quinta-feira, 4 de junho de 2026

Tem algo no canto do meu quarto

No inverno passado, uma mancha estranha começou a se formar no meu teto. Eu moro numa casa geminada antiga, então o teto é coberto de "textura de pipoca". Sabe, aquela porra de amianto que usavam nos anos sessenta. Graças a Deus, o meu teto não tem amianto. É só uma desgraça pra limpar, e teias de aranha costumam acumular poeira e ficar penduradas nos relevos, como se as aranhas estivessem pagando aluguel pra morar no meu quarto. Mas deixa isso pra lá.

Eu moro em Minnesota, então a gente tem uma boa quantidade de neve todo inverno, e ela não dá trégua até o final da primavera. Depois de uma semana inteira de nevasca pesada, eu comecei a ouvir um barulho de batidas quando tentava dormir de noite — e eu digo "noite" por alto, porque eu trabalho em dois empregos, um turno de dia e um turno da madrugada, então a hora de dormir era mais por volta das cinco da manhã. O som podia ser um monte de coisas, desde um esquilo nas paredes até um barulho psicossomático que o meu cérebro privado de sono estava inventando. Naturalmente, eu não me assustei com esse barulho de batidas.

Eventualmente, eu dormi e não ouvi nada até a noite seguinte. Dessa vez estava mais rápido, mais um som de passos leves do que de batidas. Eu comecei a achar que era um animal roendo a madeira das minhas paredes.

Eu não tinha dinheiro pra fazer reparos elétricos, que dirá estruturais, então liguei pra um exterminador no dia seguinte quando estava no intervalo do trabalho. O cara disse que tinha uma vaga pra manhã seguinte, mas o meu próximo dia de folga só seria daqui a duas semanas, e faltar uma parte do meu turno não era opção pra mim. Então eu esperei, e toda noite eu ouvia o som de passos leves. Era como uma torneira pingando rapidamente.

Depois de alguns dias, a minha casa começou a ficar com um cheiro. Eu imaginei que podia ser vazamento de gás. O meu lugar é bem velho e, graças a qualquer animal que estivesse roendo as paredes, eu assumi que essa era a aposta mais segura. Mesmo assim, eu conferi os queimadores pra ter certeza de que o gás não estava ligado, e de fato, tudo estava desligado, mas só me dei conta disso quando estava mexendo no botão do fogão: a minha casa inteira é elétrica. O fogão, o aquecedor de água, a bomba de calor, tudo é elétrico.

Eu liguei pro corpo de bombeiros. Eles não acharam nada, mas concordaram que o cheiro era estranho. Eu contei pra eles sobre o animal que eu tinha ouvido nas paredes, e eles sugeriram que eu chamasse o exterminador o mais rápido possível, já que a nossa conclusão era que, talvez, houvesse um animal em decomposição em algum lugar, e que eu deveria cuidar disso antes que o problema piorasse.

Eu tirei o dia de folga do trabalho e adiantei o meu compromisso com o exterminador. Ele chegou vestido pronto pra enfrentar um exército de esquilos bravos. Ele usou algum tipo de câmera térmica que procurava pontos quentes nas paredes e uma minicâmera de endoscopia que ele enfiou por um buraco que ele furou. Depois de vasculhar a casa inteira, ele não achou nada. O cheiro estava ficando tão ruim que eu realmente não conseguia ficar na minha casa por mais de três minutos sem passar mal. Eu não tinha pra onde ir, não tinha dinheiro suficiente pra um motel — mal tinha dinheiro pro exterminador que eu não precisava.

Eu estava completamente fodido.

E aí aquele barulho de batidas filho da puta ficou cada vez mais alto, e numa manhã, tinha uma mancha estranha e marrom no canto do meu teto, bem em cima da minha cama. Aí eu lembrei que eu tinha deixado pra depois consertar o buraco no meu telhado o verão inteiro por causa das despesas, e a neve derretendo era o que estava causando o barulho. Tinha um vazamento na porra do meu telhado.

Eu tive que gastar mais algumas centenas de dólares pra um reparador vir dar uma olhada. Eu mostrei a porta do sótão pra ele enquanto ele fazia comentários incisivos sobre o cheiro. Eu ignorei, não tinha mais nada que eu pudesse fazer a essa altura.

Depois de dois minutos do reparador lá em cima, houve um barulho de queda, um baque alto e um grito.

"Liga pro nove-um-um!", ele gritou.

Confuso, eu fui ver o que tinha acontecido com ele e me arrastei pro sótão pra descobrir o que tinha estado fazendo aquele barulho de batidas há dias.

Um corpo morto estava encolhido no canto do meu sótão. A garganta dele tinha sido cortada e sangue formava uma poça ao redor dele, com uma consistência marrom e coagulada. Eu vomitei. Era isso o cheiro, era isso o som, e era isso que estava causando a mancha no meu teto. Então eu vomitei de novo, e aí conversei com os policiais.

Aparentemente, o homem que se matou no meu sótão era um mendigo. Um dos policiais locais conhecia ele e não tinha notícias dele há mais de duas semanas. Ele tinha histórico de arrombar casas, mas eu acho que ele era considerado uma ameaça de baixo nível, então nunca passou mais de uma noite na cadeia, só por calor e uma refeição quente. Os policiais deduziram que ele arrombou a casa quando eu estava no trabalho, e eu não percebi até o corpo dele começar a se decompor. Me dá nojo só de pensar nisso, aquele homem apodrecendo lá em cima. Meu Deus, ele morrendo ali.

Desde então, tem uma... sombra pairando ali no canto do meu teto. Tem me dificultado dormir. É como se a presença dele ainda estivesse aqui. Eu não sei o que fazer. Isso tá me assustando mais do que eu jamais pensei que poderia me assustar. O seguro consertou o meu telhado, a cidade pagou pra limpar o meu sótão e remover as manchas de sangue da madeira, mas eu juro por Deus que o sangue marrom continua voltando. Eu cheguei a pintar por cima numa época, e ele praticamente comeu a tinta. Agora eu tô começando a ver o rosto dele no teto de textura de pipoca. Tá inchado e em decomposição. Eu não consigo deixar de ver. Tem algo no canto do meu quarto agora mesmo.

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