A caixa estava cheia de pequenos corpos encolhidos, ressecados, em decomposição. Olhos vazios e sem vida encaravam o nada. A pele rachada e seca revelava por baixo uma superfície escura e viscosa. Alguns ainda tinham todos os membros — se é que podiam ser chamados de sortudos. Mas o que mais eu esperava da minha velha caixa de iscas?
Se eu não estivesse tão atrasado, teria tido tempo de comprar umas novas. Mas se eu não tivesse ficado pra “só mais uma xícara de café” com meus pais, não teria chegado tarde ao depósito. E talvez, se eu simplesmente tivesse saído na hora certa desde o começo, não estaria atrasado pro enterro de solteiro do meu melhor amigo.
Fazia anos que eu não voltava pra casa. E quando digo “casa”, falo daquela cidadezinha perdida no meio do nada, no nordeste dos Estados Unidos — o tipo de lugar que o tempo parece ter esquecido. O ar, as paisagens, os prédios… tudo me lembrava da minha infância. Até a minha velha caixa de pesca, coberta de adesivos do Ben 10 que eu comprei com o dinheiro de cortar grama. Ela ainda tinha o arranhão que ganhou quando caiu do píer, naquela noite em que eu e meus amigos compramos um engradado de Monster e fomos pescar.
E bem ali, na tampa, ainda estava uma daquelas estrelas de plástico que brilham no escuro, iguais às que todo mundo colava no teto do quarto. Ri quando vi aquilo, lembrando de como eu tinha roubado do quarto do Nick e escondido dos meus pais até achar que o perigo já tinha passado. Hoje, pensando bem, acho que eles me deixaram quieto de propósito — sabiam o tipo de cara em que o Nick ia se tornar. Foi uma idiotice, mas eu roubei porque aquela estrela me lembrava dos brincos que a mulher usava naquele outdoor.
Aquele outdoor.
A lembrança rastejou de volta, vinda das profundezas da memória.
Ele ficava na Rota 161, na entrada da cidade. “QUEM ME MATOU?” — dizia, em letras amarelas enormes, seguido de um nome e um número que o tempo apagou. Mas o que eu nunca esqueci foi o rosto dela. A foto devia ser do fim dos anos 80, pelo que lembro. Ela era jovem, uns vinte e poucos anos — mais ou menos a minha idade agora. Tinha um rosto gentil, emoldurado por um cabelo loiro desbotado, preso num rabo de cavalo que caía por sobre o ombro. E na orelha, bem visível, pendia um brinco brega de plástico em forma de estrela — igualzinho ao da tampa da minha caixa.
Quando criança, eu era novo demais pra entender o que era assassinato. Lembro que toda vez que passávamos por aquele trecho da estrada, eu olhava pro matagal, torcendo pra ver ela viva, só perdida por aí. Perguntei pros meus pais se o cartaz estava errado. Não lembro o que responderam, mas não foi a resposta que eu queria ouvir.
A lembrança me seguiu feito uma sombra enquanto eu carregava o equipamento pro caminhão. Imagino que quem pagou aquele outdoor nunca encontrou a resposta que procurava. Anos depois, alguém cobriu tudo com um novo anúncio. “Do que VOCÊ está esperando?”, dizia. Provavelmente alguma propaganda de imóveis… ou barcos.
Um ping do grupo de amigos me puxou de volta pro presente, pro motivo de eu estar ali — pra comemorar. Era o próprio noivo, perguntando onde eu estava, dizendo que eu era um dos últimos a chegar. Respondi que já estava a caminho, liguei o motor e saí do estacionamento.
O céu estava pintado naquele tom entre o laranja e o roxo, as folhas rodopiando atrás do caminhão enquanto eu pegava a estrada. Era uma daquelas noites perfeitas pra pegar o caminho de terra — e por sorte, era justamente ele que me levaria até lá. Saí da estrada asfaltada e entrei na velha Bog Road, que descia pro vale e terminava perto da cabana onde íamos ficar.
Quanto mais eu dirigia, mais a escuridão do crepúsculo enchia o vale como uma maré suja subindo devagar. Acendi os faróis, cortando a noite crescente. O ar ficou mais frio. As árvores pareciam mais densas.
Tinha algo errado.
Aquela sensação de quando você acorda criança e percebe que a luz do abajur apagou… ou quando adulto, cochila perto da lareira e desperta no breu total.
Subi os vidros.
Quando o sol deu lugar à lua, aquela velha ansiedade de dirigir à noite bateu. Comecei a ficar atento a cervos — ou qualquer coisa que pudesse sair do mato. Numa curva, um brilho vermelho chamou minha atenção: os refletores de um BMW prateado parado no acostamento. Faróis ligados, porta do motorista aberta. Na hora, pensei que alguém tivesse parado pra mijar — embora fosse um lugar de merda pra isso.
Pântanos escuros cercavam os dois lados da estrada, e a floresta se abria num imenso brejo, salpicado de árvores, galhos e lama apodrecida. A água era lisa como vidro, refletindo a lua com perfeição, mal perturbada por algum movimento leve.
Tentei enxergar o que era. Não se movia como um peixe — e era brilhante demais pra ser um tronco. Desviei os olhos da estrada, só por um segundo.
Um clarão surgiu no farol. Virei o volante instintivamente, pisei no freio com tudo, o caminhão derrapando no asfalto. Não achei que tivesse atropelado nada, mas fiquei branco, o coração disparado, liguei o pisca-alerta.
Atrás de mim, uns seis metros adiante, havia alguém. De pé. Consegui distinguir a silhueta quando as luzes piscavam.
Saí do carro tropeçando, falando um monte de desculpas, mas a pessoa só balançava os braços, cambaleando no mesmo lugar.
Claramente bêbada. O BMW fazia sentido agora — turistas ricos adoravam se entupir de bebida nas casas do lago, eles e os drogados da região. Eu estava meio puto, meio com pena.
— Ei! — gritei. — Olha, só… fica aí, tá bom? Não quero que você caia na água. Tem alguém que eu possa ligar pra te buscar?
Ela começou a vir na minha direção, devagar, a cada piscada do alerta mais perto.
— Posso te dar uma carona, você não tá em condições de dirigir.
Ela não respondeu. Só continuou vindo.
A essa altura, encostei de volta no carro.
Quem quer que fosse, no melhor dos casos estava bêbada, e no pior, tinha alguém escondido no mato pronto pra me assaltar. Pensei em deixar a polícia resolver. Mas fiquei — só pra garantir que ela não se jogasse na água.
Quando olhei de novo, ela tinha parado. Estava agachada, bem onde a água passava por baixo da estrada, mexendo numa corda que sumia no brejo. Puxava, enrolava no pulso… e, entre uma piscada e outra do alerta — sumiu. Logo depois, ouvi um splosh, e o som de braços batendo na água.
— Merda! — gritei, correndo até onde ela tinha caído.
A lua iluminava o suficiente pra eu enxergar. As ondas prateadas se espalhando, meu pé afundando no barro. Eu estava prestes a alcançá-la quando travei. Algo revirou meu estômago. O brejo, a floresta, o vento — tudo ficou em silêncio. Os pelos da minha nuca se arrepiaram. Parei.
Quando parei, ela parou. Silêncio absoluto. Ela flutuava imóvel, de bruços.
Então, de repente, o corpo se mexeu — um braço girou, o cotovelo virando pra trás com um estalo seco. A pele tremia, como se algo se mexesse por baixo. Os joelhos se dobraram pro lado errado. Até a coluna dela ondulava, viva, como um verme sob a carne. A água espirrou num rastro até o centro do brejo, onde deu pra ver — por um instante — algo enorme e escuro, enrugado, como uma sanguessuga gigante inchada que se ergueu das profundezas.
O sangue gelou. Corri pro caminhão. Atrás de mim, o barulho da água — algo pesado caindo na estrada, rastejando, chutando terra e pedra. Entrei no carro, bati a porta, e um segundo depois — CRASH! — alguma coisa se chocou contra o vidro.
Na luz fraca da cabine, vi a mão dela — pálida, fina, esticando-se até o topo do vidro. O rosto surgiu logo depois: olhos vidrados, sem expressão; pele rachada, seca, cheia de larvas brancas se contorcendo nas fendas úmidas. E na orelha — a única que ainda tinha — pendia um brinco gasto e desbotado, mas inconfundivelmente em forma de estrela.
Pisei no acelerador com tanta força que quase atravessei o assoalho. Enquanto ela era arrastada pra longe, ouvi o som de garras raspando o vidro — seguido de um SNAP seco.
Cheguei na cabana minutos depois. A luz automática do pátio acendeu, inundando o carro com aquele brilho quente de halogênio. Meu coração ainda martelava no peito. Podia ter ligado pra polícia — mas eu conhecia aquele lugar, conhecia o policial da cidade. Se ele fosse investigar, iria sozinho…
Não, não dava pra arriscar. Se eu contasse pros meus amigos, iam querer ir olhar.
E ninguém passava por aquela estrada, a não ser quem vinha pra cá.
Eu era o último a chegar.
Guardei pra mim. Por enquanto.
Engoli tudo o que aconteceu e tentei seguir a noite. A festa foi boa, mas eu não tirei o olho das janelas. Cada vez que o sensor de movimento acendia a luz lá fora, eu me aproximava pra olhar o escuro.
De manhã, saímos cedo — eu e o noivo — pra buscar rosquinhas e café pra galera. E, pra mim, umas iscas novas.
— Mal aí por ontem — falei, encarando o mato pela janela enquanto dirigia.
— Relaxa, cara — ele respondeu. — Pelo menos você não é o Nick.
— Nick? Ele vinha?
— Não… quer dizer, não tava planejando. Mas ontem me mandou mensagem dizendo que ia aparecer, mostrar o brinquedinho novo — um BMW prateado chique. Apostei que era dinheiro de droga. Mas nunca chegou. Sumiu de última hora.
Fiquei quieto. Parei o carro onde nossa estrada se cruzava com a principal, rumo à cidade. Ali, meio escondido no mato, estavam os restos do velho outdoor. Partes do anúncio novo tinham descascado, revelando o que ficou soterrado por anos. Agora, uma colagem grotesca de velhas e novas letras formava uma pergunta meio apagada:
“O QUE. me matou?”
Meu amigo abriu minha caixa de pesca.
— Que porra é essa?! Ainda bem que a gente vai comprar isca nova — disse ele, erguendo uma pra ver. — A não ser que a gente queira pegar o peixe mais burro do brejo, você não vai pegar nada usando isca velha.


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