou a ouvir.
Folhas estalando. Como se algo pesado tivesse se movendo por elas devagar. Eu tava com medo demais pra olhar ou mesmo me virar, a gente só se jogou de volta pro carro e trancou todas as portas. Eu fechei os olhos. Eu tava mortalmente aterrorizado, e eu digo isso a sério, eu nunca senti medo assim na minha vida.
Pelos próximos 10 minutos eu fiquei ali sentado ouvindo coisas que eu ainda não consigo explicar.
Batidas no teto, não agressivas, devagar, como se algo tivesse andando por cima. Batidas suaves no vidro. Arbustos se mexendo dos dois lados. E o som que mais me pegou: algo arrastando os pés devagar ao longo da estrada, do lado do carro.
Eu finalmente abri os olhos.
Bem à frente, bem na borda de onde os faróis paravam de alcançar, tinha uma figura. Só parada ali. Observando.
Eu disse pro meu amigo: só dirige, a gente vê o que acontece. Ele tava prestes a fazer isso quando um caminhão veio da outra direção e as luzes dele iluminaram quase a estrada inteira. O motorista parou e abaixou o vidro, tenho certeza que ele viu o quão aterrorizados a gente parecia porque ele não perguntou muito, só disse que não é seguro vir aqui tão tarde. Ele deixou as luzes ligadas sem a gente nem pedir. A gente pulou fora, trocou o pneu o mais rápido que deu, agradeceu e saiu de lá tão rápido que eu nem lembro da volta pra casa.
Eu ainda não sei a quem aquelas pernas pertenciam.
Eu ainda não sei o que tava naquele teto.
E, honestamente, eu não quero saber.


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