segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Tudo começou quando um paraquedas preto apareceu sobre a minha cidade

Indo para a escola certa manhã, vi um ponto preto no céu. Voltando para casa naquela tarde, o ponto tinha se tornado uma mancha preta. Ao anoitecer, estava claro que havia um objeto preto em forma de balão pairando sobre a cidade. Um balão enorme, do tipo que as pessoas enchem com ar quente para dar a volta ao mundo em três meses.

Só na manhã seguinte ficou claro o suficiente para ver o cara pendurado na coisa em forma de balão. Para deixar claro, o cara estava morto. Visivelmente morto. Tipo, tirando uma pele com aspecto repugnante, ele era um esqueleto.

O esqueleto usava o que parecia ser um uniforme militar, mas nenhuma nação específica podia ser identificada. Ao observar o cadáver flutuante através de um telescópio, meu professor de ciências conseguiu distinguir letras no uniforme. Foi preciso uma ida à biblioteca para descobrir que a escrita estava em cuneiforme sumério.

Alguém da minha turma de inglês disse que era "apropriado" que a escrita no uniforme de um homem morto estivesse numa língua morta. Seja lá o que isso significa.

É claro que a maioria das pessoas ficou apavorada com o cadáver pendurado. A força policial da nossa cidade, por mais escassa que fosse, tentou derrubar o paraquedas a tiros. O corpo de bombeiros conseguiu uma rede enorme não sei de onde, mas o morto estava só um pouquinho fora de alcance quando tentaram pegá-lo.

Então, o cadáver ficou pendurado ali. Claramente visível de qualquer parte da cidade onde você estivesse naquele momento. E aqui está a coisa estranha: sempre parecia que o esqueleto estava encarando você. Sério, você podia se mover ao redor dele num círculo perfeito, e aquelas órbitas escuras e vazias simplesmente te seguiam, com uma boca sem lábios fixada num escárnio. Acho que ninguém nunca viu as costas dele.

Agora você está pensando "por que o vento não levou o corpo para longe da cidade?" Aí é que está: no dia em que o paraquedas apareceu sobre a cidade, todos os ventos pararam. Tipo, simplesmente pararam. E nossa cidade ficava numa área plana do país que sempre tinha pelo menos uma brisa soprando.

Os humanos tendem a ignorar os sons do ar, e da natureza em geral. Mas quando esse barulho some, as coisas ficam sinistras. Você já viu aquela parte em todo filme "Está quieto, quieto demais!" bem antes do monstro ou exército inimigo aparecer e atacar o herói. Bem, nenhum monstro ou exército apareceu para nos atacar, mas sempre parecia que algo estava prestes a acontecer.

Não era como se a cidade tivesse ficado completamente sem som. Na verdade, o barulho que as vozes humanas faziam parecia extra alto agora.

Mas isso não chega nem a arranhar a superfície para descrever o que a falta de vento fez com a nossa cidade. Pássaros caíram do céu, incapazes de planar nas térmicas. Não alguns pássaros, milhares deles.

Posso te dizer uma coisa: os gatos do meu bairro tiveram um banquete nos dias seguintes!

Junto com os ventos mortos, os rádios também estavam fora. Sinais de satélite simplesmente pareciam parar dentro de três milhas quadradas dos limites da cidade. Sem internet, sem TV, sem estações de rádio, sem contato com o mundo exterior. Mas só dentro da cidade.

Você podia literalmente pegar o carro e dirigir para fora da cidade, em qualquer direção, e assim que passasse de um certo ponto, a música no rádio do carro voltava a tocar.

Não por coincidência, eram necessárias três milhas quadradas fora dos limites da cidade antes que o paraquedas e seu passageiro macabro ficassem longe demais para serem vistos.

Nosso xerife foi à guarda nacional, pedindo ajuda. Ninguém acreditou na história dele, admitidamente maluca, e ele ainda foi jogado na cela dos bêbados por um dia, de quebra. O governo federal não vinha nos resgatar.

Nossa cidade já era minúscula para começar, a milhas de qualquer rodovia. A população só diminuiu mais conforme as pessoas começaram a se mudar. Não posso dizer que as culpo. Quem quer criar a família com um presságio de morte pairando sobre você o tempo todo?

Minha família não teve tanta sorte. Não estávamos entre os pobres que fisicamente não podiam sair porque legitimamente não tinham para onde ir.

Meu pai simplesmente se recusou categoricamente a colocar a família na minivan e dar o fora da Cidade-Cadáver. Ele disse que tínhamos que ficar, por causa do trabalho dele.

Meu pai não era o prefeito nem o chefe de polícia, nem nada disso. Ele administrava um dos dois mercados da cidade. Mas o outro merceeiro pegou a família e foi embora logo no começo da história do balão, então éramos de fato o único lugar para comprar comida.

"Se a gente não ficar", meu pai me disse, "as pessoas vão morrer de fome."

Não pude discutir com ele nesse ponto. Da minha parte, não me incomodava tanto com o morto. Talvez os republicanos estivessem certos, e filmes de terror demais tinham apodrecido meu cérebro e me transformado num desviante, mas eu assistia ao paraquedas pelos meus binóculos toda noite depois da escola. Foi assim que sei que ele nunca se moveu do lugar onde apareceu pela primeira vez. Medi as distâncias repetidamente. Nada mudou.

Meu irmãozinho, que já amava coisas mórbidas, brigava comigo pelos binóculos. Ele era a única pessoa que falava abertamente sobre o paraquedas preto, quando todo mundo tentava ignorá-lo. Fingir que não existia. Mas meu irmão não. A frase "Que legal!" apareceu mais de uma vez em relação ao cadáver inexplicável no céu.

Papai era como a maioria das pessoas, ignorava o paraquedas e tocava a vida diária. Mas minha mãe, que sempre tinha sido meio religiosa, agora estava se tornando super cristã.

Apesar de ter o monopólio dos mantimentos, o mercado da família estava lutando para fechar as contas. O único negócio que prosperava na nossa nova realidade era o negócio da igreja.

"Os Salões da Glória foram fechados", disse o pastor na única vez em que minha mãe conseguiu me arrastar e ao meu irmão para a igreja. "Precisamos abri-los. Abram os Salões da Glória!"

Os bancos estavam absolutamente lotados naquela quarta-feira. Logo logo, o espaço no prédio físico da igreja acabaria.

Eles realizavam reuniões de avivamento, na floresta, onde entoavam a mesma coisa, repetidamente. "LIBERTEM OS SALÕES DA GLÓRIA! LIBERTEM OS SALÕES DA GLÓRIA!"

Meu irmão e eu só podíamos especular o que esses "Salões da glória" eram. Os portões perolados do céu? E o que significava "libertá-los"?

Para ser honesto, soava como um chamado para sacrifícios de sangue, mas não contei isso ao meu irmão. Ao longo de todo o calvário, eu ainda queria preservar um pouco da inocência do meu irmãozinho, sabe?

E ele era inocente, apesar dos hobbies mórbidos. Acho que é por isso que só uma criança pequena poderia ter a ideia que meu irmão teve.

"Vamos fazer o quê?", eu perguntei.

"Quero ver se conseguimos fazer contato", disse meu irmão solenemente.

"Tocar no morto?", perguntei. "Nem os bombeiros conseguiram isso. Você viu a rede gigante de borboleta."

"Você notou a mudança no ar?", perguntou meu irmão.

Assenti. "Todo dia, parece que está ficando mais e mais difícil respirar."

"Bem", meu irmão pegou a mangueira de jardim. "Eu tenho feito alguns ex-pe-ri-men-tos!" Ele pronunciou a palavra com cada sílaba individual enfatizada. "Experimento" tinha caído na prova de vocabulário mais recente dele.

Ele tirou um A, por acaso. A cidade inteira estava agindo como se fosse o juízo final, mas a vida escolar continuava normalmente. Vai entender.

Meu irmão jogou a mangueira para o ar. Você conhece aquele truque da corda indiana? Foi tipo isso. A mangueira ficou suspensa no ar, sustentada por nada.

Eu xinguei, depois pedi desculpas por xingar. "Até que altura você acha que essa coisa vai subir?" Talvez o problema com os bombeiros fosse que o ar não estava espesso o suficiente na época em que tentaram mover o cadáver pela primeira vez.

É a única maneira que consigo descrever. O ar estava espesso. Não úmido exatamente, mas andar lá fora agora parecia que você estava se movendo em câmera lenta.

A utilidade das mangueiras de jardim é que você pode conectar uma na outra, e depois outra, para obter o comprimento que quiser. Pegamos emprestadas mangueiras dos nossos vizinhos da esquerda e da direita. Os dois tinham saído da cidade semanas antes, então não se importaram.

Na ponta do nosso instrumento de sondagem, prendi com fita adesiva um monte de penas. Penas por acaso eram um material que tínhamos em abundância por ali. Aparentemente, os gatos não queriam comê-las.

"Bom toque", disse meu irmão.

"Obrigado", respondi.

Usando meus binóculos e equipamento de medição, localizei o ponto exatamente embaixo do paraquedas. O esqueleto olhava furiosamente para baixo, para nós. Meu irmão deu a ele seu melhor sorriso, em troca.

Começamos a puxar as mangueiras para cima. "E se fazer contato funcionar", disse meu irmão, "então podemos começar a pensar em realmente mover o Bernie." Esse era o apelido dele para o morto.

"Mas aí ele seria problema de outra cidade", observei.

Meu irmão deu de ombros, soltando a mangueira. Ela ficou no ar, como se fosse uma pipa.

"Dane-se", eu disse. O ar lá fora estava tão viciado que era só questão de tempo antes das pessoas começarem a asfixiar. Alguma coisa tinha que ser feita. A cidade não aguentava mais. E além do mais, tudo o que estávamos fazendo era um experimento, afinal de contas.

Deu trabalho, e meu irmãozinho não ajudou muito. Não por falta de tentativa da parte dele, ele só não tinha força muscular para a tarefa. Mas finalmente, conseguimos por pouco colocar as penas onde estavam os pés descalços do morto.

Tentando aliviar o clima durante nosso negócio macabro, eu disse "Cutuca. Cutuca. Cutuca", enquanto roçávamos as penas contra os pés descalços do cadáver.

Meu irmão começou a rir. "Para com isso!"

"Cutuca!", eu disse uma última vez.

E então não éramos mais os únicos rindo. Apesar de não haver mudança no crânio, parecia que o morto estava sorrindo, em vez de escarnecendo. Olhei para as órbitas escuras dele, e podia jurar que ele olhou nos meus olhos.

Houve uma risada alta. Não parecia se originar do corpo, mas de todos os lados ao nosso redor! Era como trovão vindo do céu, e tenho cem por cento de certeza de que todo mundo que tinha ficado na cidade nesses últimos meses miseráveis ouviu, mesmo que não admitam.

Então, começou a chover. Chuva forte, que não tínhamos tido todo esse tempo. E com a chuva veio o vento.

A corda improvisada do meu irmão caiu no chão, a ponta de metal tilintando contra o asfalto. Deixamos a mangueira de penas no chão e corremos para nos abrigar.

Quando a chuva finalmente parou, algumas horas depois, e voltamos para pegar a engenhoca, o paraquedas preto e seu passageiro tinham sumido.

Uma pequena cócega colocou nossa cidade de volta no caminho da normalidade. Os rádios funcionavam de novo. A TV transmitia programas, em vez de chiado. O avivamento se dissolveu antes que o culto nascente tivesse sua chance de "libertar" seus salões gloriosos, então mamãe sobreviveu.

Com o tempo, a maioria das famílias que tinha ido embora voltou. O outro merceeiro voltou aos negócios, mas nosso pai não se importou.

Meu irmão tinha algumas histórias para contar, mas ninguém acreditava que ele tinha realmente sido o responsável por salvar a cidade. Quer dizer, quem acreditaria que você podia levantar uma maldição com apenas algumas penas?

E eu comecei a escrever isto assim que a internet voltou. Fiz rascunhos repetidas vezes, me certificando de acertar todos os detalhes. Entrevistei moradores, e consultei os diários que eu tinha preenchido obsessivamente por tédio enquanto a TV estava fora.

Olha, eu sei que a maioria de vocês vai pensar que inventei tudo isso. Se eu estivesse mentindo, porém, tenho certeza de que poderia ter inventado um clímax melhor do que "Fizemos o morto rir, e ele voou embora em gratidão."

Entendo, é absurdo. Mas também era o paraquedas preto aparecendo em primeiro lugar. Também era tudo pelo que tínhamos passado, e provavelmente agora precisávamos de terapia por causa disso.

Tenho uma teoria sobre por que o que eu e meu irmão fizemos funcionou? Tenho. Acho que a entidade, quer você chame de fantasma ou demônio, tinha uma agenda inteligente. Não era um sinal sombrio do fim dos tempos, como muitos moradores pensavam. Estava nos observando – observando todos nós – para ver o que uma típica cidadezinha americana faria se lentamente sufocasse.

Se os últimos meses foram o equivalente dela de um experimento social, ou se ela estava só nos sacaneando por diversão, não importa realmente da perspectiva humana. Vou dizer isto, porém. Se um paraquedas preto algum dia aparecer sobre a sua cidade, com um homem morto pendurado na corda, talvez tudo o que o ser queira seja um pouco de entretenimento. Prender um espanador de penas numa pipa pode ser tudo o que você precisa para fazer as coisas andarem.

Isso é, a menos que fazê-lo rir só tenha funcionado uma vez.

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