quinta-feira, 5 de março de 2026

Ficar bêbado no trabalho foi uma ideia realmente péssima

Nada é pior do que estar longe de casa em noites de inverno com neblina. Ou pelo menos era o que eu achava. Ser um universitário que largou o curso, beber demais e ainda ficar com dor de cabeça com certeza piorava toda a desgraça. Ah, e eu odiava aqueles chuviscos de monção de inverno. A cada passo que eu dava, minha roupa ficava mais nojenta porque a lama espirrava nas minhas calças. Rajadas de vento gelado cortavam os galhos acima da minha cabeça, me fazendo tremer de frio, junto com aquele barulho de chocalho que as árvores faziam.

Enquanto eu seguia a pé pro meu destino, fiquei lembrando do meu tempo curto na faculdade. Ainda me recordo da última aula que assisti. Era sobre a Gaiola de Faraday. Ah, Sr. Faraday. É impressionante como você conseguiu fazer tanta coisa com os recursos limitados que tinha. Cresceu na pobreza, trabalhou como encadernador de livros e aprendeu tudo só lendo os livros ao redor. Eu tinha esperança de conseguir fazer o mesmo. Mas, infelizmente, a faculdade era cara demais. Agora eu estava preso trabalhando como assistente do meu tio nas investigações particulares dele. Mesmo assim, isso era melhor do que ser garçom ou lavador de pratos. Tinha um pouco de dignidade nisso, embora às vezes eu me sentisse só um menino de recados.

E o recado que eu tinha que fazer naquele dia era coletar informações com os moradores dos Apartamentos Greenville, que ficavam em Providence. Providence era uma parte bem isolada da cidade que, ultimamente, tinha ficado famosa por uma série de desaparecimentos. Meu tio estava trabalhando num caso específico e precisava de algumas informações diretas dos locais.

Tenho que admitir: mesmo se você ignorasse as manchetes sobre Providence, o bairro tinha um ar estranho pra caralho. As casas eram muito espaçadas umas das outras, e só algumas tinham luz acesa. Estranhamente, a mesma coisa acontecia com os postes de rua. A maioria piscava, e alguns nem funcionavam. O bairro inteiro parecia congelado no tempo — indiferente a qualquer progresso material que a cidade tinha feito na última década.

Meu celular vibrou. Era uma ligação do meu tio.

“Você já chegou no prédio?”, ele perguntou.  

“Quase lá.”  

“Ótimo, anda logo. Você já devia ter terminado isso tudo até o meio-dia. Você sabe como as coisas podem ficar feias em bairros desse tipo.”  

“É, eu volto a tempo. Aliás, que tipo de gente eu vou encontrar nesse gueto? Casais falidos, viciados em crack? Ouvi falar que os drogados se enfurnam em lugares assim. E se você tá tão preocupado com esse lugar, me mandar pra cá como parte do meu trabalho me parece uma violação de ética profissional.”  

“Tá bom, meu erro. Só pega os depoimentos das pessoas em Greenville e vaza. Não fica criando caso. Ninguém vai te encher o saco enquanto você ficar na rua principal. Os viciados geralmente ficam longe dela.”  

“É, eu sei. Mas mesmo assim, tem alguma coisa nesse lugar que tá me dando arrepios.”  

“Pô, garoto, é inverno.”

Revirei os olhos pro comentário do meu tio e encerrei a ligação, dizendo que talvez eu estivesse exagerando. Guardei o celular no bolso porque a bateria já estava quase no fim e eu queria guardar o que restava pra alguma ligação de emergência caso essa sessão de perguntas desse merda.

Continuei andando pela rua detonada até que um prédio caindo aos pedaços apareceu na minha frente, com a sombra cobrindo metade da rua. As janelas batiam com força no vento, e entre as vidraças escuras, só a do quinto andar tinha luz acesa. A placa no portão aberto de par em par dizia “Greenville”. Entrei e vi que a recepção estava vazia. Gritei chamando o segurança, mas não veio resposta nenhuma. Andei devagar pro corredor, pensando no estado deplorável do prédio. Dentro tinha uma fileira de quartos com portas trancadas. No final do corredor ficava a porta enferrujada do elevador. Tinha uma marca de amassado pra fora. Parecia que alguma coisa tinha batido com força de dentro pra fora.

“Devem ter sido uns golpes bem fortes”, murmurei pra mim mesmo e me arrependi de ter bebido tanto, porque parte do meu cérebro começou a ver o formato do amassado como um rosto em agonia.

Afastando esses pensamentos loucos e sem fundamento, apertei o botão de SUBIR e a porta de metal abriu. O elevador era apertado pra caralho, nem cabia direito uma pessoa. Do lado oposto da porta tinha um espelho sujo e rachado que ia até o teto. “Parece que ninguém se preocupa mais em limpar aqui. Foda-se. Só preciso acabar logo com isso.” Apertei o botão do quinto andar pra ver quem morava lá. A luz do elevador piscava enquanto ele lutava pra subir com meu peso. Parou com um tranco, a grade abriu e eu respirei aliviado ao sair daquela porra de caixão de metal sufocante.

Surpreendentemente, os quartos desse andar não tinham trancas nas portas. Examinei o corredor procurando quartos com gente. Bati em todos, mas ninguém respondeu, até chegar na porta mais afastada do elevador. Assim que meu nó do dedo encostou, a porta abriu sozinha de par em par. Meu nariz foi invadido por um fedor podre que vinha de dentro do quarto. Cheirava a coisa morta e me obrigou a tirar o lenço do bolso pra cobrir o nariz. Quando entrei, um mal-estar tomou conta de mim e eu senti que estava invadindo território hostil. O quarto estava completamente escuro e eu tropeçava nos móveis tentando encontrar quem morava naquele buraco negro de podridão. Quando saí das teorias malucas que minha cabeça estava criando, percebi um rangido contínuo vindo do fundo do corredor. Fui andando devagar, com passos hesitantes e leves, respirando o mais devagar possível, já que eu já estava morrendo de medo.

Entrei num quarto novo onde o fedor horrível estava no auge. Vi que o rangido sinistro vinha de uma cadeira de balanço perto de uma janela de vidro meio aberta, com uma figura sombria sentada nela. Chamei com relutância, mas não tive resposta. A curiosidade venceu e decidi usar a lanterna do celular pra ver quem estava sentado do outro lado do quarto. Exatamente quando estiquei a mão pro celular, um raio caiu no chão lá fora. O clarão atravessou as vidraças e iluminou o quarto inteiro por um segundo. Meu coração parou naquele exato momento quando vi um rosto grotesco olhando direto pra mim. Era uma visão nojenta de carne podre toda retorcida num formato que mal lembrava um rosto. Dei um grito e juntei toda a força que eu tinha pra correr pra saída. Enquanto eu me debatia no corredor escuro, ouvi um rugido atrás de mim, forte como um trovão, que me deu um calafrio na espinha. “Será que aquela aberração me viu? Tá me perseguindo? Ou só chamou por mim?” Eu não sabia de porra nenhuma. Minha cabeça e meu coração estavam disparados. Meu único objetivo era sair vivo daquele prédio.

De alguma forma cheguei no elevador e fiquei apertando o botão de DESCER sem parar, ofegando. Assim que a porta abriu, eu pulei dentro daquela merda de caixão de metal. Fiquei apertando o botão do Térreo, mas não registrava. Nenhum outro botão funcionava também. No final, admitindo a derrota, apertei o botão do estacionamento subterrâneo e ele funcionou. A porta de metal finalmente fechou e a descida começou. Peguei o celular e liguei pro meu tio. Contei tudo de qualquer jeito, mas, estranhamente, não ouvi nada do lado dele. Nem um som. “Eu tô fodido?”

A porta do elevador abriu e eu caí pra fora, me vendo no meio do estacionamento abandonado. Mesmo longe daquela coisa, ainda achei melhor ficar o mais quieto possível. Enquanto eu andava na ponta dos pés em direção à escada, notei alguma coisa. Estava agachada nas quatro patas. Pálida. Careca. Pelada. Não parecia humana de jeito nenhum. Segurei o grito que quase escapou. Me movi com o máximo de cuidado e subi as escadas — por sorte eram de concreto, não de madeira, senão o barulho teria alertado a criatura. Quando cheguei na entrada do prédio, saí correndo em disparada e corri o mais rápido que consegui até meu peito começar a doer.

Meus pulmões queimavam. Minha visão embaçou. Caí no chão gelado da calçada. Tudo ficou preto. Quando finalmente abri os olhos, meu tio estava em pé em cima de mim. Ele me contou que, quando eu liguei, não ouviu nada do meu lado, mas sentiu que alguma coisa estava errada. Trouxe uma ambulância e a polícia junto. Eles me disseram que a aberração que eu vi no quinto andar era só o cadáver de uma velha que morava naquele quarto. Ela não tinha parentes conhecidos e, depois que morreu, ninguém soube. O corpo tinha ficado lá apodrecendo por semanas. Explicaram que o rugido que eu ouvi foi só o trovão que veio depois do raio que iluminou o quarto. E que encontraram outro cadáver no estacionamento subterrâneo que tinha sido roído por cães. A carne tinha sido mastigada fora das duas palmas das mãos.

O que eles não me contaram foi sobre a criatura no subsolo. Perguntei sobre ela e eles disseram que provavelmente era fruto da minha imaginação bêbada. Encontraram marcas de mãos no chão do estacionamento. Mas se aquelas marcas eram da vítima ou do agressor, não dava pra saber porque não tinha outras pra comparar.

Desisti do trabalho do meu tio. Preciso ficar longe de prédios abandonados, elevadores e subsolos. Já vejo eles nos meus sonhos. E vejo Ele também. Vejo ele virando pra mim, com um sorriso malicioso grudado num rosto deformado. Sibilando e rosnando, ele vem andando devagar na minha direção. Por sorte, eu acordo antes que qualquer coisa aconteça. Mas esses sonhos malditos estão durando cada vez mais, e algumas noites eu fico apavorado demais pra dormir.

Estou apavorado só de pensar no que um sonho prolongado pode guardar.

Eu perco mais uma parte de mim mesmo toda vez que acordo

A primeira coisa que encontrei foi o globo ocular.

Eu estava fazendo minha caminhada matinal de sempre pela floresta atrás da minha fazenda antiga quando vi aquilo. Brilhando num branco leitoso sob o sol, ele se destacava fácil no chão escuro da mata. Não consegui identificar de que animal era, mas era bem pequeno e quase não mostrava sinal de decomposição.

Na verdade, estava em uma condição absurdamente boa. Não estava esmagado, não tinha marcas de rasgo, nada do que você esperaria de uma luta. Parecia que tinha simplesmente rolado para fora do crânio de alguma pobre criatura poucos minutos antes.

Por mais estranho que fosse, achar animal morto não é exatamente raridade no mato. Continuei meu dia normalmente.

Só à noite percebi que minha gata não estava em lugar nenhum. E ela nem era de sair de casa. Eu nunca deixava ela sair.

Dormir ficou quase impossível aquela noite. Moro bem isolado no interior. Se ela tivesse fugido, não tinha controle de animais por perto pra resgatar. Talvez até fosse melhor assim. Mesmo assim, aquele globo ocular deixou um buraco no meu estômago.

Na manhã seguinte eu acordei grogue pra caramba. Precisei de café mais do que nunca. Levantei, me espreguicei e desci pra cozinha.

Foi só quando peguei a jarra de café com a mão direita que percebi: meu mindinho tinha sumido.

A jarra escorregou e se espatifou no chão, virando um monte de cacos afiados que refletiam a luz. Fiquei parado olhando pra minha mão, atordoado, contando os dedos várias vezes. Com certeza eu estava vendo coisa.

Não estava. Realmente restavam só quatro dedos na mão direita.

Virei a mão de todos os lados e parecia que nunca tinha existido dedo nenhum ali. Sem ferida, sem sangue, sem inchaço, sem vermelhidão, nem cicatriz. Nada.

Quando finalmente me controlei, peguei o telefone com dificuldade e liguei pro hospital mais próximo.

Uma mulher com voz de quem já estava exausta atendeu:  
— Obrigada por ligar pro Warrington Medical, em que posso ajudar?

— Oi. Preciso marcar uma consulta urgente pra um ferimento.

— Qual a natureza do ferimento?

— Meu dedo… ele sumiu.

— Sumiu… o dedo se soltou? Como aconteceu? — ela respondeu mais rápido, mudando pra um tom mais interessado.

— Eu… não sei direito. Meu mindinho simplesmente não estava mais lá quando acordei hoje de manhã.

Silêncio do outro lado.

— Também não tá sangrando… a ferida já tá completamente fechada.

Ela respirou fundo, quase falou alguma coisa e parou. Depois continuou:  
— Senhor, vou transferir você pro nosso setor de triagem. Só um instante.

Música jazz de elevador.

Depois de quase um minuto, outra mulher atendeu. Fez as mesmas perguntas e finalizou:

— Consigo marcar pra sexta-feira às duas da tarde. Serve pra você?

Sexta-feira? Cinco dias de espera?

Aceitei mesmo assim.  
— Tá bom… acho que serve. Obrigado — falei e desliguei rápido, voltando a encarar minha mão.

Depois de varrer o vidro, procurei meu dedo pelo quarto inteiro. Fiquei de quatro no chão de madeira empoeirado por mais de uma hora. Nada. Revirei os lençóis também. Zero. Não estava em lugar nenhum.

Acabei voltando pras tarefas idiotas de sempre pra tentar não pensar no que estava acontecendo. Uma delas era comprar comida.

Por causa de onde eu moro, o supermercado mais perto fica uns trinta minutos pela rodovia. Já tinha rodado uns quinze minutos quando, quase esquecendo do dedo que faltava, alguma coisa me trouxe de volta à realidade. Um vulto marrom passou rápido na beira da estrada vazia. Em qualquer outro dia eu ignoraria um animal atropelado, mas dessa vez foi diferente. Lembrei do olho na floresta. Da minha gata. Do meu dedo. Pisei fundo no freio e dei ré.

Não era minha gata.

O cervo estava de lado, cabeça e pescoço torcidos num ângulo doloroso pra caralho. A língua dele apontava pra fora como se estivesse gritando algo horrível. E era horrível mesmo.

Não tinha pernas nem patas. Só tronco e cabeça, moles, sem conseguir se mexer.

Não que fosse se mexer. A língua esticada e os olhos vidrados deixavam claro que estava morto. O buraco no meu estômago ficou ainda maior. Desci do carro pra olhar de perto.

Se não fossem esses detalhes, até poderia parecer vivo. A carne da língua estava rosada e fresca. Quase não tinha cheiro. E não tinha uma mosca sequer. A coisa devia ter morrido há pouquíssimo tempo.

Não havia nenhuma cicatriz ou abertura na parte de baixo do tronco, onde deveria ter pele e músculo rasgados. Era como se o cervo nunca tivesse tido membros. Eu quase teria acreditado nisso se não fosse pela minha própria mão de quatro dedos enfiada no bolso.

A cena me deixou enjoado e confuso. Voltei correndo pro carro e fiquei olhando pra minha mão de novo.

Apertei o volante com força e voltei pra casa.

Fui dormir naquela noite com fome e sem conseguir relaxar.

Quando acordei, parecia que tinha saído do sono mais profundo da minha vida. Olhei pro relógio.

13h.

Esfreguei os olhos sem acreditar e olhei de novo. Tinha dormido catorze horas seguidas.

Sentei na cama e bocejei. Meus lábios se fecharam pra dentro, sentindo falta da parede dura dos dentes e encostando só em carne macia e irregular. Minha respiração travou. Levantei a mão trêmula e apalpei dentro da boca.

Todos os dentes tinham sumido.

Engasguei e procurei desesperado pela cama. Nada. Nenhum dente em lugar nenhum. Só uma mancha enorme de baba ensopada no travesseiro.

Tentei xingar baixo e as palavras saíram emboladas, babadas, um monte de som mole e sem sentido. Corri pro banheiro e abri a boca no espelho. As gengivas vazias tinham pequenas depressões onde os dentes costumavam ficar.

Exatamente como meu dedo e o cervo, não havia nenhum sinal de trauma. Era como se eu sempre tivesse sido sem dentes. Meu estômago embrulhou. Minha boca se fechou num esgar mais fundo do que nunca.

Meu cachorro também não tinha se dado bem. Era um labrador preto grandão, sempre feliz, sempre abanando o rabo. Mas naquela manhã, quando o encontrei deitado lá embaixo, ele mal se mexia. Parecia dopado. Mas o que mais chamava atenção não era o cansaço.

O crânio dele afundava pra dentro em volta de duas órbitas grandes e vazias acima do focinho. O pelo curto e preto cobria perfeitamente o formato dos buracos.

Aquilo me fez chorar feito criança. Procurei pela casa inteira durante horas.

Não achei os olhos dele em lugar nenhum.

Ainda abalado, lembrei do globo ocular que tinha encontrado na floresta. Deviam estar lá fora.

Quando abri a porta da frente, ela só girou até a metade e bateu em alguma coisa que eu não conseguia ver. Ouvi um ganido grave e dolorido de animal. Reconheci o som de urso e fechei a porta na hora.

Fui até a janela ao lado pra olhar atrás da porta.

Apesar do ângulo ruim, dava pra ver uma massa marrom felpuda perto do chão. Resolvi investigar.

Era algo que eu nunca tinha visto na vida. Os nós no meu estômago viraram puro caos.

A cabeça gigante do urso-pardo estava de lado no piso de madeira da varanda, completamente separada do corpo. Dois tubos pálidos e carnudos saíam da base da cabeça por uns trinta centímetros e se conectavam a uma rede de órgãos internos perfeitamente arrumados e limpos. Dava pra ver dois pulmões rosados e cheios de veias se expandindo e contraindo. No meio deles, um coração vermelho e musculoso batendo rápido pra caralho.

Os olhos desesperados do urso se viraram pra mim e ele soltou um gemido grave e gutural. A cabeça rolava de um lado pro outro. Engasguei, cambaleei pra trás, corri pra dentro de casa e bati a porta com força.

A noite caiu mais rápido do que eu esperava. Eu tinha me trancado dentro de casa, sem sair do lado do meu cachorro. Quando ficou tarde, nem fui pra cama. Fiquei na sala com ele.

Logo quando meus olhos começaram a pesar, um flash de luz branca cegante invadiu a janela. Apertei os olhos e me virei.

Além do quintal, atrás das árvores, alguma coisa emitia uma quantidade absurda de luz. Levantei num pulo, corri até a porta, peguei uma faca na cozinha e saí pro ar frio da noite, tentando ignorar a cabeça do urso à minha direita.

Agora mais perto, consegui distinguir uma silhueta oval enorme, quase tão alta quanto os pinheiros. A luz saía em grandes círculos pela frente dela.

De repente o chão tremeu. Um chiado agudo e ensurdecedor veio na minha direção e um único feixe de luz me acertou direto no corpo, me cegando. Levantei a mão pra proteger os olhos enquanto meus pés formigavam.

Um som grave, parecido com tuba, me atingiu como uma onda. Me virei e corri de volta pra casa o mais rápido que consegui.

Tranquei a porta e subi as escadas em disparada. Parei congelado no topo da escada.

A luz que entrava pela janela do fim do corredor iluminava a silhueta de uma figura.

Era magra demais pra ser humano, com braços e pernas compridíssimos. Dava pra ver uma pele cinza-clara. A cabeça, que quase encostava no teto, parecia grande demais pro pescoço fino. Ela deu um passo na minha direção.

Meus pés me lançaram porta adentro do meu quarto. Fechei e tranquei a porta com as mãos dormentes.

Ouvi passos pesados passando pelo corredor e descendo as escadas.

Fiquei ali parado, sem mexer um músculo, apertando a faca e suando frio até o sol nascer.

Só juntei coragem pra abrir a porta quando meu relógio marcou 9h. Desci as escadas devagar, olhando pra todos os lados.

Meus olhos pararam numa longa mecha de pelo preto esticada no meio da sala. Me aproximei.

Era o rabo do meu cachorro. Cobri a boca com a mão e solucei, os sons saindo moles e fracos.

Não precisei de mais nada. Entrei no carro sem levar nada e dirigi sem parar até quase 18h.

Mesmo sem conhecer a cidade onde parei, senti um alívio enorme. Aluguei um quarto de motel e tentei me acalmar.

Eu tinha escapado daquela coisa.

Hoje de manhã acordei na cama do motel. Olhei pro relógio.

Meio-dia.

Tentei sentar, mas alguma coisa me impediu de fazer força. Caí de lado na cama. Confuso, joguei as cobertas pro lado.

As duas pernas tinham sumido.

Sem cicatrizes. Sem feridas abertas. Sem sangue. Nada.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Está Grávida...

Desde que eu era uma garotinha, sou fascinada por biologia. Tem algo mágico naquelas células minúsculas se unindo pra dar origem a algo que transcende o que elas são individualmente. Algo com comportamentos e uma arquitetura extremamente complexos, capaz até de se explorar e explorar suas próprias partes. Então, é... seguro dizer que ninguém se surpreendeu quando decidi virar pesquisadora. Mais especificamente, eu me atraí pelos efeitos da radiação em organismos vivos, o que me levou a Chernobyl. Trabalho lá desde o começo dos anos 2010 e eu e minha equipe exploramos uma boa parte das áreas restritas.

Essa... história — embora, se você perguntasse pro Luca, ele provavelmente diria que eu devia chamar de pesadelo — começou em fevereiro do ano passado, quando um drone russo atingiu a estrutura do Novo Confinamento Seguro e abriu um buraco enorme nela. Tudo começou porque os níveis de radiação que a gente esperava não batiam com as leituras reais; não é como se eu estudasse física nuclear, mas você provavelmente consegue imaginar que, no meu ramo, contadores Geiger são uma das ferramentas mais básicas que existem. Foi bem estranho ver que o nível de radiação tinha caído tanto, quase uma ordem de magnitude inteira. Foi uma queda dramática pra caralho, mas as instituições não pareciam nem um pouco preocupadas por algum motivo; acho que a guerra fez com que isso não fosse prioridade. Pra mim, porém, era.

Então nossa equipe mandou um pequeno rover controlado remotamente pra investigar o interior da usina nuclear. O veículo carregava um contador Geiger, câmeras (gama espectroscópica, imagem térmica, normais…), unidade de amostragem de ar, LIDAR… O pacote completo. A gente nunca tinha conseguido acessar certas áreas da usina por causa dos níveis absurdamente altos de radiação, o suficiente pra destruir completamente qualquer coisa, biológica ou artificial, em questão de minutos, se não segundos. Dessa vez, no entanto, o contador Geiger do veículo contava uma história diferente. Dessa vez os níveis de radiação tinham caído pra algo entre 3 e 4 milisieverts por hora; ainda alto, mas dentro da faixa aceitável onde uma entrada com traje de proteção por duas ou três horas não excederia os limites anuais de exposição.

A equipe toda estava nervosa, não só por causa das leituras, mas também porque ninguém nunca tinha conseguido ver o que tinha lá embaixo. Eu e outros dois pesquisadores parados, com os olhos grudados nas telas. O veículo continuava avançando pelos corredores labirínticos do subsolo bem embaixo do reator. Alguns estavam alagados, outros desabados, mas tinha um corredor estreito grande o suficiente pra deixar o veículo passar. A gente estava explorando um lugar onde nenhuma pessoa viva tinha pisado desde o desastre nuclear.

“Olha, ali.” Disse o Johan apontando pra tela com as leituras da câmera gama espectroscópica. “Essas assinaturas de Césio-137 e Estrôncio-90 estão… estranhas.”

Elas estavam mesmo estranhas, porque as leituras mostravam que estavam completamente localizadas em vez de dispersas. Quatro décadas de fluxo de poeira, ar e água deveriam ter espalhado os contaminantes de forma quase uniforme, e mesmo assim… A gente esperava descobrir algum tipo de organismo “comedouro de radiação”, ou pelo menos essa era a hipótese inicial com que a equipe toda estava trabalhando. Tinha que ter algum motivo pra esses isótopos estarem todos concentrados numa área específica e, como biólogos, nosso melhor palpite era que tinha alguma coisa se alimentando deles. Fazia sentido, né?

“Está logo atrás daquela porta.” Disse o Luca, batendo na tela da câmera óptica. Tinha uma porta enferrujada que dava pra uma sala adjacente à piscina borbulhadora, que antigamente funcionava como sistema de supressão de pressão e reservatório de refrigerante de emergência. “Parece frágil o suficiente pra abrir se você empurrar com o veículo.”

Então eu fiz isso, e a porta não abriu — ela desabou pra dentro da sala como se mal estivesse se aguentando em pé.

As primeiras imagens foram confusas, pra dizer o mínimo: as câmeras ópticas e a iluminação do veículo ficaram obscurecidas por uma camada grossa de poeira flutuante depois do desabamento da porta. Mas definitivamente tinha alguma coisa errada naquela sala. A geometria parecia estranha, com umas massas esquisitas grudadas nas paredes. Tinha um tom avermelhado, quase carmesim. Era uma cor viva que contrastava com a monotonia da poeira, sujeira, ferrugem e concreto. A textura parecia viscosa, úmida mas não exatamente molhada. As leituras do LIDAR mostravam que aqueles crescimentos estavam ancorados nas paredes, com o concreto aparentemente dissolvido por baixo deles.

“Anastasia, você pode mudar pra câmera térmica, por favor?”

Quando eu mudei, a sala inteira se iluminou. Estava quente. Paredes, chão e teto, tudo pintado de vermelho. As leituras mostravam temperaturas entre 35 e 39 ºC e algum tipo de líquido fluindo constantemente por toda a sala e por dentro daquelas massas.

“Isso parece…”

“Um sistema circulatório”, eu disse. “E a temperatura… é bem característica, quase como se estivesse… vivo.”

Luca e Johan olharam pra mim, não assustados, mas quase empolgados. Definitivamente era de natureza biológica e as leituras gama espectroscópicas confirmavam que os isótopos de Césio e Estrôncio estavam mais densos dentro daquele… tecido? Eles estavam ainda mais concentrados nas estruturas mais distendidas. Vou ser honesta: tinha alguma coisa perturbadora nessa coisa toda, mas até então era tudo o que a gente esperava, né? Realmente parecia um organismo vivo que se alimentava de radiação ou, pelo menos, de isótopos radioativos.

“A gente devia começar a coletar amostras”, disse Luca tentando conter a empolgação.

“Eu diria que precisamos descobrir se é um organismo único ou algum tipo de colônia. Colete amostras de partes diferentes, tipo… Você consegue aproximar um pouco mais o veículo daquela parede?”

O Johan não parecia tão feliz com a descoberta quanto o Luca. Eu obedeci e empurrei devagar o joystick pra frente, fazendo o veículo avançar vários metros em direção à parede, ainda usando a imagem térmica. Depois mudei pra óptica; eu queria dar uma boa olhada naquela massa antes de coletar qualquer amostra.

“Isso aí é tipo… Isso é um caralho de intestino?” O Luca cobriu a boca. “Está inchado, será que é gás ou…?”

Eu mudei de novo pra câmera térmica e confirmei que a temperatura era homogênea em toda a massa, intestino ou o que quer que fosse. Se estivesse cheio de gás, a temperatura deveria ser menor porque gás tem baixa condutividade térmica. Mais do que isso, a massa estava quase meio grau mais quente que o tecido ao redor. Meus dois colegas chegaram à mesma conclusão sem precisar de palavras. Então o Johan colocou a mão no meu ombro e, com a voz trêmula, perguntou:

“Isso… está se mexendo?”

Tinha movimento dentro da massa. Dentro do pseudo-intestino. Não era movimento como o dos fluidos captados pela imagem térmica, fluindo livremente dentro da rede orgânica. Tinha alguma coisa sólida que não seguia a dinâmica dos fluidos do fluxo circulatório ao redor, mais rítmico que turbulento.

“A temperatura sugere uma taxa metabólica elevada”, eu disse, sem querer continuar. Eu tinha medo do que ia falar em seguida: “como a de um útero de mulher grávida”.

“Que porra você tá querendo dizer, Anastasia?”

Eu me virei e olhei direto nos olhos do Luca. Ele sabia exatamente o que eu estava dizendo; a empolgação dele tinha azedado pra alguma coisa mais sombria. Tinha um leve sinal de medo camuflado por trás de uma camada de incredulidade.

“Só… pega a amostra, vai?”


Eu guiei o veículo de volta pelo corredor estreito e pra fora da zona radioativa imediata, depois parei ele no ponto de descontaminação designado. O Johan vestiu o equipamento de proteção e borrifou o veículo com solução descontaminante, depois escaneou tudo com cuidado usando o contador Geiger. Qualquer leitura acima do fundo natural levaria a outra rodada completa de descontaminação, mas os níveis baixos de radiação trabalharam a nosso favor dessa vez.

Depois ele removeu os recipientes com o material orgânico ainda na zona de descontaminação. O Johan manipulou eles com cuidado, selando em várias camadas e recipientes, tipo uma boneca matryoshka. O último passo foi colocar tudo dentro de uma caixa de transporte forrada de chumbo etiquetada com fita de alerta de radiação. Quando ele foi pegar os recipientes com as amostras de ar, parou.

“Vocês estão vendo isso?” ele perguntou, apontando o contador Geiger pra unidade de amostragem de ar. “Parece sangue seco.”

“Sangue seco e sujeira.”

“Está obstruído. Os recipientes de ar parecem…” O Johan sacudiu o que estava na mão dele e fez um som como se tivesse líquido dentro. “Definitivamente tem alguma coisa líquida aí dentro.”


Nas três semanas seguintes nós fizemos várias análises diferentes tanto nas amostras de tecido quanto nos recipientes de ar:

Uma triagem radiológica pra avaliar os níveis de radiação e determinar qual contenção seria necessária pro trabalho de laboratório. Os resultados mostraram uma concentração extraordinariamente alta de Césio-137 e Estrôncio-90 nas amostras de tecido, o que significava que precisariam ser manipuladas em um ambiente de contenção específico.

Depois, uma vez que sabíamos como trabalhar com elas com segurança, um estudo histológico básico que… Bom, eu examinei elas no microscópio depois de preparar as lâminas e colorir. Nesse ponto, eu não sabia o que esperar. Já estava perturbada com o que tínhamos visto e teorizado, mas nada poderia ter me preparado pro que vi sob a lente: as células eram humanas. Eram inequivocamente humanas, a ponto de eu reconhecer na hora. Núcleo, citoplasma, organelas… tudo humano, mas com proteínas expressas e certas estruturas pesadamente mutadas. E o tipo de tecido ficou claro pra mim assim que entendi a natureza delas… Eram células do endométrio. Tínhamos coletado amostras de um útero. Um útero humano vivo.

A análise genética não foi melhor; se alguma coisa, foi ainda mais perturbadora. PCR e sequenciamento. O DNA estava pesadamente mutado, com genes suficientes intactos pra estabelecer a linhagem celular. Os resultados das mutações eram coerentes com aqueles encontrados em certos tipos de câncer agressivo. Os padrões de metilação mostravam o silenciamento sistemático das vias de reparo de DNA; genes que ajudariam a reparar danos por radiação tinham sido progressivamente desligados, impedindo a célula de combater as mutações e fazendo ela simplesmente acumulá-las. Era como se aquela coisa estivesse se construindo a partir da radiação.

As mutações resultaram em novos genes, que codificavam novas proteínas. E algumas delas funcionavam como enzimas novas, catalisando reações que células humanas normais não fazem. Tinha uma coerência profunda ali, não era só um tumor aleatório. Cânceres não têm esse nível de funcionalidade, eles só atrapalham o funcionamento correto daquilo que contaminam até um nível patológico. A gente tinha descoberto alguma coisa… transcendental.

“Bem, se eu não estava convencido antes, agora com certeza estou.” Disse o Johan, de braços cruzados. Ele não estava achando graça; o tom dele era mortalmente sério: “Aquela coisa está viva por direito próprio. Não é um… tumor.”

“Também não é uma pessoa…” começou o Luca, e aí a voz dele falhou um pouco: “Né?”

“Nenhuma das amostras continha nada parecido com tecido neural maduro”, eu respondi. “Só uterino.” Pausei por um segundo enquanto lembrava de uma coisa: “Embora várias amostras tivessem concentrações anômalas de células expressando versões modificadas de proteínas mecanorreceptoras. São… uh… as mesmas proteínas envolvidas na sensação de pressão e estiramento no tecido uterino normal.”

Silêncio.

“E as amostras de ar?”

O Johan levantou o tablet e desbloqueou. Tinha uma mensagem não aberta na caixa de entrada, assunto “Amostras de Ar #33-37 — Resultados dos Testes”. Ele tinha recebido ela mal tinha cinco minutos. Baixou o arquivo anexado do laboratório externo que analisou os recipientes e abriu.

Os recipientes continham material particulado em concentrações aproximadamente quarenta a cinquenta vezes maiores que os níveis de fundo nos corredores externos: a atmosfera da sala estava densa com materiais suspensos. A análise particulada identificou como um “biofilme?”, com ponto de interrogação incluso. Era composto de três componentes: poeira radioativa consistente com o perfil de isótopos conhecido do ambiente do subsolo, material de membrana lipídica fragmentada consistente com lisado de origem biológica, e estruturas intactas semelhantes a organelas. Mais especificamente, o que parecia ser algum tipo de “mitocôndrias modificadas” mais consistente com aerossolização ativa do que com dispersão mecânica por causa da concentração. O relatório também incluía um comentário apontando que as “mitocôndrias modificadas” ainda estavam metabolicamente ativas no momento da análise. Três semanas depois da coleta da amostra.

“Acho que a gente devia reportar isso”, murmurou o Luca, “não tô nem aí se algum outro grupo de pesquisa levar o crédito. Isso é demais… Tipo, que porra isso significa, Ana?”.

O Johan estava quase surtando, igual ao Luca, mas pelo menos tentava se controlar pra caralho:

“Respira, Luca. Isso é… empolgante. Né? Uma nova descoberta, alguma coisa que só a gente sabe que existe. A-algo pra estudar…”

“Nova? É feito de células humanas pra caralho, Johan. Está viva. Está lá há quatro décadas malditas. Talvez seja melhor se ninguém souber que existe. Não existe palavra pro que quer que AQUILO seja.” Ele apontou pro vídeo das câmeras ópticas do veículo que estava passando numa tela ao fundo.

“É um útero humano, sem corpo, de alguma forma. E não é só um, a sala inteira está coberta deles, eles estão comendo o concreto, a fundação da usina. É quase como se eles se alimentassem da radiação, tipo, tipo…”

“Foda-se isso.”

O Luca saiu da sala batendo o pé. Um dia depois, as amostras e todo o nosso equipamento tinham desaparecido. Os documentos, os vídeos, nosso artigo meio escrito, tudo. Sumiu. Nosso acesso às instalações foi revogado e fomos forçados a assinar um acordo de confidencialidade pelo governo ucraniano — que ninguém traduziu pra gente — e fomos deportados. A explicação oficial foi “visto de trabalho vencido”.

Faz quase um ano que não vejo o Luca nem o Johan. Tentei manter contato com o Johan, mas ele parou de me responder há uns meses. Não sei nada sobre o Luca e ele não atende o telefone.

Cadê a curiosidade deles? Por que não correr atrás disso?

Tem uma coisa que ainda me incomoda pra caralho quando penso naquilo… Estava grávida, não estava?  

Para todas as partes de Julia que eu consigo alcançar

Eu te amo, e sinto muito. Eu sei que você tá puta da vida comigo, por isso quis me dirigir a tanto de você quanto eu consigo alcançar pra me explicar. Nossa comunicação sempre foi algo que a gente se orgulhava pra caralho, e eu não pretendo deixar essas circunstâncias fodidas mudarem isso.

Quando a gente se conheceu, eu percebi rapidinho que você era única. Você não era nem um pouco parecida com aqueles outros alunos de escrita criativa sem talento nenhum daquela faculdade, eu incluído. Seu trabalho fazia o meu parecer que inglês era minha quarta língua, quando na real era sua segunda. Sua prosa era tão lindamente sem esforço, tão eloquente sem nunca parecer metida ou enrolada. Além disso, você não tinha nenhuma vontade de se afundar na própria miséria romantizada como eu tinha me convencido que era necessário pra ser grande. Não é como se isso tivesse funcionado alguma vez. Eu não era nenhum Hemingway nem Bukowski, não importava o quanto eu tentasse fingir que era quando estava numa das minhas bebedeiras.

Você, por outro lado, era algo mágico. Você entrava em toda aula como se fosse o evento mais importante do mundo, mas falava com um tom tão naturalmente intoxicante que parecia mais coisa de papo de café do que de oficina de tese de conclusão. Você carregava sua alegria de viver bem na cara todo santo dia, com aquelas leves ruguinhas de sorriso provando que você era assim há muito tempo. Eu só entendi de verdade o que significava a palavra “prodígio” quando te conheci. Era como se criar fosse parte da sua essência, como se sintetizar e botar pra fora os mundos que existiam dentro da sua cabeça fosse tão natural quanto respirar. Você era um gênio sem nenhuma bagagem, alguém com um dom que ficava infinitamente animado pra dividir com o mundo.

Até hoje eu não entendo o que você viu em mim. Eu sempre achei que pessoas tão especiais quanto você naturalmente gravitariam umas pras outras, que vocês iam viver a vida de vocês em algum lugar bem longe de onde eu fosse parar. Acho que, no fundo, eu esperava que você me rejeitasse quando te chamei pra jantar pra falar sobre nossa escrita; fazia tempo demais desde meu último fracasso romântico pra eu conseguir tirar mais alguma poesia melancólica e vomitiva daquilo. Mas você aceitou, e antes que eu percebesse, a gente já tava se mudando pro nosso novo apartamento sem plano nenhum pro futuro e sem dar a mínima pra como a gente ia resolver isso.

Amar você foi uma faca de dois gumes. Por um lado, estar com você tornava absurdamente fácil eu me endireitar. Um único olhar preocupado daqueles seus olhos cor de avelã macios dava mais clareza de como mudar do que qualquer programa de doze passos poderia sonhar. Por outro lado, aqueles primeiros anos cristalizaram uma verdade que eu já sabia lá no fundo desde o primeiro dia que você leu seu texto em voz alta na aula: você era a coisa verdadeira, e eu não passava de uma imitação pálida. Você era uma das futuras grandes, e eu era só um amador derivativo que não reconheceria nuance de verdade nem se ela morasse comigo.

Embora fosse uma verdade amarga pra caralho de engolir, estar com você era milagre suficiente pra eu aguentar o soco no ego. Meu novo propósito virou nutrir o seu dom, garantir que você tivesse tudo pra produzir a arte que eu sabia que ia mudar o mundo. Guardei minhas próprias ambições e arrumei emprego numa agência literária. Era um trabalho com algum sentido, mas no fundo era só um meio pra um fim: manter um teto sobre a sua cabeça pra você poder criar sem nenhuma merda atrapalhando. Você protestou, disse que não era justo, mas eu não cedia. Eu finalmente estava sendo honesto comigo mesmo. Eu sabia que a coisa mais importante que eu podia fazer nesse mundo era deixar você desenvolver seu talento completamente.

Foi por isso que eu desmoronei quando você ficou doente. Você tinha sido minha razão pra continuar numa vida que, fora isso, era monótona e inútil. Eu te amava. Eu precisava de você. Seu declínio podia ser mais visível e doloroso, mas o meu era tão real quanto, e começou no exato momento que o médico leu o diagnóstico em voz alta. Parecia que todo dia me arrastava chutando e gritando pro fim do mundo. Quanto mais energia você perdia, quanto menos coerentes suas frases ficavam, mais eu perdia a vontade de lutar. Eu voltei a beber escondido, escapando pra bares nas raras noites que você conseguia dormir direto. Eu me odiava pra caralho por isso. Eu sabia que era exatamente quando você mais precisava de mim, mas eu perdia toda vez que tentava lutar contra minha natureza. Eu pertencia à sarjeta, e com você indo embora, eu sentia o puxão pra lá mais forte do que nunca.

Numa noite especialmente de merda, me vi numa parte perigosa da cidade, bêbado o suficiente pra começar a desabafar com um estranho sobre minha situação. Ele estava vestido bem demais pro lugar. Os traços dele eram afiados, quase geométricos demais pra um ser humano de verdade. Ele ficou sério me ouvindo, hesitante em interromper ou perguntar qualquer coisa. Esperou pacientemente enquanto eu fungava e chorava falando de você, de como eu tava apavorado de te perder.

Acima de tudo, eu lamentava o tamanho da tragédia que era um prodígio como você morrer antes de conseguir compartilhar seu dom com o mundo.

“Ela estava… ela estava só começando a fazer progresso nos sonhos dela. É que… ela realmente é especial pra caralho. O mundo precisa conhecer ela… eu queria que o mundo pudesse conhecer ela…”

Isso chamou a atenção do cara. Ele olhou direto pra mim, quase atravessando, e falou calmo:

“Eu posso te ajudar. Me segue.”

Eu segui ele até o que eu só podia imaginar que era o apartamento dele. Não foi a decisão mais inteligente, mas não era como se eu tivesse muito a perder. Era um estúdio pequeno com nada além de uma mesa de madeira ornamentada bem no meio. O cara sentou na cadeira e eu fiquei olhando tudo. Nas paredes tinha dezenas de diagramas geométricos estranhos desenhados com caneta preta grossa. Pareciam aquelas formas impossíveis dos livros de ilusão de ótica, me dando dor de cabeça só de olhar mais de dois segundos. Podia ser o álcool, mas aquilo me deixava inquieto pra caralho. Grades entrelaçadas de prismas triangulares, tentativas de formas em 4D, linhas que pareciam paralelas e perpendiculares ao mesmo tempo. Cobriam todas as paredes, algumas até subindo pro teto.

Em cima da mesa tinha vários mapas, desde o bairro onde a gente estava até o mapa-múndi inteiro. Do lado da cadeira dele tinha frascos com líquido multicolorido borbulhante, organizados em fileiras dentro de um recipiente gravado bem chique. O cara girou um dos frascos entre os dedos e começou a falar:

“Eu trabalho dividindo almas. Se o seu desejo é salvar essa mulher da destruição total e ao mesmo tempo compartilhar ela com o mundo, eu posso resolver.”

Eu olhei ele de cima a baixo. Com a mistura da minha concentração de álcool no sangue, aquele cenário esotérico e o jeito super direto dele, eu fiquei estranhamente convencido do que, em qualquer outro momento, seria considerado puro delírio. Mesmo assim, eu precisava saber mais.

“Almas? Como você divide uma alma?”, eu respondi finalmente, tentando (e falhando) não enrolar as palavras.

Ele pareceu um pouquinho irritado com a pergunta. Pausou, respirou fundo, como se fosse dar um discurso decorado:

“A sociedade quer que você acredite que existem coisas que fogem das operações matemáticas. Que certos aspectos da realidade não podem ser pensados em frações ou porcentagens. Que uma memória não pode ser cortada no meio. Isso é uma mentira deslavada. Tudo que existe é quantificável. Tudo no universo é divisível. Não importa o quão complexo ou metafísico seja, existem regras que podem ser aplicadas pra remover partes do todo maior. Através do meu conhecimento íntimo da geometria sagrada que sustenta a realidade, eu consigo explorar essa verdade e praticar a arte da divisão de almas. A alma — a amálgama psíquica de todo aspecto da essência de uma pessoa — é dissolvida na consciência coletiva da raça humana.”

O álcool fez eu demorar ainda mais pra processar aquilo. Fiquei quase um minuto inteiro ali parado. Minha resposta foi só uma palavra:

“Dissolvida?”

Ele largou o frasco que estava mexendo e virou toda a atenção pra mim. A voz continuava monótona, mas agora ele gesticulava:

“Correto. Pensa assim: uma alma é uma coagulação gigantesca de tudo que faz uma pessoa ser ela mesma e não outra coisa. Contém todo pensamento, memória, sentimento e característica física. É um oceano de individualidade. O que eu faço é dividir esse oceano em gotinhas individuais e adicionar uma gota em cada um dos outros oito bilhões de oceanos deste planeta. Todo ser humano vivo hoje vai receber uma fração de um em oito bilhões da alma dela… você incluído.”

Finalmente eu estava acompanhando. Admito que tinha me perdido um pouco nas explicações longas dele, mas quando comecei a juntar as peças, meu motivo pra estar ali voltou com tudo. Enquanto as engrenagens giravam, fiz a única pergunta que importava:

“Ela vai ficar bem?”

Outro olhar irritado, como se estivéssemos no roteiro de sempre.

“Ela vai se perder dela mesma. Todos os componentes individuais que formam quem ela é vão continuar existindo, mas espalhados entre toda a espécie dela. O navio de Teseu ainda existe se cada peça dele for usada pra consertar um navio diferente na Grécia? Ele ‘existe’, mas já não é mais um navio.”

“Por que caralho eu aceitaria isso?!”, eu rebati. Parecia que ele só estava oferecendo matar você antes do câncer. Eu não via vantagem nenhuma em relação a uma morte digna, por mais trágica que fosse.

“Porque a alternativa é obliteração”, ele retrucou. “A morte é absoluta. Tudo dela vai ser destruído. A divisão de almas garante que o que é único nela não se perca pro mundo. Eu estava com a impressão de que essa mulher era especial?”

Aquela resposta me pegou de surpresa. Foi aí que eu entendi de verdade o que ele estava oferecendo. Era assim que o mundo ia conhecer você. Você ia ser entregue pra humanidade inteira, seu gênio preservado e acessível. Você ia continuar vivendo como um milhão de faíscas de inspiração na cabeça de artistas medíocres que nem eu. O presente que você seria pro espírito criativo da humanidade…

“Vamos fazer isso”, eu soltei de repente.

Desculpa, Julia. Eu disse as palavras sem entender direito o que estava fazendo. Tinha dezenas de perguntas que eu deveria ter feito antes de brincar com a sua vida desse jeito. Eu só queria desesperadamente te manter aqui de alguma forma. Eu não aguentava te perder completamente.

O cara acenou com a cabeça, pegou o frasco de novo e começou a murmurar baixinho numa língua que eu nunca tinha ouvido enquanto virava o conteúdo nas mãos e esfregava. Era um líquido viscoso e brilhante que ficava cada vez mais prismático conforme ele espalhava entre os dedos. Depois de uns dez segundos, ele começou a passar as mãos no maior mapa da mesa — o do mundo inteiro. Os desenhos geométricos nas paredes começaram a brilhar fracamente enquanto ele cobria cada centímetro da Terra com aquele líquido agora espumante. O sussurro virou canto mais alto, e eu tinha certeza absoluta de que não era nenhuma língua que eu conhecia. Uns vinte segundos depois, acabou. Ele abriu uma gaveta, pegou uma toalha e limpou as mãos.

“Isso… é só isso? Você não precisa de nada meu?”, perguntei meio sem graça.

“Não. Você já me deu o suficiente no bar. O processo vai levar mais ou menos 24 horas. Pode ir embora.”

Fiquei ali mais um segundo antes de virar pra sair. Quando já estava na metade da porta, uma pergunta que eu deveria ter feito muito antes me veio à cabeça. Eu girei de volta:

“O que você ganha com isso?”

O menor sorriso possível apareceu nos lábios dele.

“Não se preocupa. Eu já fui compensado.”

Eu tentei com todas as forças me convencer de que aquilo não significava nada perigoso pra você. Mas no fundo eu sabia que sim.

“Mais alguma pergunta?”, ele perguntou, deixando claro que eu estava enrolando.

Só consegui pensar numa:

“Quem é você?”

Pela primeira vez o jeito frio dele mudou. Ele pareceu surpreso, como se não esperasse essa pergunta.

Pausou.

“Alguém muito longe de casa.”

Passei o dia seguinte inteiro do seu lado no hospital. Mesmo você tendo dito que estava se sentindo melhor quando acordou, lá pelo meio-dia você já estava delirando. Ficava falando das formas que via toda vez que fechava os olhos, e de como, a cada poucos minutos, um flash do ponto de vista de outra pessoa invadia sua visão. Partiu meu coração ver o medo crescendo devagar enquanto você tentava entender o que estava acontecendo. Você dizia que parecia que você estava sendo rasgada. Eu tentava me convencer de que era normal, que todo mundo via coisas assim antes de morrer. Mas não era luz no fim do túnel nenhum. De noite, as pontas dos seus dedos começaram a ficar borradas, como se a linha entre seu corpo e o quarto estivesse sumindo. Eu queria acreditar que era só minha imaginação, mas não conseguia. Eu sabia que tinha sido eu.

Você desapareceu no dia seguinte. Não morreu. Desapareceu. A equipe do hospital revirou o prédio inteiro, mas você não estava em lugar nenhum. Nenhuma câmera te pegou saindo. Fizeram boletim de desaparecimento, e eu até fui levado pra interrogatório. Mas me soltaram. Não tinha motivo nenhum pra eu fazer mal pra você se você já tinha só algumas semanas de vida.

Eu não saí do nosso apartamento por quase uma semana depois que voltei da delegacia. A culpa e o luto me prenderam na cama por dias. Mesmo se o que o cara fez tivesse funcionado, você ainda tinha sumido da minha vida. Eu nunca mais ia ouvir sua voz. E aquele medo nos seus olhos… eu simplesmente não queria encarar o que eu tinha feito com você. Não queria encarar o mundo que eu tinha jogado você dentro. No final, minha intuição estava certa. Eu tinha todo motivo pra ter medo.

Acabei tendo que sair de casa. A primeira vez foi só pra ir numa loja de conveniência perto, por pura necessidade. Ia pegar comida e bebida suficiente pra ficar mais uns dias trancado. A loja estava cheia — umas dez, quinze pessoas espalhadas pelos corredores.

Fui lá pros fundos pegar bebida. Enquanto olhava as opções, um cara a uns quatro pés de distância se virou pra mim. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundo. Ele se contorceu de leve e sussurrou duas palavras:

“Tenho que.”

Logo em seguida, uma mulher que passava atrás dele fez o mesmo e sussurrou:

“Quero.”

Eu assisti horrorizado enquanto aquilo se espalhava pela loja toda, as vozes se sobrepondo e ficando mais altas:

“Tenho que.”  
“Quero.”  
“Frio.”  
“Frio.”  
“Quero.”

Eu sabia que era você. Sabia que aquela era sua dor. Corri pra saída, mas uma velha frágil me agarrou o braço com uma força absurda. Ela abriu a boca e falou.

A voz dela… não, a sua voz… estava carregada de um veneno que fez meu coração afundar mais do que eu achava possível.

“Eu ia conseguir.”

Desde aquele dia eu não saí mais de casa. Não sei se você só conseguiu falar porque me viu, ou se a raça humana inteira está passando pelo que eu vi. Mas eu sei que você ainda tá aqui, e sei que você tá com raiva. Aquele homem, ou seja lá o que ele fosse, estava errado ou mentiu. Só posso imaginar que a ressonância entre os pedaços da sua alma quando eles se juntam tá criando uma espécie de proto-consciência. Você virou um fantasma incompleto, consciente o suficiente pra saber que algo tá profundamente errado. E mais que isso: você parece saber que a culpa é minha.

Toda noite na última semana eu tenho o mesmo sonho. Nele, estamos cara a cara num vazio completamente escuro. Você tá de camisola de hospital, me fuzilando com o olhar. Seus olhos são um redemoinho de azul, verde e marrom. Tem partes da sua pele na cor errada. Um brilho prismático sai do contorno do seu corpo. Você tá com raiva, mas acima de tudo tá apavorada. Me diz que eu preciso consertar isso, que algo terrível vai acontecer se eu não fizer. Antes de conseguir me contar o que é, seu corpo começa a se desfazer em formas abstratas. Seus ombros viram esferas que se viram do avesso, sua cabeça vira um cubo com ângulos impossíveis. Isso continua até seu corpo inteiro virar um fractal que engole o vazio todo. O fractal começa a gemer e se contorcer de agonia, sacudindo tudo ao meu redor. Antes de eu acordar, ouço a voz do cara do bar dizendo a mesma coisa de sempre:

“O sujeito está instável.”

Julia, por favor, escuta o que eu vou dizer. Eu te amo, e sinto muito. Eu tomei uma decisão no seu lugar que te transformou nisso, e agora você tá sofrendo por minha causa. Tenho pensado muito em nós dois desde que você se foi. Quando eu abandonei meus sonhos pra apoiar os seus, uma parte de como eu lidava com isso era te ver não só como minha parceira, mas como meu projeto. Eu me convenci de que, se conseguisse nutrir seu espírito criativo e deixar ele florescer completamente, de alguma forma eu poderia levar crédito pelos resultados. Acho que foi por isso que eu fiz o que fiz. Foi egoísmo puro, mas eu não conseguia deixar meu esforço ir pro ralo. Eu precisava ver até o fim, não importava o que isso significasse pra você.

Mas eu estava errado. Você nunca foi minha na época, e não pertence à humanidade agora. Você é sua. Desculpa por ter tirado isso de você. Saiba que eu vou consertar. Vou te juntar de novo.

E pra você, alma completa que está lendo isso, saiba que agora você carrega dentro de si um fragmento de alguém extraordinário. Talvez você esteja se perguntando o que significa ter ganhado uma fração de um em oito bilhões de uma alma humana. É impossível saber com certeza. Talvez agora tenha um pontinho cor de avelã nos seus olhos que você nunca notou antes. Talvez você saiba a palavra pra “cadeira” em francês e não tenha ideia de onde aprendeu. Ou talvez, hoje de manhã no banho, você tenha tido uma ideia de romance que acha que vale a pena explorar. Se for esse o caso, eu imploro: não desperdice. Leve até o fim. Por ela, não por mim.
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