sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

NÓS TE VEMOS...

Quando eu era criança, tinha terrores noturnos. Não era toda hora, mas o suficiente pra deixar uma marca permanente na minha cabeça que ainda tava se formando. Eu não lembro direito de quase nada do que acontecia neles. Tipo um sonho tão foda que a memória simplesmente rejeita lembrar, te deixando só com um medo profundo, remexendo no estômago, como se aquilo pudesse ter te seguido pro mundo acordado.

O que eu lembro é pouco. Eu tava no escuro, um escuro infinito, vazio. Não era breu total, mais parecido com o inverso daqueles quartos brancos vazios que usam pra gravar clipe. Parecia que não acabava nunca, em qualquer direção. Eu lembro vagamente de borrões se arrastando pelo canto do olho, formas que pareciam se desfazer no segundo que eu tentava focar nelas, mas tudo tá bem nebuloso agora.

A coisa que eu realmente lembro, e que ficou grudada em mim e fixou qualquer memória que eu tenha, marcada na minha lembrança como uma cicatriz, era a sensação do estômago despencando, e aquela impressão de ser disparado pra frente. O mundo – se é que dá pra chamar assim – se dissolvendo ao meu redor enquanto eu sentia ser arrastado pra frente, depois pra cima numa velocidade impossível. Tudo na minha visão se esticando em borrões de cinza e preto.

Eu acordava de supetão, lágrimas escorrendo pelo rosto, aquela propulsão violenta ainda correndo pelo corpo, me seguindo pra consciência. E por alguns segundos horríveis, eu sentia o quarto ao meu redor se distorcer. Objetos esticando ou encolhendo, paredes respirando pra dentro e pra fora, como se eu estivesse vendo tudo com um binóculo que não parava de refocar. Chegava ao ponto de eu dar zoom e ver o branco dos olhos dos meus pais enquanto eles vinham correndo pra me consolar de má vontade.

Eu era uma criança nervosa, mesmo sem os terrores noturnos, e a vida familiar nunca foi muito estável. A gente mudava muito por causa do trabalho do meu pai no exército, e justo quando a gente começava a se acertar ou eu fazia um amigo raro, o serviço dele arrancava a gente e jogava em outro contrato militar. Mal dava tempo de aprender o mapa de uma escola antes de ser jogado em outra. Falando nisso, parecia que ele tava ausente praticamente toda a minha infância. Trabalhava até tarde, e nas raras vezes que saíamos pra um jantar em família ou passeio, ele era bombardeado com ligações “importantes” e tinha que correr pra algum lugar fazer sei lá o quê. Eu nunca soube o que meu pai fazia de verdade, e mesmo quando cresci e perguntei, só me diziam que ele trabalhava na divisão de “pesquisa”, seja lá o que isso significasse.

Minha mãe também não ajudava muito, eu sempre me sentia mais um peso morto, um estorvo. Ela parecia responder com um suspiro antes mesmo de eu terminar a frase, como se já estivesse cansada de mim. Eu era filho único, então não tinha ninguém pra dividir esses sentimentos, e claro que cresci achando que aqueles terrores noturnos eram só mais um sintoma de uma infância vivida em terreno instável, tipo tentar subir um morro de cascalho. Tudo parecia explicável.

O estopim veio no meu aniversário de 18 anos. Obviamente, meus pais não tinham planejado nada, por mais que eu tivesse esperança de pelo menos um cartão, um bolo, qualquer coisa. Mas eu tinha reservado uma mesa pra nós três numa pizzaria perto de casa e avisei. Minha esperança era que, por ser um marco na minha vida, eles finalmente fizessem algum esforço, alguma concessão pra comemorar o filho único deles. Fui direto do turno diurno no bar onde eu tinha arrumado um trampo e esperei. Esperei. Passaram 45 minutos e, percebendo que não iam aparecer, eu saí. Chegando em casa, o carro do meu pai não tava na garagem, como era de se esperar, e ao passar pela sala vi minha mãe dormindo no sofá, ela, a garrafa de vinho vazia e a de remédio pela metade na mesinha, iluminadas pelo brilho da TV.

Duas semanas depois, depois de ruminar meu estado lamentável, num impulso autodestrutivo e angústia adolescente, eu peguei uma garrafa de uísque do armário do meu pai e saí escondido, o zumbido da geladeira na cozinha sendo o único som numa casa sempre silenciosa. Digo saí escondido. Meu pai tava no trabalho e quase nunca aparecia, e minha mãe não tava exatamente fiscalizando. Cheguei nos trilhos de trem perto de onde a gente morava naquele mês.

Cheguei na ponte sobre os trilhos, passei as pernas por cima da grade, abri a garrafa e comecei a engolir aquele líquido marrom nojento, engasgando enquanto queimava a garganta, juntando coragem líquida pra... você sabe, esperando um trem passar. Eu não tinha amigos, nem namorada. Me sentia um hóspede indesejado na minha própria casa, sem perspectivas. Inevitavelmente, o estilo de vida nômade fodeu minha escola, e eu era o último da turma desde que me conheço por gente, trabalhando num emprego sem futuro que eu odiava.

Quando senti o tremor característico da minha libertação iminente com um trem se aproximando, e levantei a garrafa pros lábios pra um último gole, senti minha gola sendo puxada pra trás. Meu primeiro pensamento naquele segundo antes de bater no metal frio da passarela foi que alguém se importava. Alguém tinha vindo me impedir de fazer uma burrice. Mas não. Era um grupo de outros adolescentes da minha idade que eu via pela cidade, rindo de mim enquanto eu andava sozinho. E eles começaram a me dar uma surra do caralho, me deixando um amontoado sangrento e inconsciente na ponte.

Acordei no dia seguinte numa cama de hospital, no ambiente estéril e estranho, a única companhia uma cadeira vazia ao lado da cama. Nem preciso dizer que nenhum dos meus pais tava lá esperando quando eu acordei. O médico disse que eu tive uma concussão leve e três costelas quebradas. Disse que eu tive sorte de não morrer de hipotermia, porque um mendigo viu a cena, afugentou os vagabundos e chamou a polícia. Naquele momento eu não consegui evitar sentir um apego melancólico por ele, pensando no meu salvador fantasma como a única pessoa que talvez realmente se importasse comigo. Eu certamente não me sentia sortudo.

Fiquei no hospital pra observação por mais 3 dias, o único contato dos meus pais sendo uma mensagem da minha mãe perguntando quando eu ia ter alta e quando ela devia me buscar. Ela não disse uma palavra no caminho de volta pra casa e, sem falar nada, assim que chegamos, eu fui pro meu quarto, arrumei uma mochila com roupa e saí. Me sentindo estranhamente calmo e decidido. Era inevitável, na real. Ela só ficou parada na porta me vendo ir embora pela rua, não disse nada, e eu nem olhei pra trás.

Eu tinha um dinheirinho guardado do trampo no bar, e eles toparam me manter em período integral. Daí dormi na rua por umas semanas até achar uma república perto do trabalho. A casa era uma zona, gente aleatória, móveis que não combinavam e primeiras impressões constrangedoras. Meu quarto mal cabia uma cama de solteiro e um guarda-roupa, com papel de parede descascando e mofo no teto no canto oposto à cama. Mas com o tempo, eu senti algo que nunca tinha sentido antes: uma conexão. Essas pessoas que eu nunca tinha visto viraram as mais importantes da minha vida, minha primeira ligação de verdade. Me ancorou e me fez perceber o quanto eu tinha sido idiota. Me permiti esquecer, ou pelo menos começar a esquecer, aquela parte de mim que se sentia à deriva, e simplesmente me deixar pertencer.

Por um tempo, as coisas pareceram normais. Eu tinha minha rotina. Geralmente trabalhava até fechar, pegando o máximo de turnos que dava. Levava comida sobrando da cozinha pra casa, e eu e minha turma maluca sentávamos no chão ou no sofá remendado vendo qualquer série nova no streaming que a gente dividia a senha. Não era grande coisa. Não era nada, mas era normal. Era perfeito.

Um dia, porém, eu me vi naquele espaço vazio de novo. Eu tava de atestado por causa de uma gripe foda que me deixou delirando, e também naquele vazio escuro toda vez que fechava os olhos. Fazia anos que não ia lá, e só lembrava do lugar no momento que chegava. Dessa vez foi diferente. Antes, as formas que eu via se mexiam de um lado pro outro fora do meu campo de visão; agora elas tavam paradas. Essas formas impossíveis que pareciam se distorcer quando eu olhava, de tamanhos variados, só tavam lá. Enquanto eu absorvia mais o ambiente, percebi que tinha um monte delas, todas viradas pra mim, tentadoramente fora do meu foco pra eu distinguir detalhes, cobertas pela penumbra. Mas uma coisa eu sabia: antes elas não pareciam me notar; agora com certeza notavam. Elas tavam me observando.

Senti o corpo inteiro travar. Um frio de gelar o sangue desceu da cabeça até os pés e, enquanto isso acontecia, eu senti – não vi – as figuras se lançando em cima de mim. Por instinto levantei os braços pra me proteger, pro pouco que isso adiantaria, quando senti aquela velha sensação familiar. Aquela de ser disparado pra frente e pra cima em velocidades impossíveis. Aquela que me assombrava tanto na infância agora aparentemente vindo me salvar.

Acordei de sobressalto na cama, meu primeiro instinto sendo agradecer que tinha acabado. O segundo, enquanto recuperava o fôlego, foi olhar ao redor enquanto via as paredes respirando pra dentro e pra fora e os objetos do quarto se aproximando na minha visão. Depois de alguns segundos, quando controlei a visão e a respiração, ouvi o rangido característico da porta se abrindo. Prendendo o fôlego que eu tinha lutado pra recuperar, senti uma gota de suor salgado escorrendo devagar pela bochecha, no mesmo ritmo da porta abrindo. Lá estava Tina, uma das minhas colegas de casa, encostada no batente. Com as sobrancelhas erguidas, ela disse: “Pesadelo?”. Concordei com a cabeça, passei as pernas pra fora da cama, esfreguei o rosto com as mãos e olhei pra ela de novo. “Fumar um?” ela disse, apontando pro baseado na mão esticada, o cheiro doce enjoativo enchendo o quarto.

Passamos o resto da noite chapados e eu contei pra ela o sonho, ou melhor, o terror. Expliquei que não tinha mais isso desde criança, mas que ficar doente tinha acionado algo na minha cabeça. Falei do zoom na visão, das paredes respirando, e a gente fez uma pesquisa chapada na internet.

“Te lembra alguma coisa? Distorção de escala, alucinações visuais, esse tipo de coisa?” Tina disse, apontando pra um artigo no celular enquanto me passava o baseado. Dei um trago, li o título. Síndrome de Alice no País das Maravilhas. Continuando a ler, descrevia uma condição neurológica rara, mais comum em crianças. Percepções distorcidas de tamanho. Objetos parecendo maiores ou menores do que deveriam. Macropsia. Micropsia. Palavras clínicas pra algo que nunca tinha parecido clínico pra mim.

“Parece coisa que um adolescente emo que odeia os pais e passa tempo demais no Tumblr inventaria”, Tina zoou, me cutucando nas costelas com o cotovelo. A gente riu, e eu me senti mais aliviado do que queria admitir. Tinha um nome praquilo. Outras pessoas tinham passado por isso. O artigo dizia que era benigno. Rolei por alguns relatos em primeira mão, meio que esperando ver minhas próprias palavras me encarando. A maioria era curta. Vagosa. Reclamações de dor de cabeça. De quartos parecerem errados por alguns minutos. Nenhum mencionava figuras espreitando nas bordas da visão. Nenhum falava da sensação de ser arrastado, lançado pra frente, como se o chão da realidade tivesse sumido.

Eu disse pra mim mesmo que isso não importava.

Só fiquei feliz por não estar louco. Feliz por isso não ser algum tipo de psicose.

“Pensa assim”, Tina disse, parando pra dar um trago longo, “muita gente pagaria caro pra uma viagem dessas. Menos os demônios ou seja lá o que for.” Ela riu. “Você devia fazer o que eu faço”, acrescentou. “Ter um diário de sonhos do lado da cama. Se acontecer de novo, escreve na hora, enquanto tá fresco. Ajuda a entender, e às vezes é engraçado reler.”

Concordei com a cabeça, já pensando que algumas coisas, depois de escritas, param de ser engraçadas.

Passaram umas semanas, e eu mantive o diário. Não teve mais terror noturno. Nem macropsia ou micropsia, ou seja lá como o artigo chamava. Só sonhos fragmentados sobre nada em particular. Impressões banais do dia anterior, ou cenas claramente roubadas de série ou filme que eu tinha visto antes de dormir.

Tina e eu às vezes trocávamos figurinha de manhã, lendo as anotações um do outro e zoando o quanto eram sem graça. Eu tinha lido em algum lugar que fumar maconha atenuava o sono REM, a fase onde a maioria dos sonhos acontece, então fizemos um pacto meio sério de parar por um tempo, nem que fosse pra ver no que dava.

John, outro colega de casa, sugeriu tentar sonho lúcido. Disse que se eu caísse num daqueles terrores de novo, poderia ajudar se eu conseguisse tomar controle em vez de só aguentar. Tentamos por um tempo sem sucesso, até que uma noite, por impulso, resolvi testar uma técnica que li online. Dizia pra deitar de costas, mãos ao lado do corpo, e ficar olhando pro teto. Só isso.

Parecia fácil. Eu queria ver se conseguia voltar pra aquele lugar que me assustava desde que me conheço por gente. Disse pra mim mesmo que, se eu chegasse lá de propósito, seria diferente. Eu seria o que mandava, pela primeira vez.

Então tentei. Deitei de costas, mãos ao lado do corpo e fiquei encarando o teto. Foquei nos desenhos no gesso em cima da cama. Traçando os relevos e rachaduras com os olhos, repetidamente. Depois de um tempo, foquei na respiração pra distrair das pálpebras pesadas como cimento, contando cada volta que dava nos padrões lá em cima.

Eu tava sozinho naquela noite, todo mundo tinha ido pro bar. A casa tava pesada de silêncio, aquele silêncio que só rola de madrugada. Pairava grosso sobre tudo, o único som além da minha respiração profunda sendo o zumbido baixo do aquecedor no quarto ao lado, constante e distante.

Não teve um momento específico que eu consiga apontar. Nenhum limite claro que senti ter cruzado. Em algum ponto senti a distância entre mim e o gesso rachado no teto crescer cada vez mais. Não mais alto, só... mais longe do que tinha direito de ser. Os padrões no gesso amoleceram nas bordas e se enrolaram, esticando na minha direção quando eu tentava focar. Senti a escuridão e o peso atrás dos olhos ficar mais denso, até que precisei piscar.

Nem percebi onde tava no começo, só senti a ausência da cama embaixo de mim. Isso até tentar olhar ao redor e perceber que tinha chegado. Eu tava naquele lugar escuro de novo.

Dessa vez eu conseguia perceber mais. Não tudo, mas mais do que nunca. À minha frente tinha uma multidão daquelas figuras que me assombravam desde que me lembro, de costas, se arrastando em direção a alguma estrutura no horizonte. Impossivelmente longe, o formato indistinto contra a penumbra.

As figuras se moviam juntas com um propósito quieto. Não dava pra dizer o quão longe tavam, só que a distância entre nós parecia intencional. Como se tivessem acabado de me perder de vista. Pela primeira vez, eu conseguia ver detalhes. Elas vinham em todos os tamanhos e formas, vagamente humanas, cobertas por fiapos de fumaça ou névoa. Quando se mexiam, a vapor rareava e se abria, revelando rapidamente corpos brancos como osso por baixo, disformes, inacabados, antes da fumaça se fechar de novo.

Elas não tinham me visto. Eu pretendia manter assim.

Segui elas enquanto iam em direção ao que quer que as atraía. Pareciam horas passando, mas eu nunca cansava. O tempo não parecia se comportar como deveria ali.

Enquanto eu andava, o número delas crescia. Nunca vi nenhuma nova chegar. As figuras simplesmente apareciam, como se sempre tivessem feito parte da multidão e eu só tivesse notado agora. Algumas arrastavam outras atrás. Essas tavam envoltas numa fumaça diferente, cinza em vez de preta, mais grossa, mais pesada. As formas dentro dela não se mexiam sozinhas.

Continuei seguindo. Queria aprender as regras daquele lugar. Já tava claro que eu não conseguia mudar nada ali, mesmo sabendo que era sonho. O espaço resistia a esse tipo de influência. Então resolvi só observar, entender o máximo que pudesse.

O tempo continuou passando, impossível medir quanto. Mais e mais figuras se juntavam, entrando no lugar sem cerimônia, e a única mudança real era a estrutura no horizonte ficando mais perto. Quando chegamos perto, o formato se definiu como algo mais plano. Mais longo. Uma parede.

Ela se esticava até onde a vista alcançava nos dois lados, a superfície emitindo um brilho pálido e fraco que parecia vir de lugar nenhum e de todos ao mesmo tempo. Ouvi primeiro antes de entender o que tava vendo.

O som chegou até mim, gemidos e gritos desumanos que faziam meus dentes doerem, um coro de vozes sobrepostas tão denso que eu não conseguia dizer onde uma acabava e outra começava. Parei de andar.

A parede era feita de carne. Rostos pressionados na superfície em intervalos irregulares, bocas se abrindo e fechando em gritos mudos, a fonte do barulho enterrada em camadas e camadas de matéria viva.

Quando a procissão chegou na beira da parede, as figuras que arrastavam outras começaram a trabalhar juntas. Levantavam e empurravam os fardos pra frente, pressionando contra a superfície viva. Braços brotavam da parede pra encontrá-los. As figuras sumiam sob uma maré de membros agarradores, os contornos se dissolvendo enquanto eram puxadas e absorvidas, os corpos adicionados à massa imensa e gritante. Nenhum dos rostos que eu conseguia distinguir na parede parecia estranho. Eu só não lembrava onde tinha visto antes.

Cambaleei pra trás e virei pra correr, mas meus pés se enrolaram e caí feio, de bunda no chão. De onde tava deitado, olhei pra parede. Todas elas tavam me olhando agora.

As figuras tinham parado. Os rostos incrustados na parede tinham parado. Os gemidos cessaram completamente, substituídos por um silêncio tão absoluto que zumbia nos meus ouvidos, alto o suficiente pra ensurdecer. Então as figuras começaram a se mexer. Devagar no começo. Com cautela. Quando se mexeram, o som voltou, não delas, mas da parede. Sussurros abafados vazavam da carne dos dois lados de mim.

“Saaaaaiiii daaaaquiii.”

As palavras se sobrepunham, espalhadas, saindo de dezenas, centenas de bocas ao mesmo tempo. Enquanto as figuras se aproximavam, os sussurros ficavam mais altos, virando gritos, depois berros, um coro frenético e desesperado me mandando embora. As figuras tavam quase em cima de mim. “SAAAAAI DAAAAAQUIIII”.

Tentei me forçar a disparar. Fazer o que sempre fiz sem pensar, deixar aquela força familiar me arrancar pra cima e pra fora. Nada aconteceu.

O que quer que eu tivesse contado todos aqueles anos atrás, eu não conseguia acessar conscientemente. O pânico tomou conta. Me levantei aos tropeços e corri. Corri até os gritos da parede sumirem ao longe, substituídos pela respiração úmida e irregular das figuras me perseguindo.

Meu peito queimava enquanto eu corria. Mesmo num sonho. Nesse lugar. Cada respiração parecia rasa e rápida demais. Continuei correndo até o espaço ao redor começar a se esticar de novo, o chão puxando como tapete sob meus pés, e minhas pernas parecerem pequenas demais pro distância que precisava cobrir. Eu tava piorando as coisas, percebi de repente.

Me bateu uma clareza súbita: eu tinha conseguido escapar aquelas vezes antes porque nunca tentava. Quando criança, eu não FAZIA nada pra sair dali. Chorava. Entrava em pânico. E então, exausto, simplesmente parava.

A ejeção, o lançamento, seja lá como chamar, sempre vinha depois disso.

Tropecei e, em vez de tentar me equilibrar, me deixei cair. Antes mesmo de bater no chão, aquelas figuras me cercaram. As formas lotando minha visão, a respiração quente, perto e desesperada. Enquanto sentia elas me agarrando e puxando, vi fiapos cinzas subindo da minha pele, queimando onde tocavam. Fechei os olhos e parei de tentar fugir.

Tentei focar na respiração. Tentei lembrar os cachos e padrões do gesso no teto acima do meu corpo, por mais longe e distante que parecesse. Depois do que pareceu tempo demais, tarde demais, aquela sensação familiar voltou. Aquele puxão violento bem-vindo, mas dessa vez não veio de cima ou de baixo, veio de algum lugar dentro de mim. Não resisti, e me deixei ser arrancado pra cima e pra longe daquele lugar.

Acordei ofegante. Acordar parece termo errado, porque nunca senti que dormi. Aquela sensação de ser empurrado pra cima ficou no peito enquanto eu sentava na cama arfando, o fôlego ainda não tendo me alcançado. Por alguns segundos eu não sentia meu corpo, nada. Só um peso afundando no colchão.

Então minha visão voltou ao normal. O quarto se esticou e contorceu. Paredes curvando pra dentro, depois pra fora. Objetos distantes avançando em clareza impossível, o edredom encharcado de suor inchando na visão até eu ver as linhas desfiadas na costura.

Foi aí que vi os olhos.

Eles tavam na altura do pé da cama. Baixos demais pra pertencer a alguém, alguma coisa em pé. Amarelos e sem piscar. Me observando com atenção total. Apertei meus próprios olhos enquanto lágrimas escorriam.

Quando abri de novo, aqueles olhos tinham sumido, mas substituídos por outra coisa. Movimento. O papel de parede no fundo do quarto rasgou com um som úmido e nojento. Dedos cobertos de fiapos forçando passagem pelo gesso por baixo. Se esticando pra tentar se apoiar.

Eu nem conseguia gritar mesmo se quisesse.

Então, tão de repente quanto começou, parou.

O quarto voltou ao normal. As paredes pararam. E aquele silêncio familiar e reconfortante voltou, comum e vazio. Meu coração martelava nos ouvidos, e depois de alguns minutos consegui domar a respiração acelerada.

Depois de um tempinho, peguei o caderno do lado da cama. Queria anotar tudo enquanto lembrava os detalhes, embora algo me dissesse que eu não ia esquecer tão cedo.

Virei pra o que deveria ser uma página em branco. Mas não tinha nenhuma. Em todas as páginas, rabiscado repetidamente, numa caligrafia desesperada e faminta, estavam as mesmas 3 palavras, de novo e de novo.

“NÓS TE VEMOS”.

Ela levou todos eles

A floresta sempre me deu medo. Mesmo morando ao lado dela a vida inteira, nunca me acostumei. Quando meu irmão me arrastava pra dentro das árvores pra brincar, eu sempre ia de má vontade, arrastando os pés. Meus olhos sempre pregavam peças em mim, me fazendo ver vultos espiando por trás das árvores. Eu os encarava agora com os olhos semicerrados. À luz do dia, pareciam só árvores, nada de maligno nelas.

“Mãe, a Vanessa tá olhando pela janela de novo.” Meu irmão caçula me olha como se eu fosse louca. Minha mãe já começou a fazer ouvido mouco pras minhas preocupações. Ela diz que uma garota de dezesseis anos não devia se preocupar com coisas assim. Meu pai nem fingia que escutava. Só revirava os olhos e saía da conversa. “É só a Vanessa sendo Vanessa”, eles diziam.

Suspirando, minha mãe passou por trás de mim, o rosto decepcionado refletido no vidro. “Vanessa, por favor, hoje não?” Eu balancei a cabeça. As árvores ficavam paradas, me encarando de volta. Desde que aquele universitário se matou na floresta, eu estava no limite. Resmungando, minha mãe jogou as mãos pro alto e saiu. “Deixa ela fazer o que quiser, Jason, ela vai passar por isso.”

“Tipo com o namorado dela?” ele disse. Eu me virei na hora.

“Cala a boca, seu nanico. Espera até uma garota pisar no seu coração. Não vem chorar pra mim depois.” Jason só mostrou a língua e saiu correndo. Minha mãe botou a cabeça no canto da porta e me lançou um olhar fulminante. “O quê?” eu retruquei, mais grossa do que precisava.

“Controla esse tom, mocinha, senão eu mesma te jogo lá fora.” Eu revirei os olhos. Como se ela fosse fazer isso. Voltei pra janela. Sentia que estava sendo observada. Uma parte de mim achava que ia pegar alguém ou alguma coisa espiando de trás de uma das árvores.

O jantar estava bom, mas eu não parava de olhar pela janela. Meu pai apontou pra mim com o garfo, um pedaço de carne empalado nos dentes.

“De novo?” ele perguntou. Eu ignorei a provocação; a sensação de ser vigiada voltou. Não entendia como os outros não sentiam. Talvez eu estivesse mesmo enlouquecendo. Minha mãe assentiu, tomando um gole de chá gelado.

“Ela passou a tarde inteira olhando por aí.” Não era bem verdade, mas eu não ia discutir. Meu pai bufou ao largar o garfo.

“Vanessa, querida, isso tá ficando ridículo, não acha? O que aconteceu com aquele cara foi algo que acontece uma vez na vida.” Ele bateu a mão na mesa. As palavras estavam na boca dele e eu me preparei. “Vou precisar que você pare de ter tanto medo da floresta, querida. Talvez esteja na hora de marcar com a Dra. Halloway.” Eu rangei os dentes. Aí o Jason ia abrir aquela boca enorme dele de novo, contar pros amigos. O amigo ia contar pra irmã. Que ia contar pro namorado e pros amigos dela, e assim por diante. O telefone sem fio se espalhando de pessoa em pessoa. Eu ia virar pária de novo. Minhas amizades já eram frágeis o suficiente. Isso ia afundar tudo, eu tinha certeza.

“Tá bom, pai.” Falei baixinho, olhando pro prato. A sensação não ia embora.

Ela continuou enquanto eu lavava a louça. O sol se pôs e a penumbra só aumentou, as sombras se esticando cada vez mais pelo gramado. Só quando tranquei o quarto a sensação sumiu. Deixo as cortinas fechadas por via das dúvidas. O barulho de batidas me acordou de sobressalto. Era um som constante. Um toc, toc leve contra o vidro. Meus olhos foram devagar pra minha janela. Quem quer que fosse, não estava na minha. Lá no corredor, alguém resmungou. Uma porta rangeu abrindo, e passos pesados começaram a descer o corredor. As batidas mudaram de lugar.

“Já vou.” meu pai resmungou, com voz irritada. Tinha outra voz. Essa era claramente feminina. O que minha mãe estava fazendo? Tirei o cobertor, saí do quarto mesmo com o cérebro gritando pra não fazer isso. O chão frio me deu um arrepio. Nenhuma luz acesa na casa. O luar entrava pelas janelas. Meu pai caminhava pro living em direção à porta de vidro corrediça que não era aberta desde a última neve. “Só um momento.” ele murmurou baixinho. Acendi a luz antes que ele pegasse a maçaneta. Ele congelou e virou a cabeça de repente. “Que diabos?” Me olhou com olhos sonolentos.

“Gerald, o que você tá fazendo?” Minha mãe apareceu de roupão, cabelo preto todo bagunçado. Meu pai olhou pra porta, confuso.

“Sei lá, tive um sonho esquisito.” Meu pai nunca foi sonâmbulo na vida. A nuca começou a formigar, e olhei pela janela da cozinha. Tinha algo atrás de uma das árvores. Pisquei e sumiu. Só ficou a impressão vaga de uma figura na minha cabeça. A sensação de ser observada desapareceu junto, enquanto minha mãe levava meu pai de volta pra cama.

No dia seguinte, eu estava no quintal. Meus dedos ainda gelados dentro das luvas. O pompom do meu gorro balançava com o vento, não ajudando em nada na seriedade do que eu ia fazer. A neve estava intocada no gramado. O crunch-crunch me doía nos dentes enquanto eu caminhava devagar até as árvores que margeavam o terreno. Meu pai nunca se deu ao trabalho de fazer cerca; bichos perdidos não incomodavam ele, aparentemente. A ideia de algum intruso sair das árvores e entrar na casa também era ridícula demais pra ele considerar.

As árvores pareciam menos ameaçadoras à luz do dia. Álamos brancos com manchas pretas, tipo dálmata. Neve e gelo grudados nos galhos. A luz do sol entrava entre eles, revelando só galhos caídos e mais árvores. Me sentindo um pouco mais corajosa, passei por uma árvore, vasculhando em busca de movimento. Não sabia o que esperava encontrar, mas me sentia mais tranquila. Meus pais tinham razão, eu só estava imaginando coisas. Meu pai sonâmbulo foi só coincidência estranha. Foi quando me virei pra voltar que vi. Bem atrás de uma das árvores, duas pegadas.

Não eram de botas. Dava pra ver as marcas dos dedos. Saí correndo das árvores, voltei pra casa e tranquei a porta. Meus pais me olharam quando entrei ofegante. Nem conseguia falar, enquanto minha mãe corria pro meu lado.

“O que foi, querida? Respira fundo, como a gente praticou, vai.” O velho hábito voltou. Devagar, respirei fundo algumas vezes, o aperto no peito foi passando.

“Tinha alguém na floresta.” consegui dizer. Meu pai resmungou baixinho.

“Jesus Cristo, não isso de novo.”

“Eu não tô mentindo!” gritei. “Tinha alguém lá, eu vi as pegadas, a pessoa tava descalça!” Meu corpo tremia enquanto implorava pro meu pai. “Vai lá ver, por favor.” Suspirando, ele se levantou da cadeira e foi resmungando. Caminhamos em silêncio até o lugar, mas eu parei antes e só apontei a árvore. Ele resmungou mais e olhou atrás dela.

“Vanessa, isso não tem graça.” ele me chamou. Caminhei até lá meio atordoada. Devia ser a árvore errada, era impossível não ver. “Não tem nada aqui.” Ele me olhou preocupado agora. Pelo olhar, eu sabia que ia ver a terapeuta em breve. Ele me levou de volta devagar, sussurrando no meu ouvido. O resto do dia passou num borrão enquanto minha cabeça girava. A imagem das pegadas queimava na minha mente. Eu não tinha imaginado. A conversa foi quieta e constrangedora. Nenhuma tentativa dos meus pais me fez falar. O que quer que estivesse lá fora ia pegar minha família, eu tinha certeza. Na noite passada ouvi a voz da minha mãe. Será que aquilo podia imitar vozes pra atrair eles pra fora, ou pra se convidar pra entrar? Ela queria minha família, e eu não sabia por quê.

Deitada na cama, o cansaço pesava nos olhos. Não podia dormir. Estava convencida de que o que quer que estivesse lá fora ia atrair a gente um por um pra fora de casa. Por volta da meia-noite, eu tive razão. Dessa vez eram os dois. Não esperei. Abri a porta do quarto e vi eles marchando lado a lado, olhos fechados. Corri pra cozinha e acendi todas as luzes. Não adiantou nada, continuaram andando como se nada tivesse acontecido.

“Acordem!” gritei. Nada. “Acordem, vocês dois! Por favor!” Meus gritos desesperados não os detiveram; eles se separaram, contornaram a mesa da cozinha e voltaram a andar lado a lado rumo à porta de vidro. “Pai, mãe, acordem, por favor!” A floresta estava escura e sombria, a luz afastando a escuridão. Os olhos foram a primeira coisa que notei.

A figura era alta, pelo menos uns dois metros e dez. O cabelo era branco como neve, a pele combinando. Veias azuladas apareciam por baixo. Ela vestia um robe longo e escuro, mas mesmo de longe dava pra ver que os pés estavam descalços. Uma mão longa com unhas afiadas arranhava a casca de uma árvore. A outra acenava com um dedo só. Eu soltei um grito agudo que encheu o ambiente. Meu irmão chorou ao fundo, e de repente mãos me agarraram enquanto a figura sumia na escuridão.

“O que tá acontecendo?” minha mãe me olhou com olhos assustados. Meu pai pegou meu irmão caçula pelos ombros e o levou de volta pro quarto. Ele olhou por cima do ombro uma vez, olhos cheios de preocupação. “Vanessa, o que você tá fazendo?” ela sussurrou brava. Eu a olhei confusa. Do que ela tava falando? Ela me abraçou. Eu nem sabia o que dizer. “Segunda-feira a gente vai na Dra. Halloway, querida. Vamos resolver isso. Não pode ficar saindo na neve assim.” A frase era loucura. Ela me levou pro quarto e me cobriu como se eu tivesse oito anos. Puxou o cobertor até meu queixo, deitou do meu lado, e o sono acabou me levando.

Enquanto as horas de domingo passavam, um pavor foi crescendo no meu corpo. Ela ia voltar naquela noite, e dessa vez meu irmão caçula ia junto com meus pais. Olhei pro Jason enquanto ele comia um bowl de cereal açucarado. Ele olhava pro prato, mexendo os flocos encharcados. Eu não fazia ideia de como me preparar. A mulher alta era algo além desse mundo. A única coisa que eu entendia era que ela não podia entrar na casa. Tudo que eu podia fazer era tentar acordar eles à noite. Não tinha como eu sair escondida. Meus pais me vigiavam do living, a TV mais baixa do que nunca.

Passei o dia inteiro em silêncio, dormindo em alguns momentos. Quando a noite caiu, notei que meus pais demoraram mais pra dormir. Às onze eles finalmente desligaram a TV e foram pra cama. Fiquei acordada mais uma hora agoniante. Quando ouvi a respiração deles, saí do quarto devagarinho. Cada movimento lento e cuidadoso. A primeira coisa que fiz foi olhar a porta de vidro corrediça. Meu coração subiu pela garganta. Ela já estava lá. Um sorriso largo rachava o rosto dela, dentes brancos como o cabelo. Devagar, ergueu a mão e começou a acenar. Algo lá no fundo me dizia que eu não tinha muito tempo. Abri uma gaveta com tudo e peguei uma caixa de tachinhas. Ia me preocupar com a bronca depois; só precisava que eles acordassem. Alinhei as tachinhas na frente da porta de tela, sem tirar o olho da mulher, decidida a não deixar ela me abalar.

Peguei um pedaço de corda que tinha trazido, amarrei no fim do corredor. A mulher ficou parada, só o dedo longo se mexendo. Acenando. Depois fui pras janelas e portas. Preguei tachinhas na porta da frente e tranquei com ferrolho. A casa ainda em silêncio; o feitiço que a mulher lançava na minha família logo faria efeito. Por que não funcionava comigo eu não sabia. Não tinha tempo pra pensar nisso. Só restavam poucas tachinhas, e tentei dividir na frente dos quartos dos meus pais e do meu irmão. De repente, todos começaram a se mexer. Corri pra cozinha, acendi todas as luzes e tirei panelas e frigideiras dos armários. Era idiota, coisa de Esqueceram de Mim, mas eu não sabia mais o que fazer.

Encarei a mulher sorridente pela janela enquanto as portas dos quartos dos meus pais e do meu irmão abriram ao mesmo tempo. As primeiras tachinhas não fizeram nada. Comecei a bater panela com panela. Gritei, berrei, e eles continuaram avançando, olhos bem fechados. Meu pai tropeçou na corda e caiu de cara, um estalo nojento veio depois. Minha mãe tropeçou nele, mas se levantou rápido. Bater as panelas não adiantou. Jason passou por cima do meu pai e virou pra porta da frente. Meu pai se ergueu devagar e marchou pra porta de vidro.

Eu fiquei no meio dos dois grupos. Dei um passo na direção do meu irmão, mas minha mãe passou direto por mim. Agarrei o braço dela tentando puxar pro chão, e por isso fui jogada no chão. Ouvi a tranca abrir, um som tão simples e suave. Depois a porta rangeu e vi meu irmão sumir na quina da casa. Uma risada horrível veio da mulher. Zombava de mim enquanto eu me agarrava ao tornozelo da minha mãe, gritando. Ela pisou nas tachinhas e por um segundo deu um pulo, antes de escancarar a porta de vidro.

O ar gelado entrou, e eu a perdi tão rápido quanto. Nada do que fiz funcionou minimamente. Meu pai passou por mim empurrando, tentei com todas as forças parar ele. Girei a frigideira e acertei a cabeça dele. Fez um baque horrível, e vi o sangue escorrendo pela testa. Ele parou por um segundo. Depois puxou o braço pra trás e socou.

Não senti o soco, mas senti a dor latejando na cabeça quando me levantei do chão. O sol já tinha nascido, e o ar frio entrava. Eu estava dormente, tremendo e sacudindo no chão. Pegadas marchavam pela neve em direção à floresta. Coloquei a cabeça entre as pernas e chorei.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Aaron

O pai voltou com aquela cara triste de novo; claro, não tinha conseguido a vaga. Ele trabalhava num mercadinho cujo dono era um filho da puta cruel, e as provocações idiotas e revoltantes daquele cara tinham ficado insuportáveis. O pai aguentou seis meses. Ninguém mais teria aguentado. A humilhação constante, a paciência infinita, tudo aquilo pesava nele, mas ele nunca reclamava, nunca deixava transparecer em casa. Carregava o fardo em silêncio, como se sofrer fosse algo esperado dele, algo que ele já tinha aceitado há muito tempo.

O pai era meu herói, na verdade mais que isso. Ele não era só encorajador; era animado, carismático pra caralho. Nosso laço ia além do relacionamento típico de pai e filho; era profundo. Ele lia minha cara com uma facilidade absurda, como se estivesse recebendo cópias impressas dos meus pensamentos em tempo real. A conexão era tão forte que eu sentia a presença dele mesmo no meio de centenas de pessoas, como se um fio invisível sempre nos ligasse, puxando de leve toda vez que um de nós se afastava demais.

A busca incansável por emprego continuava. Ele se cadastrava em todos os sites de vaga que encontrava, preenchia formulários até altas horas da madrugada, os olhos cansados mas cheios de esperança. Os e-mails de rejeição se acumulavam, mas ele nunca deixava que isso o desacelerasse. Toda manhã ele acordava com a mesma determinação, convencido de que a persistência um dia ia ser recompensada.

Ele era religioso, ia bastante à igreja. O bispo de lá adorava a presença dele e o chamava de alma nobre, alguém destinado a sofrer. O pai se preocupava especialmente com meu problema de gagueira. Ele acreditava que tinha que existir uma cura, algum jeito de tirar o peso que falar colocava em cima de mim. Por isso, rezava sem parar, torcendo por um milagre que tornasse minha vida mais fácil que a dele.

Uns dias depois, o pai veio correndo na minha direção, o rosto iluminado, a respiração ofegante, os olhos arregalados de empolgação. Isso mesmo, ele tinha conseguido a vaga. Era um e-mail de um dos sites onde ele se candidatou. Ele me entregou o notebook com as mãos tremendo e disse: “Lê isso, Simon.”

O e-mail dizia que a candidatura dele para o cargo de Auxiliar num centro de pesquisa tinha sido aceita. A equipe de pesquisa era formada por quatro cientistas trabalhando num projeto sigiloso, e o horário podia se estender por causa da falta de mais auxiliares. Mudança de cidade poderia ser necessária, mas as ajudas de custo já estavam incluídas no salário. Assim que terminei de ler, o pai abriu um sorriso enorme, sorrindo como uma criança que acabou de ganhar um prêmio que nunca achou que ia conseguir. “Viu? Eles precisam de um auxiliar. O salário é mais que bom pra recusar, Simon”, ele disse, sem conseguir esconder a alegria.

“É, ótimo, mas você vai me deixar aqui sozinho”, eu respondi. “Você não vai conseguir viajar todo dia. Como a gente vai se virar?” Ele deu um suspiro leve e colocou a mão no meu ombro. “Essa vaga significa muito pra mim, filho, principalmente o dinheiro. A gente tem contas. Você tem dezesseis anos; ainda não entende. Eu tô fazendo isso pra garantir o seu futuro. Vou te visitar todo fim de semana. Não precisa se preocupar.” No dia seguinte, o pai foi trabalhar, e a casa ficou mais silenciosa do que nunca.

Enquanto isso, eu comecei a praticar tutoriais de fala, vídeos feitos pra quem gagueja. Queria fazer uma surpresa pra ele quando voltasse, mostrar que as orações dele não tinham sido em vão, mesmo que o milagre chegasse devagar e imperfeito. Duas semanas se passaram. O pai não veio nenhuma vez, embora a gente conversasse bastante no telefone, a voz dele sempre cansada, sempre distraída, como se algo não parasse de puxar a atenção dele.

Uma noite, ele me ligou às duas da manhã. Parecia bêbado, a voz fraca mas estranhamente animada. “Simon… Eu vou te visitar logo”, ele disse. “Mas escuta com atenção. Tô te mandando um pacote. Dentro dele tem o Aaron.” Confuso, eu o interrompi, perguntei quem era Aaron, mas ele falou rápido, com urgência, mandando eu não deixar cair nas mãos de ninguém, não sair de casa, não visitar os amigos, e ficar em casa até chegar no dia seguinte. Disse que me amava e desligou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.

Na manhã seguinte, acordei com uma sensação estranha, ansiedade sem motivo. Meu corpo estava bem, mas os pensamentos estavam caóticos, quase paranoicos. Enquanto eu me perdia neles, a campainha tocou três vezes seguidas, rápido. Quando abri a porta, só vi um pacotinho pequeno, não maior que uma caixa de dois por dois. O pacote do pai. O entregador já tinha sumido. Achei que vi alguém correndo entre as árvores ali perto, mas as folhas tampavam a maior parte da visão.

Parecia uma encomenda comum da Amazon. Entrei, peguei uma faca e abri. Dentro não tinha nada, só um saquinho com um pó brilhante. “Hã”, murmurei. “Entrega errada.” Liguei pro pai na hora e contei tudo. A voz dele ficou urgente. “Simon, esse pó brilhante é o Aaron”, ele disse. “São nanopartículas. O sr. Arthur vai explicar tudo. Tô passando o telefone pra ele.”

O ar ficou com cheiro metálico, e meus pensamentos pareciam ser puxados, como se algo invisível estivesse mexendo neles. Ouvi uns chiados fracos, metal raspando em metal, antes que outra voz interrompesse. “Alô, rapaz”, o homem disse calmamente. “Aqui é Arthur, cientista sênior. Seu pai é um homem trabalhador. Não decepcione ele. No momento em que estamos falando, o Aaron já entrou em você.” Ao fundo, eu ouvia o pai gritando que ia me visitar em dois dias.

Meu coração deu um pulo. Perguntei que tipo de piada doente era aquela, mas aí percebi uma coisa aterrorizante. Eu não tinha gaguejado nenhuma vez, nem uma pausa, nem uma palavra quebrada. Falei fluente, perfeito. Uma alegria imensa tomou conta de mim, sufocando o medo, mas a ligação caiu de repente, e o desconforto ficou.

A gagueira tinha sumido, mas algo dentro de mim não estava satisfeito. Parecia que eu tinha engolido algo estragado. Minha temperatura corporal subiu, os pensamentos vagavam, e eu sentia que não estava mais no controle total. Aí o Aaron falou dentro de mim, usando minha própria voz mas com uma identidade diferente. Senti como se estivesse acorrentado em algum lugar fundo na minha mente, consciente de mim mesmo mas sem poder agir, enquanto o Aaron assumia completamente, me deixando suspenso num estado parecido com sonho.

Horas depois, recuperei o controle. Pra testar, falei de novo, e a gagueira voltou. Isso queria dizer que eu era eu mesmo outra vez, embora ainda ouvisse um zumbido fraco dentro de mim, como alguém respirando logo abaixo dos meus pensamentos. O ciclo se repetia. O Aaron dominava por horas enquanto eu dormia, e quando acordava, meu hálito cheirava forte e minhas unhas pareciam um pouco avermelhadas — detalhes que eu não conseguia explicar.

Uma noite, enquanto descia a escada correndo, escorreguei e caí vários degraus, batendo a cabeça forte o suficiente pra desmaiar. Enquanto a escuridão chegava, senti aquela sensação familiar de ser acorrentado voltar, mesmo enquanto meus membros se mexiam sozinhos. Quando acordei depois, não lembrava do que tinha acontecido no intervalo.

No dia seguinte, a campainha tocou de novo. Percebi que estava sendo eu mesmo e espiei pela porta pra ver o pai ali parado. Antes de abrir, corri pro quarto e rabisquei um bilhete: Vamos conversar só por linguagem de sinais por um tempo. Nada de falar. Abracei ele quando abri a porta e entreguei o papel. Ele sorriu, feliz porque eu conseguia falar fluente de novo, sem saber que eu não conseguia, não como eu mesmo. Quando o crepúsculo chegou, meus pensamentos giraram em espiral, e eu me tranquei no quarto, decidido a não abrir a porta até estar no controle outra vez.

Na manhã seguinte, acordei com um gosto metálico na boca. Meu hálito cheirava forte, minha camisa estava manchada de sangue, e minhas mãos tremiam enquanto eu olhava pra elas. A janela do quarto estava quebrada. O que quer que o Aaron tivesse feito, ele tinha saído de casa. Eu estava mais assustado pelo pai do que por mim mesmo.

Naquela noite, o Arthur chegou.

Ele nem pediu pra entrar. Me disse na lata que meu pai tinha sido mandado exatamente pra isso, e que ele queria me dar “a cura” de presente. O Aaron precisava de matéria orgânica familiar durante a integração inicial. Meu pai tinha consentido, achando que ia me salvar. O Arthur falou sem pedir desculpa, como se estivesse explicando uma falha mecânica. Quando terminou, senti o zumbido ficar mais profundo, mais estável que antes.

Eu não discuti. Virei pro lado da parede e bati a cabeça nela com toda força que consegui.

Quando acordei, o Arthur tinha sumido. A casa estava quieta.

Agora eu vivo com o Aaron. Quando ele domina, eu estou consciente mas impotente, sem poder agir ou interferir. Quando eu volto, tudo está arrumado. Eficiente. Não tem mais gagueira. Não tem mais perguntas. Não tem mais pai.

Em todo o tempo que vivi com o Aaron, aprendi uma coisa que ele nunca vai admitir. O Aaron tem medo da consciência. Ele consegue imitar pensamento, prever comportamento, otimizar respostas, mas não consegue entender a consciência. Não entende o que é existir.

Toda vez que eu estava totalmente acordado, ele hesitava. O zumbido suavizava, a certeza dele rachava.

Consciência não é algo que ele consiga sobrescrever de forma limpa.

Por isso ele prefere quando eu estou inconsciente. Por isso ele prospera no sono, na lesão e na ausência. A consciência o assusta, não porque ameaça o controle dele, mas porque existe fora da lógica dele.

Eu entendi então que, enquanto eu permanecer consciente, o Aaron nunca vai estar completo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Meus Amigos Tiveram um Cachorro Biológico

Todo mundo tem aqueles amigos meio esquisitos, mas que a gente continua frequentando mesmo assim. Pra mim, Monica e Rand eram esses amigos.

Eu conheci o casal inicialmente através da minha ex-namorada Kyla, que me apresentou a eles numa festa. Eles se conheciam há uma eternidade e a gente saía bastante junto como grupo. Quando Kyla e eu terminamos e ela se mudou, eu simplesmente continuei saindo com eles. Eram pessoas divertidas e sempre tinham um jeito de deixar tudo leve que eu curtia — mesmo com as manias deles.

Eles eram o tipo de casal que tratava os bichos de estimação — e tinham vários — como filhos. Eu também amo animais, então isso nem seria problema pra mim. Mas eles levavam pra outro nível. Tinham um carrinho de luxo pra passear com o coelho, vestiam o gato com roupas caras e cozinhavam refeições gourmet pro jabuti. Mas nunca parecia suficiente.

Quando alguém perguntava se eles pretendiam ter filhos, eles sempre respondiam piscando e dizendo que estavam tentando engravidar... um filhote de cachorro.

Como eu também não quero filhos, sempre ria junto com eles daquela piada boba que quebrava o gelo. Mesmo assim, apesar do absurdo, aquilo me deixava um pouco incomodado. Conhecendo aqueles dois, uma parte de mim acreditava que eles realmente dariam à luz um cachorro se a natureza permitisse.

O dia finalmente chegou em que Monica e Rand anunciaram que tinham recebido um novo bebê peludo na família. Me ligaram todo animados convidando pra ir lá conhecer ele, e eu aceitei na hora. Eles tinham bom gosto pra escolher bichos fofos.

Cheguei na casa deles com um brinquedo de morder de presente e fiquei surpreso com o quanto o casal estava de bico calado sobre o cachorro novo. Normalmente, depois de pegar um bicho novo, eles falavam sem parar sobre a história de como escolheram, a raça e tal. Mas dessa vez, só sorriam e me levaram pro andar de cima, pra um dos quartos de hóspedes.

Pra minha confusão, vi que o quarto que normalmente ficava vazio tinha sido transformado no que parecia um quartinho de bebê. Tinham brinquedos e decorações com tema de cachorro espalhados, mas parecia mais algo pra um bebê que ama cachorros do que pra um cachorro de verdade.

Monica apontou com carinho pro canto do quarto e eu vi algo que esperava ver ainda menos: um berço.

“Conheça nosso cachorro biológico, Pete.”

Resisti à vontade de fazer careta com a piada de sempre deles. Espiando por cima das grades do berço, vi deitado nos lençóis fofinhos... um filhote. Um cachorro, exatamente como eles tinham dito.

E ao mesmo tempo, não parecia nada com nenhum cachorro que eu já tinha visto na vida.

O filhote de beagle tinha pelo curto, quatro patas, rabo — tudo que um cachorro tem. Mas tinha algo tão... errado. O rosto dele parecia assustadoramente humano. As pernas e braços dobrados do jeito que um bebê fica. O pelo marrom e preto parecia familiar de um jeito humano.

E quando ele se mexeu, piscando pra mim com sono, eu vi os olhos. Olhos azul-claros.

“Não é uma graça?” perguntou Rand todo empolgado.

Me sacudi do desconforto e lembrei por que eles tinham me chamado.

“Uh, ah, é a coisa mais fofa, haha”, falei com a voz mais carinhosa que consegui fingir. “Onde, uh, vocês pegaram esse carinha?”

Monica olhou pra Rand, levou a mão à boca e sussurrou:

“Tá bom, não conta pra ninguém, mas...”

Meus olhos se arregalaram, meio que esperando uma história macabra de parto.

“...pegamos de um criador.”

Os dois riram, depois se calaram pra não acordar o filhote dormindo.

“Culpados, eu sei”, disse Rand. “A gente normalmente adota vira-latas, mas esse a gente tinha que ter. Como dá pra ver, ele é o cachorro perfeito pros dois.”

Concordei sem graça, deixei o brinquedo de morder com eles e fui embora. Monica e Rand sempre foram excêntricos e exagerados com os bichos, eu sabia disso. Mas montar um quarto de bebê inteiro pra um filhote? Eles tratavam os pets como filhos, sim, mas isso era demais até pra eles.

E ainda tinha a aparência do Pete. Talvez fosse o nome humano, ou o berço, ou a piada de “cachorro biológico” influenciando minha percepção. Mas algo no jeito que ele parecia não me descia. Aquela história de criador era real, ou eles tinham escolhido o cachorro mais esquisito do abrigo pra combinar com a brincadeira de “cachorro biológico”? Aqueles malucos fariam isso.

Por outro lado, pensei, Monica e Rand tinham sido bons amigos pra mim ao longo dos anos. Quando Kyla e eu terminamos, eles foram os maiores incentivadores pra gente voltar. Ficaram um tempo tentando juntar a gente de novo, procurando algum ponto em comum que nos unisse como casal, apesar das diferenças. Talvez só quisessem sair em casal de novo. Mas eu agradecia o esforço.

Um filhote que ainda não tinha “crescido pro visual” e um quarto de cachorro não eram motivo pra abandonar uma amizade de anos.

Então, nos meses seguintes, vi cada vez mais do estranho Pete.

Em festas e encontros na casa de Monica e Rand, outros amigos do casal comentavam a mesma coisa pra mim. Eu não era o único que tinha reparado nas características sinistras do bicho novo deles. E, como sempre, Monica e Rand só riam e continuavam a piada.

“O pequeno Pete tem os olhos dos dois!”

“Pegou o nariz do pai e os lábios da mãe!”

“Nossos genes de cor de cabelo são tão fortes que ele pegou os dois!”

Esses comentários podiam ser engraçados se não fossem assustadoramente verdadeiros. Os olhos do Pete realmente pareciam uma mistura dos olhos azuis de Monica e Rand — olhos azuis são bem raros em beagles. O nariz torto e os lábios finos realmente pareciam com os dos respectivos “pais”. E o pelo marrom-claro e preto era idêntico ao cabelo castanho de Monica e ao preto de Rand.

A maioria das pessoas ignorava as coincidências estranhas, achando graça na novidade. Mas, conforme o filhote virava cachorro, ficava cada vez mais óbvio que as esquisitices não paravam na aparência.

Eu via cada vez mais essas coisas. Pete andando desajeitado como uma criança pequena, se inclinando pra trás como se tentasse andar em duas patas. Ou mexendo a boca como se tentasse falar quando as pessoas conversavam perto dele, como uma criança aprendendo a falar. Mas o pior era o jeito que ele te encarava. Não era um olhar curioso de cachorro feliz, era um olhar humano triste, implorando. Isso, e os latidos que pareciam gritos.

Ficar perto do casal e do bicho surreal deles foi ficando cada vez mais difícil pra mim. Eles se jogavam na brincadeira de que ele era filho deles, rindo sobre em que escola ele ia estudar ou que esporte ia praticar. Dava nojo. Enquanto isso, Pete não se dava bem com nenhum dos outros animais da casa. Eu não aguentava ficar perto dele, mas ele sempre vinha atrás de mim.

O estopim veio no dia em que o Pete com cara de gente veio mancando com aquele andar humano, me encarou com aquele olhar humano e largou um pedaço de papel no meu colo.

“Nossa, que fofo, parece que o George é o tio favorito do Pete”, riu Monica, tomando seu vinho.

“Sabe, George, talvez isso seja um sinal pra você ter um seu também”, gargalhou Rand, virando seu copo.

Rir falso como sempre e rapidinho escondi o papel no bolso. Por sorte, ninguém pareceu ver. O que quer que fosse aquilo, eu quis ler longe da interferência do casal.

Quando finalmente me afastei do grupo, tirei o papel do Pete e vi que era o resto amassado de um cartão de visitas.

“The Kin Kennel

Para a próxima peça da sua família animal, com um pedaço de você.”

Era do criador que Monica e Rand tinham usado pro Pete, tenho certeza. Então a história de criador que me contaram era verdade, afinal. Mas por que tinham sido tão discretos sobre o lugar? E por que o Pete — um cachorro de verdade — parecia querer que eu soubesse disso?

Não dava mais pra enterrar o que eu sentia sobre o bicho deles. Tinha que investigar, nem que fosse mais por mim do que por aquele cachorro coitado.

Naquela mesma noite, depois de sair da casa deles, fui pro endereço do cartão. Era uma casa residencial num bairro bom, o que não era tão surpreendente pra um criador de animais. Vi a campainha e pensei em várias formas de entrar. Mas escolhi a mais imprudente. Não queria só ser mandado embora. Queria respostas.

Então, dei a volta, forcei a porta do porão com uma pá que tava perto do galpão e desci.

Quando acendi a luz, esperava encontrar algum tipo de fábrica de filhotes. Mas o que me cercava era um laboratório. Limpo, brilhante e estéril, igual o consultório de um veterinário, mas com mais equipamentos científicos espalhados. Atrás de mim tinham armários com prateleiras cheias de amostras etiquetadas. Não sabia nem por onde começar a procurar informação. Por sorte, uma fonte apareceu bem naquela hora.

“Quem diabos é você e o que tá fazendo aqui?!” gritou um homem de robe do topo da escada.

“Eu é que devia perguntar isso pra você!”, retruquei, já pegando o celular. Antes que ele ameaçasse chamar a polícia, comecei a tirar foto de tudo.

“Ou você começa a falar o que faz com esses animais, ou essas fotos vão direto pra polícia!”. Pra reforçar, levantei o celular pro cara de óculos. Ele parou um instante, pensando, e depois sorriu.

“Tá bem, então, intruso”, disse, pigarreando. “Meu nome é Dr. Welsh. Eu era um embriologista humano renomado e apaixonado por animais. Aí me demitiram, então resolvi unir minhas duas paixões na vida. Imagino que você tenha visto os resultados do meu trabalho?”

Olhei em volta, tentando segurar o horror que tava começando a entender.

“Meus amigos... Monica e Rand... o cachorro deles... não é um cachorro normal, né?”

“É o que o novo normal de cachorro deveria ser”, ele se gabou. “Esses dois foram ótimos clientes. Eles entenderam a verdade — animais são os filhos perfeitos. Eu odiava ajudar pais a terem filhos humanos. Crianças são grossas, barulhentas, ingratas. Mas adorava ajudar amigos a adotarem animais. Animais são gentis, macios, leais.”

O rancor começou a invadir a voz dele.

“Só tinha um problema pra resolver. Pais de crianças veem a si mesmos nos filhos. Pais de pets não veem. É uma injustiça que eu agora corrijo. Eu injeto DNA humano dos dois ‘pais de cachorro’ nos embriões dos futuros pets deles. Aí, quando a ninhada nasce, entrego um filhote com um pedacinho de cada um.”

Só sobrou uma pergunta macabra pra eu fazer.

“...cadê essas ninhadas?”

Nada poderia ter me preparado pro que vi quando o Dr. Welsh me levou pro lado de fora e abriu a porta do galpão.

De uma vez entendi que o Pete, por mais perturbador que fosse, tinha sido o mais apresentável dos irmãos. Um mar de rostos e corpos de filhotes retorcidos e aberrantes se espalhava pelo galpão escuro. Criaturas no meio do caminho entre humano e cachorro, com misturas confusas de pele e pelo, mãos e garras, bundas e rabos. Gritando gritos infantis e animalescos, pedindo confusos por morte.

Eu dei isso a eles.

Enquanto o Dr. Welsh tentava me impedir debilmente, o velho não conseguiu. Naquela noite, toquei fogo no galpão com um fósforo, acabando com o sofrimento de todos aqueles híbridos dementes. O mais importante, porém, deixei o laboratório da casa intacto — pra quando as autoridades chegassem.

Monica e Rand foram presos pouco depois por usarem o criador experimental ilegal. Até que enfim. Por misericórdia, depois de ser apreendido pela polícia, o “cachorro biológico” deles foi sacrificado também. Aqueles olhos azuis desesperados do Pete não iam mais me assombrar.

A notícia se espalhou entre a maioria dos nossos amigos sobre o que tinha acontecido. Foi tudo bem no sigilo, porque ninguém queria admitir que tinha feito vista grossa pro cachorro claramente humanizado por tanto tempo.

O melhor resultado de toda essa confusão, porém, foi a Kyla me procurando algumas semanas depois. Ela não fazia ideia do porquê nossos amigos tinham sido presos, e coube a mim contar. Tomando café, minha antiga paixão e eu começamos a nos reconectar como se o tempo não tivesse passado. Quando mencionei o nome de Monica e Rand, ela falou primeiro.

“Pelo visto, eles foram pra cadeia, acredita?!” exclamou ela. “E pensar que aconteceu logo depois que eles apareceram e largaram esse filhote esquisito comigo.”

Meu sangue gelou. As colherzinhas na mesa de repente me lembraram das que eu tinha usado na casa do casal, cobertas do meu DNA.

Fiquei horrorizado vendo Kyla pegar na bolsa e tirar um filhotinho de cocker spaniel — um presentinho dos nossos amigos alteradores de cachorros e casamenteiros.

“George, você não vai acreditar o quanto essa menininha parece com a gente...”

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Há meses, meu filho vem colocando os dentes de leite dele embaixo do travesseiro. Toda noite, quando eu chego no quarto dele, eles já sumiram...

O Milo tá naquela idade em que os dentes de leite das crianças caem da boca como fruta madura caindo do galho. Uns meses atrás, ele perdeu dois dentes bem no meio do treino de beisebol: um incisivo lateral e um molar. Nas duas vezes, ele veio correndo até meu lugar na arquibancada, sorrindo largo, queixo sujo de terra, agitando os dentes pra todo mundo ver, pros outros pais ficarem olhando.

Naquela noite, eu entrei de fininho no quarto dele com uns dólares dentro de um saquinho plástico. Meus filhos nunca acreditaram em Fada do Dente, nunca mesmo, mas quem não curte uma tradição que faz você acordar com dinheiro? Eu cheguei perto da cama dele e enfiei a mão com cuidado embaixo do travesseiro, mas não achei o saquinho que eu tinha mandado ele colocar os dentes. Pra não correr o risco de acordar ele, coloquei o dinheiro ali mesmo, achando que ele tinha esquecido de colocar.

De manhã, ele jurou de pé junto que tinha colocado os dentes no saquinho embaixo do travesseiro e sugeriu que talvez tivesse caído entre o colchão e a cabeceira. Parecia uma explicação razoável, mas depois de deixar as crianças na escola, eu praticamente desmontei a cama dele e mesmo assim não achei os dentes. Não estavam encaixados embaixo do colchão, não tinham caído no chão, nem escorregado pra dentro da fronha. Fiquei sem entender. Só me restava torcer pra que o Milo tivesse jogado os dentes fora sem querer. A alternativa era que estivessem presos em alguma fresta da cama e eu fosse encontrá-los meses depois, já marrons e podres.

Há umas semanas, aconteceu de novo. No meio do jantar, o Milo de repente ficou parado. Eu cruzei o olhar com ele do outro lado da mesa enquanto ele fazia careta, pegou um guardanapo e cuspiu um bocado de comida meio mastigada ali dentro. No meio daquela gororoba, aparecia um dente branquinho brilhando. Meu marido, brincando que o Milo tava nos sangrando até secar, lembrou pra ele colocar o dente embaixo do travesseiro dessa vez. O Milo assentiu.

E mesmo assim, quando eu tentei repetir meu papel de Fada do Dente, não consegui consertar o fracasso anterior. De novo, não achei o dente. Eu lembro de ficar ali parada no escuro do quarto dele, pensando nas possibilidades. Uma vez era um descuido compreensível; duas vezes significava que o Milo estava fazendo alguma coisa com os dentes. Alguma coisa que, por algum motivo, ele não queria que eu soubesse.

Desviei o olhar da cama e varri o chão com os olhos, cheio de pilhas de roupa e brinquedo. Tinha uma pilha em especial no canto do quarto que eu não lembrava de ter visto mais cedo naquele dia. Fiquei um tempão encarando aquele monte disforme que provavelmente era roupa pendurada na cadeira da escrivaninha dele, depois voltei a atenção pro Milo. Pela luz fraca que entrava do corredor, dava pra ver que os olhos dele estavam bem abertos e olhando direto pra mim.

A visão me deu um susto. Eu dei um pulinho, pedi desculpa por ter acordado ele e falei alguma coisa sobre não conseguir achar o dente. Por um instante, achei que o olhar dele tinha se desviado pra alguma coisa atrás de mim, alguma coisa no canto do quarto. Depois, ele perguntou baixinho se a gente podia conversar de manhã. Me sentindo envergonhada e estranhamente inquieta, concordei e saí do quarto.

Não tive chance de conversar com o Milo na manhã seguinte. A irmãzinha dele ficou doente, grave o suficiente pra eu ter que faltar no trabalho, e quando a bagunça acalmou, os dentes sumidos já tinham ido pro fundo da minha cabeça. Passaram vários dias até eu lembrar deles de novo.

Uma noite da semana passada, quando a gente tava deitando, finalmente contei tudo pro meu marido — sobre os dentes e sobre aquela inquietação crescente que tinha começado a pintar minhas conversas com o Milo. Meu filho estava escondendo alguma coisa de mim, e quanto mais o tempo passava sem eu tocar no assunto, mais preocupada eu ficava.

No começo, meu marido não dividiu minha preocupação. Ele riu e sugeriu que talvez a Fada do Dente fosse real mesmo, roubando os dentes do Milo antes de eu chegar lá. Mas o tom dele mudou quando eu falei das pequenas mudanças que tinha notado no nosso filho. Nas últimas semanas, o Milo tinha ficado mais reservado. Ainda era quase sempre alegre, mas tinha uma energia nervosa por baixo, algo inquieto e tenso. Eu pensava se estavam zoando ele na escola. Ele sempre foi um pouco queridinho dos professores (um fato que eu sempre tive medo que pudesse torná-lo alvo), mas não conseguia encaixar os dentes sumidos nessa hipótese.

“Sabe uma coisa que eu notei ultimamente?”, meu marido perguntou de repente. “Ele não pede mais nada. Doce, roupa, videogame… ele vivia me pedindo pra aumentar a mesada dele a cada quinze dias. Vai saber; talvez não seja bullying, talvez seja só ele começando a crescer.”

Eu continuei insatisfeita com essa explicação. Ontem, só fui perceber na hora do jantar que ele estava sem um incisivo central. Eu nem sabia que estava mole. Quando perguntei quando exatamente ele tinha perdido o dente, ele só deu de ombros, dizendo que devia ter caído na hora do almoço.

Olhando agora, tudo arrumadinho assim, não tinha nada de intrinsecamente suspeito nos dentes sumidos. Dava pra explicar fácil com descuido de criança. Mesmo assim, eu não conseguia me livrar da sensação de que alguma coisa estava errada. Estava tão convencida disso que passei na escola do Milo hoje à tarde, bem na hora da saída. As moças da recepção não curtiram muito minha visita sem aviso, mas acho que eu já ajudei em tantos eventos da associação de pais que deixaram passar. A secretária me acompanhou até os portões principais e me levou até a sala do Milo.

A essa altura, a maioria das crianças já tinha saído do prédio e ido pro pátio esperar os pais. A secretária voltou pra recepção, e eu olhei pelo vidrinho estreito e retangular da porta pra ter certeza de que o professor do Milo, o Sr. Haskett, ainda estava lá. Ele estava sentado na mesa dele, com cara de exausto. Eu vi ele abrir uma latinha de Altoids na mesa e jogar uma pastilha na boca. Ele se recostou na cadeira e fechou os olhos como se tivesse acabado de dar uma tragada longa num cigarro. Achando graça, abri a porta devagar, tentando não assustar ele.

Quando entrei na sala, ele me olhou surpreso, mas logo trocou por um sorriso largo. Me cumprimentou pelo nome e fez sinal pra eu sentar na cadeira do outro lado da mesa. Papéis amassaram e as pastilhas chacoalharam na latinha enquanto ele rapidamente limpava o tampo da mesa, enfiando tudo numa gaveta enquanto eu puxava a cadeira.

“Desculpa aparecer tão tarde”, eu disse, sentando na frente da mesa dele. “Sei que o dia já acabou.”

“Não tem problema nenhum”, o Sr. Haskett disse. “Fico feliz que tenha vindo. O Milo é um dos meus favoritos.”

Eu sorri automaticamente com isso. “Ele sempre gostou da escola — esse ano com o senhor em especial”, eu disse. “Ultimamente, porém, ele tem ficado um pouco… retraído, digamos assim.”

Haskett assentiu, ouvindo. “Notei que ele tá mais quieto”, disse. “Mais independente. Faz o trabalho dele sem eu precisar falar nada. Não pede muito.”

“Ah, pois é, isso é uma coisa que eu e meu marido também percebemos”, eu disse. “Sei que parece besteira reclamar de uma criança que pede menos, mas é como se ele tivesse decidido que não precisa mais de nada.”

“Às vezes isso faz parte de crescer”, ele disse. “As crianças chegam nessa idade em que gostam de fazer as coisas sozinhas. Não querem que entreguem tudo de mão beijada.”

Pensei nisso por um momento. “Então, além dele ficar um pouco mais sério, o senhor não notou nada estranho? Nenhum problema com as outras crianças?”

“Não vi nada fora do comum”, ele disse, com tom calmo e confiante. “O Milo é um menino inteligente e gentil. Bem querido pelos outros alunos.”

Eu assenti, sem saber mais o que dizer. Conversamos mais uns minutos sobre coisas da escola, depois agradeci pelo tempo dele e me levantei, alisando a saia enquanto me virava pra porta. Foi aí que notei os nichos ao longo da parede do fundo. A maioria estava vazia agora, só com luvas esquecidas e folhas de atividade perdidas.

Um não estava. O nome do Milo estava impresso bem arrumadinho na etiqueta. Dentro, tinha um par de tênis cano alto que eu reconheci na hora. Umas semanas antes, a gente tinha ido fazer compras de roupa de inverno juntos. O Milo tinha parado de repente na frente de uma vitrine, colado as mãos no vidro e apontado pra eles todo animado. Eu disse que eram caros demais, e ele assentiu e deixou pra lá, guardando a decepção tão direitinho que quase doeu ver.

“Esses tênis”, eu disse, apontando. “O senhor viu o Milo usando esses tênis?”

Haskett olhou pra lá, depois deu de ombros. “Não tenho certeza. Por que pergunta?”

“Eu não comprei esses pra ele.”

“Provavelmente estão no nicho errado, então”, ele disse. “As crianças misturam as coisas o tempo todo.”

“Mas por que estariam no nicho de alguém e não, sei lá, nos pés da pessoa?”

Ele deu uma risada leve. “Não saberia te dizer. Mas não se preocupa, tenho certeza que vão voltar pro dono de algum jeito.”

Enquanto ele falava, começou a juntar as coisas dele, arrumando a mochila com uma eficiência de quem já fez isso mil vezes. A mensagem era clara. Era minha deixa pra ir embora. Mesmo assim, fiquei mais um instante.

“Antes de eu ir”, eu disse, apontando pra mesa dele, “o senhor se importa se eu pegar uma pastilha?”

Ele parou. Quando olhou pra mim, deu um sorriso largo — extremamente branco e totalmente sem graça.

“Desculpa”, ele disse. “Acabou.”

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Eu tenho uma vida bem fora do comum

Sabe, eu estou muito doente. Tão doente que meu marido contratou uma equipe inteira pra cuidar de mim e da casa, porque tem tanta coisa que eu simplesmente não consigo mais fazer. Toda manhã, uma das minhas atendentes me acorda e traz o café da manhã. E os remédios. São tantos comprimidos que eu tenho que tomar, mas eles parecem ajudar mesmo. Às vezes consigo me sentar na cama e me alimentar sozinha, embora minhas mãos tremam pra caralho e meus músculos estejam rígidos demais. Outras vezes, a atendente tem que sentar comigo e me dar comida na boca como se eu fosse um bebê. No começo era humilhante, quando eu passei a precisar de tanta ajuda extra, mas me acostumei. Sou grata pelas atendentes e por tudo que elas fazem por mim.

Depois do café, as crianças geralmente vêm me visitar no quarto. Meus anjinhos lindos, todos com aquelas auréolas de cachos dourados e olhos azuis brilhantes. Eles correm pelo quarto, rindo e brincando de pega-pega, pulando na minha cama e saltando pro chão. Eu nunca os repreendo nem mando parar, porque aquece meu coração ver eles se divertindo tanto. Tenho três bebês, e eles vão ser sempre meus bebês, não importa quanto tempo passe. A mais velha, Jocelyn, tem 8 anos. Ela está começando a ficar muito parecida comigo, acho, com o nariz afiado e pontudo e as sobrancelhas delicadas, sempre franzidas em pensamento. As bochechas dela estão perdendo aquela gordurinha de criança e meu coração dói de ver ela crescendo tão rápido.

Simon é o do meio e meu único menino, e que menino ele é. Selvagem, nem aí pras regras que eu e o meu marido tentamos impor tantas vezes ao longo dos anos. Ele tem meus lábios carnudos e cheios, e dá pra ver que quando crescer vai ter a sobrancelha forte e o maxilar do pai, e ele só tem 6 anos. Pra mim ele parece uma escultura grega de mármore, com aquelas linhas duras da estrutura óssea ainda tão suavizadas pelo jeitinho de bebê. Mas até ele já me parece tão crescido agora.

A caçula é Eveline, e ela tem só 3 aninhos. Tem um rostinho doce e querubim, com cílios impossivelmente longos e bochechas rosadas e gorduchas. Ela não corre tão rápido nem pula tão alto quanto os irmãos, mas vai atrás o mais rápido que as perninhas permitem. Ela ainda é a que mais faz carinho em mim, se enroscando nos meus braços quando eu tiro uma soneca antes do almoço. O cheirinho doce do cabelo dela enche meu nariz e me faz dormir tão tranquila.

Quando as crianças não estão rodopiando pelo meu quarto como dervixes, elas costumam sair pra brincar no jardim. Jocelyn e Simon são sempre tão gentis com a Eveline e sempre esperam ela alcançar. Tenho muita sorte de ter uns bebês tão doces que se amam tanto. Antes de ficar doente, eu conseguia ir com eles pro jardim, e às vezes me dá uma tristeza ficar presa aqui dentro, no meu quarto.

Tenho um rodízio de atendentes que ficam comigo todo dia. Faz sentido, né, imagino que todas tenham família pra voltar quando o turno acaba. Meu marido fez questão de eu ter cuidado o tempo todo, então são três atendentes diferentes por dia — uma pro turno da manhã, outra pro da tarde e uma pra noite. Elas me ajudam a tomar banho toda manhã e a me vestir todo dia. Faz muita diferença poder usar roupa limpa e fresca todo dia e não ficar apodrecendo na cama com a mesma camisola por dias seguidos. Tiffany, que é uma das minhas favoritas, penteia meu cabelo longo e faz uma trança francesa linda pra mim. Só vejo ela duas vezes por semana, e as outras atendentes parecem não querer se dar ao trabalho com meu cabelo. Ele fica bem embaraçado até a Tiffany voltar, e ela passa um tempão desembaraçando com paciência e delicadeza. Às vezes ela murmura enquanto penteia e trança: “Senhora Margaret, cadê aqueles bebês lindos seus?” Eu sempre respondo que devem estar em outra parte da casa, talvez brincando com a casinha de bonecas ou espalhados na sala de brinquedos lendo livros. A Tiffany sempre estala a língua e não fala mais nada.

Claro, além das atendentes, tem os médicos. Dr. Philips é um homem alto e magro, cabelo grisalho bem curto, óculos de armação grossa preta que sempre parecem a ponto de escorregar da ponta do nariz comprido. Ele vem me ver todo dia depois do almoço pra me examinar e perguntar como estou me sentindo. Geralmente dou a mesma resposta todo dia. Dra. Wilcox, que me disse que posso chamar ela de Jennifer, é médica dos meus sentimentos. Foi assim que ela explicou quando nos conhecemos. Disse que estar tão doente pode trazer um monte de sentimentos ruins, e que queria que eu me sentisse à vontade pra dividir qualquer coisa que estivesse me incomodando. Ela nunca consegue avançar muito comigo. Sempre fico cansada demais depois de falar com o Dr. Philips pra responder às perguntas dela. Às vezes respondo, e ela me lança um olhar estranho e anota coisas no caderno. Não sei o que ela faz com aquele caderno depois que sai do meu quarto, mas eu gostaria de ler um dia.

Todo mundo que cuida de mim usa uniforme; acho que é obrigatório pela agência que meu marido contratou. A única pessoa que vem me visitar e nunca usa uniforme é minha amiga, Allison. A Allison sempre traz o cachorro dela, Fig, um Golden Retriever enorme e avermelhado. Na primeira vez que conheci a Allison e o Fig, percebi que ela estava um pouco... tensa. Segurava a guia com força na mão, embora a guia estivesse frouxa. Mas eu reparo nessas coisas. Ela murmurou algo pra uma das minhas atendentes enquanto o Fig se aproximava de mim na cadeira. O cachorro veio direto, colocou a cabeça enorme e quadrada no meu colo, olhando pra mim com aqueles olhos castanhos macios. Levantei a mão, fiz carinho na cabeça dele, cocei atrás das orelhas, e ele fechou os olhos e deixou o peso todo da cabeça no meu colo. Vi o punho da Allison relaxar na guia, e ouvi ela falar baixinho pra atendente: “O Figgy é um ótimo juiz de caráter.” O atendente deu de ombros e virou o rosto, quase irritado.

Depois daquele primeiro encontro, a Allison traz o Fig pra me visitar toda semana. Se eu estiver na cama, o Fig pula e deita do meu lado, me aquecendo com o pelo sedoso avermelhado. A Allison sempre puxa uma cadeira e senta perto de mim, faz conversa fiada sobre o tempo ou conta alguma história engraçada do que o Figgy aprontou desde a última vez. Às vezes a Allison pega minha mão e me dá um olhar cúmplice. Uma vez ela perguntou por que eu estava doente, e eu disse que era melhor pra nós duas se ela não soubesse. Mas isso não a espantou. Um dia, aquele mesmo atendente que estava lá no primeiro encontro com a Allison e o Fig puxou uma cadeira mais perto de mim e da Allison do que o normal, abriu um jornal e começou a ler. A manchete grande na capa dizia: “Pai de crianças desaparecidas há 3 anos pede que sejam declaradas oficialmente mortas”. Uma história triste, sem dúvida. Uma foto do pai com as crianças, todos sorrindo pra câmera, ocupava quase toda a primeira página.

Meu marido viaja tanto a trabalho que quase nunca consegue me visitar. Quando vem, geralmente se reúne com meus médicos e eles conversam em voz baixa. Eu pego pedaços: “Nenhum progresso... nenhuma nova informação... medicação diferente...” Meu marido tem controle sobre meu tratamento porque a doença muitas vezes me deixa tão cansada e confusa que não consigo consentir com mudanças. Ele aprendeu a só me visitar antes das 17h, porque já teve visita demais depois do jantar em que ele entrou no meu quarto e algo horrível tomou conta de mim e eu o ataquei. Saí da cama ou da cadeira de rodas com as mãos esticadas, tentando arrancar a garganta e os olhos dele enquanto a atendente corria pra me conter. Sempre que isso aconteceu, meu marido se recusa a me olhar nos olhos, com medo de encarar o verdadeiro motivo pelo qual eu quero matá-lo — um motivo que só ele e eu saberemos para sempre.

É que os remédios da manhã começam a fazer menos efeito depois do jantar, e eu só posso tomar a dose da noite às 19h. Conforme a tarde vira noite, sinto os sintomas voltando. Minha visão, borrada e desfocada o dia todo, fica nítida. A luz dourada que banha tudo escurece e vira um azul frio, jogando tudo em relevo duro e deixando o ambiente hostil e clínico. Minha cabeça, tão enevoada e lenta o dia inteiro, começa a clarear, e as memórias voltam. Vejo as atendentes como elas realmente são: funcionárias que cuidam de mim com relutância, não com dedicação e carinho.

O pior, porém, são as crianças. Quando vêm me visitar depois do jantar, elas não parecem mais felizes, angelicais, cheias de vida e risada. Não parecem mais como eu quero lembrar delas. Em vez disso, parecem como sou obrigada a lembrar. A Jocelyn tem metade do couro cabeludo arrancado do crânio e falta o olho esquerdo. Sangue mancha o nariz e a boca, e tem hematomas roxos grossos no pescoço. A cabeça pende num ângulo estranho, e as pernas só arrastam o corpo pra frente porque as fraturas expostas têm pedaços de osso perfurando a pele. Todo o lado esquerdo da cabeça do Simon está completamente afundado, e ele cospe bolhas de sangue enquanto tenta puxar ar em respirações rasgadas. A caixa torácica está esmagada e estilhaçada, os pulmões batendo inutilmente contra a parede do peito. E a Eveline... minha pobre e doce menininha, nova demais pra entender o que estava acontecendo. Os olhos estão pretos, cheios de sangue morto. A língua está enorme e roxa, saindo da boca. Ela também tem hematomas grossos no pescoço, embora mal dê pra notar porque agora ela carrega a cabeça nas mãozinhas — arrancada completamente dos ombros. Todos vêm até mim e me encaram, chorando: “Por quê, mamãe?” No começo isso me enlouquecia, e na maioria das vezes quando apareciam pra me assombrar eu arranhava os braços com tanta força enquanto gritava de angústia que acabava amarrada na cama com restrições acolchoadas enquanto uma enfermeira aplicava uma injeção pra me fazer dormir. Agora só choro em silêncio. Não desvio o olhar, porque meus bebês merecem ser vistos, mas meu coração se despedaça em milhões de pedaços toda noite quando eles vêm me lembrar do que eu fiz.

Um caminhoneiro me encontrou na beira da estrada há três anos, coberta de sangue — parte meu, parte não. No pronto-socorro tentaram me fazer contar o que tinha acontecido, mas eu não conseguia. Só gritava enquanto via meus bebês do jeito que os deixei antes de fugir pro mato. Acho que queria me perder e morrer de frio lá, mas em vez disso saí cambaleando na pista e quase fui atropelada por um caminhão. Morrer assim teria sido melhor do que eu merecia. Quando a polícia chegou pra me interrogar, os funcionários do hospital ficaram confusos. Aí o detetive explicou. Meu marido tinha registrado o desaparecimento das crianças e o meu naquela manhã, depois de acordar e encontrar a casa vazia. Contou à polícia que eu não andava bem ultimamente, que não estava tomando os remédios, e que temia que eu tivesse machucado as crianças. A polícia já sabia disso quando me viu na maca, coberta do sangue deles. E eu não conseguia falar pra contar o que realmente aconteceu. Por fim me sedaram pra parar os gritos, e quando acordei estava algemada na grade da cama com um policial me encarando do canto do quarto.

Me levaram a julgamento, mas fui considerada inapta pra responder pelo crime. O psicólogo do estado que me avaliou concluiu que eu tinha entrado em estado catatônico e que, naquele torpor, eu era incapaz de compreender as acusações. E foi assim que vim parar aqui no Willow Grove, o hospital psiquiátrico forense de segurança máxima do estado. Presa junto com outros considerados inaptos pra julgamento, como eu, ou os que foram declarados não responsáveis criminalmente — o termo técnico pra não culpado por insanidade. E aqui fiquei esses últimos 3 anos, sob uma névoa constante de antipsicóticos e benzodiazepínicos, incapaz de contar a ninguém o que realmente aconteceu naquela noite em que me encontraram. Incapaz de contar o verdadeiro motivo de ter atacado meu marido tantas vezes, o motivo que só ele e eu saberemos para sempre.

Porque não fui eu que machuquei meus bebês preciosos naquela noite no mato.

Eu monitoro câmeras de segurança pra viver. Uma delas tá me mostrando agora mesmo

Trabalho pra uma empresa de monitoramento de segurança. A gente vigia os feeds de pequenos negócios. Postos de gasolina, depósitos, estacionamentos cobertos. Lugares muito pão-duros pra contratar seguranças de verdade.

Meu trampo é ficar sentado numa sala sem janela olhando pra doze monitores. Cada monitor vai rodando os feeds de clientes diferentes. Se eu vejo algo que merece ser reportado — roubo, vandalismo ou alguém desmaiado no banheiro —, corto o vídeo e mando pro cliente. Do contrário, só fico olhando.

Pego o turno da madrugada, das 23h às 7h. Quatro noites por semana. O salário é uma merda, mas dá pra fazer lição de casa entre os incidentes e ninguém me enche o saco.

No mês passado comecei a ver coisas nos feeds que não faziam sentido nenhum.

Coisas pequenas no começo. Uma câmera dava um glitch, mostrava estática por uns segundos e voltava. Ou o timestamp pulava pra frente, perdia uns minutos como se tivesse um buraco na gravação. Comentei com minha supervisora e ela disse que o sistema era velho, provavelmente HDs corrompidos. Mandou eu registrar os glitches e continuar trabalhando.

Os glitches pioraram.

As câmeras cortavam pra feeds que não estavam na rotação. Eu tava vendo o estacionamento quando a tela piscava e de repente eu tava olhando pra outro lugar. Corredores vazios. Escadas. Salas que eu não reconhecia. Depois piscava de novo e voltava pro feed normal.

Comecei a anotar todas as anomalias. Horários, locais, duração. Em duas semanas eu tinha trinta e sete incidentes. Nenhum padrão que eu conseguisse enxergar. Câmeras diferentes, horários diferentes, sempre rápidos. Nunca mais de dez segundos.

Aí eu me vi.

Era 3h47 de uma terça-feira. Eu tava vendo o feed de uma lavanderia 24 horas. A câmera aponta pra porta da frente e pra fileira de máquinas de lavar junto à vitrine.

A tela piscou. A imagem mudou.

Eu tava olhando pra uma cozinha. Pequena, antiquada. Piso de linóleo, armários brancos, luminária fluorescente. Uma mulher estava de costas pro balcão, despejando algo de uma panela num pote.

A mulher se virou.

Era eu.

Mesmo rosto. Mesmo cabelo. Mesma cicatriz na sobrancelha esquerda de quando bati a cabeça num balanço na terceira série. Ela olhou direto pra câmera por uns dois segundos, depois o feed voltou pra lavanderia.

Fiquei ali parado, olhando pro monitor. Minhas mãos tremiam.

Voltei o vídeo. Assisti de novo. Com certeza era eu. Com certeza uma cozinha que eu nunca tinha visto. O timestamp marcava 3h47, igual ao horário atual, mas a data estava errada. Mostrava uma data três dias no futuro.

Cortei o vídeo e salvei no meu drive pessoal.

Não contei pra supervisora. Fui pra casa quando o turno acabou e tentei dormir, mas ficava vendo aquela cozinha. Os armários brancos. A luz fluorescente. Eu nunca tinha estado naquela sala. Tinha certeza.

Mas a pessoa no vídeo era eu.

Na noite seguinte vigiei os monitores com mais atenção. Peguei um caderno e anotei toda vez que um feed deu glitch. A maioria era igual aos anteriores. Lugares aleatórios, flashes rápidos, nada identificável.

Às 2h18 vi a cozinha de novo.

Mesma sala. Mesmo ângulo de câmera. Dessa vez a cozinha estava vazia. Só o balcão, os armários, a luz. O vídeo rodou por seis segundos e cortou de volta pro posto de gasolina que eu devia estar vigiando.

Confiri o timestamp. Horário atual, mas data dois dias no futuro.

Comecei a puxar vídeos antigos do arquivo. A empresa guarda tudo por noventa dias antes de apagar. Voltei seis semanas de gravações da madrugada, procurando anomalias nos meus turnos.

Me encontrei em quarenta e três clipes.

Lugares diferentes. Roupas diferentes. Mas sempre eu, sempre com timestamp que não batia. Alguns no futuro. Alguns no passado. Uns poucos com datas que ainda não tinham chegado.

Num clipe eu caminhava por um corredor de concreto. Paredes institucionais, blocos pintados, portas pesadas com janelas de tela metálica. Eu usava jaleco hospitalar. Nunca tive jaleco. O timestamp dizia que tinha sido gravado oito meses atrás.

Em outro eu estava sentada num carro. Noite. Estacionado num lugar escuro. Eu estava chorando. Esse clipe era datado cinco dias a partir de agora.

Fiz cópias de tudo e tentei achar padrões. Horários do dia. Locais. O que eu estava vestindo ou fazendo. Nada se conectava. Os clipes pareciam aleatórios, espalhados por meses, me mostrando em lugares que eu nunca estive fazendo coisas que eu não conseguia explicar.

Aí encontrei o mais longo.

Dezoito minutos de vídeo de uma câmera que eu não conseguia identificar. Mostrava um quarto pequeno. Cama de solteiro, cômoda, uma janela com persiana. O timestamp dizia que tinha sido gravado três semanas atrás, às 4h33.

Eu estava dormindo na cama.

A câmera estava posicionada no alto, provavelmente fixada num canto perto do teto. Tinha visão clara de todo o quarto. Fiquei olhando eu mesma dormir por dezoito minutos. Não me mexi muito. De vez em quando mudava de posição. Em certo momento rolei e o cobertor escorregou.

Aos dezesseis minutos, eu me sentei.

Não como se estivesse acordando. Mais como se algo tivesse me puxado pra cima. Meus olhos estavam abertos, mas eu não olhava pra nada. Saí da cama, fui até a cômoda, abri a gaveta de cima. Tirei algo. Não dava pra ver o quê. Depois saí do quadro.

O vídeo continuou por mais dois minutos. Quarto vazio. Cama desarrumada. Depois cortou.

Eu não reconhecia o quarto. Não era meu apartamento. Não era lugar nenhum onde eu tinha ficado. Mas com certeza era eu na cama.

Comecei a carregar o celular pra todo lado, gravando tudo. Se eu estivesse sonâmbula ou tendo estados de fuga, talvez eu me pegasse fazendo algo que não lembrava.

Gravei oito horas por dia durante uma semana. Toda noite antes de dormir, toda manhã ao acordar. Gravei o turno inteiro no trabalho, o trajeto, o tempo em casa.

Nada fora do comum. Eu estava exatamente onde achava que estava, fazendo exatamente o que lembrava de ter feito.

Mas os clipes continuavam aparecendo nos feeds de segurança.

Vi eu mesma num estacionamento discutindo com alguém que eu não conhecia. Vi eu mesma num prédio comercial, passando por baias às 2h da manhã. Vi eu mesma parada num campo vazio ao anoitecer, só parada ali, sem me mexer.

Os timestamps estavam chegando mais perto do presente.

Tentei achar os locais. O estacionamento parecia genérico, mas rodei a cidade inteira conferindo todas as garagens que encontrei. Nada batia. O prédio comercial não tinha nada que identificasse. O campo podia ser qualquer lugar.

Pensei em ir à polícia, mas o que eu ia dizer? Que estava me vendo em câmeras de segurança que eu não tinha acesso, em lugares que nunca estive, em horários que não batiam com a realidade?

Semana passada me vi no meu próprio apartamento.

O feed deu glitch à 1h23. Quando voltou, eu estava olhando pra minha sala. Mesmo sofá, mesma estante, mesma TV. O ângulo era do canto perto do teto, igual à câmera do quarto que eu não reconhecia.

Eu estava sentada no sofá. Só sentada ali, olhando pra parede.

Levantei da minha mesa no trabalho e olhei em volta. Estava sozinha na sala de monitoramento. A porta fechada. Olhei de novo pro monitor.

Na tela, eu me levantei do sofá no meu apartamento. Fui até a janela e olhei pra fora. Depois me virei e olhei direto pra câmera.

Meu celular estava no bolso. Tirei, abri o app da câmera, troquei pra visão frontal.

Eu estava no trabalho. Luzes fluorescentes. Paredes cinzas. Monitores atrás de mim mostrando os feeds.

Na tela, vi eu mesma no apartamento sair do quadro.

O feed ficou mais dez segundos e depois cortou de volta pro depósito.

Fui pra casa quando o turno acabou. Revirei cada canto do apartamento. Cantos, teto, atrás dos móveis. Procurando câmeras. Algo tinha que estar me gravando.

Não achei nada.

Mas comecei a reparar em coisas que estavam levemente erradas.

Objetos mudados de lugar. Não muito longe. Uma xícara no balcão seis centímetros pro lado. Minhas chaves na mesinha de centro em vez do gancho na porta. Livros na estante em ordem diferente.

Coisas pequenas. Fáceis de achar que era falha de memória.

Só que comecei a testar. Antes de ir pro trabalho, arrumava objetos em padrões específicos. Três canetas na mesa formando triângulo. Quatro livros empilhados com a lombada pra fora. Quando voltava, os padrões estavam diferentes.

Alguém entrava no meu apartamento enquanto eu não estava.

Ou eu entrava no meu apartamento e não lembrava.

Configurei o notebook pra gravar enquanto eu estava no trabalho. Apontei pra sala, deixei rodando a noite toda. Quando cheguei em casa na manhã seguinte, conferi o vídeo.

Sete horas de uma sala vazia. Ninguém entrou. Ninguém mexeu em nada. Mas quando olhei pra mesinha de centro, o controle remoto estava do lado errado.

Tentei pensar racionalmente. Talvez eu estivesse mexendo nas coisas e não lembrando. Estresse, falta de sono, algum estado dissociativo. Marquei consulta com médico.

Mas os vídeos do trabalho continuavam piorando.

Vi eu mesma numa cabine de banheiro, sentada no chão. Vi eu mesma num porão com canos expostos e paredes de concreto. Vi eu mesma no porta-malas de um carro, encolhida, olhos abertos, sem me mexer.

Esse clipe era datado amanhã.

Ontem à noite vi eu mesma morrer.

O feed deu glitch às 4h52. Eu estava olhando pra uma sala que não reconhecia. Piso de azulejo, pia industrial, mesa de metal. Eu estava deitada na mesa. Sem me mexer. Olhos fechados.

Alguém entrou no quadro. Não dava pra ver o rosto. Usava luvas. Ficou parado em cima de mim por um tempo, só olhando. Depois pegou meu pulso, checou a pulsação.

Deixou meu braço cair e saiu do quadro.

O vídeo rodou mais três minutos. Só eu na mesa. Sem respirar. Depois cortou de volta pro feed normal.

O timestamp dizia que tinha sido gravado seis horas a partir daquele momento.

Liguei dizendo que estava doente. Falei pra supervisora que era intoxicação alimentar. Fui pra casa e tranquei todas as portas, conferi todas as janelas. Estou sentado na minha cozinha com todas as luzes acesas.

São 10h47 da manhã.

Em seis horas eu devo estar morta numa sala que nunca vi.

Mas é o seguinte que não sai da minha cabeça.

Puxei todos os clipes que salvei. Passei frame por frame. Procurando qualquer coisa que me dissesse de onde essas gravações estavam vindo.

No clipe de mim dormindo, aquele de dezoito minutos, tem um momento bem no final. Logo antes de cortar. A câmera se mexe. Só um pouquinho. Como se alguém tivesse ajustado.

E no canto inferior do quadro, por talvez meio segundo, dá pra ver um reflexo na janela.

Alguém parado no quarto. Me observando dormir.

A resolução é baixa demais pra ver detalhes. Mas dá pra ver o contorno. A forma.

Sou eu.

Sou eu que estou segurando a câmera.

Tenho que ir pro trabalho hoje à noite. Meu turno começa às 23h. Pensei em não ir, mas se eu já estiver morta até lá, que diferença faz?

E talvez quando eu chegar lá, finalmente veja de onde todos esses feeds estão vindo. Talvez eu encontre a fonte.

Ou talvez eu só assista acontecer.

Tenho ficado olhando os monitores pelo celular. O app da empresa deixa ver os feeds remotamente. Fico atualizando de poucos em poucos minutos.

Dez minutos atrás apareceu um clipe novo.

Estou na minha cozinha. Agora mesmo. Sentado à mesa com o notebook.

O ângulo da câmera é de trás de mim, por cima do ombro direito. Dá pra ver a tela. Dá pra ver o que estou digitando.

Olhei em volta na cozinha. Não tem nada atrás de mim além da parede.

Mas no celular, consigo me ver sentado aqui. Consigo ver a parte de trás da minha cabeça. Consigo ver minhas mãos no teclado.

O timestamp diz que está sendo gravado agora. Feed ao vivo.

Vou me levantar. Vou me virar.

Se tiver uma câmera, vou achar.

Se não tiver, então eu não sei o que estou olhando.

Acabei de me levantar e me virar.

Não tem nada aqui.

Mas no celular, ainda consigo me ver. Ainda sentado à mesa. Ainda digitando.

A pessoa na tela não se mexeu.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Há uma Sombra no Meu Quintal, e Ela Está Aprendendo a Ser Eu

Era 1h47 da manhã quando eu acordei de sobressalto. Achei estranho — eu quase nunca acordo no meio da noite. Normalmente durmo direto até o dia clarear, mas ali estava eu, de boca seca, encarando o reloginho digital. A Lucy não estava do meu lado na cama. Por um segundo nem lembrei onde ela estava, depois caiu a ficha: ela estava no plantão noturno do hospital.

Meio zonzo, saí rastejando da cama e desci pra cozinha pegar uma água.

A casa ficava vazia e silenciosa à noite, igual o bairro todo. Eu amava essa casa: tranquila, bem localizada, a poucos minutos do centro. Os vizinhos eram gente boa também — mesmo com as casas e os quintais colados uns nos outros, nunca rolava briga. Eu estava ali na cozinha, inclusive pensando em marcar um churrasco com a galera. Bebi um gole d’água — e foi aí que eu vi.

Uma silhueta preta. Mal dava pra enxergar na escuridão da noite, mas se destacava mesmo assim. Lá no fundo do quintal, perto da cerca. Uma forma humana: alta, magra, o contorno quase imperceptível. E ela só ficava lá parada, sem se mexer, olhando pra dentro pela porta de vidro da varanda.

Um arrepio desceu pela espinha. Que porra era aquela parada no meu quintal, me encarando daquele jeito? Por um momento nem ousei me mexer. A figura também não. Parecia que nem respirava. Só ficava olhando pra dentro — olhando direto pra mim. Senti que se eu não fizesse nada agora, ela ia dar o primeiro passo.

Não demorou muito pra o pânico virar raiva. Peguei a lanterna que eu guardava numa gaveta da cozinha e saí feito um louco pra varanda. Abri a porta de vidro com tudo, apontei o facho pra figura — e achei que tinha enlouquecido.

Porque não tinha ninguém lá.

Não tinha ninguém. Varri o quintal inteiro com a lanterna. Não era um quintal grande — a Lucy e as crianças mantinham tudo arrumadinho —, então nem dava pra dizer que alguém podia estar escondido atrás de um arbusto ou no mato alto. Não sabia o que pensar. Dei de ombros, culpando os olhos cansados e o fato de ter acordado no susto no meio da madruga. Devia estar só exausto mesmo.

Voltei pra dentro, pra cozinha, pra terminar o copo d’água pela metade. Mas mal cheguei no balcão, vi de novo. Pelo canto do olho, uma figura preta alta — o contorno inconfundível. Lá no quintal, exatamente como antes, olhando pra dentro.

Engoli em seco. Não ousei gritar; o Francis e o Tommy estavam dormindo lá em cima, e o bairro inteiro em silêncio absoluto. Fiquei com os olhos cravados na figura parada. Dessa vez decidi que ia sair de novo — mas ia correr atrás, quem quer que fosse. Não ia deixar alguém me aterrorizar dentro da minha própria casa.

Voltei pisando forte pra porta da varanda, sem tirar os olhos da figura lá fora. Já estava quase na porta quando percebi uma coisa estranha. A figura não estava só parada. As pernas dela se mexiam exatamente como as minhas. No começo achei que era coincidência… mas quando parei, ela parou também. Perfeitamente sincronizado.

Como se eu estivesse olhando pro meu próprio reflexo — só que do lado de fora, no escuro.

Entrei em pânico. Andei de um lado pro outro na cozinha. Lá fora, a figura fez o mesmo. Dava o passo igual ao meu. No começo realmente pensei que fosse algum tipo de reflexo, mas tinha algo errado nos passos dela. Como se estivesse só agora aprendendo a andar — às vezes desajeitada, às vezes sem saber onde colocar o pé. Que caralho era aquela coisa no meu quintal? Por que estava me imitando — e, mais importante, o que ela queria?

Não sabia o que fazer. A única ideia que tive foi apontar a lanterna de novo. Mas no instante em que acendi o facho de dentro da cozinha, não tinha nada. Só o reflexo da janela voltando pra mim. O quintal estava vazio outra vez.

Apaguei a lanterna, e a figura sumiu. Desapareceu. Nem uma silhueta no fundo do quintal. Era como se tivesse se dissolvido na escuridão.

Fiquei ali parado uns minutos, apavorado achando que não tinha ido embora de verdade — só se escondido em algum lugar que eu não via. Devo ter ficado uns meia hora ali, olhando pela janela da cozinha. Procurei em tudo, mas a figura não aparecia mais.

Como era quinta-feira de madrugada e eu tinha que trabalhar no dia seguinte, acabei subindo de novo. Conferi os meninos: os dois dormindo pesado. Da janela do quarto fiquei de olho no quintal mais um tempo, mas a figura não voltou. No fim, peguei no sono — embora cada nervo do meu corpo tivesse pavor de acordar e dar de cara com ela de novo.

O dia inteiro, a noite anterior ficava voltando na minha cabeça. Por que eu tinha acordado tão no susto? Quem — ou o quê — tinha estado no meu quintal? Contei pra Lucy à tarde, mas ela achou que eu estava zoando. Insistiu que eu devia estar cansado, talvez fosse algum tipo de paralisia do sono. Mas no fundo eu sabia que era outra coisa.

A noite chegou de novo. A Lucy tinha que acordar cedo no dia seguinte, então já tinha deitado. Eu não conseguia descansar. As crianças dormiam, e eu fiquei na cozinha, só vigiando. Lá pela meia-noite e meia, acabei cochilando no sofá. Acordei todo duro e dolorido. A casa estava escura, iluminada só pelo brilho da televisão. Meio grogue, levantei e fui pra cozinha pegar água. Foi aí que lembrei por que tinha ficado acordado até tão tarde.

Ela estava lá de novo. No quintal. A sombra preta em forma de gente. Observando.

Desconfiado, fiquei encarando de volta. Cheguei mais perto da janela, tentando distinguir o que era. Mas ela não se mexia — só ficava lá, alta e magra, uma silhueta preta.

Aí me veio uma ideia. Corri pegar o celular no sofá e voltei voando pra cozinha.

Tirei uma foto, mas na escuridão da noite quase não apareceu nada. Talvez tivesse uma figura na tela… ou talvez fosse só algum borrão da foto granulada.

Mas enquanto eu levantava o celular e tirava fotos da sombra, ela começou a me copiar. Desajeitada, como se não tivesse dedos de verdade. Ergueu o braço, mas o pulso dobrou errado, os dedos mais parecendo varas longas e quebradiças. Fingiu tirar foto também, embora a mão se mexesse de um jeito que parecia que ia partir ao meio.

Fiquei olhando pela janela da cozinha outra vez, os nervos à flor da pele. A figura preta não se mexia — só ficava vigiando as janelas da casa. Aí, de repente, começou a se mexer. Mas dessa vez não estava me imitando. Se mexia como se estivesse procurando alguém, olhando em volta com aqueles movimentos bruscos e desajeitados. Que porra ela estava fazendo? Depois, do nada, congelou de novo.

“Gordon, o que você tá fazendo?” a voz da Lucy sussurrou atrás de mim.

Quase tive um treco. Nem tinha percebido ela chegando. Estava totalmente absorto, perdido olhando pra figura no quintal.

“O quê?” gaguejei, assustado.

“O que você tá fazendo, Gordon?” ela chiou irritada. “São três da manhã e você tá aqui parado, olhando pela janela da cozinha. Que porra é essa?”

“Vem ver!” falei rápido, quase animado.

A Lucy veio pro meu lado. Ela ia pegar café mesmo, mas pelo menos olhou pela janela pro escuro.

No começo só revirou os olhos. Mas no instante em que viu, o sangue sumiu do rosto dela. Deu um passo pra trás, como se o vidro não protegesse mais da noite. Dava pra ver que ela tinha visto também. A figura no nosso quintal assustava ela tanto quanto me assustava.

“Que porra é essa, Gordon?” ela sussurrou, o pânico já na voz.

Só balancei a cabeça. Não sabia o que a gente estava olhando. Era humano sequer? Ou era algo completamente diferente — algo que não era desse mundo?

“Gordon, liga pra polícia,” a Lucy disse, branca que nem fantasma.

“E o que eu vou falar pra eles, Lucy?” retruquei nervoso. “Que tem uma sombra no meu quintal?”

Ela me fuzilou com os olhos, já puta da vida. Eu conhecia aquele olhar — se eu insistisse mais, ela ia ficar bem mais assustadora que a coisa parada lá fora.

Foi a Lucy quem acabou ligando pra polícia. Não me deu muito tempo pra reagir, mas eu entendi — ela estava nervosa e com medo.

Enquanto isso, eu não tirei os olhos da figura enquanto a Lucy falava no telefone. A sombra preta não se mexia. Ou melhor, só copiava a Lucy enquanto ela falava. Enquanto eu observava, percebi que estava ficando melhor — imitava os gestos dela com mais fluidez, quase natural.

“Daqui a pouco eles chegam. O que essa coisa tá fazendo?” a Lucy sussurrou, chegando do meu lado de novo.

“Está te copiando,” falei seco. “Enquanto você estava no telefone. Agora só tá olhando.”

“Essa coisa me dá um arrepio do caralho, Gordon,” a Lucy disse, apertando meu braço. “Me sinto tão insegura, e tô com medo pelas crianças.”

“Os meninos estão bem,” respondi calmo. “Já conferi eles.”

Não saímos da janela da cozinha. Ficamos só ali parados, olhando pra fora, até a Lucy finalmente ver o flash das luzes da viatura na frente da casa.

Chegaram dois policiais. A Lucy subiu pros meninos, e eu só tirei os olhos da sombra o tempo suficiente pra abrir a porta pra eles. Mas quando voltamos pra cozinha, ela tinha sumido. O quintal estava escuro e vazio.

Os policiais revistaram o quintal inteiro, até deram uma olhada rápida dentro de casa, mas não acharam nada. Não contamos exatamente o que tínhamos visto — pra falar a verdade, a gente mesmo não sabia. Só falei que alguém tinha ficado parado no quintal, e a gente não fazia ideia de quem era.

O lance da polícia não deu em nada.

A Lucy acabou indo pro trabalho. Consegui dormir um pouco depois que os policiais foram embora. Eles prometeram patrulhar o bairro e dar uma passada na nossa casa de vez em quando.

A figura preta não voltou. Mas demorei muito pra pegar no sono de novo — tinha sido a segunda vez que eu via ela, e a segunda vez que simplesmente desaparecia.

Minha sexta passou rápido. Levei as crianças pra escola, e como era sexta, tive só meio período no escritório. Mas quando cheguei em casa, levei um susto: a Lucy estava na sala, com todas as nossas coisas já arrumadas pras quatro pessoas.

Ela disse que não ficava mais ali. Que a gente devia ir tudo pra casa dos pais dela. Mas eu não queria sair da nossa casa. Era nossa, o nosso lar. Não ia jogar tudo fora por causa de uma sombra — eu era feito de material mais forte que isso. Discutimos um tempo, e no fim ela e as crianças foram pros pais dela pro fim de semana, enquanto eu fiquei pra resolver essa parada da sombra de uma vez por todas.

A primeira coisa que fiz foi comprar uma câmera. Instalei uma câmera com visão noturna do lado de fora, apontada direto pro lugar onde a sombra costumava aparecer. O segundo passo foi comprar uma pistola de gás. Tinha certeza que naquela noite ia acabar com essa palhaçada de susto.

À noite, me tranquei no quarto. Fiquei olhando o feed da câmera do quintal no notebook, rodando na base da cafeína pra garantir que não ia dormir até a sombra finalmente aparecer.

Devo ter cochilado. Quando acordei, já tinha passado da meia-noite faz tempo. O notebook tinha travado a tela. Em pânico, destravei e abri a câmera do quintal.

O vídeo não mostrava nada. O quintal estava completamente vazio. Mas quando aumentei o volume pra ouvir o áudio, peguei algo.

“Foi vista aqui ontem também?” perguntou uma voz de homem.

Depois veio só um barulho confuso, como alguém tentando falar mas sem conseguir formar as palavras.

Eu sabia que era a sombra. Peguei a pistola e, feito quem não conhece medo, desci pisando forte pra cozinha.

Ela estava lá de novo, parada no quintal. O negócio todo era desconcertante: na câmera, nada aparecia — mas pessoalmente, lá estava ela. Abri a porta da varanda com força e apontei a pistola de gás pra sombra.

“Sai daqui, seu filho da puta!” gritei.

Ela não se mexeu. Em vez disso, com gestos estranhos, tortos e lentos, imitou apontar algo pra mim — embora as mãos estivessem vazias.

Na minha fúria, apertei o gatilho. A pistola deu um estalo alto, e o tiro acertou a cerca do quintal. Passou direto pela figura como se ela fosse mesmo só sombra.

Fiquei de boca aberta. Como eu podia ter achado que uma pistola de gás ia parar essa coisa? Quando abaixei a arma, ela abaixou as mãos também. Fiquei só ali na porta da varanda, encarando no escuro a silhueta preta alta que nunca dava pra ver direito.

“Que porra você é?” sussurrei, quase só pra mim mesmo.

“Gordon, o que você tá fazendo?” falou a voz da Lucy.

Mas a Lucy não estava lá. Ela não tinha voltado pra me checar. A voz veio de fora — do quintal, onde a figura estava.

Fiquei todo arrepiado, as pernas tremendo.

“Senhor, infelizmente não encontramos nada.” Veio outra voz em seguida, dessa vez de homem. Era a voz do policial da noite passada.

Um gelo correu nas minhas veias. Que caralho era essa coisa no meu quintal? A gente morava ali fazia sete anos — por que agora? Por que aqui?

E foi nesse momento que minha coragem acabou de vez.

“O que eu devo falar pra eles, Lucy?” veio a minha própria voz do quintal.

E no instante em que falou essas palavras, a sombra disparou — direto pra cima de mim. Correu como um atleta profissional.

Apavorado, entrei correndo na cozinha, peguei a chave do carro no criado-mudo e saí voando pela porta da frente. Atrás de mim ouvi passos pesados se aproximando, e sem parar, a minha própria voz repetindo:

“O que eu devo falar pra eles, Lucy?”

Saí de casa direto pro carro. Pulei dentro, tremendo todo pra encaixar a chave na ignição. E aí eu vi: uma figura preta parada na porta aberta da casa. Tão alta que quase encostava no batente de cima.

Ela não veio atrás. Só ficou lá, olhando. Enquanto eu saía de ré com o carro, peguei um último vislumbre dela no retrovisor — erguendo a mão pra dar tchau. Primeiro rígido e travado, como se não soubesse mexer os braços direito… depois de repente fluido, como o aceno de um velho amigo.
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