Foi quando comecei a perceber o frio de verdade que meus dentes começaram a bater enquanto eu escovava os dentes.
Minha mandíbula estava tremendo forte, e precisei parar e me apoiar na pia para me equilibrar.
Cuspi, enxaguei e fiquei ali com a torneira aberta, encarando meu próprio rosto no espelho.
O espelho tinha uma leve névoa, mesmo sem eu ter tomado banho.
Saí para o corredor e conferi o termostato. Setenta e cinco graus. O aquecimento estava ligado, e dava para ouvir o ventilador funcionando.
Coloquei a mão na saída de ar da sala. Saía ar quente. Até aí tudo certo, estava funcionando.
E, mesmo assim, o apartamento ainda parecia errado, como se tivesse uma janela aberta deixando entrar corrente de ar.
Resolvi verificar, começando pela vedação da porta da varanda, passando a palma da mão pelas bordas. Nada.
Depois fui para a tranca da janela do quarto. Estava bem fechada. Em seguida, o batente da porta da frente.
Mas não encontrei nada que explicasse por que o frio continuava grudado na minha pele.
Disse a mim mesma que era um daqueles dias de inverno em que o prédio simplesmente ainda não tinha conseguido acompanhar, mesmo com o aquecimento ligado.
Era uma explicação fácil de aceitar.
Até eu fazer café.
Despejei na xícara e envolvi a caneca com as mãos, esperando aquele calor familiar.
A caneca estava quente. Eu sentia, mas as palmas das minhas mãos continuavam frias do mesmo jeito, e quando coloquei a caneca na mesa, surgiu um leve anel branco, como respiração em vidro.
Tentei limpar com o polegar e percebi que não borrou. Parecia mais geada.
Fiquei olhando um tempo, depois dei de ombros.
Coloquei a caneca de volta exatamente no mesmo lugar, segurei com as mãos e contei até dez.
Quando levantei de novo, o anel estava lá outra vez.
Me aproximei e vi cristais minúsculos se formando na borda, granulados e pálidos.
Meu primeiro pensamento foi que a mesa estava fria.
Isso não fazia sentido, porque a mesa estava dentro de um apartamento aquecido.
Depois de decidir que já tinha perdido tempo demais, puxei o moletom mais para perto do corpo e voltei ao trabalho.
Trabalhar de casa normalmente me cai bem. Sem trânsito, principalmente com neve, e nunca gostei de papo furado com outras pessoas, seja no trabalho ou fora dele.
Naquela manhã, porém, eu não conseguia me concentrar. Pequenas coisas ficavam me distraindo.
As pontas dos meus dedos estavam dormentes no teclado. O touchpad atrasava sob minha palma. Eu levantava a mão o tempo todo e esfregava, tentando trazer a sensibilidade de volta.
Toda vez que eu expirava, minha respiração aparecia no ar.
Isso não deveria estar acontecendo.
Levantei e voltei ao termostato. Coloquei a mão debaixo da saída de ar outra vez e senti o ar quente e constante.
Bom, isso era estranho. Por que eu ainda sentia frio?
Peguei um cobertor no armário, enrolei nos ombros e tentei me aquecer.
Peguei o celular e liguei para a portaria pedindo manutenção. Quando perguntaram o motivo, falei que tinha um vazamento em algum lugar do apartamento deixando entrar corrente de ar e deixando tudo gelado.
O Sean da manutenção chegou uns vinte minutos depois. Era um cara grande e sempre muito educado. Percebi o quanto isso era clichê.
Ele entrou e olhou ao redor.
Conferiu a saída de ar mais próxima, depois o termostato.
“Você deixou em setenta e cinco?” ele perguntou.
“É.”
Ele balançou a cabeça. “Você tá tentando se cozinhar viva.”
“Tá frio”, eu disse, e me senti idiota falando isso.
Ele verificou o apartamento do mesmo jeito que eu tinha feito. Vedação da varanda. Janela do quarto. Batente da porta da frente.
“Sem corrente de ar”, ele disse. “O aquecimento tá funcionando. Posso fazer uma leitura se você quiser.”
Ele tirou um termômetro infravermelho pequeno e passou pelas paredes, pelo teto, pela saída de ar.
“Paredes normais. Teto normal. Saída de ar quente.”
Passou mais uns minutos olhando e disse: “Senhora, tá realmente quente aqui dentro. O aquecedor tá funcionando direito e não achei nenhum vazamento. A senhora tem certeza de que não tá pegando uma gripe ou algo assim?”
“Tô bem”, eu disse.
Ele assentiu e pediu que eu assinasse a planilha de atendimento.
“Tem certeza de que está bem, senhora?” ele perguntou de novo.
“Tô bem, só que…” Parei no meio da frase quando percebi que ele estava olhando para as minhas mãos com preocupação.
Meus nós dos dedos estavam pálidos, quase cinzentos, como se a cor tivesse sido sugada.
“É… acho que vou procurar um médico”, falei depressa.
“Se cuida, senhora”, ele disse antes de sair com a planilha assinada.
Entrei no banheiro e abri a água quente. Coloquei as mãos debaixo.
A água estava quente, mas meus dedos não mudaram.
Abri mais quente. Senti a ardência por um segundo brevíssimo, e depois o frio continuou lá.
Tirei as mãos e comecei a me perguntar o que estava acontecendo.
Enquanto olhava para elas, notei uma linha fina na lateral do meu dedo indicador.
Uma rachadura.
Apertei o polegar contra ela. Não doeu, só uma resistência surda.
Quando tentei dobrar o dedo, o movimento saiu lento e duro, como se algo dentro estivesse empurrando de volta.
Sentei na borda da banheira e fiquei encarando minhas mãos, tentando pensar sem deixar o pânico tomar conta.
Liguei para minha irmã.
Ela atendeu no segundo toque, a voz animada como sempre.
“Oi, mana! O que houve?” ela perguntou.
“Você pode vir aqui?” falei na hora.
“Você tá bem?” ela perguntou, e dava para ouvir a preocupação repentina na voz dela.
“Tá frio aqui. Tem alguma coisa errada. Eu… não consigo explicar direito. Por favor, vem logo?”
“Claro”, ela disse baixinho. “Vou só arrumar alguém pra cobrir meu turno e já vou.”
Falei ok e desliguei.
Voltei para a sala e liguei a televisão. Tinha um monte de relatórios para digitar, mas não estava a fim.
Uma das vantagens de ser freelancer: dá pra trabalhar no meu horário.
A cada poucos minutos, minha respiração aparecia de novo. Toda vez que acontecia, minha atenção voltava para aquilo.
Como isso era possível? Não fazia sentido.
Depois de um tempo, comecei a sentir que o frio tinha se espalhado. Não estava mais só nas mãos.
Agora eu sentia no peito, e percebi que estava ficando mais difícil respirar.
Foi aí que o pânico começou de verdade.
Enrolei outro cobertor em mim e aumentei o aquecimento para oitenta.
O aquecedor disparou mais forte. O apartamento esquentou, mas o frio dentro de mim ficou.
Levantei e fui até a cozinha, depois encostei a palma da mão bem aberta na parede, só para ver o que acontecia.
Quando tirei, a marca da minha mão ficou lá.
Toquei nela.
Geada.
Cada dedo estava contornado. Até a linha da palma segurou por um segundo antes de começar a sumir.
Fiquei olhando até desaparecer.
Depois toquei meu próprio antebraço com a outra mão.
A pele parecia uma lata de refrigerante recém-tirada da geladeira.
Que porra é essa? Minha mente procurava explicações. Pesquisar no Google também não ajudou.
Voltei ao banheiro e levantei um pouco a camisa, de frente para o espelho.
Meu tronco estava pálido. A cor tinha sumido uniformemente.
Meus braços, meu rosto, tudo parecia igual aos nós dos meus dedos quando assinei a planilha para o Sean.
Me aproximei mais e vi geada grudada nos pelinhos finos dos meus braços. Pegava a luz do banheiro e brilhava.
Apertei dois dedos na minha barriga.
A pele resistiu.
Estava dura.
Tentei beliscar, mas meus dedos não conseguiam agarrar.
Afastei do espelho e respirei fundo.
O ar saiu da minha boca em uma nuvem grossa.
Então ouvi um som suave. Um estalo baixo, como gelo se acomodando.
Veio da minha mão.
Olhei para baixo e vi uma segunda rachadura saindo da primeira, se espalhando em linha fina.
Meus joelhos cederam, e acabei sentada no chão do banheiro, a cabeça girando enquanto minha mente tentava entender tudo.
Depois de um tempo, organizei os pensamentos e decidi que precisava sair dali e esperar minha irmã, talvez chamar emergência também.
Levantei e fui até a porta da frente.
Minha mão fechou no puxador de metal, e senti uma sensação estranha.
Quando puxei, não girou.
Tentei de novo, nada.
Senti um formigamento na pele e percebi que minha pele estava congelando no metal do puxador.
Puxei a mão com força. O som foi molhado e errado, e por um instante achei que minha pele ia rasgar.
Uma camada fina de geada cobria o puxador agora. Minha palma ardia com a dor atrasada, os nervos finalmente alcançando.
Tentei de novo, usando a manga como proteção, mas a porta continuou sem abrir.
Não era só o puxador.
A fresta ao redor da porta tinha mudado. A estreita abertura junto ao batente estava cheia de gelo agora, a umidade congelada sólida onde a porta encontrava a parede.
Dei um passo para trás e bati na parede do corredor. O frio se espalhou para onde meu ombro tocou, deixando uma mancha escura que foi se alargando devagar.
A luz do corredor piscou uma vez.
Fiquei parada ali uns minutos, tentando não deixar os pensamentos correrem além do que realmente estava acontecendo.
Chegar até o sofá exigiu mais esforço agora. Minhas juntas estavam rígidas e pesadas.
Peguei o celular e tentei digitar. Meus dedos se moviam, mas não onde eu queria. A tela escorregava sob meu polegar.
Consegui ligar para minha irmã de novo.
Ela atendeu na hora, ofegante.
“Tô embaixo do seu prédio”, ela disse. “Já tô subindo. O que tá acontecendo aí?”
“Não consigo abrir a porta”, falei. As palavras saíram lentas da minha boca.
“Como assim não consegue abrir?”
“A porta tá congelada”, respondi.
“Espera, deixa eu subir”, ela disse, e a ligação caiu.
Conseguia imaginá-la subindo as escadas correndo em vez de esperar o elevador.
Uns minutos depois, ouvi os passos dela no corredor, rápidos e irregulares.
Ela chamou meu nome, depois xingou baixinho.
“A maçaneta tá congelando”, ela disse através da porta. “Tem gelo em volta de todo o batente. O que tá acontecendo, mana?”
“Não toca”, tentei gritar, mas minha voz saiu fina e falhada.
Meu celular vibrou de novo perto de mim. Sabia que era ela, mas não tinha força para pegar.
Queria dizer para ela não tocar em nada. Nem na maçaneta. Nem na porta. E definitivamente não em mim.
O frio que estava dentro de mim agora se espalhava para tudo que eu tocava.
Mas as palavras não saíram.
Minha língua estava grossa.
Quando finalmente consegui alcançar o celular, ele escorregou da minha mão e caiu no chão.
Tentei pegar.
Meus dedos se curvaram, mas não fecharam.
As rachaduras tinham se espalhado pelos nós dos dedos e pelas costas das mãos. Parecia que eu estava lutando uma batalha perdida.
Minha pele tinha um brilho opaco. Lisa e dura.
Enquanto olhava para minhas mãos, a música do Foreigner veio na minha cabeça.
A parte em que ele diz: “You’re as cold as ice.”
Dei uma risada curta e sem fôlego com a ironia da situação.
Sentia um cansaço pesado se instalando em mim.
Encostei para trás e fiquei olhando o teto.
A geada saía rastejando da saída de ar acima de mim, se espalhando devagar.
O aquecedor ainda estava ligado. Eu ouvia ele funcionando.
Mas ia ter dificuldade para consertar a temperatura agora.
O som da minha irmã batendo chegou de novo, abafado e distante, como se viesse através de uma parede grossa.
“Você me ouve?” ela chamou.
Tentei responder, mas não consegui.
A voz dela começou a sumir enquanto eu sentia meus sentidos se apagando.
Achei que ouvi chaves. Será que ela chamou a segurança do prédio?
Houve um leve arranhar na fechadura.
Depois nada.
Nem clique nem movimento.
Só o silêncio e a música na minha cabeça: “You’re as cold as ice.”
Meus olhos foram para a mesinha de centro.
A caneca ainda estava lá.
O anel de geada embaixo dela tinha engrossado e virado um círculo sólido de gelo, liso e inteiro.
Fiquei olhando enquanto minha visão começava a embaçar e minha respiração ia ficando mais lenta.
No final, não senti pânico.
Senti frio.
E o frio parecia firme. Como se sempre tivesse estado lá, só esperando o resto de mim alcançar.
A última coisa de que me lembro é de pensar na minha irmã parada do outro lado da porta, a mão perto da maçaneta, sentindo o frio anormal que emanava de dentro do apartamento.

