domingo, 26 de julho de 2026

Enviado ao vale para remover detritos da tempestade, acabei solucionando um caso arquivado de quarenta anos

As pessoas que trabalham nas montanhas sabem que a mata não gosta de devolver as coisas. Uma vez que algo cai abaixo do dossel, as folhas o cobrem, as raízes o envolvem e o solo úmido acaba por engoli-lo. É assim que o terreno opera. Se você perder um canivete ou um relógio por aqui, pode muito bem esquecê-lo.

Minha carreira como guarda florestal começou há três anos. O escritório distrital me designou para um parque estadual remoto, aninhado no fundo da região montanhosa, uma vasta extensão de floresta antiga, cristas profundas e vales que permaneciam úmidos mesmo no meio do verão. Meu supervisor era um guarda de carreira que passou mais de três décadas patrulhando esses mesmos limites. Ele estava a seis meses da aposentadoria quando cheguei à estação, uma pequena cabana construída com toras rústicas, com um telhado de metal verde que pingava levemente sempre que tínhamos uma chuva forte.

Na minha primeira manhã, o supervisor fez um gesto em direção a um grande mapa desenhado à mão, pregado na parede de painéis de madeira do nosso escritório.

"Os limites são sua principal preocupação",

disse o supervisor, traçando uma linha vermelha que corria ao longo da crista leste.

"Os campistas adoram vagar para além das placas de trilha modernas, entrando nas antigas áreas de exploração madeireira. Você tem que ficar de olho nas estradas de acesso, monitorar os acampamentos fora da rede elétrica e verificar os marcos de pedra da demarcação original do condado. É muito terreno para duas pessoas cobrirem."

"Com que frequência as pessoas realmente se perdem lá?"

perguntei, olhando para as densas curvas de nível no mapa.

"Mais frequentemente do que você imagina",

respondeu o velho, servindo-se de uma xícara de café preto.

"Geralmente, eles só se desorientam quando a neblina desce das cristas. Umas horas no mato, entram em pânico e começam a andar em círculos. Mas, às vezes, eles vão procurar coisas que deveriam permanecer escondidas."

Ele foi até um armário de arquivo de metal no canto, destrancou a gaveta de baixo e puxou um fichário grosso, encadernado em lona cinza. As bordas da capa estavam desgastadas, e o papel dentro estava amarelado pelo tempo. Ele o largou na mesa à minha frente.

"Este é o livro de registros histórico",

disse ele.

"Toda estação tem um. Ele remonta ao final dos anos 1950. Leia as anotações de 1978. Isso lhe dará uma compreensão melhor de por que mantemos as pessoas nos caminhos marcados."

O supervisor pegou o chapéu e saiu para verificar os instrumentos meteorológicos atrás da cabana, deixando-me sozinho no escritório silencioso. Abri o fichário. A caligrafia na seção de 1978 estava escrita em tinta azul, a letra apertada e apressada, mostrando o estresse do autor.

"12 de setembro de 1978: Mais um grupo de busca enviado ao vale oriental. Isso faz quatro crianças desaparecidas das cidades vizinhas em menos de seis meses. O xerife do condado está sem ideias. Os jornais locais começaram a chamar o suspeito de 'O Coelho' por causa da máscara de pele que ele supostamente usa durante seus ataques. Uma testemunha viu um homem perto do leito do riacho usando uma pele de animal grosseiramente costurada, com orelhas longas e caídas. Ele segurava uma tesoura de ferro."

"3 de outubro de 1978: A emboscada ocorreu ao amanhecer, perto do marco de pedra do norte. O suspeito fugiu para o mato denso após uma breve troca de tiros com a polícia estadual. Foi atingido no flanco, mas conseguiu escapar para o vale profundo. Os delegados encontraram um rastro de sangue descendo a encosta, mas a chuva de outono o lavou antes que os cães pudessem pegar o cheiro. Ele morreu em algum lugar daquele matagal. Ele sangrou até a morte no escuro e levou para o túmulo a localização daquelas quatro crianças."

Recostei-me na cadeira rangente, encarando o papel desbotado. A cabana estava silenciosa, exceto pelo gotejar da água da chuva pelos beirais. Quando meu supervisor voltou, sacudindo a umidade de sua capa de chuva amarela, apontei para o livro de registros.

"O senhor conheceu o guarda que escreveu essas anotações?"

O velho pendurou a capa num gancho de madeira perto da porta.

"Ele foi meu primeiro supervisor. Passou todos os fins de semana durante dez anos cavando naquele vale, procurando aquelas crianças. O condado inteiro foi quebrado pela tragédia. As famílias acabaram se mudando, mas a história permaneceu. Os locais ainda afirmam que o suspeito nunca realmente deixou o vale."

"O senhor acha que ele sobreviveu à emboscada?"

perguntei.

"O homem levou dois tiros no peito e um na coxa",

disse o supervisor, sentando-se em sua mesa.

"Ele morreu de perda de sangue há quarenta anos. Mas a memória do que ele fez ainda persiste. Ela mancha a terra. Apenas faça seu trabalho, fique nas trilhas marcadas e certifique-se de estar fora do vale profundo antes do pôr do sol."

Uma tempestade de outono massiva atingiu a cordilheira três semanas depois. O vento uivou pelas cristas por doze horas, derrubando velhos carvalhos e espalhando detritos pelos caminhos de caminhada. Na manhã seguinte, o supervisor me designou para a área do vale inferior para desobstruir o bloqueio da trilha.

"A tempestade derrubou uma dúzia de bétulas enormes perto do marco de levantamento do sul",

disse ele, entregando-me uma motosserra e um tanque de combustível.

"A trilha de caminhada está completamente bloqueada. Pegue o caminhão de serviço até a estrada de incêndio e depois caminhe até lá. Quero aquela seção desobstruída antes do fim de semana."

"Devo fazer check-in a cada hora?"

"A cada duas horas está bom",

disse o velho.

"O sinal de rádio é irregular lá no vale, mas você deve conseguir alcançar a estação se ficar na crista alta."

Carreguei meu equipamento na caçamba do caminhão e dirigi em direção à estrada de incêndio. A floresta estava úmida e silenciosa após a tempestade. O cheiro de agulhas de pinheiro molhadas e folhas em decomposição era forte no ar fresco. Estacionei o veículo no final da estrada de cascalho, amarrei a mochila nas costas e comecei a caminhada descendo para o vale.

O trabalho era tedioso e exaustivo. A motosserra rugiu, cortando os grossos troncos de bétula, o som ecoando alto nas íngremes falésias de calcário que marginavam o vale. Trabalhei por horas, limpando os galhos e rolando os troncos cortados para fora do caminho. O ar úmido da montanha fazia o suor grudar na minha camisa, e meus músculos começaram a doer com o esforço repetitivo.

Perdi a noção do tempo. No vale profundo, as cristas ao redor bloqueiam o sol da tarde, fazendo a noite cair muito mais rápido do que o esperado. Num momento o céu era de um cinza opaco, e no seguinte, as sombras começaram a se acumular sob as cicutas.

Uma espessa neblina de montanha começou a subir do leito do riacho. Era uma névoa lenta e rasteira que se instalou entre os troncos das árvores, reduzindo rapidamente minha visibilidade para menos de quatro metros e meio.

Desliguei a motosserra e enxuguei o rosto com a manga. O silêncio repentino da floresta foi desconcertante. Os pássaros haviam parado de cantar, e o vento tinha diminuído para um murmúrio. Desengatei o rádio do cinto.

"Estação, aqui é o Guarda Sete",

eu disse.

"A trilha está limpa. Estou arrumando meu equipamento e voltando para o caminhão."

Apenas estática respondeu. As paredes do vale eram íngremes demais, bloqueando o sinal por completo. Prendi o rádio de volta ao cinto, pendurei a motosserra no ombro e verifiquei minha bússola. A agulha apontava para o norte, mas sem nenhum ponto de referência visível na névoa espessa, a bússola era de pouca utilidade. A trilha estava completamente coberta por uma camada fresca de folhas caídas da tempestade, e a neblina fazia com que cada clareira entre as árvores parecesse idêntica.

Comecei a andar, escolhendo um caminho que eu acreditava levar de volta à crista alta.

Dez minutos depois, a inclinação começou a aumentar, mas era para baixo, não para cima. Eu tinha caminhado mais fundo no vale. Parei, virando-me para refazer meus passos, mas a neblina já havia se fechado atrás de mim, apagando minhas pegadas nas folhas molhadas.

Um som quebrou o silêncio da mata.

Era um som suave e úmido de arrasto. Algo estava sendo puxado lentamente sobre as folhas molhadas.

Fiquei perfeitamente imóvel, minha respiração formando névoa no ar frio. "Tem alguém aí?"

chamei, com a voz tensa.

"Sou um guarda florestal. Precisa de ajuda?"

O som parou instantaneamente.

O silêncio voltou, mais pesado do que antes. Apontei minha lanterna para a neblina, o feixe refletindo nas gotículas de água, criando uma parede cega de cinza. Ajustei o foco da luz, tentando cortar a névoa.

O som de arrasto recomeçou, mais perto desta vez, acompanhado pelo estalo agudo de galhos secos.

Varri o feixe da lanterna para a esquerda.

Entre dois pinheiros enormes, a cerca de dezoito metros de distância, estava uma figura.

Era extremamente alta, sua estrutura esquelética e curvada num ângulo antinatural. As roupas eram farrapos desfiados de lona manchada e denim velho, incrustados de lama escura. Mas a cabeça foi o que fez minha garganta travar.

Estava usando uma pele. Era uma pele de animal decrépita e sem pelos, esticada sobre um crânio. Duas orelhas longas e pontudas pendiam das laterais da cabeça, costuradas grosseiramente ao topo com um cordão preto e grosso.

Em sua mão direita, a figura segurava um longo par de tesouras de ferro enferrujadas para tosquiar ovelhas. As lâminas tinham facilmente trinta centímetros, cobertas por uma corrosão escura que parecia sangue seco.

A figura começou a se mover em minha direção.

Sua passada era quebrada e desigual, seus membros se movendo num movimento mecânico e espasmódico que parecia um boneco sendo puxado por fios invisíveis. Apesar da manca, movia-se com uma velocidade assustadora.

As tesouras estalaram juntas na escuridão.

Uma onda de pânico atingiu meu peito. Larguei a motosserra e recuei desordenadamente, minhas botas escorregando no musgo molhado. Virei-me para correr, mas meu pé prendeu numa raiz exposta, e caí por cima da borda de um barranco íngreme, rolando violentamente pela encosta lamacenta.

Atingi o fundo da ravina, meu tornozelo esquerdo torcendo dolorosamente sob meu peso. Minha lanterna voou da minha mão, caindo na terra a alguns metros de distância, seu feixe apontando de volta para a encosta.

Lutei para me ajoelhar, ofegante, olhando para cima do barranco.

A figura mascarada apareceu no topo da crista, sua silhueta alta recortando o feixe da lanterna. As tesouras enferrujadas brilharam na luz. Ela não hesitou; começou a deslizar pela encosta lamacenta em minha direção, suas pernas longas e finas movendo-se com uma fluidez suave e aracnídea.

Tentei me levantar, mas meu tornozelo cedeu, e caí de volta na lama.

Antes que a figura pudesse alcançar o fundo da ravina, a vegetação densa à minha esquerda explodiu.

Um urso negro enorme irrompeu pelas folhas, seu pelo escuro brilhante com a água da chuva. Era uma fêmea, de tamanho imenso, e seus movimentos eram rápidos e poderosos.

Preparei-me, fechando os olhos, esperando ser atacado.

Em vez de se virar para mim, o urso colocou seu corpo maciço diretamente entre mim e a figura que descia.

Ela se ergueu sobre as patas traseiras, sua sombra bloqueando completamente o feixe da lanterna. Ela soltou um rugido ensurdecedor e furioso que sacudiu o chão sob meu peito. Era um som de pura raiva, uma vibração crua e estrondosa que chacoalhou meus dentes.

A figura mascarada parou instantaneamente.

A entidade se contraiu violentamente, seus membros se sacudindo para frente e para trás como um mecanismo quebrado. Ela soltou um silvo seco e rouco por baixo da máscara de pele apodrecida, as tesouras de ferro tremendo em sua mão.

O urso voltou a cair sobre as quatro patas, dando um passo em direção à figura, os dentes à mostra, saliva escorrendo de seu focinho. Ela soltou um rosnado baixo de advertência que vibrou pelo solo.

A figura hesitou. Lentamente, ela recuou, sua forma tornando-se tênue na névoa cinzenta, até se misturar completamente à neblina. O som do saco sendo arrastado se dissipou ao longe, até que restou apenas o som da respiração pesada do urso.

O urso ficou na lama, seus flancos subindo e descendo. Ela manteve os olhos fixos na crista onde a figura havia desaparecido, as orelhas eretas.

Depois de um longo minuto, ela lentamente virou sua cabeça enorme e olhou para baixo, para mim.

Seus olhos eram calmos. Não havia agressão em sua postura, nenhuma ameaça em seus olhos escuros. Ela soltou um sopro suave de ar e começou a se afastar, movendo-se lentamente pelo outro lado da ravina.

Ela andou nove metros, depois parou. Virou a cabeça, olhando para trás para ver se eu a seguia.

Confiei no animal em vez da floresta aterrorizante. Lutei para me levantar, rangendo os dentes contra a dor aguda no tornozelo torcido, e segui sua forma escura através da neblina espessa.

Ela me guiou pelo vale sem trilhas, navegando pela vegetação densa com um passo lento e deliberado que me permitia acompanhá-la apesar da manca. A névoa parecia se abrir ao redor dela, mantendo-nos numa pequena bolha de ar limpo enquanto caminhávamos.

Após vinte minutos, ela parou numa clareira isolada.

No centro da clareira havia um monte de terra antinatural, coberto por troncos em decomposição e um espesso tapete de folhas de outono. O monte era perfeitamente circular, parecendo deslocado contra a inclinação natural do fundo do vale.

O urso se aproximou do monte. Ela começou a cavar o chão com as patas, suas garras enormes rasgando as folhas molhadas e a madeira apodrecida com uma surpreendente gentileza.

Ela descobriu uma peça plana e cinzenta de madeira. Era uma velha porta de alçapão de madeira apodrecida, cujas dobradiças de ferro haviam sido completamente corroídas pela ferrugem.

Aproximei-me do monte, o feixe da minha lanterna refletindo na madeira molhada. Desengatei a pá de trincheira do meu cinto de utilidades e deslizei a lâmina sob a borda do alçapão. Fiz alavanca para cima. A madeira gemeu e estilhaçou, mas o ferrolho enferrujado cedeu, e a escotilha se abriu com um rangido úmido.

Revelou uma adega escura, cavada à mão.

Apontei minha lanterna para dentro da abertura. A adega era pequena, forrada com blocos de pedra rústica que haviam começado a desmoronar sob o peso das raízes ao redor.

Desci pelos degraus de madeira da escada de acesso, minhas botas escorregando na madeira escorregadia. O ar dentro da adega era frio e seco, cheirando a terra antiga e poeira.

Sentados no chão de terra, encostados na parede do fundo, estavam vários objetos pequenos.

Aproximei a luz.

Quatro pares de sapatos minúsculos, cobertos de lama seca, estavam alinhados em fileira contra a parede de pedra. Eram sapatos infantis, o couro rachado e seco, os cadarços apodrecidos.

Ao lado dos sapatos, estavam pequenos e delicados restos mortais, parcialmente cobertos pelo solo seco do chão da adega.

Num canto, estava uma lancheira de metal enferrujada, cuja tinta vermelha havia quase desaparecido por completo.

Ajoelhei-me na terra, minhas mãos tremendo enquanto estendia a mão e abria o ferrolho de metal da lancheira. Dentro, estavam quatro carteiras de identificação escolar de 1978. O plástico estava amarelado, mas os rostos estavam nítidos. Eram as quatro crianças desaparecidas do livro de registros da estação.

Enquanto olhava para os cartões, uma luz suave e quente começou a brilhar no canto da adega.

Levantei os olhos.

Quatro vagalumes luminosos distintos surgiram das sombras. Eles pairaram calmamente no ar frio, sua luz pulsando num ritmo lento e suave, enquanto subiam pela escotilha.

Segui-os para fora, e lá vi o urso inclinando a cabeça para baixo, seu focinho tocando suavemente o chão. Os vagalumes pairavam ao redor de seu focinho, completamente sem medo, sua luz verde suave iluminando seu pelo escuro.

Sentei-me num tronco ao lado do urso, cuidando do meu tornozelo torcido. De alguma forma, o lado dela era mais seguro do que tentar sair da mata no escuro. Devo ter esperado ali por horas. A neblina finalmente estava começando a se levantar, os primeiros raios pálidos do amanhecer rompendo através das altas cicutas.

Esperei a luz ficar mais forte. Ela sentou-se ao meu lado, sua cabeça enorme descansando sobre as patas, os olhos fixos na escotilha aberta.

Quando o sol finalmente clareou a crista, usei meu dispositivo GPS para marcar as coordenadas exatas da clareira.

Caminhei para fora do vale, usando um galho grosso como bengala, e cheguei ao caminhão de serviço no meio da manhã. Dirigi direto para a estação dos guardas e relatei a descoberta ao meu supervisor, que entrou em contato imediatamente com a polícia estadual.

A investigação foi discreta. As autoridades recuperaram os restos mortais e, após quarenta anos, o caso arquivado foi oficialmente encerrado. As crianças foram devolvidas aos seus parentes sobreviventes para um enterro adequado no cemitério da cidade.

Ainda trabalho no parque estadual. Meu supervisor se aposentou há três meses, e assumi suas funções na estação.

Às vezes, quando estou patrulhando as cristas altas perto do limite sul, vejo um urso negro enorme parado na beira da linha de árvores. Ela não foge quando vê meu caminhão. Ela apenas fica ali, seu pelo escuro pegando a luz do sol, me observando com olhos calmos e firmes.

Sempre que a vejo, uma profunda sensação de segurança me envolve. Sei que o suspeito morreu naquele vale há quarenta anos, e sei que seu espírito ainda vagueia pelos lugares escuros da montanha, procurando o que perdeu. Mas também sei que ele nunca poderá alcançar aquelas crianças novamente. Elas estão seguras. Foram protegidas todos esses anos por algo muito mais forte do que ele.

sábado, 25 de julho de 2026

Eu mesmo faço os olhos de cada bicho de pelúcia que vendo. Agora estou pagando o preço

Desde que abri minha pequena loja de esquina há 10 anos, ela tem sido um sucesso. Pessoas de todos os tipos entram para comprar meus bichos de pelúcia, sejam crianças procurando um brinquedo novo ou adultos em busca de um para abraçar à noite. Afinal, por que optar por uma almofada corporal quando você pode comprar um bicho de pelúcia gigante e fofo em vez disso?

Sou um grande defensor do artesanato feito à mão. Qualquer coisa feita à mão carrega um valor emocional – o amor e o cuidado que o artesão coloca em suas criações irradiam para o comprador, tornando-se um item precioso. Por isso, costuro à mão cada bicho de pelúcia que coloco na loja, e sempre gosto de dar atenção especial aos olhos. Os olhos são a parte mais importante e devem ser tratados com extrema atenção. Caso contrário, não há vida por trás deles. É o que faz a diferença entre um bicho de pelúcia alegre e um saco de algodão.

Minha paixão por seguir esse ofício foi inspirada por ninguém menos que minha mãe. Vivi feliz com ela por 13 anos. Meu pai foi embora quando eu ainda era bebê, consumido pelas drogas e dívidas. Minha mãe descobriu que tinha câncer de mama quando eu tinha 8 anos e morreu 5 anos depois. Lembro que estava no hospital, sentado numa cadeira ao lado dela enquanto ela estava deitada na cama. Segurei a mão dela.

"Eu te amo", ela disse. "Eu te amo…"

Ela partiu para o sono eterno. O monitor mostrava uma linha reta. Mas os olhos dela, que estavam apenas semicerrados, ainda estavam cheios de vida. Imaginei na minha cabeça um milhão de vezes ela sentando de repente e gritando "surpresa". Ela voltando para casa comigo. Mas isso nunca aconteceu.

Fui morar com minha tia depois da morte dela. Os anos se passaram, mas nunca pude esquecer como os olhos da minha mãe brilhavam e irradiavam calor através daquele tom marrom-escuro, mesmo depois que ela partiu. Foi quando decidi abrir uma loja e vender bichos de pelúcia para trazer luz à vida de todos, especialmente através de olhos que passei anos aperfeiçoando.

As pessoas frequentemente trazem seus bichos de pelúcia para minha loja para consertá-los. Na maioria das vezes, um olho foi perdido. Fico sempre mais feliz quando posso dar a eles um par novo. Uma nova vida, talvez.

Hoje, depois de fechar a loja, dirigi para casa, abri uma cerveja e fui andando até a sala, olhando para a prateleira de madeira encostada na parede. É lá que guardo minha coleção especial de ursos de pelúcia. Aqueles que significam mais para mim. O primeiro urso que fiz estava na prateleira de cima, talvez um dos mais desproporcionais que tenho. Olhos marrom-escuros que tinha envernizado com preguiça olhavam de volta para mim.

Lembro de quando ouvi a notícia sobre a exumação ilegal do túmulo da minha mãe, vários anos depois que ela morreu. Fiquei arrasado, mas, felizmente, minha mãe foi deixada em grande parte intacta, e seu precioso colar ainda estava no caixão.

O meu segundo não foi lá grande evolução. Conforme você desce pelas prateleiras, dá para ver claramente a evolução dos meus trabalhos. Os bichinhos ficaram mais proporcionais, costurados com mais cuidado, e os olhos foram ficando cada vez mais brilhantes, com acabamento liso e uma camada de verniz. O último da prateleira tinha olhos que eram castanhos ao redor da pupila e se desvaneciam para um azul brilhante na borda do olho.

Minha tia morreu há um ano num acidente de carro. Lembro que os olhos dela sempre brilhavam sob a luz do sol. Eram bem mais claros que os da minha mãe.

Sacudi esses pensamentos e terminei minha cerveja enquanto assistia a um programa que não era muito a minha praia. Depois de alguns episódios, me rendi e fui para a cama.

Acordei com um barulhão na sala. Pulei da cama.

Um arrombamento?

Empurrei as cobertas e, devagar, fui na ponta dos pés até a porta do quarto.

A luz da sala estava acesa.

Tentando não fazer barulho, rastejei pelo corredor em direção à luz, segurando a respiração. Estremeci quando o assoalho rangeu sob meus pés, mas quem quer que estivesse lá não pareceu notar. Cheguei à entrada da sala e espreitei pela quina.

Rapidamente percebi que o barulho vinha da janela da sala, que estava estilhaçada. Cacos de vidro cobriam o chão, cintilando como pedras preciosas sob a luz.

E no meio da sala estava um horror como nunca tinha visto.

Uma grande massa escura e purulenta pairava sobre o centro da sala. Tinha vagamente a forma de um humano, quase alcançava o teto de altura, e tinha tocos gigantes no lugar dos braços e pernas. Olhos de bicho de pelúcia cobriam a entidade dos pés à cabeça, ondulando enquanto se moviam uns sobre os outros. Dava para perceber que eram fabricados, mas de alguma forma pareciam estar… olhando. Procurando.

Abafei um grito. Meu coração pulsava nos meus ouvidos, e temia que aquilo me visse num piscar de olhos, mas meus pés ficaram grudados no chão. Não pude deixar de observar enquanto a coisa se dirigia até a prateleira, cada passo ecoando um baque surdo contra o carpete.

Ela parou em frente à minha coleção, e seus olhos começaram a se mover em direção à prateleira, deslizando de todo o corpo e se amontoando uns sobre os outros. Então, com seus braços enormes, ela pegou o urso de olhos marrom-escuros, o primeiro que fiz. Estendeu a mão até o rosto do urso e, com cuidado, arrancou os olhos — se é que "cuidado" pode ser uma palavra para descrever as ações daquela criatura.

A raiva começou a se infiltrar através do medo. Aquele urso ocupava um lugar especial no meu coração.

Fervendo de ódio, observei os olhos do urso se fundirem ao corpo da criatura e desaparecerem no mar de olhos fabricados. A criatura começou a se contorcer, com movimentos tão rápidos que jurei que era uma falha na realidade, os olhos zunindo pelo corpo numa frenesi.

Ela gritou duas palavras tão alto que achei que meus tímpanos fossem estourar.

NÃO FALSOS

Instintivamente, cobri meus ouvidos. Meu cotovelo bateu com força na parede.

Esse foi meu erro.

Os olhos da criatura começaram a se mover novamente, mas desta vez em minha direção. Não havia tempo a perder.

Girei e corri de volta para o quarto. A criatura gritou e me perseguiu. Rápido.

A porta estava ao alcance, e o monstro estava bem atrás de mim. Achei que ia me alcançar primeiro.

Mas então ele parou subitamente. Cheguei ao quarto.

Ele tinha parado na porta, onde a luz da sala não alcançava.

E desde então, não se mexeu.

Você precisa entender.

Os olhos que ele arrancou de mim.

Embora não fosse meu melhor trabalho, coloquei toda a minha alma naquele projeto — desenterrando o caixão da minha mãe, pegando os olhos dela, extraindo cuidadosamente as íris para não danificá-las e criando uma base fiel ao formato dos olhos dela. Aqueles olhos de bicho de pelúcia preservaram o espírito dela por tantos anos.

Agora estou pagando o preço.

Preciso que alguém saiba o que fiz. Para que as pessoas não repitam meus erros. Para que você não tente preservar uma vida através de algodão, linha e verniz.

O amanhecer está chegando em breve. O sol está nascendo, e a criatura está lenta, mas seguramente, avançando centímetro por centímetro. Não tenho para onde correr. A escuridão está se acabando, e estou com medo do que ela vai fazer comigo.

Cada dia é exatamente igual

O dia de hoje começou como qualquer outro, e posso te garantir que vai terminar como qualquer outro também. Isso pode soar inofensivo à primeira vista, mas posso assegurar que é a coisa mais aterrorizante que alguém pode vivenciar.

Antes de chegar aos acontecimentos de hoje, vou te contar sobre ontem.

Acordei em estado de pânico, as lembranças do pesadelo que acabara de ter desaparecendo rapidamente. Ao perceber que tinha sido apenas um pesadelo e que eu estava seguro, fui tomado por uma euforia absoluta.

Pulei da cama, pronto para encarar um novo dia. Quase parecia que eu tinha ganhado uma segunda chance. Não havia a menor possibilidade de eu desperdiçá-la. Enquanto tomava banho, fiquei pensando em todas as maneiras de fazer daquele dia o primeiro dia do resto da minha vida. Primeiro de tudo, vou tomar um café da manhã saudável. Não posso me dar ao luxo de jogar fora essa única chance na vida destruindo meu corpo com comida não saudável. Segundo de tudo, vou entrar na sala do meu chefe e exigir uma promoção.

Enfrentei meu primeiro obstáculo quando percebi que não tinha a comida certa na cozinha para fazer um café da manhã saudável, e eu precisava estar no trabalho em menos de uma hora. Tudo bem, vou comer fast food só desta última vez, e faço compras no supermercado depois do expediente. Vou ajustar meu despertador para acordar cedo o suficiente para fazer o café da manhã e chegar ao trabalho na hora.

O segundo obstáculo veio quando fui dar a partida no carro — ele não pegava. Não sou mecânico, então não fazia ideia se era um problema fácil de resolver ou se ia ser caro e demorado. Ok, isso tem solução, vou só pegar um carro por aplicativo hoje e resolvo isso depois. Além do mais, vou pedir uma promoção, provavelmente vou ganhar dinheiro suficiente para comprar um carro novo, quanto mais para consertar esse.

Fiquei surpreso ao ver que eu era o primeiro no escritório, além do meu chefe. Sentei na minha mesa e fiz login no computador. Meu estômago roncou, e percebi que, na confusão do carro não pegar e ter que vir de aplicativo, esqueci de tomar café da manhã. Que seja, vou almoçar um pouco mais cedo.

Foi então que ouvi uma batida na parede do meu cubículo. Virei a cadeira e vi meu chefe parado ali. Juro, é impressionante o quanto ele se parece comigo. Ele quase poderia ser meu sósia, ou eu o dele. Ele não disse nada, apenas fez sinal com o dedo indicador para eu segui-lo. E eu fui, até a sala dele. Ele se sentou atrás da mesa e mandou eu me sentar.

— O que está passando pela sua cabeça? — perguntou curioso.

— É o seguinte, estou aqui há bastante tempo, e acho que já está na hora de assumir mais responsabilidades.

Ele me encarou por um instante antes de cair na gargalhada. Foi como se eu tivesse contado a piada mais engraçada que ele já ouvira. O rosto dele ficou vermelho, ele estava lutando para respirar e começou a tossir.

Ainda dava para ouvi-lo rindo enquanto eu me afastava da sala dele com uma caixa para colocar todos os meus pertences. Quer saber? Ainda bem que fiz isso. A vida é sobre correr riscos, e você nunca vai chegar a lugar nenhum se nunca trabalhar para mudar as circunstâncias da sua vida. Na verdade, eu estava pensando que esse poderia ser o melhor desfecho possível. Agora que estou recebendo uma rescisão e posso pedir seguro-desemprego, tenho tempo para procurar algo melhor.

Quando cheguei à vaga onde costumava estacionar, vi que meu carro não estava lá. — Ah, é. — Olhei para baixo, para a caixa que carregava cheia das minhas coisas. — Merda. — Bem, pelo menos posso comer alguma coisa. Então fui andando até a lanchonete mais próxima, coloquei a caixa numa mesa e fui até o balcão.

Uma sensação de déjà vu me atingiu quando o atendente se aproximou para me cumprimentar. Juro que ele parecia familiar. Muito familiar, na verdade, ele parecia exatamente com meu chefe, que estranho.

— Desculpe — ele diz —, nosso caminhão de suprimentos não chegou, e estamos sem quase tudo.

— Ah, então o que posso pedir?

Ele respirou fundo, como se estivesse se esforçando muito para pensar em algo. Expirou fazendo um barulho com os lábios.

— Posso espremer um pouco de ketchup num pão de hambúrguer? — sugeriu, dando de ombros.

Por que eles estavam abertos, então? Mais valia colocar placas de "fechado" até receberem a entrega. Droga, não conheço nenhum outro fast food a uma distância que dê para ir andando. Então saí do prédio e fui andando para casa. Tenho certeza de que tenho alguma coisa na geladeira e/ou na despensa para improvisar.

Assim que entrei pela porta, percebi que tinha esquecido alguma coisa. Juro que estava carregando algo mais cedo. Eu realmente preciso falar com um médico sobre esses meus problemas de memória. Fui até a cozinha e vi que minha despensa e geladeira não tinham nada de substancial, nem sequer biscoitos para beliscar.

Acho que poderia pedir comida, mas de onde? Espera, como é que eu faço isso? Não tenho nenhum número de telefone decorado. Será que tenho anotado em algum lugar? Sinto que estou esquecendo de algo importante. Droga da minha memória.

Quer saber, estou desempregado e tenho todo o tempo do mundo, vou só andar até o restaurante mais próximo. Saí pela porta da frente e vi o escritório onde trabalho do outro lado da rua, e o fast food onde acabei de ir bem ao lado. Agora, para qual direção eu vou? Estava tendo dificuldade em lembrar do layout da cidade onde moro.

Foi então que meu vizinho saiu de casa. Ele era a cara do atendente do fast food, devem ser irmãos ou algo assim. Acertei um aceno para ele, e ele acenou de volta. Depois disso, escolhi uma direção e comecei a andar. Devo ter escolhido a direção errada, porque agora eu só estava atravessando o deserto. Nenhum prédio à vista. Vou continuar, uma hora chego em algum lugar.

Depois de um tempo, percebi que tinha viajado na maionese por um bom tempo, não faço ideia de quanto. Olhei pela janela do ônibus e vi que ainda estávamos só atravessando o deserto, no meio do nada. Suspirei. Foi então que vi um posto de gasolina se aproximando. Puxei a cordinha para descer. Ou compro alguns lanches ali, ou pego o próximo ônibus na direção oposta.

O ônibus parou e as portas se abriram. Desci e olhei para a lojinha antes de entrar. Mais uma vez fui tomado pela sensação fortíssima de déjà vu. Fiquei tão aliviado ao ver as opções que tinha diante de mim. Peguei um saco de batatinhas pendurado num pé de Joshua, um pacote duplo de rosquinhas dentro de um arbusto, e uma garrafa de refrigerante dentro da cabine telefônica. Quando cheguei ao balcão, meus braços estavam cheios. Estava tão animado com isso. Despejei a pilha de roupas em cima do balcão. Algo parecia errado, mas tentei afastar a sensação de desconforto. Levantei os olhos para o atendente do outro lado do balcão da minha cozinha e notei que ele parecia familiar.

— Sabe, você é igualzinho ao meu vizinho.

A expressão no rosto dele se transformou em nojo. Parecia que eu tinha acabado de dizer algo profundamente ofensivo. Fui tomado por um sentimento de vergonha.

— Des- desculpa — disse, tentando acalmar a situação.

— O que exatamente você está tentando fazer? — perguntou, cheio de rancor.

— Eu só... bem, não me lembro. Nem lembro de ter te convidado para entrar.

— Entrar onde?

Olho ao redor da casa da minha infância. Será que meus pais deixaram ele entrar? Olhei para o quadro na parede, aquele com nós três. É tão estranho como não só eu pareço exatamente com eles, mas eles parecem exatamente um com o outro. Volto a olhar para a pessoa à minha frente.

— E agora? — pergunto.

— O mesmo de sempre — ela responde.

Ah, é verdade, é hora de eu...

— É hora de você morrer. É hora de eu morrer. Quer dizer, estávamos mortos o tempo todo, tecnicamente. Você está morto se nunca existiu em primeiro lugar? Eu achava que existia, achava que outras pessoas também existiam, mas sempre fui só eu. Na verdade, hoje de manhã, quando acordei, foi o começo, e agora é hora do fim. Mas tudo bem, vai ficar tudo bem. Como posso dizer isso, porém, estou deixando de existir, na verdade nunca existi em primeiro lugar.

Meus lábios não se mexiam, não havia sequer voz alguma. Tudo isso eram apenas pensamentos. Enquanto flutuava num vazio negro. Soube naquele exato momento que era hora.

Como uma explosão, meu campo de visão se encheu com a luz mais brilhante e fiquei cego. Foi quando acordei. Desta vez, o pesadelo não desapareceu imediatamente. Lembrei de tudo. Lembrei que tenho revivido este dia repetidamente, ad infinitum. Posso sentir o medo se dissipando. Não consigo nem lembrar como comecei a escrever isso. A memória dos acontecimentos de ontem está escapando rapidamente. Não lembro por que comecei a escrever isso. Vocês são todos eu, então qual é o sentido? Por que estou fazendo isso? O que é que eu estou fazendo, afinal? Sinto tudo se esvaindo. Aperte "enviar", não se dê ao trabalho de ler tudo, só aperte "enviar".

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Há Crianças nas Árvores

Li muitas histórias aqui sobre pessoas ouvindo coisas nas matas. Vozes, risadas, passos que acompanham o seu próprio ritmo e depois param. Nunca tive uma opinião muito definida sobre se algo disso era real, porque passei provavelmente umas quatrocentas noites da minha vida sozinho numa barraca no interior selvagem e nada jamais me fez sentir que eu não estava sozinho lá, exceto, você sabe, o fato de eu realmente estar sozinho lá. Quero dizer isso logo de cara porque acho que é importante. Eu não era um trilheiro nervoso. Não sou uma pessoa nervosa. Preciso que você entenda isso antes de eu contar o que mudou isso.

Isso foi nos Ozarks, numa seção de floresta nacional que não vou nomear por razões que farão sentido no final, numa viagem solo de uma noite no fim de setembro. Já tinha trilhado aquela floresta uma dúzia de vezes antes, mas sempre na mesma volta a partir da cabeceira principal da trilha, aquela com a caixa de registro e o estacionamento de cascalho que lota nos fins de semana.

Dessa vez eu queria algo mais quieto, então encontrei uma velha trilha secundária num mapa de papel num posto de gasolina a duas cidades de distância, mal marcada, sem nome que eu pudesse encontrar online, que supostamente se conectava a uma travessia de riacho a uns onze quilômetros de distância. Eu nunca tinha pisado nela. Saí da cabeceira da trilha por volta das duas da tarde. Dia claro, fresco, com aquele primeiro cheiro verdadeiro de outono no ar que eu amo mais do que quase tudo.

A trilha secundária começou fácil o suficiente, um caminho macio, coberto de agulhas de pinheiro, serpenteando por entre pinheiros e carvalhos-arbustivos, e pela primeira hora ou mais eu estava exatamente no estado mental que procuro em viagens solo: sem sinal de celular, nenhum pensamento específico na cabeça, apenas o ritmo das minhas próprias botas e a mochila se acomodando nos meus ombros.

Passei por um leito de riacho seco por volta do quilômetro três, alguns anéis de fogueira antigos que alguém construiu e abandonou quem sabe há quantos anos, os detritos comuns de uma trilha que não vê muito trânsito. Lembro de me sentir arrogante sobre isso, na verdade, satisfeito comigo mesmo por ter encontrado um lugar quieto tão tarde na temporada.

A trilha se estreitou à medida que os pinheiros deram lugar a madeira de lei, principalmente carvalho e nogueira, o dossel se espessando sobre minha cabeça, e não pensei em nada disso como um mau sinal. Penso nisso agora, obviamente. Na hora, parecia apenas uma boa caminhada.

Por volta do quilômetro seis, notei que o cascalho tinha ficado estranho sob minhas botas.

Não sei descrever de outro jeito, a não ser que parou de soar certo. Cascalho de trilha tem uma trituração particular, aguda, irregular, e aquilo em que eu estava pisando por um trecho de talvez cem metros tinha uma maciez mais suave e opaca, quase como andar em areia compactada em vez de pedra. Lembro de olhar para baixo uma vez, vendo fragmentos pálidos, pequenos e arredondados misturados à terra, e pensar, do jeito completamente imperturbável com que você pensa nas coisas quando seu cérebro ainda não percebeu uma ameaça, que devia ser algum tipo de depósito mineral local, calcário giz, talvez, desgastado até ficar fino.

Eu não parei para olhar mais de perto. Esse é o detalhe ao qual continuo voltando, porque se eu tivesse me agachado ali mesmo, em plena luz do dia, acho que o resto da noite inteira poderia ter sido diferente. Eu poderia ter dado meia-volta.

Por volta do quilômetro nove, minhas pernas já tinham desistido de discutir comigo, e finalmente sentei numa pedra plana à beira da trilha para comer algo e tirar o peso dos ombros antes do último esforço até o riacho. Foi a primeira vez o dia inteiro em que eu realmente parei de me mover, e é estranho o quanto um lugar te conta mais uma vez que você não está mais andando por ele.

Parado, notei que o chão ao redor da pedra estava coberto pelos mesmos fragmentos pálidos que eu vinha registrando pela metade há três quilômetros, mais grossos aqui, intocados, do jeito que as coisas se acumulam quando ninguém ainda pisou nelas. Peguei um sem realmente pensar, virando-o entre os dedos enquanto mastigava, esperando meu cérebro classificar aquilo sob algo comum, como tinha feito a tarde inteira.

Não classificou sob nada comum. Era liso demais de um lado e áspero demais do outro, uma textura que nenhuma pedra tem, e tinha uma leve curvatura, quase um formato, e havia uma segunda crista mais dura ao longo de uma borda que meu polegar continuava encontrando antes de eu me permitir entender o que meu polegar já sabia. Peguei um segundo. Depois um terceiro, a alguns metros de distância, porque alguma parte de mim precisava de mais de um dado antes de acreditar no primeiro. Todos os três tinham aquela mesma curvatura, aquela mesma pequena crista, e no quarto eu já não estava mais contando para mim mesmo uma história sobre calcário.

Eu estava olhando para uma dispersão de dentes pequenos, rombos e de raiz única, alguns amarelados pelo tempo e outros tão brancos e frescos que pareciam molhados, espalhados grossos ao redor da pedra em que eu estava sentado e se afinando em ambas as direções ao longo da trilha, como se algo os tivesse perdido constantemente, um por um, durante uma caminhada muito longa que terminou, ou começou, exatamente onde eu escolhi parar e descansar.

Quero que fique registrado que todos os meus instintos me disseram para voltar naquela hora, e eu os ignorei, porque estava escurecendo, eu estava a nove quilômetros de distância numa trilha que nunca tinha feito antes, e voltar atrás parecia mais arriscado do que apenas seguir em frente até o riacho como planejei. Reconheço agora que é exatamente esse o tipo de raciocínio que algo paciente gostaria que eu tivesse.

Montei acampamento perto do riacho mesmo assim, uns cem metros além da pedra, perto o suficiente para que eu ainda pudesse ver a dispersão pálida atrás de mim se virasse minha lanterna de cabeça para lá, o que fiz questão de não fazer. Contei a mim mesmo uma história sobre algum tipo de antigo ossuário ou local de abate de animais, na qual eu não acreditava nem enquanto a pensava.

Jantei rápido e sem muito apetite, algo de massa desidratada que mal provei, e lembro de ser agressivamente normal sobre o resto da minha rotina: pendurar a bolsa de comida, escovar os dentes com água da garrafa, me enfiar no saco de dormir numa hora que era, para mim, excepcionalmente cedo. Eu queria que o dia acabasse. Deixei a aba da barraca meio aberta por hábito, como sempre faço, o suficiente para ver uma fatia do céu e avaliar o tempo sem precisar realmente me levantar, e fiquei deitado por um longo tempo ouvindo o riacho e dizendo a mim mesmo que amanhã, à luz do dia, os dentes seriam algo explicável, fragmentos de ossos de veado, algum resíduo de pedreira, qualquer coisa.

Foi bem na beira do sono, aquele ponto solto e flutuante em que você já não está mais pensando em frases completas, que algo na fatia de céu através da aba da minha barraca prendeu minha atenção e me puxou de volta para cima. Fiquei deitado por um segundo sem saber o que tinha me incomodado, e então entendi que eram as estrelas, ou o que eu supus serem estrelas, aquela pequena cunha de brecha escura no dossel visível além da aba aberta. Algo sobre o número delas, ou a maneira como estavam dispostas, baixas e juntas em vez de espalhadas altas e uniformes como as estrelas sempre são, não correspondia ao que eu esperava ver, e me vi sentando sobre um cotovelo, observando a mesma mancha de escuro por um longo minuto inquieto antes de me forçar a abrir o resto da aba e olhar direito.

Já estive à noite sob dossel fechado mais vezes do que posso contar, e sei como é um céu limpo visto entre as folhas: pontos brancos e frios, imóveis, distantes. O que eu estava vendo em vez disso, lá em cima nas formas negras dos galhos ao redor do meu acampamento, eram dezenas de pequenos pontos de luz com um tom fraco e quente de cor, algo mais próximo à luz de vela do que à luz de estrela, e enquanto eu observava, vários deles piscaram, todos ao mesmo tempo, do jeito que cem pares de olhos pequenos piscam juntos quando algo abaixo deles se move.

Coloquei minha lanterna de cabeça na configuração mais forte e a apontei para cima, e por um segundo inteiro antes de meu cérebro se recusar a processar corretamente...

Vi uma criança. Pequena. Mais nova que dez anos pelas proporções. Sentada num galho fino demais para sustentar peso real, pernas balançando, me observando com uma expressão de leve curiosidade. Sua pele no feixe da minha luz era branca como osso, e sua boca estava ligeiramente aberta no que primeiro li como um sorriso antes de entender que estava cheia, de ponta a ponta, de dentes pequenos, cerrados e finos como agulhas. Quando balancei a luz para um lado mais amplo, já tremendo muito, encontrei não uma criança, mas pelo menos uma dúzia, espalhadas pelos galhos de três ou quatro árvores ao redor do meu acampamento, todas voltadas para baixo, todas observando, todas com aqueles mesmos pontos de luz quentes e anormalmente estáveis onde seus olhos deveriam estar.

Entendi, com uma clareza doentia e escorregadia, exatamente o que estava espalhado por aquele quarto de quilômetro de trilha, e exatamente por que o cascalho parecia errado sob minhas botas horas antes de eu ter coragem de olhar para ele.

Fiz a única coisa que meu corpo me deixava fazer, que foi levantar, fechar minha mochila pela metade com mãos trêmulas, e começar a voltar pela trilha por onde viera, com a lanterna apontada para o chão porque não conseguia me forçar a olhar para cima de novo.

Não andei trinta metros antes de vê-la parada na trilha.

Quero descrever isso com o máximo de cuidado e honestidade que puder, porque já revi isso tantas vezes desde então que tenho medo de embelezar em algo mais limpo do que realmente foi.

Ela estava perfeitamente imóvel no meio da trilha, de frente para mim, e emanava uma luz pálida e fraca própria, o mesmo brilho quente e errado dos olhos nos galhos, como se algo sob sua pele fosse iluminado por dentro em vez de refletir minha lanterna. Ela era alta, mais alta do que qualquer mulher diante de quem já fiquei, com a mesma pele branca como osso das pequenas nas árvores, esticada sobre uma estrutura que era reconhecivelmente a de uma mulher: ombros estreitos, cintura afinando, quadris cheios, coxas grossas e arredondadas de um jeito que deveria parecer macio e em vez disso parecia denso, como algo construído em vez de crescido. Seus seios eram cheios e banais em formato, mas fracamente luminosos na pele da mesma forma que o resto dela, de modo que até aquela parte comum carregava a estranheza que o resto de seu corpo tinha. Cada proporção era levada muito ligeiramente além do que um corpo humano realmente faz, de modo que olhar para ela parecia olhar para um desenho tecnicamente correto de uma mulher feito por algo que só havia estudado a forma à distância. Ela estava nua, e não havia nada performático ou convidativo nisso. Transmitia a mesma leitura que a nudez de um animal transmite, simplesmente o modo como ela existia, sem vergonha ou intenção de qualquer lado.

Seus olhos, quando finalmente me forcei a olhar para seu rosto, eram de um azul leitoso e opaco, a cor dos olhos de um cão cego, e atrás de seus ombros, dobradas contra suas costas, pude ver duas formas longas e veiadas, asas de mariposa, muito maiores do que as pequenas e dobradas das crianças nos galhos, tremendo muito levemente com uma textura como poeira apanhada num feixe de luz.

Ela não se moveu em minha direção no início. Apenas ficou ali, observando, com uma expressão que só posso descrever como paciente.

Virei-me para correr de volta em direção à travessia do riacho, pensando em cortar um largo desvio ao redor dela pela moita, e foi aí que o cheiro me atingiu.

Veio do nada, sem brisa que eu pudesse sentir para carregá-lo, e era tão específico e tão avassalador que minhas pernas realmente desaceleraram sozinhas antes que minha mente percebesse o que estava acontecendo. Eu estava cercado pelo cheiro da minha casa de infância. Não perto disso, não semelhante a isso, exatamente isso, até uma nota do sabonete de mãos da minha mãe e o mofo característico do armário do corredor onde guardávamos casacos de inverno, um cheiro que eu não havia conscientemente pensado em mais de vinte anos e não teria sido capaz de descrever uma hora antes se você me pedisse. Atingiu alguma parte do meu cérebro que não tinha nada a ver com medo, e por três ou quatro segundos eu não estava fugindo de nada. Eu tinha sete anos parado num corredor que não existe mais, e meu corpo inteiro ficou quente, lento e pesado de um jeito que não tinha nada a ver com exaustão.

Minhas pernas cederam em algum lugar naquela névoa. Lembro do chão vindo em minha direção mais devagar do que deveria, como se eu estivesse me movendo através da água. Mesmo enquanto caía, ouvi um som começar ao meu redor nos galhos. Dessa vez não eram risadas, mas um zumbido baixo e uniforme. Dezenas de vozes pequenas afinadas juntas numa única nota sustentada que me lembrou, absurdamente, do som que um carro elétrico faz parado num semáforo. Era mais sentido do que ouvido, vibrando através do chão até meu peito.

Vi-a caminhando em minha direção enquanto eu estava de joelhos na terra, e mesmo agora, com tudo o que sei, tenho que ser honesto: havia algo no jeito como ela se movia ao qual meu corpo respondeu como belo antes que minha mente pudesse objetar. Uma graça longa e sem pressa. Cada passo colocado como se ela nunca, em toda a sua existência, precisasse se apressar para nada.

O zumbido nos galhos não mudou de tom conforme ela se aproximava. Se alguma coisa, estabilizou-se, uniformizou-se, como se o próprio som se acalmasse para acompanhar seu ritmo.

Ela se agachou na minha frente, e de perto a estranheza dela era quase pior por ser tão cuidadosa, simétrica de um jeito que rostos reais não são. Os olhos azul-leitosos não rastreavam exatamente como os olhos deveriam, fixos no meu rosto com uma atenção que parecia total.

Ela estendeu a mão e ajustou a gola da minha jaqueta, um gesto estranhamente doméstico, o tipo de pequena correção que uma mãe faz na roupa de uma criança sem pensar. Entendi naquele momento, com o cheiro da minha própria infância ainda espesso na garganta, exatamente qual papel eu tinha vagado para dentro e exatamente há quanto tempo alguma parte dela provavelmente esperava que alguém o preenchesse.

Então ela se ajoelhou completamente na minha frente.

As formas longas em suas costas se desdobraram, lentas e deliberadas, espalhando-se mais do que eu teria acreditado possível. Ela as trouxe para frente ao redor de mim até que se fecharam atrás das minhas costas.

Um calor seco e papeloso se instalou em ambos os lados do meu rosto e ombros, dobrando-me contra ela do jeito que você envolveria uma criança num cobertor grande demais para ela.

Eu não teria conseguido me afastar naquela altura, mesmo se a névoa na minha cabeça tivesse me deixado querer. Ela se inclinou e me beijou nos lábios — lento, fresco e seco —, e isso é a última coisa clara de que me lembro. O zumbido, o cheiro, suas asas fechadas ao redor de mim como uma segunda espécie de escuridão, mais suave, e então nada.

Acordei ao primeiro clarão da manhã, de costas no mesmo ponto da trilha, jaqueta ainda ajustada do jeito que ela a deixara, mochila ainda no ombro como se eu nunca a tivesse tirado. Os galhos acima de mim estavam vazios. Sem olhos, sem formas pequenas, nada além de troncos comuns e luz comum de manhã cinzenta, e se não fosse pelo cheiro ainda fracamente preso no tecido da minha gola — o sabonete de mãos da minha mãe, aquele armário —, eu poderia ter dito a mim mesmo até a hora do almoço que tinha desmaiado sozinho na mata e sonhado o resto por causa de baixo açúcar no sangue e mau instinto.

Arrumei tudo em cerca de quatro minutos e caminhei os nove quilômetros de volta à cabeceira da trilha sem parar uma vez, e não voltei àquela seção da floresta, e não pretendo voltar.

Já faz cerca de seis meses. Quero te dizer que é o fim, que escapei e a história para por aí, mas estaria mentindo, e acho que mentir para você a esta altura seria pior do que o que você estiver prestes a pensar de mim.

Duas vezes no último mês, acordei no chão do meu próprio corredor da entrada, portas trancadas, alarme intacto, sem memória de ter saído da cama, e ambas as vezes a casa cheirava, fraca mas inconfundivelmente, ao sabonete de mãos da minha mãe, um perfume que não mantenho nesta casa um único dia desde que saí da casa da minha infância há vinte anos.

Semana passada encontrei um único dente pequeno, branco, rombo e de raiz única, sentado na bandeja perto da minha porta da frente onde guardo minhas chaves.

Não contei à minha esposa. Não sei como dizer isso de um jeito que não pareça que preciso ser internado, e alguma parte pequena, quente e zumbidora de mim — uma parte em que não confio mais totalmente — continua me dizendo que não há nada a temer, que estou apenas sendo chamado de volta para casa.
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