terça-feira, 3 de março de 2026

Recentemente, eu explorei um túnel abandonado na encosta de uma colina. Acho que enterrei uma parte de mim lá...

Pra ser bem sincero, o túnel em si não tinha nada de especial e era um desperdício total (isso é o que se espera na exploração urbana). Ele terminava num beco sem saída bem no fundo e não tinha absolutamente nada pra explorar além de entulho e destroços. Nem sei direito o que eu esperava encontrar lá, mas... bom, fiquei surpreso, embora não de um jeito bom. Nada nessa obsessão é agradável, nada mesmo. Melhor eu parar com essa merda logo.

O túnel era tipo uma garganta de concreto engolida pelo mato. Eu já estava uns oitocentos metros pra dentro quando o ar ficou visivelmente mais pesado e começou a cheirar a pedra molhada. A lanterna tava tendo dificuldade pra acompanhar, mas eu tinha bateria reserva suficiente e me sentia confortável o bastante pra avançar um pouco mais.

Numa reentrância na parede, encontrei uma porta pesada bem discreta. Parecia industrial, pintada naquele cinza-esverdeado feio pra caralho. No começo fiquei meio desconcertado, porque era uma coisa estranha demais pra achar num lugar daqueles. Mesmo assim, como eu estava ali pra explorar, resolvi dar uma olhada e empurrar ela. Levava pra uma sala suja com uma escada espiral de metal numa das extremidades.

Assim que entrei, fui recebido pelo cheiro de mofo nas paredes e musgo no chão molhado. Água pingava do teto, que parecia prestes a desabar bem na minha cabeça. Eu não tinha mais certeza do que estava fazendo naquele momento (nem de por que tinha ido até ali, pra começo de conversa).

Numa das paredes tinha uma pintura de um homem sombrio com olhos brancos e brilhantes. Parecia uma tentativa de assustar os covardes, mas eu não era um deles. Enquanto descia a escada enferrujada, meus ouvidos começaram a captar um disco de jazz arranhado tocando em loop em algum lugar distante, mas não tão longe de onde eu estava.

Embaixo tinha uma sala maior, que por sua vez tinha um corredor cheio de outras salas que não faziam o menor sentido. As paredes eram cinza sujo e o chão tava molhado com uma água turva. Tinha uma ventilação grande cortada numa das paredes. A música parecia vir de uma sala mais adiante no corredor, talvez até de algum lugar mais embaixo.

Curioso do jeito que eu sou, comecei a dar uma olhada rápida nas salas do corredor. A maioria estava completamente vazia, sem porra nenhuma dentro. Que diabos esse lugar podia ter sido? Algumas, porém, tinham uma mobília leve. Uma sala que chamou minha atenção tinha uma televisão antiga de tubo chiando com estática morta e um sofá colocado bem na frente dela, convenientemente.

O sofá tinha um padrão floral desbotado no tecido rasgado, e o fedor dele era insuportável. Só de ficar parado na porta da sala eu já fiquei enjoado. Senti vontade de cair fora, mas tinha alguma coisa naquele disco tocando em loop ali perto que me chamava pra ir mais fundo.

Outra sala, quase em frente à da televisão, tinha uma mesa de jantar vintage com seis cadeiras espalhadas em posições assustadoramente precisas. Uma dessas cadeiras balançou sozinha e caiu no chão, se contorcendo como se alguma coisa estivesse mexendo nela. Não acreditei no que meus olhos viram.

Eu não sou crente em paranormal, mas pode apostar que meu cérebro cético não conseguiu inventar uma explicação decente pro que aconteceu. Assustado, saí da sala pro corredor, e aí ouvi outra cadeira cair no chão. Não tive coragem de olhar de volta pra sala nem de voltar pelo mesmo caminho que entrei, não era seguro (e se tivesse um ocupante ilegal me seguindo?).

Eu sabia que podia ter ocupantes ilegais me observando, e tinha trazido um spray de pimenta bem forte pra me defender. Não podia carregar arma nem faca, porque isso podia me ferrar feio no lugar e hora errados. Decidi atravessar o corredor, mais perto de onde o disco estava tocando.

Eu estava bem perto. Quando virei a esquina da parede à minha esquerda, a lanterna bateu nele primeiro. Um homem, ou uma figura com forma de homem, sentado perfeitamente imóvel numa cadeira de jantar simples, de frente pra parede cinza de concreto. Ele estava olhando pro nada. O gramofone ficava numa mesinha baixa no canto oposto.

Eu congelei. Não conseguia entender direito o que estava vendo. O cara parecia não ter nenhuma característica humana e não se mexia nem um milímetro. Quanto mais eu focava na silhueta dele, mais o disco começava a desacelerar — distorcendo até o silêncio, como se estivesse lutando pra continuar tocando. Minha cabeça parecia fora do corpo quanto mais tempo eu ficava perto.

O silêncio foi seguido imediatamente por um apito agudo e ensurdecedor saindo de uma das ventilações grandes da sala. Parecia um daqueles apitos da morte usados pelos astecas. Soava como cem almas torturadas cantando uma canção de agonia amaldiçoadas a nunca chegar aos nossos ouvidos.

SKRREEEEE--------

Eu não queria olhar pra porta atrás de mim, mas também não queria tirar os olhos da figura na cadeira.

Mas meu corpo se mexeu sozinho. Meus olhos encontraram a silhueta de outro homem imóvel que estava meio escondido atrás da parede que ele tentava se ocultar. Apontei a lanterna pra ele. O cara estava pelado, e a pele parecia taxidermizada. Os olhos dele estavam virados de cabeça pra baixo em órbitas que pareciam vazias.

O apito gritou e soprou de novo, dessa vez mais perto. Senti um surto de pânico percorrendo o corpo inteiro. Desviei o olhar e me joguei na ventilação grande da sala pra escapar (foi o melhor que consegui fazer pra salvar minha pele). Mergulhei literalmente, ralando os ombros no metal serrilhado. Começaram a sangrar. Minha palma esquerda cravou num caco de metal aberto também, abrindo um corte que dificultou pra caralho eu continuar engatinhando.

Reuni todas as minhas forças. Eu tinha que sair daquele lugar. Atrás de mim, ouvi um barulho que parecia couro molhado batendo no chão. Logo depois veio um tapa-tapa-tapa frenético e ritmado de alguém, ou alguma coisa, engatinhando na ventilação atrás de mim.

Passei o que pareceu horas dentro daqueles dutos. No final, caí rolando numa sala que cheirava a carne morta e antiga. Tinha uma maca branca simples. Em cima dela, uma forma deitada coberta por um lençol fino e amarelado. Nem parei pra ver se o corpo estava fresco... só corri.

Dessa vez, na saída, encontrei uma saída diferente — um portão enferrujado que cedeu com o meu peso. Não parei de correr até bater na linha das árvores, mais perto da periferia da cidade. Fui correndo pra um pronto-socorro que não ficava longe, pra tratar os ferimentos que já tinham sangrado até secar.

Foi arriscado, mas consegui ajuda mais rápido do que esperava. Depois de algumas horas, eu estava em casa. Os cortes na minha pele ficaram cinza, e eu cheirava a poeira e podridão, mesmo tendo me lavado com várias soluções de sabonete.

Tenho notado que, de vez em quando, escuto o arranhar fraco de uma agulha de disco alternando nos meus ouvidos. Ontem à noite, depois do jantar, me peguei sentado tempo demais na mesa de jantar, perdendo a noção do tempo, só olhando pra parede vazia na minha frente. Não me sinto mais eu mesmo. Sinto que estou esperando alguma coisa chegar, mas não sei o que é.

Tem algo vivendo dentro da mulher que eu amo...

Quando eu era criança eu tive câncer — de pulmão, o que é raro em crianças, mas lá estava eu, com oito anos, passando por quimio, depois cirurgia, depois mais rodadas de remédios, exames e tomografias até eu começar a odiar o tratamento mais do que a própria doença. Toda vez que tinha mais uma ida pro hospital eu chutava, gritava e batia minha cabeça fraquinha em todos os móveis, torcendo pra que se eu fizesse o maior escândalo possível meus pais desistissem e me deixassem ficar em casa.

Eles nunca desistiram. Me pegavam no colo e me arrastavam pra qualquer procedimento que eu tivesse naquele dia, e no final eu venci o câncer, embora estivesse tão acabado que nem consegui comemorar direito.

Qualquer hora que eu pegava um resfriado ou sentia alguma dor ou coceira inesperada no corpo, tudo em mim travava de terror achando que estava acontecendo de novo — células ruins nascendo dentro de mim, se espalhando pelo meu sistema pra plantar suas sementes em outros órgãos.

Mesmo quando cresci e virei adulto, esse medo ficou comigo. Tinha noites em que minha parceira Deanna ficava acordada comigo, me abraçando forte até eu parar de tremer, como um cachorro com colete anti-ansiedade.

“Eu nunca vou superar isso”, eu dizia, e ela acariciava meu cabelo, que às vezes eu sonhava que estava caindo de novo, ou que alguma outra coisa estava crescendo por baixo.

“Tá tudo bem”, Deanna dizia. “Eu entendo, amor. Eu sei.”

Mas eu nunca acreditei nela — como ela poderia saber? Deanna não tinha sido aquela criança pequena na cama desconfortável do hospital, não entendia como era ler as notícias e ouvir falar de cada contágio e epidemia, certa de que se o câncer não voltasse, então seria meu sistema imunológico — destruído pelas doenças — que me deixaria na mão.

Eu passava muito tempo dentro de casa, tossindo e coçando mais como reação de achar que estava doente do que por qualquer coisa que realmente tivesse pegado. Uma fadiga forte e inexplicável vinha e ia, acabando tão rápido quanto começava. Mas quando Deanna também ficou doente, isso me chocou pra caralho.

Ela tinha sido saudável durante todos os oito anos que eu a conhecia, nunca pegando nada além de um resfriado ou uma gripe de verão de vez em quando, e mesmo assim ela aguentava firme e melhorava em poucos dias. Ela boxeava, nadava, fazia trilhas, acordava às 6 da manhã na maioria dos dias com a garrafa de água na mão, se abaixando pra me dar um beijo no rosto sonolento enquanto eu piscava pra ela do travesseiro.

Então quando eu cheguei do trabalho uma noite e vi Deanna com os olhos vermelhos e frágil debaixo de um cobertor no sofá da sala, fiquei espantado. No começo eu até brinquei com a novidade da coisa.

“Eu devia saber que ia te pegar eventualmente”, eu disse, arrancando dela uma risada fraca. “Todo mundo no escritório pegou essa merda de vírus agora. Toda aquela tosse e coceira me fez ameaçar pedir demissão. Todo mundo ganhou folga amanhã. Posso ficar em casa e cuidar de você.”

“Vou ficar bem”, disse Deanna. “Vou estar de pé e ativa de novo antes que você perceba. Só me dá um tempo.”

Mas quando duas semanas se passaram sem ela melhorar, minha velha paranoia médica começou a ativar, aquela voz familiar e insistente que não estava mais no fundo da minha cabeça, e sim bem na frente.

“Ela vai morrer, Terry. Ela vai pegar câncer, igual você pegou, e depois ela vai morrer.”

“Me deixa te levar no médico”, eu disse, vendo Deanna arrastar os pés de volta do banheiro, o rosto dela tão consumido pela doença que parecia quase só osso. “Isso pode ser grave, D. Você precisa começar a levar a sério.”

Deanna sentou no sofá e começou a cutucar distraidamente um pedaço de pele na parte de trás da mão. Não tinha nenhuma erupção, mas a pele dela coçava do couro cabeludo até os dedos dos pés como se estivesse viva e protestando por ter que ficar onde estava. Nada parecia ajudar, nem os cremes, nem duchas frias, nem anti-histamínicos que eu tinha tentado quando estava na posição dela. Mas ela não aceitava nenhuma outra ajuda, não importava quantas vezes eu insistisse.

“Eu não preciso de médico”, ela disse, se arrastando pelo sofá pra deitar a cabeça no meu colo. “Você superou. Eu também vou.”

Pra mim aquelas eram palavras de mau agouro, o que as pessoas sempre diziam antes de morrer dormindo ou ligadas a um respirador. Esperança falsa, espantada como uma mosca.

Lentamente, no entanto, Deanna começou a melhorar, embora ainda coçasse o suficiente pra ativar minhas próprias compulsões. Às vezes ficávamos sentados lado a lado, enfiando as unhas pra cima e pra baixo nos braços até sangrar.

Então, do nada, Deanna parou de coçar completamente, embora ainda tirasse cochilos longos e profundos que me faziam achar que ela tinha morrido dormindo. Numa tarde que me liberaram mais cedo do trabalho, cheguei em casa e encontrei Deanna deitada no sofá com os olhos fechados e as persianas baixadas. A única luz no quarto vinha da TV, piscando vermelha e branca no rosto imóvel dela.

Enquanto eu ia acordá-la, notei uma onda fervilhante de movimento nas bochechas e testa dela e descendo pelo pescoço, como estática preta. Demorou um segundo pra registrar que o que eu estava vendo eram centenas de formigas, rastejando pra dentro dos olhos, nariz, ouvidos e boca de Deanna e saindo de novo em filas ocupadas, suas antenas se mexendo, seus corpinhos marrons brilhando na luz fraca.

Olhando pra elas eu pensei: ‘ela deve estar morta. Ela morreu e elas estão comendo o corpo dela.’

Mas eu conseguia ver o peito de Deanna subindo e descendo, o movimento inconsciente dos pés dela debaixo do cobertor. Então, quando eu me inclinei sobre ela, os olhos dela se abriram de repente, as formigas correndo de volta pra dentro do corpo dela até só restarem algumas.

“Dee”, eu disse, com a voz falhando no meio. “Tinha bicho pra caralho em cima de você. Elas acabaram de entrar em você.”

Deanna olhou pra mim, o rosto sem expressão nenhuma, aquele brilho carinhoso de sempre tinha sumido dos olhos dela.

“Eu sei.”

Eu fiquei olhando enquanto ela se levantava contra as almofadas do sofá, se espreguiçando até uma das juntas estalar.

“Você sabe”, eu repeti. “Como assim você sabe? O que isso quer dizer, porra?”

Deanna levantou a mão pra tocar as formigas que ainda estavam no rosto dela, guiando elas gentilmente pra dentro de um dos ouvidos. Eu nem conseguia me mexer pra impedir; impotente, fiquei parado, quase me dobrando de ânsia de vômito.

“Não faz isso”, eu disse. “Dee, que porra você tá fazendo?”

“Elas moram aqui”, disse Deanna simplesmente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Eu sou a casa delas.”

Eu lembro de ter pensado: ‘isso não pode ser possível. Por que as formigas não morrem? Elas não deveriam se afogar nos fluidos ou serem esmagadas ou mortas pelo calor?’

Mas agora que eu olhava de verdade pra Deanna eu conseguia vê-las se mexendo nos cantos dos olhos e por baixo da pele, um movimento constante ondulando.

Ela estendeu a mão pra pegar a minha, e só então meu corpo se soltou da posição congelada enquanto eu me afastava, sem querer que ela me tocasse.

“Como as formigas chegaram aqui?”, eu me ouvi perguntando. “A gente teve algum tipo de infestação na casa, ou...”

Deanna balançou a cabeça.

“Não, amor. Não. Elas vieram de você.”

Ela se levantou pra abrir as persianas, depois apontou pro espelho pendurado atrás do sofá.

“Se você olhar com atenção suficiente vai ver elas em você também. Elas estavam se escondendo de você. Não queriam que você soubesse que elas estavam aí. Você poderia ter feito alguma coisa, se machucado, e elas não queriam isso. Perder a colmeia.”

Eu fui até a janela e fechei as persianas com um estalo, sem querer ver o que ela via, sem querer acreditar nela. Mas agora que eu estava concentrado eu conseguia sentir o movimento de corpinhos pequenos dentro de mim, abrindo túneis e câmaras pra morar e pros ovos delas chocarem.

“Não”, eu disse. “Não. Eu teria notado.”

“Você não teria”, disse Deanna. “Elas fazem com que não doa. Elas não são como outras formigas. Vieram de algum lugar muito longe. Longe demais pra imaginar. Elas precisavam da gente, corpos vivos pra carregar elas. Palácios pra rainha delas.”

Ela estava falando numa voz suave e quente, tentando me conquistar. Tentando fazer o que estava acontecendo com a gente parecer algo bom.

“Não”, eu disse baixinho. “Não fala isso. Como você sabe disso, afinal?”

Deanna sorriu, e eu percebi que era o sorriso de alguém que tinha entendido que uma coisa terrível estava acontecendo com ela e decidiu se jogar de cabeça pra dentro, abraçar em vez de sucumbir.

“Eu sei coisas agora”, ela disse. “Qualquer coisa que elas querem que eu saiba, elas me fazem entender. Elas estão no meu cérebro. Os túneis delas vão até o fim, e enquanto elas entram e saem elas liberam feromônios e químicos; é o jeito delas de falar entre si, e comigo. É assim que eu sei o que elas estão fazendo. Elas queriam que eu soubesse que elas estavam aí.”

Eu mal conseguia olhar pra ela. Quanto mais ela falava, mais eu via os corpinhos minúsculos trabalhando dentro dela, roendo um labirinto de buracos pela carne dela.

“Por que elas iam querer que você soubesse sobre elas? Por que eu não sabia? Por que elas não me contaram?”

“Sua colônia achou que você ia tentar fazer alguma coisa contra si mesmo”, disse Deanna. “Tentar se livrar delas de alguma forma. Não teria funcionado, de qualquer jeito. Não do jeito que você ia querer.”

Os olhos dela se desviaram dos meus, e eu vi uma formiga cair de um cílio pro lábio superior dela, desaparecendo por baixo imediatamente.

“O que você tá dizendo?”, eu perguntei.

Tinha relutância na resposta de Deanna, uma verdade que ela não queria soltar.

“Agora que as formigas estão dentro de você elas estão... te mantendo vivo. Pensa bem. Se elas não estivessem aí, teria tanto dano deixado pra trás. Tantos túneis, buracos e ferimentos. Você morreria sem elas dentro de você; as secreções delas te mantêm saudável, seus órgãos funcionando. Seu cérebro. Elas estão te ajudando. A gente. Todo mundo que elas entram vai viver muito tempo. Não vão mais ficar doentes como antes, não depois que os corpos se ajustarem a abrigar as formigas. Você não vai mais precisar se preocupar com câncer.”

Deanna tentou me tocar de novo, os braços subindo em volta do meu pescoço. Eu bati a panturrilha na base do sofá quando me desviei.

“Eu não quero ser um formigueiro”, eu disse. “Eu não quero essas porras dessas coisas vivendo dentro de mim.”

“Mas elas têm que viver, agora”, Deanna protestou. “Têm que. Você e os caras do escritório foram os primeiros. Elas entraram em você sem você nem sentir. Sempre que você chega perto de outras pessoas algumas formigas saem correndo e vão pra cima delas; é assim que as novas colônias crescem. Daqui a pouco elas vão estar no mundo inteiro. Todo mundo vai ter a sua.”

Eu levantei a mão pra boca, segurando o ácido que sentia subindo do estômago.

“Por que você tá ok com isso? Quantos buracos elas comeram na sua cabeça?”

Tristeza tocou o rosto enlouquecido na minha frente.

“Eu tenho que estar ok com isso”, disse Deanna. “Já aconteceu. Tá acontecendo com todo mundo. Alguns vão saber. Outros não. Algumas pessoas vão lutar contra, e você lutou por tanto tempo, T. Tanto tempo. E por que você lutaria quando isso pode ser melhor pra gente?”

Ela veio na minha direção, e eu senti uma vontade súbita e violenta de empurrar ela pra longe, uma vontade que me assustou. Eu fiquei enjoado de mim mesmo, querendo colocar a mão na pessoa que eu mais amava. Se é que ela ainda era uma pessoa.

“Deanna”, eu disse. “Como eu sei que ainda é você falando comigo e não elas? Como eu posso saber que você ainda é você?”

Ela sorriu de novo, mas triste dessa vez.

“Você ainda é você”, ela disse. “Né?”

O pânico tomou conta de mim, dúvida, horror e um novo terror do futuro superando meu medo do câncer.

Eu comecei a esquentar.

“Eu preciso sair daqui”, eu me ouvi dizendo. “Não consigo ficar aqui com você. Eu preciso fazer alguma coisa.”

“Você não pode”, disse Deanna suavemente. “Não tem nada que você possa fazer. Eu sei que você entende. Você consegue sentir.”

Ela colocou a mão na minha bochecha, e eu senti as formigas debaixo da pele da palma dela se mexerem em resposta a mim. Senti as minhas se agitarem em resposta.

“Não me toca”, eu disse, e pulei pra trás contra a porta da frente, procurando a maçaneta desesperado. “Meu Deus. Meu Deus do céu.”

Dessa vez Deanna não se aproximou, só ficou me olhando do outro lado da sala.

“Então vai lá fora”, ela disse. “Vai ver como tá. Aí você decide o que fazer. Eu não vou te impedir.”

Eu vi alguma coisa nos olhos dela então, um medo e resignação totalmente humanos. Medo que eu me matasse, ou matasse ela, ou outras pessoas. Medo que eu deixasse ela sozinha com as formigas.

Não foi suficiente pra eu ficar.

Eu saí batendo a porta da casa, parando só pra vomitar seco na rua. Mesmo enquanto meu corpo sacudia com a força de uma náusea que as formigas não deixavam virar doença de verdade, eu sentia o caos ao meu redor. Tinha vozes gritando, discutindo, e o que eu achei serem gritos distantes, que por sanidade própria eu quis acreditar que eram só crianças brincando, com risadas mal ouvidas.

Mesmo assim eu me endireitei e comecei a andar pela rua, andei até encontrar a fonte daqueles gritos. Um homem na frente do número 62 estava espancando a filha adolescente até a morte com um martelo, a cabeça dela se debatendo derramando os miolos no gramado. Insetos corriam em ondas pretas oleosas do corpo moribundo, saindo do ferimento e debaixo das roupas. Ratos fugindo de um navio afundando.

Quando a garota morreu o homem foi atrás das formigas com o martelo também, batendo a cabeça da ferramenta de novo e de novo até cair de joelhos de exaustão e desespero. Os olhos vermelhos dele me seguiram enquanto eu atravessava pro outro lado da rua, mas ele deixou o martelo onde estava, coberto de massa cinzenta e insetos esmagados.

Tinha outros corpos mais adiante na rua, alguns abandonados pelos entes queridos, outros sendo arrastados pra dentro de casas ou carros, presumidamente pra serem escondidos ou descartados. Uma mulher com máscara médica branca estava borrifando inseticida na fachada inteira da casa dela; quando eu passei ela parou e virou o frasco pra si mesma, mantendo o dedo apertado mesmo enquanto gritava de dor.

Observando ela eu me perguntei se Deanna tinha enlouquecido de um jeito diferente, se eu tinha enlouquecido agora, do meu próprio jeito. Será que eu ainda tinha uma mente afinal, ou minhas memórias e emoções eram só regurgitações das formigas tentando manter meu corpo vivo ao redor delas?

O que elas iam comer agora que os túneis estavam construídos? Talvez elas dividissem o que eu comia, ou mandassem exploradoras pelos muitos buracos em mim pra buscar sustento de fora.

Talvez elas me comessem devagar, esperassem minhas células regenerarem e comessem de novo, os químicos que expeliam garantindo que se alimentassem da minha carne por todas as vidas delas.

Eu fiquei grato que elas talvez nunca me deixassem saber.

Eu continuei andando, então, e exatamente como Deanna tinha sugerido tinha gente carregando suas famílias rindo pros carros, levando sacolas de mercado pra dentro de casa, correndo, se encontrando na rua pra fofocar — normais, pelo menos por fora, sem nenhum conhecimento do que estava vivendo dentro deles. Mesmo assim, toda vez que eu parava pra olhar com atenção eu conseguia ver os insetos alienígenas se contorcendo debaixo da pele, movimentos que você só notaria se soubesse o que procurar.

Depois tinha aqueles que eu assumia que sabiam o que estava vivendo dentro deles, e tinham escolhido continuar sem se matar ou matar uns aos outros. Escolhendo viver aceitando o novo jeito sob invasão, aceitando que eram basicamente cadáveres vivos, manipulados por uma vida inteligente. Os rostos deles estavam tensos, os corpos se contorcendo em repulsa que não conseguiam suprimir nem pra manter as aparências.

Por fim tinha as pessoas como Deanna, calmamente cortando a grama ou exercitando os pets ou qualquer número de atividades cotidianas, presas na ilusão de que isso poderia ser um jeito melhor de viver. Uma relação de benefício mútuo em vez de uma infecção parasitária letal se fosse removida.

Eu não conseguia mais olhar pra elas. Não aguentava os olhos delas me seguindo, me reconhecendo pelo que eu era. Me lembrando disso.

Eu encontrei o caminho de volta pra casa, consciente a cada passo das formigas vivas dentro de mim. Quando entrei pela porta da frente de novo, Deanna saiu da cozinha, sacudindo água e espuma de sabão das mãos, tendo lavado a louça na pia. Era hilário de um jeito sombriamente cômico que ela ainda se sentisse compelida a fazer coisas domésticas, sabendo que não era mais uma pessoa, mas um vaso pra seres parasitários viverem, se alimentarem e se reproduzirem dentro.

Se tivéssemos nossos próprios filhos eles provavelmente nasceriam já infectados pelo útero dela, ou se adotássemos — uma menina, como Deanna sempre sonhou — tudo que ela teria que fazer era tocar na criança pra deixar ela igual a gente.

Ela faria isso porque amava. Ia querer que fôssemos uma família do jeito que pudéssemos.

“Terry”, disse Deanna. “Você decidiu o que vai fazer agora?”

Tinha medo nos olhos dela de novo, que eu imaginei que não era totalmente dela.

Mesmo assim, eu tive pena dela. Eu tinha começado isso, sendo um dos primeiros a ser infestado, a espalhar o que estava em mim pros outros.

Eu fiquei com Deanna naquela casa, fui trabalhar como sempre e assisti enquanto as formigas cresciam em número, atravessaram todos os países do mundo e governavam eles de dentro.

O que mais eu poderia ter feito?

segunda-feira, 2 de março de 2026

A compulsão alimentar da minha namorada nos destruiu

Desde que comecei a sair com a Carla, eu já sabia dos problemas dela com comida. Sou nutricionista e conheço muito bem os hábitos alimentares anormais. No começo, ela escondia isso com muito cuidado, mas eu sempre sentia a tensão quando aparecia alguma comida nova no prato dela ou quando passava um anúncio da Domino’s na TV.

Já estávamos namorando há mais ou menos um ano quando, finalmente, ela começou a se abrir sobre o assunto.

“Pra mim é uma ladeira escorregadia. Eu não posso dar nenhuma liberdade pra minha dieta, senão o inferno inteiro vai se abrir”, ela me disse.

Eu atribuí aquilo à ansiedade típica relacionada a comida, que a maioria dos meus clientes com transtornos alimentares sente.

“Eu posso comer o que eu quiser, desde que eu controle as porções, registre no meu diário alimentar e encaixe dentro do meu limite calórico diário”, ela falou dando de ombros, como se aquilo não parecesse um jeito exaustivo pra caralho de viver.

Mesmo assim, eu estava tranquilo. “O que quer que ela precise fazer pra passar o dia sem surtar”, pensei.

“Mas, hipoteticamente, digamos que um dia, por qualquer motivo, você não consiga seguir a dieta. Você está dizendo que não conseguiria lidar com essa mudança?” perguntei, curioso sobre o que eu precisaria saber pro nosso futuro (que eu esperava que fosse longo) juntos. Como diz o ditado, estamos atrelados um ao outro.

“Confia em mim, eu virava uma pessoa completamente diferente quando entrava em compulsão. As menores coisas me jogavam em semanas de caos. Ficava nojento pra cacete. Eu simplesmente me recuso a deixar isso acontecer de novo.”

Do meu ponto de vista, eu achava que as regras rígidas da Carla eram insustentáveis. Eu ficava preocupado que, se algo ruim acontecesse na nossa vida e ferrasse a dieta dela, ela não teria as ferramentas emocionais necessárias pra se levantar e seguir em frente.

Claro, eu não sou terapeuta, mas ouvir aquilo me deixou preocupado, e eu queria ajudar minha namorada de qualquer jeito que pudesse. Foi por isso que comecei a dar conselhos pra ela.

A Carla me aturou porque via o quanto eu estava sério, e mesmo relutante com as minhas ideias, ela fez um esforço meia-boca.

Nos primeiros dias, passamos expondo ela gentilmente a comidas que não faziam parte da rotina normal. Coisas ainda saudáveis, claro, e que eu não diria pros meus clientes evitarem.

Ela ficava preocupada com as calorias por grama, açúcares adicionados e porcionamento sem balança. Embora pareça contraditório pra alguém que tem compulsão alimentar, eu estava preocupado que a restrição da Carla estava virando obsessão. O objetivo dessa exposição gradual era comer com atenção plena, sem monitoramento pedante e sem aquele medo constante de perder o controle.

Passaram-se umas duas semanas e eu já notava melhoras. Começamos a sair pra restaurantes nas noites de encontro com mais frequência, ou ela ia comigo pro café que eu frequento antes do trabalho. Duas taças de vinho aqui, um croissant ali, nada excessivo. Em casa, ela continuava com as refeições de sempre, mas de vez em quando sugeria fazer cookies num dia chuvoso, coisas assim.

Isso me deixava muito feliz de ver ela tratando a comida menos como uma droga viciante que precisava tomar todo dia e mais como combustível necessário pra funcionar tanto física quanto emocionalmente.

Ela parecia feliz, orgulhosa… pelo menos por um tempo. Mas não demorou muito pra algo mudar dentro dela, escondido fundo o suficiente pra eu não ver os sinais até que aquilo a consumisse por completo.

Ela agia como se tudo estivesse normal. Jantávamos juntos depois do trabalho e íamos dormir como sempre, mas quando tirei o lixo uma manhã, notei algo escondido bem no fundo da sacola. Havia embalagens de delivery, pacotes vazios de cookies e potes inteiros de cobertura de bolo.

Percebi que ela não estava indo tão bem quanto eu pensava, e pior: ela estava escondendo de mim.

Verifiquei nossa conta bancária conjunta (a que usávamos pras despesas da casa) e rolei horrorizado vendo transação atrás de transação de comida que eu nunca soube.

Eu não só fiquei decepcionado comigo mesmo por não ter ajudado ela do jeito que achava que estava ajudando, como também fiquei puto com a falta de cuidado da Carla. Sim, como nutricionista eu ganho bem, mas entre o aluguel e as contas da casa de repouso da minha mãe, a gente não podia bancar a Carla comprando comida em excesso daquele jeito.

Eu sabia que ia ser desconfortável pra nós dois, mas precisava confrontar ela. Então esperei ela chegar em casa aquela noite, com meu e-mail aberto e pronto caso a Carla quisesse voltar pra terapia.

Já estava ficando tarde, mas eu fiquei acordado mais um pouco, imaginando ela parando pra comprar comida antes de voltar. O apartamento foi ficando cada vez mais escuro conforme a noite avançava, e eu decidi descansar os olhos um pouco, esperando na poltrona da sala pelo barulho das chaves e da porta da frente abrindo.

Não era a intenção, mas acabei cochilando. Não sei por quanto tempo, mas quando o som de mastigação me acordou, estava completamente escuro.

Tentei apertar os olhos na escuridão pra ver se a Carla já tinha chegado, mas a única fonte de luz era o relógio digital verde do micro-ondas. Eu estava longe demais pra ler os números, mas enquanto olhava pra ele, a luz piscou por um segundo, como se algo tivesse passado na frente.

“Carla?” chamei no vazio do apartamento. Não tive resposta, só o barulho molhado e desleixado contínuo, tipo esfregão dentro de um balde.

Levantei pra acender a luz e descobrir de onde vinha o barulho. A mudança de macio pra frio na sola dos meus pés me avisou que eu tinha chegado na cozinha. O barulho ficava mais alto a cada passo. Ao lado da pia tinha uma luz de toque, daquelas fracas que grudam embaixo dos armários. Quando estiquei a mão pra acender, meu ombro esbarrou em algo quente. Algo que não deveria estar ali.

O barulho parou.

Senti meu coração dar um pulo forte dentro do peito.

Eu conseguia sentir o perfume dela e algo azedo, metálico. Tipo carne podre no fundo de uma lixeira.

Em pura confusão, perguntei de novo: “Carla? É você?”

O silêncio era sufocante. Estiquei a mão pra luz de novo e, depois que meus dedos tocaram o plástico, lançando uma luz azul fraca e sombras grossas pela cozinha, eu a vi. Ela estava parada no balcão da cozinha, curvada rigidamente sobre… alguma coisa. Ela estava comendo aquilo, dava pra perceber pelas listras escuras cobrindo as mãos e a boca dela e pelos pedaços brilhantes que ainda segurava nas mãos e grudados no cabelo. A gosma pastosa estava espalhada pelo balcão inteiro, e um pouco tinha até caído no chão, respingado entre os pés dela.

Ela não olhou pra mim nem se mexeu um centímetro desde que a luz acendeu. Era como se ela nem soubesse onde estava ou o que estava fazendo.

“Carla… O que é isso?” Estiquei a mão com cuidado pro monte carnudo e coagulado que ela estava apertando. Líquido escorria, e a polpa era espremida entre os dedos dela. Isso já estava me dando ânsia de vômito. Eu só queria que ela largasse aquilo.

Em questão de segundos, ela girou pra me encarar e me empurrou com força. Antes que eu conseguisse entender o que estava acontecendo, senti a parte de trás da minha cabeça bater forte no chão. Eu estava de costas, tentando piscar pra afastar a dor, mas na mesma hora ela já estava em cima de mim.

Eu olhava pra cima pro rosto dela, coberto pela escuridão, o cabelo molhado daquela coisa fazendo cócegas no meu rosto e pingando pedaços frios e molhados em mim. Tentei empurrar ela, tentei chutar e espernear, mas tinha algo errado. Ela tinha uma força animal, tipo um urso faminto tentando esmagar meus ossos.

“Carla, sai de cima de mim, porra!” gritei, mas acho que ela nem me ouvia mais.

Os dedos ossudos dela eram como algemas nos meus pulsos, e eu berrei quando ela se aproximou mais, cravando os dentes no meu ombro, rasgando a camisa e arrancando um pedaço da pele num único golpe irregular. A dor queimando fez minha visão ficar branca, e eu sentia o sangue escorrendo pelo bíceps e formando uma poça embaixo do meu braço.

A boca da Carla mastigava, triturando minha carne e engolindo com força. Lágrimas começaram a escorrer dos cantos dos meus olhos. Eu estava apavorado. Aquela não era a minha Carla; era alguma coisa maligna. Forcei todos os músculos, lutando sem parar pra conseguir dominar ela.

Por um momento ela pareceu que ia dar outra mordida, mas parou. Alguma coisa saiu da boca dela, um rosnado baixo e grave, tipo um arroto. Ela começou a tremer, as costas arqueadas pra cima, e a barriga inchada pulsou antes de um jato de bile quente e pedaços cobertos de cabelo jorrar da boca dela, se espalhando todo em cima de mim. O cheiro queimou meu nariz quando respirei.

O vômito era vermelho apodrecido. Viscoso e escuro, como se as entranhas dela tivessem virado uma papa sangrenta de podridão.

Ela parou por um segundo depois que o último fio escorreu pelos lábios, e eu consegui soltar um braço, empurrando ela pra longe e me levantando desesperado. Corri pra porta, mas senti ela agarrar a parte de trás da minha camisa, tentando me puxar de volta.

O pânico corria em todas as minhas veias. Segurei no balcão pra não cair e estiquei a mão pro fogão. Meus dedos procuravam desesperados a alça da frigideira de ferro fundido enquanto a Carla se jogava nas minhas costas, rasgando minha pele com as unhas.

A camada gelatinosa que cobria o balcão fez meu braço escorregar. Quase perdi a pegada enquanto lutávamos.

Estiquei mais, forçando pra continuar de pé, e finalmente minha mão se fechou na alça da frigideira. Girei o ferro fundido por cima do ombro com toda a força que consegui. Acertou a cabeça dela e ela caiu pra trás, cambaleando.

Não perdi tempo depois disso e corri pra porta, girei a tranca e abri com tudo. Ouvi ela uivando de dor atrás de mim, mas isso não me impediu de descer correndo as escadas de metal e me afastar do apartamento o máximo que consegui.

Me vi num posto de gasolina, meio atordoado e ainda de pé só por causa da adrenalina. A moça do caixa, assustada com minha camisa preta de sangue e o pedaço faltando no ombro, chamou o 911.

Uma ambulância me levou pro hospital, e depois de me remendarem, mandaram um policial pra fazer perguntas. Eu não queria que eles fossem atrás da Carla, então menti, disse que foi um ataque estranho de animal enquanto voltava do trabalho. Eu sabia que soava idiota, mas meu cérebro não conseguia inventar mais nada na hora.

Desde aquela noite estou hospedado num hotel e não voltei pra ver a Carla. Ainda fico me perguntando exatamente o que aconteceu.

E sendo completamente honesto… eu ainda amo ela. Ela foi a melhor namorada que eu já tive, e sinto que tudo isso foi culpa minha. Acho que, tentando consertar ela antes dela estar pronta, eu acabei empurrando ela pro abismo.

Seja sincero: eu devo dar uma segunda chance pra “nós”?

Você de Novo…

Sou psiquiatra, acostumado a ver de tudo no meu consultório. Quase tudo tem uma explicação, e eu sempre consigo encontrá-la. Mas o que eu vivi é algo que não dá pra explicar nem com medicina nem com psiquiatria. Tudo começou há alguns anos, quando atendi um paciente com transtorno de estresse pós-traumático clássico. Ele revivia um acidente que tinha sofrido anos antes, sem parar. Com o tempo fizemos progresso e ele passou a entender que aquelas memórias e sonhos não passavam disso — sonhos.

Houve um período em que parei de vê-lo. Ele parou de vir ao consultório, o que costuma acontecer quando o paciente melhora. É um lembrete de que eu ajudo mais do que cobro. Então, um dia, esse paciente voltou. Ele nunca tinha parado de ter aqueles sonhos recorrentes que o atormentavam todo santo dia sobre o acidente. Mesmo assim, tinha voltado só pra me contar o sonho mais uma vez. Irritante, mas é o meu trabalho.

Sentamos no meu consultório, um de frente pro outro em duas poltronas bem confortáveis que eu tenho há muito tempo. Não tenho secretária, então ele não precisou ser anunciado. Tinha um horário vago na minha agenda e, mesmo aparecendo sem marcar, eu tinha que atendê-lo. O pobre coitado estava diferente.

“Doutor”, começou meu paciente, “sonhei a mesma coisa de todas as noites. Estou saindo de casa como sempre, indo pro trabalho, andando um pouco distraído, olhando pras nuvens de um jeito quase hipnótico. No sonho eu não estou com pressa nenhuma, e então simplesmente sinto uma pancada do lado. Um carro me atropela e eu acordo morrendo de medo. Mas tem sido estranho ultimamente.”

“Por que você está se sentindo diferente?”, perguntei, com certa curiosidade.

“Tem sido diferente ultimamente porque…”, ele parou por um instante. “Eu notei que meu peito não aperta e eu não acordo suando. E sinceramente… nunca aconteceu nada disso desde que comecei a ter esse sonho toda noite. Com a terapia eu venho perdendo o medo e a ansiedade, mas não é verdade que eu acordo suado ou com o coração na boca.”

“Isso é uma boa notícia”, eu disse com entusiasmo genuíno. “O estresse pós-traumático traz muitos sintomas, e o fato de você estar superando eles é algo pra comemorar.”

Antes de responder, ele ficou alguns segundos em silêncio. Observei com um desconforto discreto a confusão que se formava na mente do meu paciente. É comum ver pacientes que debatem se sarar é bom ou ruim pras suas vidas — muitas vezes transformam os sintomas em parte da própria identidade. Mas esse homem tinha uma atitude diferente. Ele estava genuinamente preocupado por não estar sentindo o que deveria sentir. E então disse algo que me deixou gelado.

“Doutor”, falou ele com um drama sincero, inclinando-se para a frente na poltrona, praticamente se dobrando na minha direção, “eu nunca acordei suando ou agitado com o peito apertado.”

Levantei uma sobrancelha e me recostei um pouco. Ele viu meus olhos se abrirem um pouco mais que o normal e continuou: “Doutor, eu não tenho pulso. Não consigo ouvir minha própria respiração. Doutor… eu não estou vivo.”

Abri os olhos ainda mais e, com um meio sorriso, segurei ele pelos ombros e o fiz se recostar de novo na poltrona. Ele estava frio. Depois me levantei e fui até minha mesa, convidando-o a sentar de frente pra mim. Isso servia pra dois propósitos: estabelecer distância e encerrar a sessão.

“Eu entendo pelo que você passou”, falei com aquele tom sério e pesado que construí ao longo dos anos. “Os sonhos pressionam forte a nossa psique e tendem a distorcer nossa realidade quando são tão repetitivos. Quero que você se agarre à realidade, que veja a importância dos seus sintomas estarem diminuindo. Segure isso.”

Ele me encarou com a testa franzida e olhos apertados, quase suplicantes, e coçou a cabeça nervoso. Estava genuinamente assustado — não era a primeira vez que chegávamos a um sentimento assim. A síndrome de Cotard é muito rara de se desenvolver, e mais rara ainda depois de um transtorno de estresse pós-traumático. Simplesmente não é comum. De jeito nenhum.

O rosto dele mudou num instante, como se tivesse chegado a alguma conclusão, e ele se levantou. Apertou minha mão — senti algo estranho — e eu não tentei impedi-lo. Eu o veria em breve. Ofereci aumentar a dose da medicação, mas ele indicou que realmente estava melhorando, e desapareceu porta afora.

Naquela mesma noite, antes de dormir, olhei pra minha mão. Sou um homem de constituição magra, pálido, bem alto, então ver minha mão pálida nunca me surpreendeu. Já cheguei a pensar que poderia ter síndrome de Marfan ou algum distúrbio do tecido conjuntivo. Naquela noite meus dedos finos não foram o que chamaram minha atenção — foi meu pulso. Senti vontade de checar meu próprio pulso. Fechei a mão em punho e fechei os olhos. Esse paciente não ia criar raiz na minha cabeça. O louco não sou eu.

Nos dias seguintes tentei continuar com minha vida normal, indo trabalhar como se nada tivesse mudado. Mas eu sabia que, na verdade, tudo tinha mudado. Um dia me senti muito mais disposto — nem lembrei da vontade de fumar. Eu pegava um cigarro toda manhã há anos. Mas aquele dia foi diferente. Eu não tinha fumado. Também não tinha tomado café da manhã. E então caiu a ficha. Olhei pra minha mão trêmula — pálida, como se não tivesse uma gota de sangue por baixo da pele. Eu precisava fazer isso. Procurei meu pulso prendendo a respiração, dedos no lugar certo. Os segundos passaram e não senti nada. Mesmo assim eu ainda não estava respirando. Minutos se passaram e não senti nenhuma necessidade de ar. E então eu acordei.

Respirei fundo. Foi um alívio me sentir molhado de suor. Toquei as carótidas — dos dois lados elas pulsavam, anunciando vida. Eu estava vivo. Eram 3 da manhã. Fiquei mais algumas horas na cama, e quando bateu a vontade de urinar, levantei rápido demais. Minhas têmporas começaram a latejar, o peito não parava de apertar, tudo começou a girar. Alguns minutos depois me levantei do chão devagar. Tinha desmaiado — disse pra mim mesmo que não deveria ter levantado tão rápido. Estou ficando velho. Bebi água e fui direto pro espelho. Enquanto me segurava na pia e esfregava o rosto, me reconhecendo, notei algo atrás de mim. Alguém. Uma sombra alta passando rápido pelo corredor. No fundo da minha mente: é um espírito, é um demônio, ou pior — não é nada, e eu estou enlouquecendo. Decidi não seguir. Voltei pra cama e esperei o despertador.

Às 7 da manhã me vesti e fui trabalhar. Dessa vez me certifiquei de que não estava sonhando lendo minha agenda — se estivesse dormindo eu não conseguiria ler — então comecei meu dia normalmente. Mais uma vez havia um intervalo de duas horas na minha agenda, algo que acontece durante a semana mas incomum por tanto tempo assim. Eu normalmente deixo pequenos intervalos de dez ou vinte minutos no máximo. Nunca duas horas. Senti o coração na boca.

Conforme o tempo passava eu ficava mais ansioso, esperando que aquele paciente de algumas semanas atrás aparecesse. Eu precisava checar o pulso dele, sentir que ele respirava. Não dava pra continuar me sentindo como se estivesse enlouquecendo à toa. Então chegou a hora. Levantei da mesa e tentei me distrair na janela — na verdade eu estava vigiando quem entrava no prédio. Foi quando vi algo muito estranho. Multidões de pessoas atravessando a avenida, quase uma massa de corpos — mulheres, homens, crianças — sem um único veículo à vista. Não consegui entender o que estava acontecendo, então voltei a sentar e tentei me distrair com outra coisa. Me forcei a olhar minhas anotações. Minhas mãos pareciam pesadas, sem resposta. Comecei a notar mais luz vindo da avenida, e então alguém entrou pela porta. Sem fazer barulho nenhum.

Não era meu paciente antigo. Com certeza eu não conhecia essa pessoa. Uma mulher de idade incalculável, mais velha que eu, atravessou a sala sem se apresentar e começou a falar imediatamente. “Doutor, obrigada por me atender. Preciso da sua ajuda.” A palavra “atender” ecoou na minha cabeça, já que ela tinha entrado sozinha sem pedir.

“Sinto que tem algo errado”, continuou a senhora. “Meus filhos não falam comigo há muito tempo. Eles estão me abandonando — levaram todas as minhas coisas de casa, me deixaram só com a roupa do corpo e depois simplesmente me largaram sozinha. Não como nada há dias. Não durmo uma noite sequer. Não entendo por que fizeram isso comigo. Vim porque não consigo lembrar o nome deles, nem o meu próprio. Acho que me chamavam de María, ou Ana, ou Clementina — mas não lembro. Me dá algo pra memória, pra demência. Eu preciso.”

Tentei diagnosticá-la de verdade. A deterioração estava evidente. Olhei fixamente pra ela e ofereci água, corri pra colocar num copinho de papel, depois me aproximei e peguei sua mão, tentando ajudá-la a sentar. Ela estava fria. Parecia abatida, à beira das lágrimas. Comecei a reparar nos detalhes — o rosto esquelético, o corpo magro — e quanto mais eu olhava, mais alto ficava um pensamento: será que eu estava olhando pra um fantasma? Voltei a sentar e instintivamente procurei meu próprio pulso. Não senti nada. Peguei minhas anotações e consegui ver minha agenda. Estava lendo perfeitamente: a consulta marcada era “María ou Ana ou Clementina” — literalmente o que ela tinha acabado de me dizer. Eu diria que senti um arrepio, mas não senti absolutamente nada. Olhei direto nos olhos dela. Ela começou a chorar. Nenhuma lágrima caiu.

“Quando você nasceu?”, perguntei com cuidado. Ela me olhou e sufocou um soluço com as mãos. Não conseguia lembrar. Isso estava claro. Não quis perguntar mais nada. Coloquei minhas mãos viradas pra cima sobre a mesa, como se pedisse as dela. Segurei-as — por fora oferecendo suporte emocional, mas na verdade procurando o pulso. Não encontrei nada. Ela estava morta.

“Senhora… uh…” tentei dizer o nome dela, mas nem ela nem eu sabíamos. “Quero te ajudar. Vou falar com seus filhos. Me diga onde você mora.” Os olhos dela foram primeiro pra direita, procurando uma resposta, depois pra esquerda, tentando se explicar. Não conseguia lembrar. Continuou soluçando sem dizer mais nenhuma palavra, tentou falar, mas não conseguia produzir som. Parei de perguntar. Ela estava presa em algo sério. Se eu estivesse em meu juízo perfeito teria chamado uma ambulância imediatamente — uma mulher sem pulso, sem memória — não pedir ajuda seria negligência médica absoluta. Não tenho desculpa. Eu estava realmente desconectado da realidade. Estava perdendo a cabeça.

Enquanto eu estava perdido em pensamentos, não percebi o que realmente estava acontecendo. Quando olhei de volta pra ela, o que vi não fazia sentido. Vou tentar descrever da melhor forma possível: ela tinha se transformado numa espiral de sombras. Se eu olhasse pelo canto do olho ela ainda era a senhora idosa, mas olhar direto era perturbador — ela tinha uma frequência desconfortável de se ver. Como se algo a puxasse em direção à porta por onde tinha entrado, ela desapareceu. Um momento depois eu me levantei rápido e quando cheguei à porta ela já não estava mais lá. De repente senti todo o peso do meu corpo. Meu peito voltou a apertar e minhas têmporas doíam.

Enquanto estava inconsciente sonhei algo bem breve. Eu estava parado em frente ao espelho do banheiro, esfregando o rosto. Mais uma vez uma sombra nas minhas costas, atravessando o corredor. Dessa vez eu segui. Alguém estava em pé no final do corredor. Um homem alto, muito bem vestido — aquele tipo de elegância que se acumula ao longo de séculos. Terninho escuro, colete, gravata. Ele não precisou dizer o nome. Na verdade falou bem pouco, numa voz que ressoava nos ossos em vez de nos ouvidos. Disse algo sobre a mente, a alma, o ego. Algo sobre a memória que os mantém. Depois atravessou o corredor num instante. Eu não conseguia me mexer. Ele deixou um relógio de bolso dentro do meu paletó e desapareceu.

Acordei com uma dor de cabeça forte. Eu realmente tinha desmaiado e batido a cabeça. Mas me recompus direito, olhei o relógio na parede — não tinha se passado muito tempo desde a manhã — e um paciente razoavelmente normal chegaria em breve. Não havia nenhum registro da senhora idosa na minha agenda. Eu não conseguia lembrar o nome dela, se começava com M ou A. Nada nas minhas anotações sobre qualquer senhora. Na verdade nunca tinha existido um intervalo de duas horas na minha agenda. Considerei se tinha sido um sonho, olhei pela janela — nenhuma multidão. O sonho recente era uma memória vívida. Peguei o relógio. Ele estava lá. Frio, pesado contra a lapela como se fosse de chumbo. Abri: os ponteiros não marcavam as horas. Eles se moviam lentamente para trás, contando os minutos exatos que faltavam até o próximo paciente cruzar minha porta.

Estou escrevendo isso porque sei que tem mais deles por aí. Se você conhece alguém que parou de comer não por falta de fome, mas por ter esquecido; se tem um familiar que insiste que o pulso dele parou, ou que consegue ouvir o choro de um funeral que mais ninguém escuta — não leve pra um hospital comum. Eles não precisam de remédio. Precisam de um diagnóstico que permita que descansem. Minha agenda tem um horário vago hoje às três da tarde. Estarei esperando. Afinal, o ego é a última coisa a morrer — e eu sou o único que sabe como ajudá-los a se despedir.
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